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Ady Sa Teles.pdf - UEFS

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Academic year: 2023

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S223r Rotas do Sertão: Patativa do Assaré e Euclides da Cunha entre identidade e representação / Ady Sá Teles Santana. Este estudo pretende analisar as representações do sertão e da identidade sertaneja nas obras de Patativo do Assaré e Euclides da Cunha, e traçar o perfil literário e biográfico de ambos os autores numa perspectiva intercultural e intersubjetiva.

Olhares sobre o sertão: uma perspectiva mitopoética

Dialogismo temático: o mito do sertão

Patativa do Assaré é representativa de uma arte literária que faz parte do modo simples de viver e de ser. A seguir, serão apresentadas as relações e sobreposições existentes na vida e obra de Euclides e Patativa para melhor compreensão do que se propõe nesta discussão.

Patativa e Euclides: um embate literário

Euclides da Cunha, assim como Patativa do Assaré, sentiu necessidade de conhecer as obras de outros escritores para produzir a sua própria. É, portanto, na relação entre o pensamento de Patativa do Assaré e o de Euclides da Cunha que se constituem a tradição e o talento individual, como afirma T.

Sertão minha terra amada: o discurso ideológico de Patativa do Assaré

É na representação de um “mundo sertanejo” que Patativa constrói seu discurso com uma ideologia baseada em seu conhecimento de mundo. Segundo o depoimento, o imaginário sertanejo, construído a partir do discurso patativano, configura-se pela idealização de um mundo simplificado pela beleza e exuberância proporcionadas pela natureza sertaneja.

Ser(TÃO) sertanejo

A cultura sertaneja inclui de forma atrativa brasileiros e estrangeiros que conhecem as tradições, os costumes, as festas típicas da região (como o São João e outras festas tradicionais); assim também suas histórias contadas e cantadas pelos cantores impressionam e envolvem tanto que muitos escritores renomados utilizam essas histórias em obras literárias, como Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna e o próprio Euclides da Cunha, entre outros. versos sertanejos para ilustrar essa cultura em suas criações artísticas. Embora seja um poeta cuja literatura é considerada popular, Patativa do Assaré está no mesmo nível de José de Alencar e Euclides da Cunha. Euclides da Cunha teve a oportunidade de frequentar o colégio militar, o que permitiu seu primeiro contato com as ciências exatas e naturais, o que possibilitou sua formação como engenheiro civil e seu crescente interesse pelo conhecimento científico.

Em sua época, Patativa do Assaré via no sertão a possibilidade e a inspiração necessária para “torná-lo” poético, Euclides da Cunha o via como um lugar a ser estudado, conhecido e explorado; em sua opinião, progresso e ciência eram fatores indissociáveis, mas ele acreditava que a natureza sofria com esse crescimento científico. Considerando o foco da questão: representações do sertão e do sertanejo sob o ponto de vista desses autores e seus envolvimentos biográficos, que sustentam a compreensão do pensamento de Patativa e a forma como o poeta transforma seu pensamento sobre o tema tratado conforme a obra de Euclides da Cunha.

Uma odisséia cultural

Desmistificando a cultura popular

O autor não se depara com a linguagem, mas com uma interação de línguas e costumes, com o que se pode chamar de interlíngua. A identidade é aqui definida pela sua característica, que é “ser poeta”, inserida no locus enunciativo “roça”; e é neste contexto que o homem consegue ver-se como sujeito de um processo histórico num determinado lugar. No momento, pode-se dizer que a poesia de Patativa do Assaré é um reflexo de seu pensamento e de sua ação como sujeito histórico que contribui para a formação de uma identidade coletiva e local, decorrente da “persona” que em uma existe individualidade. , inserido em um contexto específico.

Patativa do Assaré tece um fio de memória que se confunde com o fio de sua vida. Além disso, Patativa do Assaré vê o sertanejo em seu universo como um lugar atrativo e bizarro, que se constitui para ele como um lugar de identidade, onde o sertanejo é percebido como protagonista de uma história de vida centrada em seu “habitat”. A existência é o resultado da união de um ser e aquilo que caracteriza esse ser, ou seja, a natureza e a condição de vida são elementos constitutivos de um único aspecto.

