Monografia apresentada ao curso de história da Universidade Federal de Ouro Preto como parte dos requisitos para obtenção do título de bacharel em história. Monografia do Bacharelado em História analisando a construção do conhecimento histórico a partir da proposta metodológica do historiador italiano Carlo Ginzburg em seu livro O queijo e os vermes. No desenvolvimento desta monografia, buscamos analisar como Ginzburg reconstruiu a identidade do objeto histórico, em O queijo e os vermes, segundo sua possibilidade de leitura das formas culturais, o conceito de circularidade, juntamente com as redes de relações, que está presente temporariamente.
This monograph, for a bachelor's degree in History, analyzes the process of building historical knowledge from the methodology proposed by the Italian historian Carlo Ginzburg in his book O queijo e os vermes.
Introdução
Nessa discussão, que acabou levando à micro-história, marcou-se um novo encontro com a antropologia, campo responsável pela reconstituição histórica a partir de redes de relações sociais e individuais. Por um lado, foi possível distinguir uma tendência sob influência da antropologia e da história social anglo-saxônica, que se interessava pela nova história do social. As mudanças propostas por esses historiadores criam um novo método de pesquisa baseado em diferentes referenciais teóricos com possibilidades de uma leitura mais ampla do social.
Uma contribuição valiosa para a história social e para a leitura das formas culturais pode ser vista em sua obra Osten og ormene.
A micro-história. Algumas considerações sobre a sua historiografia
A micro-história: Uma visão interna
Giovanni Levi, em seu artigo "Sobre a micro-história", apresentado no livro A escrita da história organizado por Peter Burke, defende que esta obra é uma descrição e avaliação pessoal do que poderia ser reconhecido como micro-história. Assim, são essas as questões e pontos de vista comuns que caracterizam a micro-história: a redução da escala, o debate sobre a racionalidade, a pequena indicação como paradigma científico, o papel do particular (mas não oposto ao social), a atenção à receptividade e capacidade narrativa, definição específica do contexto e rejeição do relativismo4. A importância da escala para a pesquisa micro-histórica e a influência antropológica (particularmente a densa descrição de Clifford Geertz) são pontos que Levi considera cruciais para os ideais do grupo de micro-historiadores.
Um ponto importante sobre o qual Levi se debruça é a maneira pela qual a micro-história abordou a narrativa histórica.
A micro-história: Uma visão externa
Inicialmente, o autor apresenta um breve histórico da história social seguindo um esclarecimento sobre a gênese da micro-história. Em "Da micro-história a uma antropologia crítica", o antropólogo Alban Bensa apresenta a estreita relação entre o trabalho de campo em antropologia e a pesquisa micro-histórica. A micro-história não rejeita, portanto, a história geral, mas a introduz, tendo o cuidado de distinguir os níveis de interpretação: o da situação vivida pelos atores, o das imagens e símbolos que eles usam, conscientemente ou não, para se expressar. e justificar as das condições históricas de existência dessas pessoas no momento em que foram observadas suas falas e comportamentos8.
Segundo a antropóloga, a importância da temporalidade que a micro-história confere foi um fator que trouxe contribuições ao trabalho antropológico, pois introduz o objeto de análise em sua temporalidade, auxiliando na leitura das dimensões do mundo social de uma determinada época. Grendi vê na influência antropológica sofrida pela micro-história uma contribuição por meio da qual a História Social poderia ampliar sua leitura, passando do quantitativo ao qualitativo pela busca de "práticas sociais". O dimensionamento como consequência desse diálogo tornou-se uma ferramenta importante para este projeto e marcou uma interação frutífera entre essas disciplinas.
No Brasil, o tema micro-histórico é apresentado por Ronaldo Vainfas em Micro-história: os protagonistas anônimos da história. Após apresentar as origens e gênese da micro-história, inicia-se uma análise das principais questões relacionadas à micro-história. Segundo Pesavento, a postura adotada pelos microhistoriadores ampliou o diálogo interdisciplinar acompanhado de uma redução de escala e exaustiva pesquisa arquivística, permitindo ao campo histórico ampliar a leitura do social.
Essa leitura aconteceu por causa das articulações entre a parte e o todo, ou seja, a mudança de escala. O papel do downscaling nas obras dos micro-historiadores italianos para a proposta de reconstrução histórica é óbvio.
O lugar ocupado pelo historiador italiano
Essa problematização está inserida nas reflexões teóricas e na proposta metodológica que Carlo Ginzburg apresenta em suas obras, pois, para a produção do conhecimento histórico, apresenta novos conceitos na forma de lidar com as fontes e na ampliação da leitura do objetos. A opção que Carlo Ginzburg propôs de abordar o conhecimento histórico através do paradigma da evidência pode ser vista como uma resposta, por um lado, ao método tradicional de construção do conhecimento histórico e, por outro, ao movimento relativista. Pode-se encontrar nas obras de Carlo Ginzburg uma perspectiva "exemplar" da proposta micro-histórica: o interesse pelo detalhe revelador, pelo estudo morfológico, pela articulação desses detalhes com o todo e pelo uso que faz da variação de escala no história.
O capítulo “Signos, raízes de um paradigma indicativo” do livro Mitos, emblemas e signos é central para a problematização desta monografia. O "procedimento" utilizado por Carlo Ginzburg neste capítulo é importante por sua proposta metodológica para a pesquisa histórica, e onde está sua opção teórica e a relação que estabelece entre os parâmetros do que considera verdade histórica e a superação da oposição entre racionalismo/irracionalismo. A questão colocada nesta monografia pode assim ser resumida da seguinte forma: quais são as consequências do paradigma da evidência proposto por Carlo Ginzburg para o processo de reconstrução histórica.
