Desde o primeiro, sua teoria da justiça é usada como equidade e, desde o segundo, sua teoria da cidadania. Esta última posição pode ser relacionada a uma concepção de justiça como equidade, cujo maior expoente é o professor e filósofo político John Rawls. 1 Posteriormente, será examinada a teoria da justiça como equidade de John Rawls, expressa naquele livro, que servirá de referência para as discussões ao longo do trabalho.
Para tanto, inicialmente será feita uma revisão teórica das formulações de John Rawls a respeito de sua teoria da justiça como justiça, que servirá ao final do trabalho. O trabalho conclui com uma exposição do PATR de acordo com a teoria da justiça como equidade de John Rawls e o status de cidadania de Marshall. Este capítulo pretende traçar paralelos entre a teoria da justiça como equidade de John Rawls e a emergência do status de cidadania de Thomas Marshall, além de fazer algumas reflexões sobre a pobreza.
No quarto capítulo, serão revelados alguns dados sobre a realidade socioeconômica brasileira, para trazer evidências razoáveis para justificar a intervenção do Estado nesta sociedade com base na teoria da justiça como igualdade de John Rawls e no status de cidadania de Marshall.
Justiça como equidade
Rawls (2002) levanta a hipótese de uma sociedade em que suas instituições sociais estão em pleno acordo com os princípios de justiça definidos durante um exercício hipotético. Essas características estabelecidas atuam como forma de garantir a congruência entre os princípios de justiça definidos e as instituições que os permeiam (RAWLS, 2000). Os princípios de justiça são os instrumentos responsáveis por orientar o conjunto de atividades organizadas entre os indivíduos em uma lógica de cooperação social (RAWLS, 2002).
Rawls (2002) identifica a estrutura básica da sociedade como o primeiro objeto da justiça, cujo planejamento deve ser orientado por princípios de justiça bem definidos, como a equidade. Esse aparato hipotético, associado à condição expressa pelo véu da ignorância, seria responsável por formular uma estrutura básica da sociedade a partir da qual as instituições como um todo estariam alinhadas aos princípios da justiça como equidade (RAWLS, 2002). A ideia de Rawls (2002) é defender que indivíduos racionais em uma posição inicial de equidade, a fim de promover seus próprios interesses, concordariam com os princípios da justiça como equidade para guiar os demais órgãos da sociedade.
Essa forma de pensar os princípios da justiça é o que Rawls chama de justiça como justiça (TRINDADE, 2008, p. 24). A primeira diz respeito à existência de uma estrutura institucional imbuída dos princípios de justiça de Rawls. Neste contexto, o acesso ao rendimento e à riqueza, tanto do ponto de vista individual como coletivo, complementa o meio a partir do qual o indivíduo pode concretizar a sua ideia de bem viver, sendo por isso muito importante para possibilitar uma sociedade que subscreva o princípio da justiça como justiça (RAWLS, 2002).
John Rawls (2002) em sua teoria da justiça como justiça concebe um projeto de sociedade bem ordenada com base na cooperação social. Durante a deliberação inicial sobre a estrutura básica da sociedade, esses princípios de justiça são considerados preferíveis para promover um quadro institucional justo (RAWLS, 2002). No entanto, a sociedade real já existe e não é construída de acordo com a teoria da justiça de John Rawls.
Cidadania e políticas sociais
Embora a promulgação de leis tenha sido um passo fundamental para o reconhecimento dos direitos civis, o acesso prático a esses direitos ainda encontrava algumas barreiras na sociedade inglesa. Como essas instituições desempenham um papel essencial na promoção dos direitos civis, tais políticas proporcionaram ao cidadão comum acesso à justiça a um custo menor, o que, sem dúvida, contribuiu para o alinhamento da teoria com a prática sobre o acesso aos direitos civis (MAARSHALL, 1967) . Com efeito, a garantia dos direitos civis, políticos e sociais é uma prerrogativa comum dos dois autores, pois expressa o respeito a questões fundamentais para garantir a integridade da condição humana.
Quanto à origem dos direitos sociais na Inglaterra, revela-se que o processo teve uma maior representatividade durante o século XX, embora tenha se iniciado no século XVI. No entanto, tal estrutura serviu de substrato para o desenvolvimento dos direitos sociais nos moldes que Marshall prestigiou. Voltando à trajetória histórica dos direitos sociais, em 1834, foi reformada a Poor Law – antiga legislação da Inglaterra que visava ajudar a população mais pobre, provendo-lhe suas necessidades básicas, como moradia, alimentação, entre outras.
Segundo Marshall (1967), essa mudança representou uma dissociação dos direitos sociais do status de cidadania, pois para se submeter aos asilos era preciso eximir-se de diversos direitos civis, como liberdade de ir e vir, direito de propriedade , etc. Nesse contexto, as políticas assistenciais, entendidas como a concretização de direitos sociais, funcionariam como instrumentos de compensação dessa parcela da população frente às consequências do sorteio natural, sem que fosse preciso considerar a necessidade de saques básicos garante qualquer tipo de ajuda. . Além disso, a primazia dos direitos políticos defendida pelo filósofo americano encontra fundamento prático na tese de Marshall, já que para este último o exercício do poder político é o meio pelo qual os direitos sociais são garantidos.
