Para tanto, serão analisados os aspectos mais modernos do saber civil nacional quanto aos institutos da boa-fé objetiva e à função social do contrato. No capítulo três será feita uma abordagem aos institutos da boa-fé objetiva, à função social do contrato e em especial ao abuso de direito.
Da revolução francesa à edição do Code de France
Verifica-se, entretanto, com claras evidências, que o Código Civil Francês de 1804, doravante denominado Código Napoleão, ou simplesmente Código de França, nada mais é do que um dos símbolos da vitória da burguesia na Revolução Francesa. do ano de 1789, um projeto amplamente ambicioso que visava regular o maior número possível de relações entre os indivíduos (CUNHA, Daniel, 2007, p. 255). O Código Civil Francês de 1804 surgiu com a mentalidade que inspirou a revolução que o precedeu: o seu espírito reflectia a mentalidade individualista da época, ao serviço do desenvolvimento das forças produtivas nascentes - a burguesia, que detinha dentro de si o poder económico.
A edição do Código Civil alemão
No entanto, o BGB não pode ser considerado um código revolucionário, embora tenha surgido quase um século a partir do seu parente mais próximo, que é o código civil francês. Isto porque o BGB não atingiu a base económica e social da vida social, permanecendo um Código marcadamente capitalista, informado, ainda que por princípios filosóficos, de um individualismo menos liberal que o francês, possivelmente devido a mudanças no espírito popular. Alemão destacado pelos germanistas, além, claramente, das condições históricas e psicológicas em que o código foi trabalhado (GOMES, 2010, p. 50).
História da codificação brasileira e a influência dos Códigos francês e alemão no
Conforme Caio Mário continua as explicações (2010, p. 68), após a conclusão deste trabalho inicial de consolidação do direito civil nacional, entendeu-se que ninguém além do próprio Teixeira de Freitas estaria em melhores condições para elaborar projetos ao direito civil. Mas com a proclamação da República nesse período nenhuma obra foi feita (PEREIRA, 2010, p. 68).
A necessidade de uma revisão do Código de 1916
Segundo os relatos históricos de Caio Mário (2010, p. 70), o CC/16 foi recebido na época como a grande esperança, após três séculos de domínio romano-português e aspirações inegáveis a um Código verdadeiramente brasileiro. Além disso, o então Código Civil de 1916 não conseguiu incorporar conquistas pré-existentes e outras que foram surgindo e abriram a abertura para a inspiração solidária do direito no século XX. Além disso, o Código Civil de 1916 foi editado com o intuito de abranger o maior número possível de instituições jurídicas, de abranger todos os pontos que o direito civil deve necessariamente abranger.
O Código Civil de 2002
Além disso, como dizem Cristiano Chaves e Nelson Rosenvald (2014, p. 45), as críticas também foram direcionadas a temas que ainda não possuem regulamentação legal, como a fertilização in vitro e a fertilização artificial, a importância do teste de DNA na determinação do pertencimento, a estabilidade relações entre pessoas do mesmo sexo, consequências da utilização da Internet, entre outras, situações diversas actuais e necessárias à regulamentação legislativa. Não por outro motivo, Orlando Gomes (1983, p. 50) teve a oportunidade de afirmar sobre o Código Civil que “se tolera a mistificação de uma recodificação que não renova nem avança. Na realidade, segundo conclusão irreparável de Cristiano Chaves e Nelson Rosenvald (2014, p. 46), “no Código Civil de 2002 fica de fora tudo o que há de fato novo, enquanto os supostos avanços correspondem às soluções já aceitas pela jurisprudência”. há muito tempo, especialmente depois dos avanços impostos pela Constituição de 1988”.
Prolegômenos acerca do direito civil constitucional
Viola assim dois princípios que são os mais importantes para o direito contratual, nomeadamente a função social do contrato e a boa-fé objectiva. Portanto, a liberdade de contratar também deve ser exercida na perspectiva da boa-fé objetiva e da função social do contrato. Isso porque as obrigações, e especialmente os contratos, são regidas pelos princípios da função social do contrato e da boa-fé objetiva.