A famosa frase já citada por Euclides da Cunha traz a reivindicação de uma imagem heroica do homem sertanejo. A ideia de uma comunidade socialista, que não cabia nem na monarquia nem na república, é representativa de um pensamento cuja intenção se encontra na defesa de uma sociedade igualitária e humanista. Euclides da Cunha, assim como Patativa do Assaré, demonstrou um discurso que representa uma realidade supostamente fiel aos fatos da vida e trajetória de Antônio Conselheiro.

Literatura popular e literatura erudita: interações e imbricações

Do tabaréu canhestro ao titã acobreado e potente

Contudo, vale ressaltar que, como argumenta o escritor Dominique Maingueneau (1995), o poeta utiliza uma linguagem universal, não configurada como sua língua materna e definidora da obra literária, mas sim uma linguagem concentrada em seu “lugar intermediário”. O que define o campo da linguagem literária é o locus enunciativo; nele se configura a interlíngua; e é justamente nesse “lugar intermediário” da linguagem que se encontram modelos e formas específicas de produção literária, como a de Patativa, autora de poesia baseada na oralidade, e Euclides da Cunha, escritor orientado pelas normas civilizadas da língua. Porque, como já mencionado, o autor tinha conhecimentos gramaticais e produziu muitos poemas em língua civilizada, mesmo não tendo frequentado formalmente a escola, mas a sua escolha pela linguagem “não-padrão” é o resultado de uma escolha estética e linguística própria.

É interessante notar que apesar da escolha de expressões populares, o autor utiliza em grande parte do poema uma linguagem cultural, gramaticalmente correta e seguindo padrões normativos. Do desajeitado tabaréu ao atrevido e poderoso titã, os dois escritores travam um duelo pacífico pelo sertão e pelo sertanejo; cada um com seu aprendizado, com sua linguagem literária própria, ou sua interlinguagem própria de seu modo de ser e de ver seu universo simbólico.

Hibridismo cultural: Patativa e Euclides amalgamando as tradições

A próxima parte deste capítulo fará algumas aproximações das relações interculturais existentes na obra de Patativa e Euclides. Dessa forma, pode-se argumentar que a coexistência recíproca entre manifestações culturais é amparada no conceito de hibridização, analisado por Nestor Canclini127, quando afirmou que são processos socioculturais inseridos em estruturas e práticas separadas, que existem em formas separadas e que se combinam entre si. gerar novas estruturas, objetos e práticas. Portanto, pode-se concluir que as relações e sobreposições entre Patativa e Euclides feitas até agora permitem uma nova formação estrutural na cultura brasileira definida por processos socioculturais estruturados em diferentes contextos que juntos formam um todo. da cultura nacional através de suas expressões literárias.

Através desta afirmação chega-se ao argumento de que não existem verdades absolutas, mas que a representação dos fatos é constituída por formações discursivas historicamente acumuladas; e que não há domínio de sobreposição sem o endosso do conhecimento que passa pelo caminho da política, devido à sua subjetividade socialmente constituída num jogo de interesses e relações de poder. O que se quer dizer com isso é que, como Patativa e Euclides estão em condições de representar socioculturalmente a realidade que propõem, eles apoiam o que Ortiz disse sobre a cultura como meio de consciência política, mas não como partidária; e que esses autores funcionem como artesãos desse jogo de construção discursiva, permitindo ao leitor refletir sobre seu papel como sujeito ativo.

O legado lírico narrativo de Patativa do Assaré

Ver-se diferente é a construção de uma identidade sertaneja, característica de uma realidade específica situada no espaço contextual da nação, mas não limita o ser como sujeito unimarcado e unilateral em sua perspectiva de homogeneidade. Assim se confirma a afirmação da reciprocidade para a existência de opostos, analfabetos versus alfabetizados, sem um não há outro; a interdependência de que fala Gerard Duveen é o ponto chave para a elaboração da criatura como sujeito histórico, construtor e construtor da sociedade, o que só pode ser percebido a partir da inferência que cada um faz sobre o seu papel social e o do outro. . Patativa vê no “ser poeta do campo” uma identidade que é reconhecida diante do outro e também seu locus, por isso não perde suas peculiaridades, pelo contrário, elas passam a ser enfatizadas, sendo a visão do outro um subsídio no o reconhecimento da identidade.