Sobre as mudanças na sociedade provocadas pelo desenvolvimento dos direitos sociais no final do século XIX e início do século XX, Marshall (1967) argumenta que a inovação veio de um novo objetivo definido. O objetivo dos direitos sociais ainda é a redução das diferenças de classe, mas ganhou um novo significado. Um aumento do salário nominal, agora protegido por um piso mínimo; a criação de uma estrutura tributária progressiva que promova uma distribuição mais justa dos recursos sociais; a produção em massa de produtos e serviços, que se tornaram mais acessíveis às camadas mais vulneráveis da sociedade à medida que se tornaram mais abundantes e baratos; e, por fim, o reconhecimento do papel do Estado como provedor de serviços mínimos e bens básicos, como saúde, educação, moradia, foram mudanças fundamentais para o avanço dos direitos sociais (MARSHALL, 1967).
Estado de Bem-Estar Social
Titmuss (1963) divide os Welfare States em três categorias, com base em dois critérios básicos. Nesse contexto, Vazquez (2007) os classifica da seguinte forma: Estado de bem-estar social residual, Estado de bem-estar social meritocrático particularista e Estado de bem-estar social redistributivo institucional. Para o Residual Social Welfare State, nota-se como a prerrogativa da ação estatal se aproxima bastante da percepção de pobreza que permeou os programas assistenciais na Inglaterra do século XVI ao XIX.
Da mesma forma, o Estado de Bem-Estar Social Residual também inclui a dimensão da necessidade como critério principal para a assistência social, ainda que os critérios de evidência tenham mudado. Entretanto, segundo Esping-Andersen (1991), tal teoria é inadequada, pois não consegue explicar os diferentes tipos de EBES observados nos países. Inserido neste contexto está a abordagem diferenciada de Esping-Andersen, que enfatiza o critério da desmercantilização como parâmetro importante para discernir o grau de intervenção do Estado na promoção do bem-estar de seus cidadãos.
Quando isso falha, como acontece quando a prosperidade da classe trabalhadora aumenta e novas classes médias surgem, o universalismo do benefício uniforme inadvertidamente promove o dualismo como o que está em melhor situação voltando-se para o seguro privado e a negociação. consideram os padrões usuais de bem-estar. Onde esse processo se desenvolve (como no Canadá ou na Grã-Bretanha), o resultado é que o espírito maravilhosamente igualitário do universalismo se transforma em um dualismo semelhante ao do estado de bem-estar11: os pobres dependem do estado e os outros do mercado. (ESPINGANDERSEN). 1990, p. 106). Considerando o critério de desmercantilização e estratificação social, Vazquez (2007) classificou assim os modelos EBES de Esping-Andersen em: EBES Liberal, EBES Conservador-Empresarial e EBES Social-Democrata.
11 O estado de bem-estar a que se refere Esping-Andersen é o Liberal Welfare State, que será apresentado a seguir. O Welfare State Residual é muito semelhante ao Liberal Social Welfare State, o Meritocrático-Particularista ao Conservador-Empresarial e o Institucional Redistributivo ao Social-Democrata. Assim, valem as mesmas relações estabelecidas entre Rawls, Marshall e o Estado Democrático de Bem-Estar Social.
Políticas assistenciais no Brasil
O extinto Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), com base na iniciativa Mundo Sem Pobreza (WWP) ou Mundo Sem Pobreza (MSP), qualificou como linha de pobreza um nível de renda “[..] abaixo do mínimo essencial para atender às necessidades básicas humano" (MSP, 2022). Segundo o Ministério da Cidadania (MK) (2022), sucessor institucional do MDS, trata-se de um programa de transferência de renda para idosos e deficientes. Outro importante programa de ajuda no Brasil é o programa BF, um programa de transferência de renda que funcionou de 2003 a 2021.
Tratava-se de um programa de combate à pobreza que previa pagamento de renda proporcional às necessidades dos usuários cadastrados (MDS, 2017). A natureza direcionada desses programas exclui pessoas que precisariam de suplementos de renda para buscar sua própria concepção de vida boa, dados os baixos níveis de renda experimentados por grande parte da população brasileira. Diante da análise acima, este trabalho tenta argumentar que uma política de transferência de renda universal e incondicional, ou seja, sem a necessidade de fornecer contrapartidas para receber o benefício, é uma alternativa mais alinhada com os princípios de justiça de John Rawls, como a equidade, com Marshall e, portanto, mais adequado à realidade brasileira.
Essa renda, proporcional à necessidade, permitiria que todos se desenvolvessem e participassem do legado social. Uma política de transferência de renda universal e incondicional se apresenta, assim, como uma alternativa interessante para este trabalho à luz dos princípios de justiça como igualdade de John Rawls e do status de cidadania de Marshall. O acesso universal a benefícios pode permitir que um maior número de indivíduos alcance um nível de renda suficiente para prover-lhes bens e serviços básicos - saúde, educação, segurança, entre outros, importantes tanto para a teoria da justiça de Rawls quanto para o status de Marshall- cidadania.
As tentativas de implementar programas de assistência de transferência de renda universal e incondicional ainda são incipientes no Brasil. Embora o autor se distancie da pura igualdade de renda, a constituição de uma RBC pode ser relacionada ao segundo princípio da justiça como igualdade. Complementarmente, Gargarella (1995) vincula a existência de um programa de renda básica universal aos princípios igualitários de justiça, que guardam estreita relação com a teoria de justiça com igualdade de John Rawls.
A legislação ordinária previu a criação do Conselho Municipal de Renda Básica de Cidadania (CMRBC) e do Fundo Municipal de Renda Básica de Cidadania (FMRBC), que foram responsáveis pela gestão do programa e pelo seu financiamento, respectivamente (FREITAS, 2017). Em um município com quase 140 mil habitantes (IBGE), o documento permite a criação de um programa de renda básica universal e incondicional a ser pago individualmente.