A língua, o património e o museu no Museu da Língua Portuguesa e nas réplicas dos seus visitantes / Ângela Maria Soares Mendes Taddei. Gostaria de agradecer ao pessoal do Museu da Língua Portuguesa que me tratou com carinho e atenção.
Da língua
Esta chave interpretativa abrirá caminho à análise do Museu da Língua Portuguesa que iremos empreender. Seguindo o lema de Bourdieu, poderíamos agora perguntar-nos no âmbito do nosso objeto específico: haverá uma língua “oficial”, “legítima” naturalizada no Museu da Língua Portuguesa.
Do patrimônio
A questão dos possíveis “perigos” que a língua portuguesa enfrentará remete-nos, portanto, para a fantasia de uma língua inicial, herdeira da prestigiada civilização latina. Os linguistas dizem que não, pois a duração de uma língua natural, isto é, falada, que se inscreve na História, deriva necessariamente das suas possibilidades de metamorfose.
Do museu
A expressão “aberto ao público”, por outro lado, refere-se a uma característica do museu europeu do século XVIII, em oposição, como vimos em Bennett (1995), aos espaços comemorativos que o precederam desde a antiguidade. O espaço social e simbólico do museu – em qualquer museu – por mais diversos que sejam seus acervos, tipologias, dimensões e interlocutores, é atravessado por diferentes vozes, convicções antagônicas, embates ideológicos discursivamente construídos, falados ou silenciados em sua proposta de enunciação.
O Museu da Língua Portuguesa por ele mesmo
A ligação com a inovação - aqui imaginada como tecnológica - é um dos lemas do museu: "A conservação (dentro dos conceitos adotados pelo museu), o aproveitamento do que há de mais novo, é um ideal do Museu da Língua Portuguesa" (SARTINI, 2010, pág. 271). 28 A comunicação a que aludimos, intitulada Experiência e experimentação no Museu da Língua Portuguesa: relatos e observações, foi apresentada por Antonio Carlos Moraes Sartini, diretor do Museu da Língua Portuguesa, em workshop internacional no Museu de História Nacional em 2009. esses museus - inclusive os do Museu da Língua Portuguesa - funcionam sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
A noção de museu como local de celebração da língua é revista: “celebrar e valorizar a língua portuguesa, apresentando (sic) as suas origens, história e influências sofridas” (PMLP, Objetivo 2). Seu projeto foi avaliado em aproximadamente trinta e sete milhões de reais) que foram utilizados para financiar a criação, pesquisa, implantação do museu e restauração do prédio da Estação da Luz. O que tentaremos relatar no capítulo que agora se abre são contextos que testemunharam o surgimento do Museu da Língua Portuguesa.
Da “degradação” à “revitalização”
Na década de 1940, a ampliação da Avenida Tiradentes, eixo que liga o centro à zona norte, mudou o caráter do bairro da Luz (KARA-JOSÉ, 2007). Ainda na década de 1940, a Estação da Luz passou a fazer parte do sistema de transporte metropolitano que unia o centro aos subúrbios e tornou-se um espaço de grande prosperidade popular. Segundo os idealizadores do projeto Polo Luz, que data de 2000, seriam realizadas na região intervenções que funcionariam como “âncoras para a requalificação do bairro”: a modernização da Pinacoteca do Estado, a construção do Sala São Paulo no pátio interno da Estação Júlio Sobre a restauração da Estação da Luz para que ali funcionasse o museu da língua portuguesa.
Vejamos mais de perto o caso da Luz e a sua transformação em sede do Museu da Língua Portuguesa. A Estação da Luz foi tombada pelo IPHAN em 12 de setembro de 1995, tornando-se o monumento tombado mais importante da região. Contudo, a transformação do edifício administrativo da Estação da Luz em Museu da Língua Portuguesa não foi um processo desimpedido.