Segundo Elvya Ribeiro Pereira, tratando do romance de Jorge Amado Tocaia Grande: A face escura, a pluralidade cultural existente na cidade de Tocaia Grande é resultado das diversas manifestações culturais absorvidas pela comunidade do lugar, que é formada por uma dispersão de pessoas vindas de vários lugares do Nordeste. O narrador deste romance mostra a “verdadeira” história de uma cidade que estava escondida pela “história oficial”, mas segundo ele, os poetas e cantores populares cuidaram da revelação e contaram como os fundadores foram massacrados e mortos em um maneira heróica; mitos que lutaram até o fim em favor da Tocaia Grande.

Elucubrações do olhar: narrativas performáticas

Porém, em seu discurso, Patativa do Assaré mostrou a representação de um sujeito sociológico que, segundo Stuart Hall, se reconhece a partir de suas relações com “outras pessoas que são importantes para ele”. O discurso de Patative do Assaré é definido como resultado de sua capacidade performática de relembrar as histórias que cria em seus poemas a partir de suas próprias experiências. Um poema, que segundo Otávio Paz 152 é a essência da palavra, não sobreviveria sem história, e é a história que sustenta a poesia de Patativo do Assaré.

Ou seja, ao longo de sua carreira, Patativa do Assaré teria construído um ideal de vida que desejava alcançar como sujeito histórico, como agente social de seu tempo. A performance narrativa de Patativa do Assaré traz uma dizibilidade e um visível que percorre os caminhos de sua trajetória, retratando a recriação e a transformação do universo simbólico em que está inserida.

Representando as identidades sertanejas

Nesse momento, ressalta-se mais uma vez que, assim como o poeta constrói sua identidade sertaneja, Euclides da Cunha apresenta uma imagem do sertanejo definido pelo olhar do outro, do que está fora do sertão. Observou-se anteriormente que, ao construir a imagem do sertanejo, Euclides da Cunha retrata os perfis do jagunço e do vaqueiro. Ideia construída por Euclides da Cunha em Os Sertões enfatizando a dicotomia entre litoral e sertão, como se a "raça brasileira ideal" (em seu universo simbólico) residisse neste último e a decadência desta raça no primeiro.

A ideia de relações interculturais existentes entre as obras de Patativa do Assaré e de Euclides da Cunha passa por diferentes caminhos, garantindo essa fusão cultural e literária. Euclides da Cunha, em seu livro "Vingador", construiu uma imagem antitética de Antônio Conselheiro, ao afirmar que o beato era "um gnóstico surdo" 205. As discussões do segundo capítulo sobre a questão cultural destacaram a análise dos textos por Patativa do Assaré e Euclides da Cunha quanto ao aspecto da língua e suas relações interculturais.

213 Essa expressão faz parte do título da já citada obra de José Carlos Barreto Santana sobre Euclides da Cunha.

O vaqueiro: a rocha viva da nacionalidade

O herói atípico do sertão: Antônio Conselheiro

Porém, a imagem heroica de Antônio Conselheiro foi construída por seus seguidores: sertanejos que acreditaram em sua pregação e na possibilidade de uma vida mais justa e igualitária ditada por O Conselheiro. As ideias sobre a questão da identidade nesta análise são resultados de uma avaliação da representação do sertanejo, bem como do vaqueiro e de Antônio Conselheiro na perspectiva dos dois autores estudados, demonstrando a atuação de cada um deles no cenário analisado. obras, suas sobreposições e relações. Assim, fica claro que o sertão, desse ponto de vista, representa o espaço oposto ao litoral, onde se introduzem personagens definidores de uma alteridade local.

Patativa optou por uma linguagem “adulta” e autodenominava-se poetisa da poesia popular. Apesar de sua incomparável fortuna crítica, ainda há muito a saber sobre Euclides, escritor apaixonado e paradoxal, cuja vida de insatisfação e angústia deixou marcas profundas na história da literatura brasileira.

Referências

Documentos relacionados

Nessa perspectiva, podemos correlacionar os conceitos ‘autocuidado’ (BATISTELA; MON- TEIRO, 2014) e ‘saúde’, incluindo a ‘doença’ – como sinônimo de encouraçamento –,