Esta tese tem como objetivo analisar a presença do trágico como elemento essencial nos romances Os servos da morte (1946), Memórias de lázaro (1952) e Corpo vivo (1962) de Adonias Filho. O presente estudo complementa outros estudos que enfocam a influência do mito e da tragédia grega na obra de Adonias Filho e, portanto, contribui positivamente para os estudos literários em geral e, mais especificamente, para aqueles relacionados à linha de pesquisa da literatura brasileira, resultando além da fortuna crítica do autor aqui estudado.
Adonias Filho - Vida e obra
Em 1928, Adonias Filho foi para Salvador e começou a estudar no ginásio do Ipiranga, internato jesuíta, mesma instituição de ensino onde estudava Jorge Amado, seu contemporâneo e vizinho de Ilhéus. Nesse sentido, acompanhamos o caminho percorrido por muitos escritores brasileiros, e procuramos demonstrar o caminho inverso seguido por Adonias Filho na produção de sua literatura.
Percursos Literários
Nesse sentido, Adonias Filho parece marcar um novo ciclo na ficção que rompe com o romance social da década de 1930, que tinha um caráter mais objetivo. Em contraste com o relato memorial, fortemente influenciado por Jorge Amado, Adonias Filho opta pela compreensão ficcional de sugestões trágicas.”
Mito: farol que ilumina as culturas
Através das imagens e fantasias produzidas, os mitos abrem o acesso ao inconsciente para a consciência coletiva. E mesmo os mitos horríveis têm a sua utilidade, porque através da tragédia ensinam os problemas do processo existencial.
O universo mítico de Adonias Filho
Os personagens de Adonias Filho fazem parte de um mundo emoldurado pelo feitiço da morte. Este capítulo será dedicado ao estudo das obras Memórias de Lázaro (1952) e Corpo vivo (1962), de Adonias Filho.
As festas dionisíacas
As Dionísias Rurais eram celebradas no mês de Poseidon, que corresponde à segunda quinzena de dezembro e é considerada uma das mais antigas festas áticas de Dionísio. Eram celebradas no inverno, no mês do Gamelion, que corresponde ao final de janeiro e início de fevereiro, mas não há muitas informações sobre a antiga festa do vinho. Os Anthesteries, também conhecidos como Antigos Dionísios, são provavelmente as festas mais antigas dedicadas a Dionísio, eram celebradas nos dias 11, 12 e 13 do mês Anthesterion, por volta do final de fevereiro e início de março.
Os três dias do feriado foram dedicados ao culto ao deus e à pacificação das forças subterrâneas, com o objetivo de fertilidade e fertilidade: no primeiro dia, o processo de abertura dos barris de vinho, os depósitos de todas as colheitas de outono ; no segundo dia, a imagem de Dionísio foi levada pelas ruas, simbolizando a chegada do deus à polis; No terceiro dia eram realizados os ritos de consagração dos mortos, a fim de apaziguar os espíritos. As Dionísias Urbanas eram celebradas na primavera, no mês de Elaphebolion, no final de março, e eram testemunhadas por praticamente todo o mundo grego. As celebrações duraram seis dias: no primeiro dia foi realizada uma grande procissão onde a imagem de Dionísio foi transportada do seu templo em Lenáion, primeiro para um templo arcaico, e depois colocada solenemente na Orquestra do Teatro.
Nos dias seguintes, foram realizados concursos para dez coros ditirâmbicos,7 cada um dos quais dançando com seus cinquenta intérpretes ao redor do altar de Dionísio; os últimos três dias foram dominados por jogos dramáticos.
O ditirambo e o drama satírico
Todas as manhãs aparecia a obra de um poeta trágico, e a estas tragédias era seguida um drama satírico que zombava da solenidade do primeiro, zombando dos chamados sentimentos sublimes. O termo está relacionado ao fato de os personagens que compunham o refrão estarem disfarçados de sátiros, companheiros de Dionísio. À medida que se desenvolveram, essas práticas deram origem a performances camponesas, executadas por um coro de homens disfarçados de Sátiros, cujo corifeu reproduzia algumas das aventuras de Dionísio.