A Estação da Luz e a língua portuguesa: conexões possíveis
Embora o entrevistado enfatize o caráter absolutamente circunstancial da parceria entre o Governo do Estado de São Paulo e a Fundação Roberto Marinho em torno da língua portuguesa como leitmotiv, uma vez constituído esse consórcio não faltaram justificativas para legitimá-lo. Assim, mesmo no imaginário do museu, a Estação da Luz é um grande laboratório da língua portuguesa pelas suas diversas contribuições. A Fundação Roberto Marinho [..] achou esta estação perfeita para desenvolver um projeto sobre o tema da língua portuguesa, porque a Estação da Luz foi, no período da imigração, a porta de entrada, o primeiro lugar que os imigrantes [..] conheceram. Brasil. .
A quarta narrativa ganha destaque no módulo que revela a transformação do prédio administrativo da Estação da Luz em Museu da Língua Portuguesa. De uma forma ou de outra, está em Mário de Andrade a semente do museu que hoje inauguramos (portal da lusofonia.blogspot.com/2006/03/museu-da-lingua-portuguesa). As ex-colónias e as ex-metrópoles, por mais diferentes que sejam as suas histórias nacionais, partilham a herança comum da língua portuguesa.
Estação da Luz da Nossa Língua / Museu da Língua Portuguesa
Na verdade, a história da Estação da Luz aparece no Museu da Língua Portuguesa embora a sua localização tenha migrado do átrio central, corredores e plataformas da estação para o segundo andar do MLP, constituindo o Corredor Restauro, a que já aludimos (em 2.3). A afirmação acima aparece quase ipsis literatura no conceito museológico e de conteúdo (2005, p. 15), documento final assinado pela Fundação Roberto Marinho e fruto de um consenso entre os planejadores/narradores do que viria a ser o Museu da História Portuguesa. Linguagem. Em segundo lugar, não há sentimento por parte das universidades de qualquer ameaça aos seus programas de investigação após o surgimento do Museu da Língua Portuguesa.
Depois de dispensada a recolha de um arquivo relacionado com a memória linguística, as atividades de investigação que decorrerão a médio prazo incluem, segundo o nosso entrevistado, tanto o eixo da língua portuguesa como o da educação patrimonial. Depois de recolher esta informação básica sobre a memória da Estação da Luz, as ideias que deram origem ao Museu da Língua Portuguesa, o processo da sua criação e implementação, mais as etapas e estrangulamentos que dele decorrem, é altura de visitar isso mais lentamente. Resumindo as etapas do enunciado que construímos, destacamos, inicialmente, os mapas teóricos que apoiarão a análise do discurso heteroclítico do Museu da Língua Portuguesa.
Desembarque e embarque na Luz
Concluem e pontificam: “É por isso que tu, eu e cada um de nós também somos autores da língua portuguesa” (no Cotidiano); “Uma língua que não muda é uma língua morta. na natureza e na cultura); Na parede oposta à parede da Grande Galeria está uma história da língua portuguesa/linha do tempo. Também descreve uma "linha do tempo literária" que segue pari passu o caminho cronológico da linguagem.
Utilizando novamente a categoria mencionada por Gonçalves (2007), a Praça da Língua suscita um elevado nível de ressonância. A utilização de citações dos mestres é inteligente e confirma o que de melhor se pode encontrar no mundo da língua portuguesa. A seleção de textos para leitura na Praça da Língua não inclui obras que tenham essa característica.
Espacialidades e temporalidades
E embora não exista – como por exemplo no Museu do Futebol – um roteiro de visitação tão apertado que faça com que os visitantes se sintam cobaias de experiências de laboratório, as atrações do terceiro piso – Auditório e Praça da Língua – exigem portas fechadas e visitação obrigatória. rota. Seguindo essa tendência, o trabalho, o cotidiano e a vida urbana ocupariam os espaços baixos, enquanto a localização da Praça da Língua, no terceiro andar do museu - seu ponto espacial mais alto - sugeriria a ideia de que a literatura é o ápice das conquistas linguísticas , é ian mais ultra. Ouvimos variantes linguísticas do Português Brasileiro no Mapa dos Falares, na Grande Galeria, na Praça da Língua, no filme Auditório; ouvimos português português na Praça da Língua, no filme Auditório, na Raiz Lusa (Grande Galeria); Os portugueses de outros países de língua portuguesa, como Goa ou Timor Leste, são-nos apresentados muito brevemente no filme Auditório.