O Código Civil e as suas novas diretrizes
A diretriz da socialidade
Na verdade, a função social não é um limite externo e negativo aos direitos subjetivos da pessoa. A função social reflete um limite interno e positivo: interno, porque entra na própria estrutura do direito subjetivo concedido a uma pessoa, conferindo-lhe dinamismo e finalidade; positivo, pois a função social não visa dificultar o exercício de direitos subjetivos. Se as constituições são responsáveis por proclamar o princípio da função social – que tem sido a regra desde Weimar – é o direito civil que é responsável por traduzi-lo num instrumento concreto de ação.
A diretriz da eticidade
Ao recorrer à função social e também à boa-fé – que tem uma vertente marcadamente ética e solidária – o Código agora aprovado concretiza a diretriz constitucional da solidariedade social, que é considerada um dos “objetivos fundamentais da República”. No Código Civil de 2002, a ética foi inserida por meio de cláusulas gerais, transformando a ordem privada em um sistema aberto e poroso, capaz de captar o universo axiológico que lhe fornece substrato (CHAVES & ROSENVALD, 2014, p. 52). Na estrutura do Código Civil de 2002, o paradigma da ética pode ser facilmente percebido em algumas passagens, todas por meio de cláusulas gerais, como a boa-fé objetiva (art.
A diretriz da operabilidade ou concretude
Conclui-se, portanto, que as cláusulas gerais são normas editadas deliberadamente e abertamente pelo legislador. Nesse sentido, Miguel Reale (REALE apud CHAVES & ROSENVALD, 2014, p. 54) remedia o fundamento da diretriz ética para, por meio de cláusulas gerais, “garantir a utilização de critérios ético-legais que nos permitam chegar a uma ‘conclusão legal’”. ' 'dando maior poder ao juiz para encontrar a solução mais justa ou equitativa'. Portanto, a diretriz ética é conceituada como “buscar compatibilizar os valores técnicos obtidos no âmbito do código anterior, com a participação dos valores éticos no ordenamento jurídico” (GAGLIANO & FILHO, 2011, p. 94).
Uma necessária conceituação
A boa-fé objetiva
Por outro lado, a boa-fé objetiva é uma norma (princípio) segundo a qual o comportamento humano deve basear-se num padrão ético de conduta. Agora, na medida em que a boa-fé objectiva proporciona a protecção da confiança, inevitavelmente proporcionaria e preservaria o princípio fundamental da segurança jurídica. Portanto, a boa-fé objetiva deve ser um arquétipo ou modelo de comportamento social, que deve nos aproximar do conceito ético de comportamento correto.
A função social do contrato
O direito civil brasileiro não oferece qualquer proteção às transações abstratas, ou seja, às transações que são exclusivamente da vontade das partes, e, pelo contrário, exige que as transações jurídicas sejam causais e cumpram uma função social.
A boa-fé objetiva como modelo
A função interpretativa
Sabe-se que muitas vezes os contratos são celebrados com o único propósito de beneficiar uma das partes da relação contratual, geralmente aquela que detém o poder económico. Portanto, a função interpretativa confere ao juiz a possibilidade de (re)interpretar o contrato, por meio da coleta de informações sobre o círculo social em que se situam os contratantes, a fim de garantir a real intenção das partes na celebração. o acordo.
A função integrativa
- A cláusula geral do art. 422 do CC/02 e as funções dos deveres de conduta
Segundo Cláudia Lima Marques (MARQUES, 2002, p. 198), os deveres protetivos foram propostos por Heinrich Stoll em 1932 como forma didática de se contrapor a outros deveres comportamentais. Os deveres de proteção visam proteger a outra parte contra o risco de danos a pessoas e bens, no contexto da relação complexa. Além disso, as obrigações de proteção derivam da Lei de Proteção ao Consumidor.
A boa-fé objetiva e o abuso do direito
187 do Código Civil de 2002, fica claro que o critério do abuso de direito não reside no nível psicológico de culpa do agente causador do ato ilícito, mas no desvio do direito de sua finalidade ou função social. . Neste ambiente, o abuso de direitos está relacionado aos direitos subjetivos concedidos às pessoas. Há um descompasso entre o objetivo perseguido pelo agente e aquele para o qual o sistema jurídico direcionou o exercício do direito.
