Diálogo sincero: cultura política, intelectuais e letras no Estado Novo / Valéria da Silva Paiva. Contudo, as condições que tornaram possível este projecto foram dadas pelo desenvolvimento do campo cultural antes da instauração do Estado Novo.
ALMIR DE ANDRADE: O EDITOR E SUA REVISTA
Saudade das coisas não vividas
Para Almir de Andrade, porém, era importante preservar a compreensão intuitiva que os brasileiros tinham do carnaval e do que o carnaval significava no fundo. Em Força, cultura e liberdade, Almir de Andrade, como veremos, ainda dialogará com Sérgio Buarque, justamente sobre a figura do homem valente.
A sinceridade acima de tudo
É provável que a dica seguida pelo autor neste artigo tenha sido dada pelo próprio Almir de Andrade. Segundo Almir de Andrade, Oliveira Vianna não escreveu em Cultura Política porque “não houve oportunidade” (ANDRADE, 1985, p. 5).
O que é apenas “relativamente melhor”
O texto de Almir de Andrade nem sequer é uma imagem realista. Lúcia Lippi Oliveira afirma, especificamente em relação ao poder, à cultura e à liberdade, que “o homem de coração de que fala Almir de Andrade (ali) se aproxima do conceito desenvolvido por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil”.
DOIS ESCRITORES E UM RETRATO
Graciliano Ramos e seus “monumentos de baixeza”
Maria Amália”, porém, temos uma alteração que abole a unidade de sentido do texto como um todo e a substitui por outra. Mais importante do que isso, porém, é o que aqui queremos sublinhar: no que diz respeito à linguagem, nas crónicas publicadas na Cultura Política encontramos não só uma atitude crítica face ao status quo, mas também a afirmação de uma possível ordem alternativa . Contudo, apesar dos comentários acima, é preciso ressaltar que a análise de Lins está longe de reduzir a obra de Graciliano a uma visão de mundo puramente negativa.
Para ele, a única resposta a essa tensão que encontraríamos em nível social nas crônicas seriam artimanhas, como um “confronto não frontal com o inimigo descontínuo” (ANTELO, 1984, p. 28). Aqui, porém, esta moralidade inabalável manifesta-se menos em julgamentos morais do que numa vontade de apropriação de outros, aparecendo o mundo como uma extensão de uma personalidade dominante. Porém, o termo aquisição de vida talvez seja exagerado neste contexto, porque os personagens que Graciliano retratou nas “pinturas” se assemelham, e não entre si.
Para que até isso aconteça, ou seja. para que a recuperação da consciência, mesmo que incerta, ocorra, pelo menos em suas obras parece haver a presença de um personagem narrador70. No início de Infância, porém, Graciliano nos alerta através do olhar do menino que a memória também é ficção: "de qualquer forma [...] deve ter sido real".
O mundo em fragmentos de Marques Rebelo
Cavalcanti Proença foi o primeiro a apontar, em 1966, o sucesso um tanto imediato que se seguiu à publicação de Oscarina, em 1931. Nas crônicas, por sua vez, temos um narrador que se intromete, e julga, mas se abstém de julgar a situação. e não se revela expressamente como autor. E durante o dia o que acontecia era que Cataguases passeava pela praça para ver os turistas.
E não se trata da forma, trata-se do que se diz: trata-se de desconfiança no progresso, especialmente quando este invade a paisagem urbana. Por outro lado, o apego ao passado - que também se manifesta no elogio ao colonial e, em segundo lugar, na saudade do velho Rio, do tempo do império - não significa por si só a negação da modernidade em todos os aspectos. suas formas. Ao contrário do que aconteceria com Graciliano, porém, o tempo faria com que ele caísse numa espécie de semi-esquecimento, o que ainda hoje se evidencia na falta de abundância de estudos sobre sua obra e sobre sua vida em termos de atividade literária.
Foi este encontro do país consigo mesmo, com as suas tradições políticas, que, segundo a revista, foi o principal responsável pela evolução social, intelectual e artística a que se assistiu desde 1930. Ou seja, quando existe um equilíbrio perfeito entre as necessidades e aspirações da sociedade, abordadas de forma realista, e uma política que se propõe a satisfazer essas necessidades e a resolver essas aspirações.
A DIFÍCIL HERANÇA MODERNISTA
A Controvérsia sobre a herança
As nuances entrelaçadas entre Literatura e Sociedade, de 1950, e “A Revolução e Cultura de 1930”, de 1980, parecem apontar para uma reavaliação posterior, por parte de Antônio Cândido, do significado da “fase heróica” do modernismo como impulsionador. mudanças na literatura e na sociedade. Numa história do romance dos anos 30, Luis Bueno chama a atenção para o fato de Lafetá ter conseguido com seu estudo harmonizar as diferenças entre os dois momentos, repassando os embates ocorridos entre a geração dos anos 30 e os modernistas. e a subordinação das experiências literárias de 1930 às de 1922. Mário de Andrade coincide aqui com a opinião generalizada entre a geração de 1930 de que o modernismo seria um movimento destrutivo, mas a sua análise é suficientemente matizada para vermos também que não foi simplesmente uma questão de desfazer.