Durante a apresentação do artigo, Carlo Ginzburg aponta os primeiros contatos das ciências humanas com o paradigma da evidência. No final do século XIX – mais precisamente, na década das ciências humanas, começou a se afirmar um paradigma de evidência baseado justamente na semiótica. Ao ler "Sinais: raízes de um paradigma probatório", percebe-se uma espécie de emaranhado de campos e disciplinas que vão e voltam no tempo, e implicam uma diversidade muito grande de temas.
Isso ocorre na medida em que reconhecemos a inviabilidade do conhecimento direto, sempre tendo em vista que a realidade é sempre opaca; no entanto, ela também possui . Nas últimas décadas do século XX, o rigor científico tem sido criticado no que diz respeito às perspectivas de construção do conhecimento exato e direto, fato esse que ocorre transversalmente às disciplinas e em decorrência de um movimento relativista.
O queijo e os vermes
- Considerações acerca do prefácio à edição italiana
- Menocchio: Um moleiro e sua temporalidade
- O personagem e a construção de sua personalidade por Carlo Ginzburg
- Do que é constituído o queijo e os vermes?
- A construção do conhecimento histórico em O queijo e os vermes
A ânsia com que Menocchio formulou e assimilou a linguagem de seu tempo é o aspecto fundamental da interpretação que Carlo Ginzburg faz desse personagem. Segundo Ginzburg, esse moleiro certamente se revelou um homem de boa conduta, de relacionamento sólido, que exercia funções e cumpria responsabilidades em seu meio. Com a verificação de suas conquistas sociais em sua sociedade, é possível a Ginzburg filtrar a imagem de seu personagem e até compreender a estrutura que envolvia seu objeto histórico.
Veja, por exemplo, o momento em que Ginzburg transcreve a citação do interrogatório descrevendo as roupas de seu personagem. Tinha a função de identificar seu papel dentro da sociedade e, por meio de símbolos, determinar o lugar social dos indivíduos. Tal dualidade fez deste personagem uma figura única de seu tempo; singular tão diferente nas ideias e atitudes de seu ambiente, mas inteiramente apropriado e embutido em sua temporalidade.
Ele é uma figura diferente de seu meio, mas existiu, fez parte de um determinado processo histórico e sua identidade está diretamente relacionada a esse momento, então a problematização que Ginzburg destaca também se insere na questão mais específica dos vestígios adquiridos. a partir de uma foto do seu item. Quando o autor mapeia as leituras e propostas que teria tido contato com Menocchio para entender de onde veio a formação de seu pensamento, detecta a distorção que Menocchio fazia entre suas ideias e o texto, o que comprova a influência da cultura oral. Compreender esse momento de “influxo recíproco” faz de Ginzburg o fato de ser um produto de seu tempo.
Portanto, a constituição de seus ideais tem propriedades para além do conhecimento compreendido pela oralidade e pelas leituras que fez, mas esses seus ideais não tinham autonomia a ponto de se tornarem um conhecimento separado de seu contexto temporal. No entanto, isso só aconteceu devido às possibilidades de seu tempo e a um movimento de contestação do poder religioso, fato que pode ser observado em outras figuras de seu tempo, como exemplificado por Ginzburg nesta obra. Sempre com base nas indicações fornecidas pela documentação, Ginzburg tece uma rede de dados e trabalha constantemente na leitura das dimensões culturais, de acordo com os símbolos e pistas que fornecem a leitura de seu objeto.
Como dito anteriormente, é a partir do uso da variação de escala que pode ser realizada a sugestão de circularidade desenvolvida pelo historiador para a apreensão de seu objeto.
Conclusão
Um balanço historiográfico da discussão desta monografia pode ser esclarecido com o artigo "História Social" da historiadora Hebe de Castro, publicado no livro Domínios da História. Não se trata de uma nova discussão desta monografia com o texto de Hebe Castro, mas sim de reintroduzir a discussão da história social, que está presente ao longo deste trabalho. A tentativa de caracterizar o contexto em que se insere a micro-história e o historiador Carlo Ginzburg se dá por meio da crescente discussão historiográfica voltada para as relações sociais que o campo histórico enfrentou no século XX, especialmente a partir de 1960.
É nesse momento que o social ganha uma nova perspectiva e os historiadores aprofundam o debate sobre os níveis de abordagem do social. A dinâmica histórica tornou-se referência para olhares sobre a produção do conhecimento histórico entre historiadores das mais diversas formações. Seria plausível dizer que a origem desse movimento surgiu da necessidade dos historiadores de abraçar o objeto.
O anseio por uma História total perdeu espaço após a expansão do “corpus” do objeto e sua fragmentação foi a principal reação dos historiadores naquele momento. Concluir uma monografia que vislumbra uma discussão historiográfica como esta não é tarefa fácil, muito menos terminar nestas páginas. O que dizer ao concluir um estudo sobre a proposta feita por um historiador como Carlo Ginzburg para o campo histórico e em uma obra como O queijo e os vermes saber quais são os resultados para a apreensão do cultural e para a reconstituição histórica em tempos quando o anseio por uma história total nos parece impossível.
Podemos dizer que a micro-história, parafraseando Peter Burke (em relação aos Annales), provocou uma mudança profunda no ofício da história e que a história social nunca mais será a mesma.
Fontes