Construção de personagens femininas em O Primo Basílio, Eça de Queirós/Flávia Cristina Degobi. Este estudo examina a construção psicológica e social das personagens femininas de O Primo Basílio Eçe de Queirós.
A Mulher na Sociedade Europeia do século XIX
Todas estas virtudes deixam bem claro que o único lugar reservado à mulher no século XIX era o da família e do lar, ou seja, “as mulheres só tinham um lugar - a família - de acordo com a sua verdadeira natureza, a feminilidade” ( pág. 49). No século 19, o amor não era visto como essencial para que um casamento acontecesse.
A Representação da Mulher na Literatura nos Períodos do Romantismo e do
No romantismo, a mulher (como criação do olhar masculino) possui características que lembram um anjo, ou seja, possuem as características de castidade, pureza, bondade, caridade e cuidado com o próximo, ou seja, possuem as características exigidas da feminilidade. da sociedade daquela época. No realismo, o sexo feminino também possui características que lembram um anjo e um monstro, porém, com uma pequena diferença. No período do realismo, as mulheres também levavam uma vida ociosa, em que realizavam poucas atividades, deixando-as com muito tempo disponível e o único tempo.
Nos romances românticos as mulheres eram idealizadas e o amor que essas mulheres sentiam pelos homens também, então na era romântica as mulheres assumiram o amor pelos homens (dentro da literatura), mas na era realista não eram tão idealizadas. nem poderiam assumir o amor pelos homens, pois eram obedientes e submissos a eles (na esfera da realidade). Com estas leituras as mulheres do período realista idealizavam o perfil dos seus maridos, idealizavam um marido que fosse digno de amor e que também as amasse acima de tudo, mas na realidade este marido idealizado, ou seja, um homem que as satisfizesse sexualmente e emocionalmente, não existia, pois a esposa no casamento era considerada “pura”, ou seja, pura e inocente (o homem se realizava apenas sexualmente, ou seja, só sentia prazer com a prostituta, pois ela representa a liberdade sexual). Neste capítulo, focaremos nas personagens femininas de O Primo Basílio (2010) de Eça de Queirós, especificamente nas personagens Luísa, Juliana e Leopoldina, e na estrutura narrativa presente no romance, especificamente no narrador, no espaço e no tempo, em que destacaremos o Narrador e as mulheres, as Mulheres e o Espaço Narrativo e as Mulheres e o Ritmo Narrativo.
Em A Mulher e o Espaço Narrativo enfatizaremos a importância dos espaços para o desenvolvimento da narrativa, ou seja, o significado que a descrição do espaço traz ao leitor ao longo da idealização da narrativa. Destacaremos também as consequências que as mulheres sofreram ao se mudarem para um espaço que não era destinado a elas, ou seja, destacaremos o que aconteceu com as mulheres que violaram as regras do patriarcado. E por fim, em “As Mulheres e o Ritmo das Narrativas”, focaremos também na importância do tempo para o desenvolvimento da narrativa, ou seja, no significado que a descrição do tempo traz ao leitor ao longo da idealização da narrativa . .
O Narrador e as Mulheres
O narrador também é responsável por estabelecer a relação de aceleração e desaceleração da narrativa, ou seja, o leitor reconhece o ritmo da narrativa através da forma como o narrador descreve o que está acontecendo. Sabemos que Luísa é descrita fisicamente pelo narrador como uma mulher muito bonita, ou seja, com “cabelos loiros [..] olhos castanhos muito grandes [..] um cuidado muito gentil [..] estava limpa e [..] ] com uma seriedade encantadora” (QUEIRÓS, 2010, p. 13), o que leva o leitor a compreender que Luísa era fisicamente uma típica senhora burguesa. Percebemos também que o narrador conhece profundamente os sentimentos e pensamentos de Luísa, ou seja, sabe tudo o que se passa na sua mente: “mas muito rapidamente esse pensamento começou a quebrar-se, a cada momento como uma tela que o rasgou em largos lágrimas. , e atrás dele apareceu imediatamente com intensidade luminosa a forte ideia da prima Basília” (QUEIRÓS, 2010, p. 141).
Ainda através da descrição do narrador, observamos o percurso de Luísa dentro das posições sociais, ou seja, através da forma como o narrador expõe os acontecimentos, o leitor compreende os motivos pelos quais o personagem avança para uma posição diferente daquela a que pertencia. pois.. Notamos também que o narrador descreve fisicamente Juliana como uma mulher estranha, ou seja, com “olhos vermelhos [...]” (QUEIRÓS, 2010, p. 91), o que leva o leitor a perceber que Juliana era fisicamente uma mulher sem os aspectos que uma dama deveria ter. Notamos também que Leopoldina é descrita fisicamente pelo narrador como uma mulher atraente, ou seja, “vinte e sete anos.
Percebemos também que o narrador conhece profundamente os sentimentos e pensamentos de Leopoldina, ou seja, sabe tudo o que se passa em sua mente: 'E Leopoldina começou a andar pela sala, arrastando a longa cauda de seu manto escarlate; Seus grandes olhos negros e excitados pareciam procurar um caminho, uma ferramenta...” (QUEIRÓS, 2010, p. 364). Pelas descrições que a narradora faz, percebemos que Leopoldina era uma mulher sem escrúpulos que não se importava com o que a sociedade pensava dela, ou seja, traía o marido com diferentes homens sem se importar com os comentários da sociedade. Percebemos, portanto, que é por meio do narrador que são expostas as estruturas importantes de um romance. Ou seja, percebemos que é através das descrições do espaço, do tempo e dos personagens do narrador que estabelecemos uma relação entre uma ficção mais próxima da realidade.