A geração de 1930 foi a prova de que a luta do movimento deu frutos com a introdução de uma consciência artística criativa a nível nacional e a normalização do espírito de investigação estética. 94 Esta é obviamente apenas uma impressão deixada pela leitura de 1930: crítica e modernismo e não a posição do autor. Da mesma forma, o facto de o modernismo ainda estar presente não deve impedir-nos de constatar que a geração dos anos 1930 assumiu uma postura crítica - em termos estéticos e ideológicos - relativamente a ele, nem ignorar a opinião então prevalecente, de que já vivia uma nova, período “pós-modernista”.
Para Almir de Andrade, por exemplo, a “revolução de 1930” teve “mais influência no atual florescimento da nossa literatura do que o movimento modernista”. Para ele, os acontecimentos políticos afetaram "brutalmente" a literatura, e "da revolução de 1930 surgiram não apenas transformações políticas", mas "os novos romancistas e ensaístas do Brasil".
A herança aceita: Pedro Dantas, historiador das idéias
Pelas cartas que Mário de Andrade enviou a Prudente de Moraes, seu neto, podemos perceber que a correspondência entre eles girava em torno de dois temas centrais, que, no entanto, acabaram por se sobrepor. Nas crônicas publicadas na Cultura Política, porém, não seria Mário, mas Oswald de Andrade quem seria lembrado como a figura central daquele momento, que com seu 'Manifesto da Poesia Pau-Brasil' marcou a grande inflexão do modernismo movimento. E a minha cooperação limitar-se-á a equilibrar o excessivo Mário de Andrade desta questão”, ver KOIFMAN, 1985, p.
A recuperação por parte de Prudente de uma figura tão polêmica, ainda no início da década de 1940, como foi Oswald, é notável se considerarmos o papel desempenhado por Mário de Andrade na década de 1920 e em sua trajetória pessoal. 105 Nas palavras de Mário de Andrade: “A única observação que pode trazer alguma complacência ao que fui é que estava errado. Mas neste campo, o iniciador, o principal diretor e, portanto, o grande responsável pelo infortúnio que as experiências modernistas degeneraram em, Mário de Andrade.
Prudente de Moraes, neto, parece não ter sido o único a responsabilizar Mário de Andrade pelos excessos cometidos no uso da língua portuguesa. Como vimos anteriormente, o destaque principal no que diz respeito à década de 1920 está na figura de Oswald de Andrade: o que seria Oswald.
O herdeiro: Wilson Lousada e os “tempos de 30”
Quanto à discussão sobre autores do norte e autores do sul, parece que Graciliano reescreve o romance social em termos da geografia do romance brasileiro, como o chamaria Wilson Lousada113. Percebendo que perdiam espaço no campo literário, os escritores regionalistas – e Graciliano não foi o único – partiram para o ataque. O conjunto de textos publicados por Wilson Lousada na coluna Brasil Social, Intelectual e Artístico, dezesseis ao todo, entre março de 1941 e agosto de 1942, permite, entre outras peculiaridades, acompanhar esse processo de mudança - e os debates sobre ele que estão na sua base - do ponto de vista de um intelectual que se apresentou como representante da geração dos anos trinta.
Muitos consideram-no um romance, outros uma rapsódia, mas a verdade é que é algo diferente e excepcional” (LOUSADA, CP, novembro de 1941, p. 389). Desde a crônica de dezembro de 1941, sobre Mário de Andrade, o que estava em pauta era o momento atual que sua geração enfrentava e em relação ao qual deveria se posicionar pelo autor. Ajudam a caracterizar um ambiente social cada vez mais moldado à sombra de um sentimento geral de incerteza e incerteza sobre o futuro, talvez confirmando que o último período de 1930 foi de facto um “tempo de novas dúvidas”.
No próximo capítulo veremos como apareceu o sentimento de crise no mundo literário, em relação ao que Graciliano perceberia como um. Contudo, antes de passarmos a este tema, recuperaremos finalmente os editoriais que Rosário Fusco escreveu para a subsecção de Evolução Intelectual – como já tinha escrito para a subsecção de Evolução Social – com o objectivo de apresentar as crónicas que se seguiram no quadro da ampla colaboração entre os intelectuais e o governo.
O FRACASSADO E O HERÓI (DESFECHO)
Antes do fim
Mesmo com excelente qualidade gráfica, pelo menos na primeira fase, e textos que ainda hoje interessam, é pouco provável que seus leitores leiam a revista na íntegra. Ou seja: abrindo um exemplar da revista em sua primeira fase, nos deparamos com uma clara divisão temática que sugere que a cultura ocupava um lugar próprio, independente de temas políticos. Foi importante chamar a atenção para este ponto para compreender o significado da mudança de formato da revista a partir de setembro de 1942.
Tudo isso sem levar em conta a exploração propagandística da figura de Getúlio Vargas como grande líder, com a reprodução exaustiva de suas declarações que foram seguidas de comentários da revista. Da mesma forma, a Literatura Pan-Americana desapareceria com o surgimento do telejornal “Movimento Literário” em setembro de 1943, inaugurando grande parte da segunda fase da revista dedicada à literatura. Nelson Werneck Sodré, que contribuiu com a revista em sua primeira fase, também continuaria colaborando e publicando uma série de três artigos sobre o desenvolvimento da literatura nacional.
Neste sentido, a pequena série de artigos publicados por Sodré seria de facto a única exceção, mas como exceção não se destaca no novo conjunto da revista. Além disso, esses temas podem ou não estar relacionados à “realidade brasileira” – que foi, lembre-se, um conceito-chave para compreender a estruturação temática da revista em sua primeira fase.
O divórcio entre Cultura e Política