Quanto ao discurso da Praça da Língua, há, como em toda antologia, “coleções” de textos selecionados e reunidos segundo determinados critérios - aqui parece ser menos do gênero discursivo e mais do temático, como os curadores ressaltam: “Cada módulo tem um tema definido, mas não existe um tamanho padrão ou número de autores”. (Sobre a Praça da Língua, texto explicativo, MLP). Os escritores e compositores que aparecem na "Praça da Língua" como "amostra representativa" são apenas alguns dos que já compõem o cânone nacional brasileiro. Voltando às nossas categorias de análise, podemos dizer que o Museu da Língua Portuguesa revela-se heterotópico e heterocrónico: reúne no seu discurso diferentes espaços e tempos, abordando nesta perspetiva o modelo de museu iluminista a que se referem Foucault e Bennett ( em 1.3).
Imagens do já visto, acordes do já ouvido, ecos do já dito
A apresentação do Brasil como país, território, habitat presente no Museu da Língua Portuguesa retoma e atualiza o tema de Marilena Chaui. Diante de uma narrativa fantasiosa tão delirante que se afirma histórica, como a literatura, em princípio o espaço do que poderia ter sido representado o povo do Brasil. Voltemos ao nosso assunto e vejamos como o povo brasileiro está representado no Museu da Língua Portuguesa.
Notemos também que nem no filme do Auditório nem na Praça da Língua os nativos do Brasil marcam a sua presença. Nessa lógica, a língua portuguesa no Brasil seria única pelo seu alto grau de mistura. Verifica-se, portanto, que o discurso do Museu da Língua Portuguesa reedita uma interpretação do Brasil e dos brasileiros muito próxima da cartografia de Gilberto Freyre: a fusão como positividade difundida pelas práticas sociais, as possibilidades de harmonia, ternura e tolerância mesmo em meio à desigualdade social, uma alegria – ou euforia .
Dos visitantes
A professora nos manda ir ao museu da língua portuguesa para “explorar” as línguas que formaram o português. Além disso, o Brasil, com o maior número de falantes de português, agora pode acomodá-lo. No caso da língua portuguesa (ou de qualquer outra), é uma mercadoria estranha, por assim dizer.
Esta promoção da linguagem seria tão desejável que existiria a possibilidade de “petrificá-la” no museu. A pergunta que fazemos a seguir é justamente sobre o uso da tecnocultura no Museu da Língua Portuguesa. Acho que o Museu da Língua Portuguesa é bem aceito pelo público, costumo ver muita gente indo e outros dizendo que querem ir.
Questões, réplicas e tensões
- Os sentidos de língua
- Os sentidos de patrimônio
- Os sentidos de museu
- O que se fala, o que se cala no Museu da Língua Portuguesa
O que perguntamos, então, foi se a heteroglossia de sotaques, dicções e gírias apareceria no discurso do Museu da Língua Portuguesa. De facto, as variedades diatópicas, diastráticas e diafásicas da língua portuguesa são apresentadas na exposição de longa duração do museu, especialmente em No contexto da história da língua portuguesa entre nós, notamos que o discurso do MLP é lacônico em suas fricções e pródigo em suas celebrações.
Além de elogiar o elemento português e a sua capacidade de mistura, o texto de Freyre destaca a singularidade da língua portuguesa como língua franca. A questão do património, considerada no âmbito do Museu da Língua Portuguesa, requer especial atenção porque inclui diversas perspectivas. Perguntámos então até que ponto o museu de língua portuguesa se enquadraria numa tipologia de museus aplicável no espaço atual.