As Mulheres e o Espaço da Narrativa
É através de uma análise mais crítica deste contexto entre espaço interno e espaço externo que podemos chegar a um ponto muito proeminente na história: o conflito entre espaço público e espaço privado, ou seja: é um conflito entre papéis sociais. Ambos representam a vida pública, porque atendem às demandas da sociedade, ou seja, “participam da vida pública, política e social do país” (SILVANO, 2008, p. 34). Vemos assim no romance que Jorge é um representante deste espaço devido à sua posição social, uma vez que trabalhou como engenheiro no Ministério das Obras Públicas, ou seja, Jorge faz parte de uma posição reconhecida na sociedade: “ele era engenheiro de minas, [..] e até então estava em serviço no Ministério” (QUEIRÓS, 2010, p. 10).
Luísa, Juliana e Leopoldina representam parcialmente a vida privada, pois não atendem a todas as exigências impostas pela sociedade patriarcal da época, ou seja, Luísa não exerce afazeres domésticos, Juliana não possui família própria e Leopoldina é infiel em seu casamento. Embora Luísa não exercesse algumas tarefas domésticas em sua casa, ainda assim se enquadrava no perfil da vida privada, pois era ela quem dava ordens sobre o que as empregadas deveriam fazer, ganhando assim alguma liberdade doméstica, ou seja, Luísa apenas exercia algumas poder dentro da casa dele e sobre suas criadas. Porém, através de sua dolorosa vida, aprendizado e conhecimento como trabalhadora doméstica, Juliana representa o espaço privado, pois é a única personagem que desempenha o papel de dona de casa, ou seja, é a única que sabe realizar as tarefas domésticas e serviços conforme ditado, a partir das exigências impostas pela sociedade patriarcal da época.
Percebemos então que, por falta de marido, Juliana também não tinha filhos, ou seja, também não cumpria o papel de mãe, pelo contrário, odiava e rejeitava os filhos. Percebemos que Juliana era uma pessoa amarga, fria, arrogante, rude, ambiciosa e curiosa, e tudo isso decorreu da falta de sentimentos como: carinho, amor, gratidão, ternura, reconhecimento e principalmente compaixão, ou seja, Juliana representa o oposto de um “anjo da casa”. Já Leopoldina é uma personagem que não se enquadra em nenhuma das demandas da sociedade patriarcal da época, ou seja, fica fora do espaço privado, sendo assim mal vista pela sociedade burguesa e principalmente por Jorge , seu marido de Luísa: “- Minha filha rica, todo mundo te conhece.
Ou seja, percebemos que Leopoldina era considerada uma “senhora” burguesa devido à sua posição social, mas suas atitudes a deixavam longe de ser considerada uma senhora respeitável. É através de suas atitudes que percebemos que Leopoldina representa um papel feminino fora do perfil da vida privada, ou seja, mesmo sendo mulher, ela não se enquadra no perfil ideal de mulher estabelecido pelos patriarcas do época em que a sociedade não era aplicada. , e assim se torna o oposto da feminilidade exigida.
As Mulheres e o Ritmo da Narrativa
Ao lermos o romance, percebemos que as características psicológicas dos personagens são narradas por um narrador onisciente, mais especificamente, um narrador heterodiegético. Ou seja, notamos que em O Primo Basílio o fluxo de consciência é apresentado ao leitor. através de um monólogo interno indireto e da descrição onisciente do narrador. Notamos em O Primo Basílio que o início do romance é caracterizado por uma lentidão dos acontecimentos, ou seja, o início do romance é caracterizado por um ritmo imóvel, calmo e lento. Porém, notamos que o desenvolvimento do romance é caracterizado por uma leveza nos acontecimentos, ou seja, o desenvolvimento do romance é caracterizado por um ritmo em constante movimento, agitado e acelerado.
E finalmente percebemos que o final do romance é novamente caracterizado por uma lentidão nos seus acontecimentos, ou seja, o final do romance é caracterizado por um ritmo sem movimento, calmo e novamente lento. Notamos que a desaceleração ao final do romance faz com que a posição social de origem seja retomada, ou seja, a desaceleração faz com que Luísa e Juliana voltem a ocupar seus cargos sociais exigidos pela sociedade patriarcal da época. Porém, percebemos que mesmo com a desaceleração no final da novela, o ritmo de alguns pensamentos e sentimentos de Luísa e Juliana não diminui, ou seja, mesmo que a novela tenha um ritmo mais tranquilo, alguns dos personagens os pensamentos permanecem em um certo nível de aceleração.
Verificamos também a forte ligação entre o narrador e as personagens femininas da obra, ou seja, a forte ligação entre um narrador masculino e as personagens Luísa, Juliana e Leopoldina. Verificamos que é através do narrador que as personagens são construídas, ou seja, é através dele que a feminilidade da mulher nos é transmitida. O início da novela é marcado por uma desaceleração, pois as atitudes e a vida dos personagens são desaceleradas, ou seja, no início da novela, Luísa continua cumprindo suas obrigações com a casa e com o marido Jorge e Juliana continua a cumprir. suas obrigações, as obrigações domésticas e a casa.
E no final da novela vemos novamente uma desaceleração, uma desaceleração que é incentivada pela morte das personagens Luísa e Juliana, então a novela volta ao ritmo inicial apenas com a morte das personagens. Portanto, nesta análise foi possível verificar que Luísa, Juliana e Leopoldina violam as regras impostas pela sociedade patriarcal da época, ou seja, ocupam uma posição que não lhes é favorável, ou seja, o espaço público.