Depois de algum tempo, porém, as cerimônias fúnebres foram acrescentadas ao drama satírico, fazendo com que a alegria das primeiras representações desaparecesse e outros deuses tomassem o lugar de Dionísio. No início deve ter havido uma coexistência pacífica entre o ditirambo, o drama satírico e a tragédia, mas como este se separou dos sátiros pelo seu tom sério e majestoso e quase levou à morte do drama satírico, ocorreu por volta de 490 a.C.. Assim, são os Pratinas os responsáveis por salvar o drama satírico, dando-lhe um caráter mais literário, em resposta aos gritos do povo que reclamava do desaparecimento de Dionísio da tragédia.
A influência dos Pratinas foi tão significativa que, após a sua “reforma”, a tetralogia tornou-se obrigatória nas representações dramáticas, ou seja, três tragédias e um drama satírico.
O problema do trágico
A catarse é o último dos elementos essenciais da tragédia enfatizados por Aristóteles e é responsável pela totalidade da trama. Este é o momento em que podemos verificar o conceito de anagnorisia defendido por Aristóteles, o momento em que testemunhamos o efeito catártico da tragédia. Continuando o estudo da obra de Albin Lesky (2010), deparamo-nos com outro problema trágico dentro da tragédia.
Consideramos também relevante incluir em nosso trabalho as contribuições de Friedrich Nietzsche (2003) sobre as origens da tragédia. O mundo da tragédia grega apresenta-se sob a tensão destas duas forças opostas e incompatíveis que caracterizam o personagem trágico. Concluindo a abordagem teórica do trágico, acreditamos que as formulações de George Lukács sobre a tragédia ainda são relevantes.
Na obra, Lukács apresenta uma teoria baseada no rompimento com referências antigas, tragédia e épica, para refletir sobre a modernidade.
Vento, estrada, vozes, solidão
Ou seja, o vale e a estrada não só constituem o espaço, a geografia física a partir da qual a ação se desenrola, mas revelam-se como a motivação para a constituição do ambiente mental de sofrimento que assombra o protagonista desde as primeiras linhas. O personagem Adonias Filho, um homem rude e semianalfabeto, produz uma narrativa num espaço criado, dentro de um “mundo criado”. Através desta forma composicional ele se expressa ao mundo, mas agora não mais com a intervenção de um autor pensante, mas sim de um ficcionista que trabalha com mais liberdade.
Alexandre é, portanto, fruto de um encontro casual e inexplicável, fato típico do núcleo social marginal, conforme o caráter da proposta de Adônis. As imagens que apareciam ao protagonista nada mais deveriam ser do que imagens de um mundo escurecido composto por lembranças dolorosas que agora apareciam pela voz de Jerônim. É importante ressaltar a presença de outro mito recriado na narrativa adoniana, o mito clássico da maldição da desobediência aos laços de sangue.
Na visão do protagonista aparecem dois mundos, dois universos completamente diferentes, embora as memórias do vale e daquelas pessoas pareçam resistir.
A ética amorosa sobreposta à ética da vingança
Atualizando tradições, Adonias Filho está atento aos aspectos dinâmicos da cultura, que está permanentemente mobilizada, interferindo na vida contemporânea. Inuri tinha a obrigação de protegê-lo, mas trancou-o na selva, criando o menino como uma fera, impedindo-o de se tornar um homem como os outros. A trajetória de Cajango é a trajetória de um destino que se impõe para além da impregnação demoníaca dos mortos que vivem nas trevas, pelas trevas e nas trevas.
É a montanha retorcida, terra que se ergueu num furacão, tão larga que dez arco-íris não a rodeiam. Este capítulo tem como objetivo analisar o papel da mulher, Elisa, no desenrolar das ações, pois é a partir dessas ações que se desenvolve toda a sequência de acontecimentos trágicos em Baluarte. Brutalizada, Elisa apenas simpatiza com o que é desumano, identifica-se com os toscos pedaços de pedra, sente o muro de pedra como mais nobre que o homem, a matéria dura da pedra assemelha-se à sua alma, que fica petrificada no ódio dos seres vivos.
Elisa procura Paulino para despertar nele o desejo e a paixão e libertar a mãe e a irmã da pobreza que se aproximava cada vez mais.
