Dissertação de mestrado apresentada para o curso de mestrado em literatura da Faculdade de Ciências e Letras-UNESP/Araraquara, como requisito para obtenção do título de mestre em literatura. Tese (Mestrado em Letras) – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências, Campus Araraquara. Gostaria de agradecer à Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara – UNESP/FCLAR por me proporcionar tantos anos de estudo em suas dependências, não há lugar onde tenha permanecido mais tempo nos últimos oito anos, seja na biblioteca, no Cinema no campus ou nos bancos em frente ao espelho d’água, onde encontrei o prefixo “di” para vários.
Partindo desse axioma, que é a existência do espaço e do tempo como categorias narrativas, analisamos duas obras literárias específicas: o conto “O Gato Preto”, de Edgar Allan Poe, e o romance O Processo, de Franz Kafka. 34;O Gato Preto”, de Edgar Allan Poe, e o romance O Julgamento, de Franz Kafka. : o conteúdo "Le chat noir" de Edgar Allen Poe e o romance Le Procès de Franz Kafka.
Notre objectif est de mettre en évidence les circonstances particulières dans lesquelles Poe et Kafka décrivent l’espace et le temps dans les deux récits.
INTRODUÇÃO
Num sentido mais restrito, em relação às obras “O gato preto” e O Processo, são raros os estudos sobre espaço e tempo e suas funções. O próprio Bachelard (1988) cita fragmentos da obra de Poe para ilustrar passagens de sua Poética do Espaço. Contudo, a obra não aborda de forma sistemática a questão do espaço nos contos de Poe.
Como se vê, a fortuna crítica, no Brasil, sobre o espaço e o tempo na narrativa literária é extensa e variada. Dedutivo, porque partimos das noções gerais de espaço e tempo, de suas características no conto e no romance em questão e da hipótese de que espaço e tempo têm funções importantes nos contos de “O gato preto” e O Processo . Na segunda parte, denominada “O sentido do espaço e do tempo para a filosofia da composição de Edgar Allan Poe no conto “O gato preto”, analisamos e descrevemos o modo como Poe estabelece e manipula as categorias de espaço e tempo.
Para a análise do espaço e de sua espacialidade, os conceitos de “espaço sujeito” e descrição, sistematizados por Fiorin (1994) e Bourneuf (1976), respectivamente, foram os mais utilizados.
1 O ESPAÇO E O TEMPO NA NARRATIVA LITERÁRIA
O espaço
- O espaço na narrativa literária
Segundo Merleau-Ponty (1999, p. 327), Kant tentou traçar uma demarcação estrita entre o espaço como forma de experiência externa e as coisas dadas nessa experiência, não a partir de uma relação de inclusão lógica, como aquela que existe entre o indivíduo e a classe, pois, para Merleau-Ponty, o espaço está diante de suas supostas partes, que dele são sempre recortadas. Em Kant, o espaço é antes de tudo, como aponta Merleau-Ponty, a forma como somos afetados, diante de um dado bruto de nossa constituição humana; então, “não é mais uma contingência, mas uma necessidade intrínseca; sinônimo da possibilidade de constituir um objeto para nós. No caso da narrativa literária, o processo literário composto por uma operação mimética do mundo físico cria espaço e, “transformado em discurso ao nível da elaboração do signo, reconstrói uma estrutura da realidade ficcional que representa uma dimensão objetiva ou subjetiva de incluir o espaço.." (SILVA, 1984, p. 57).
Na narrativa literária, o autor dispõe de dois meios de projetar o espaço: primeiro, ele pode estabelecer marcos espaciais a partir de indicações de espaços reais (como visto acima), sem descrevê-los; ou, numa segunda fonte, descrever o espaço numa perspectiva descritiva, enquadrando um foco, apreendendo-o nas suas linhas constitutivas, o que resultaria na descrição de uma determinada espacialidade. Segundo Mendilow (1972, p. 26), o que é expresso em uma história pode ser em si mesmo estático e ser objeto de uma descrição, ou dinâmico e objeto de uma história; em ambos os casos, segundo ele, o meio de expressão é a linguagem, que é um processo. 3 A descrição literária não é como uma pintura de cavalete, responsável por reproduzir um espetáculo real ou imaginário, mas sim um trabalho de uma consciência que percebe (e se torna perceptível) na forma de imagem de seus próprios movimentos pré-refletidos.
Descrever ou não descrever apresenta-se como um recurso literário de fundamental importância no processo narrativo de uma obra literária.
O tempo
- O tempo na narrativa literária: o nível diegético e as anacronias
As concepções de tempo finito e de tempo cíclico geram as duas primeiras formas como o ser percebe o tempo. Há uma transição de uma concepção de tempo de um dado conhecimento empírico para um conhecimento analítico. Como acabamos de ver, as concepções de tempo variam ao longo de todo um período histórico.
Cada ação e cada existência têm uma duração que abrange um período de tempo definido. Em geral, os escritores, especialmente aqueles que cobrem um longo período de ficção, não tentam tratar o período de maneira uniforme ou dar a ilusão de continuidade. Como veremos mais adiante, os laços temporais são tempos que possuem uma unidade de ação e tempo.
Mendilow (1972, pp. 81-2) acrescenta que geralmente os escritores, especialmente aqueles que cobrem um longo período ficcional, não tentam tratar esse período de maneira uniforme ou dar a ilusão de continuidade.