Origem histórica e noções conceituais
O conceito de desempenho substancial consiste, assim, em três parâmetros: insignificância da inadimplência, satisfação dos interesses do credor e comprometimento do devedor (BECKER, 1993, p. 63-64). O desempenho substancial consiste num resultado tão próximo do resultado desejado que nem sequer afeta a reciprocidade da obrigação ou o sinal dos benefícios. O cumprimento substancial é, portanto, conceituado como um resultado tão próximo do resultado desejado que não afeta a reciprocidade da relação jurídica obrigatória (sinal presente no benefício).
O adimplemento substancial e o direito brasileiro
O cumprimento substancial constitui assim um cumprimento tão próximo do resultado final que, tendo em conta a conduta das partes, fica excluído o direito de rescisão, admitindo-se apenas o pedido de indemnização e/ou cumprimento, pois este primeiro requisito, nomeadamente a rescisão contratual, seria ser contrária ao princípio da boa-fé objectiva. Neste ambiente, dado que a doutrina do desempenho substancial deve ser aplicada para implementar uma das facetas decorrentes da boa-fé objetiva, deve-se considerar que a sua aplicação decorrerá, portanto, da aplicação da boa-fé objetiva em si mesma. . Portanto, por funcionar como uma “janela” no ordenamento jurídico – especialmente à luz de sua determinação como cláusula geral do ordenamento jurídico – ela permite o conhecimento de elementos externos à aplicação da norma jurídica, ainda que sejam não positivo na lei – atividade concreta por parte do juiz – para enfatizar o princípio normativo.
O adimplemento substancial e a boa-fé objetiva – o limite à resolução contratual
O princípio da boa-fé objectiva actua nestes casos para proteger o devedor contra um credor mal-intencionado e inflexível (e, portanto, falta de boa-fé) como justificação para limitar o exercício de um poder jurídico, neste caso, o direito de resolução, que geralmente é detido por qualquer pessoa que, como credor, tenha uma obrigação não cumprida. O abuso do direito à resolução contratual ocorre quando esse exercício ultrapassa manifestamente os limites impostos pela boa-fé objetiva, pelos bons costumes ou pela finalidade social ou económica desse direito (art. 187.º do Código Civil). Em tais situações de lesão ao princípio da boa-fé objetiva, conclui, é possível atender ao pedido subsidiário de cumprimento, evitando sacrifícios excessivos por parte do devedor dada a pequena dimensão da dívida.
A aplicação da doutrina do adimplemento substancial pela jurisprudência brasileira
De acordo com o acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso, os segurados tinham a “obrigação primária” de pagar o prêmio nos termos do contrato de seguro. A segunda razão reside justamente na questão do cumprimento substancial: o segurado cumpriu substancialmente suas obrigações, sua falta de capacidade suficiente para levar à rescisão do contrato de seguro.http://www.tjrs.jus.br/busca/pesquisar ? q=589016534&proxystylesheet=tjrs_index&client=tjrs_index&filter=0&getfields=*&aba. Ação de reintegração de posse de 135 reboques, objeto de locação, após pagamento de 30 das 36 parcelas reajustadas.
Parâmetros para aplicação da doutrina do adimplemento substancial e seus efeitos
Portanto, trata-se de um direito subjetivo, neste caso, de submissão, para garantir a igualdade no âmbito da relação obrigatória. Esses objetivos foram muito bem traduzidos quando a instituição da confiança objetiva foi incluída no ordenamento jurídico brasileiro, com seus deveres de informação e lealdade, bem como a função social do contrato, de modo que foi possível construir, especialmente no âmbito jurídico âmbito, a doutrina da execução substancial, dando maior ênfase e proteção às relações contratuais e à ética na prática vinculante. A Agonia do Código Civil – conferência proferida no Encontro Nacional de Mestres de Direito Civil, realizado em homenagem ao Professor Orlando Gomes: Sans Adiei – 50 anos de Presidente, Salvador: Editora Ciência Jurídica.