UM ENCONTRO COM A MULHER GREGA
E quando (Zeus) em vez do bem criou esse lindo mal, ele a conduziu (Pandora) para onde estavam os outros deuses e homens. A primeira, atormentada, é representada pelas deusas-mães do submundo, as Erínias; a outra, dominante, reflete-se em Atena, nascida sem mãe, da cabeça de Zeus e Apolo, patriarcal, como enfatiza Brandão (1989). Para comprovar sua afirmação, ele cita como exemplo Atena, filha que nasceu sem mãe, proveniente das meninges de Zeus.
Segundo Brandão (1989), o desastre familiar grego, especialmente em Atenas, foi caracterizado por tanta falta de amor, fruto de profunda indiferença ou mesmo desprezo demonstrado às mulheres.
Helena: entre a mortalidade e a imortalidade
O amor de Helena, casada com Menelau e rainha de Esparta, a mulher mais bonita do mundo, é assegurado a Páris pela deusa Afrodite. Da fortaleza de Ílion, em Paris, na companhia de Enéias, o príncipe troiano e filho da deusa do amor, projeção da própria Afrodite, sai em busca de Helena. Guiados pela bússola de Afrodite, Páris e Enéias são recebidos com todas as honras no Peloponeso.
Porém, poucos dias depois, após ser convocado à ilha de Creta, Menelau deixa os príncipes troianos aos cuidados de Helena. Através do mito, da épica homérica e da literatura clássica, é possível perceber a evolução de Helena, de heroína e deusa a mera mulher adúltera e criminosa. O mito, por outro lado, fez da antiga deusa minóica uma autêntica, embora especial, mulher responsável pela Guerra de Tróia.
Porém, a rainha de Esparta, sendo mulher e imediatamente considerada incompetente, desceu de seu pedestal para se tornar não apenas a principal responsável pela Guerra de Tróia, mas também uma traidora, atrevida, esposa de muitos para se tornarem homens.
A trajetória de Elisa: arquitetura da vingança
Paulino Duarte nasceu da relação entre Miguel Duarte e Lica, uma mulher gorda e malvada cujas origens nunca foram conhecidas. A brutalidade com que Paulino Duarte foi criado ficará imortalizada na quinta Baluarte, local onde seguirá o destino da família. Emílio era um mistério para Elisa, um homem que vivia numa quinta e vivia sob os abusos e a violência de Paulino Duarte.
Paulino Duarte gritava ordens e Emílio, tal como Elisa, obedecia sem a menor possibilidade de resposta, silencioso, sinistro na sua decadência. Neste ambiente nasceu o seu filho Rodrigo, e Paulino Duarte permaneceu insensível a tudo, até ao choro do filho e ao choro da Elisa. O mal era uma condição a que Paulino Duarte estava destinado, uma condição terrível da qual não conseguia libertar-se.
Muito tempo se passou até que Paulino Duarte fosse buscar o filho de Elisa na casa de Oscar Barbosa.
A casa: espaço de degradação dos indivíduos
O homem do romance de Adonias Filho é um ser que parece ter sido roubado da terra prometida, que não abriga nenhum tipo de esperança. A prosa de Adonias Filho está intimamente associada ao mecanismo estrutural da tragédia grega, e é dramática justamente por representar as emoções de angústia e terror despertadas pela chegada dos mortos. Da tradição cultural grega, juntamente com a ficção de Adonias Filho, incluía o rico acervo de valorização da memória oral, valores religiosos que protegem a integração do homem com a natureza.
A integração de Cajango é mais no sentido social e é em Corpo vivo Adonias Filho que ele situa seus personagens em uma realidade social mais palpável, estabelecida com mais objetividade, o que não vemos no universo de total impossibilidade dos Servos. de morte. Na prosa de Adonias Filhos, o processo de mitificação afeta a linguagem, de modo que os personagens aparecem quase sempre sob uma dimensão sobrenatural. Entendemos que, no modo como este nosso trabalho se desenvolveu, fica claro que Adonias Filho obtém notavelmente sucesso em seu objetivo de reelaborar os grandes mitos e temas trágicos gregos no romance contemporâneo.
É esta análise cuidadosa dos grandes temas trágicos e dos mitos e arquétipos gregos que inspirou a obra de Adonias Filho em Os Servos da Morte, Memórias de Lázaro e Corpo Vivo.