As concepções sistêmicas de espaço e de tempo: o cronotopo de Bakhtin e a poética do espaço de Bachelard
Pode-se dizer, como aponta Marmorato (1979), que antes de serem publicados em livros, sejam antologias ou obras completas, os contos de Poe eram publicados em formato impresso (revistas, jornais, etc.) era um dos principais meios de comunicação do século XIX e os principais difusores da obra de Poe. Como grande parte da obra de Poe foi publicada em periódicos, sua volumosa produção literária foi inicialmente rara. Baudelaire é um dos divulgadores da obra de Poe fora da França; a edição francesa foi a mais distribuída e traduzida internacionalmente.
Taylor (1967), divide os contos de Poe em três grupos: “Contos de terror”, “Contos de beleza” e “Contos de raciocínio”. A primeira tradução de Baudelaire de uma obra de Poe foi o conto "Revelação Mesmérica" (Revelação Mesmérica, 1844), publicado na edição de 15 de junho de 1848 de La liberte de penser, sob o título "Révélation magnétique". Porém, as primeiras traduções de Poe para o francês aparecem em 1845, com a tradução feita por um tradutor anônimo do conto "A carta roubada" ("A carta roubada"), publicada na revista Le Magazin Pittoresque, como nota Martins ( 1998, pág. 56).
Dessa forma, a influência de Poe no simbolismo francês esteve presente e sua influência permeou a obra de Mallarmé e André Breton. Sobre a influência de Poe sobre Dostoiévski, Oscar Mendes observa (2001, p. 55): “A obra de Dostoiévski foi profundamente marcada por Edgar Poe. É indiscutível." A influência de Poe também fica evidente em obras de Dostoiévski como “O Duplo”9 de 1846, que trabalha o tema do duplo de forma semelhante ao conto “William Wilson” de 1840.
Na literatura hispano-americana, a influência de Poe já se fazia sentir no final do século XIX em escritores como o nicaraguense Rubén Darío, principal escritor do modernismo na literatura espanhola. Como veremos, a teoria moderna do conto de Poe é explicitada em seus ensaios "O Princípio Poético" e "A Filosofia da Composição". 10 Ambos os ensaios (“O Princípio Poético” e “A Filosofia da Composição”) de Poe tratam da poesia, mas seus pressupostos teóricos e analíticos também podem ser aplicados ao conto; segundo Martins (1988, p.44) “o que distingue ambos é o assunto, já que o tema pode ser utilizado em ambos”.
Como exemplo de espaço delimitado, tomaremos exemplos do conto “O gato preto” e os examinaremos, destacando suas funções na narrativa como um todo, para ver como isso ajuda a alcançar a unidade de efeito do conto. de acordo com a "filosofia da composição" de Poe. Bachelard (1988, p. 23) afirma que se deve tentar integrar todos os seus valores especiais num valor básico, para que a casa forneça simultaneamente imagens dispersas e um corpo de outras imagens. A primeira espacialidade atende a uma das premissas da “filosofia da composição” de Poe: um espaço fechado e delimitado que “emoldura” a ação e os personagens.
Constatou-se que a principal característica do conto “O Gato Preto” de Poe é a escolha do autor por espaços limitados e fechados: seus microcosmos, onde ações e personagens estão em estreito contato com a espacialidade.
O tempo diluído em marcas de impressão
O herói de Poe é prisioneiro de uma condição humana da qual não pode escapar porque é fraco. Neste capítulo, após algumas breves notas biográficas e bibliográficas, no ponto 3.1, centraremos a nossa atenção na posição de Kafka na literatura de língua alemã, bem como na literatura ocidental. Além disso, vale ressaltar o apreço do autor pelas narrativas curtas, que levam o leitor a apreciar melhor os aforismos, fragmentos e parábolas, pelo sentido da obra de Kafka como um todo, a partir de uma proposta estética globalizante.
O exame do contacto de Kafka com as comunidades checa, judaica e alemã repete a característica daquilo que é interrompido e não estabilizado na raiz. Situar a obra de Kafka num panorama do desenvolvimento da literatura ocidental é bastante complexo, pela problemática do seu contexto sócio-histórico-literário. Kafka nasceu na cidade de Praga, então capital de uma província do Império Habsburgo, a cidade eslava com uma minoria de língua alemã, em grande parte judia.
Sobre esta questão, Luis Costa Lima (1993, p. 176) sublinha: “Para os checos, Kafka era um falante de alemão, para a sociedade alemã um judeu. Alguns escritores, como é o caso de Kafka, não produziram as suas obras na sua língua materna, a língua que os identifica como cidadãos de um determinado Estado-nação; eles escreveram em outra língua estrangeira, literária. Além disso, situar a obra de Kafka no panorama da literatura ocidental também não foi o exercício mais fácil para os pesquisadores.
Segundo Rosenfeld (1993, p. 142) a obra de Kafka tem traços expressionistas, mas não se enquadraria em nenhuma corrente. Contudo, Luiz Costa Lima (1993, p. 21) afirma que: “A atitude de Kafka, fechada do ponto de vista da vanguarda, é tímida, provinciana e atrasada. Segundo Anders (1969, p. 16), o romance de Kafka cria uma fisionomia de um mundo exótico, qualificando-o como onírico, mítico ou mesmo simbólico.
Na parábola, o espaço é dividido em interior e exterior por uma porta protegida por um destemido porteiro. Em “Antes da lei”, como vimos, um sertanejo anseia por entrar no lugar onde está a lei. Ele não utiliza o recurso do descritivismo para projetar o espaço, o que não aparece no romance de Kafka.
As sedes dos tribunais, por um lado, distinguem-se das demais; ocorrem através de uma configuração espacial alterada em sua proporcionalidade.
A literatura fantástica nos contos "Lígeia" de Edgar Allan Poe e "Véra" de Villiers de L'Isle-Adam.