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INTERATLANTIC TRANSITS: BRUCE CHATWIN’S THE VICEROY OF OUIDAH IN MULTIPLE READINGS

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Academic year: 2023

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OLIVEIRA, Paulo César Silva de. Trânsitos interatlânticos: The Viceroy of Ouidah, de Bruce Chatwin, em múltiplas leituras. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 188-207.

Curitiba, Paraná, Brasil Data de edição: 11 dez. 2021

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TRÂNSITOS INTERATLÂNTICOS: THE VICEROY OF OUIDAH, DE BRUCE CHATWIN, EM MÚLTIPLAS LEITURAS

Dr. PAULO CÉSAR SILVA DE OLIVEIRA Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil ([email protected])

RESUMO: Este trabalho é um estudo do romance O vice-rei de Ouidah, de Bruce Chatwin (13/05/1940 – 18/01/1989), e investiga um determinado percurso das trocas interatlânticas decorrentes da migração forçada de sujeitos escravizados vindos da África ficcionalizada por Chatwin, em diálogos com estudos recentes de Laurentino Gomes (2019) e em outros já clássicos como os de Alberto da Costa e Silva (2004a;

2004b), Robin Law (2001) e Elisée Soumonni (2001), além dos romances O último negreiro, de Miguel Real (2006), e Água de barrela, de Eliana Alves Cruz (2018). Os impactos desses processos traumáticos representados por Bruce Chatwin nos levam a apontar o trânsito interatlântico como tema essencial na construção de saberes acerca da formação cultural brasileira que merece ser incorporado em nossa bibliografia crítica.

Palavras-chave: Trânsito. Atlântico negro. Ficção contemporânea. Comparatismo.

Teoria.

Artigo recebido em: 29 set. 2021.

Aceito em: 26 out. 2021.

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OLIVEIRA, Paulo César Silva de. Trânsitos interatlânticos: The Viceroy of Ouidah, de Bruce Chatwin, em múltiplas leituras. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 188-207.

Curitiba, Paraná, Brasil Data de edição: 11 dez. 2021

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INTERATLANTIC TRANSITS: BRUCE CHATWIN’S THE VICEROY OF OUIDAH IN MULTIPLE READINGS

ABSTRACT: This paper is a comparative study of the novel The Viceroy of Ouidah, by Bruce Chatwin (13/05/1940 – 18/01/1989). It investigates a particular path of the interatlantic exchanges resulting from the forced migration of enslaved subjects from Africa, as fictionalized by Chatwin, in dialogue with recent studies by Laurentino Gomes (2019), classic works by Alberto da Costa e Silva (2004a; 2004b), Robin Law (2001) and Elisée Soumonni (2001), and the novels O último negreiro, by Miguel Real (2006), and Água de barrela, by Eliane Alves Cruz (2018). The impact of the traumatic processes represented by Bruce Chatwin point out the interatlantic transit as an essential theme in the construction of a knowledge about Brazilian cultural formation that must be incorporated into our critical bibliography.

Keywords: Transit. Black Atlantic. Contemporary fiction. Comparatism. Theory.

INTRODUÇÃO: TRÂNSITOS INTERATLÂNTICOS

No primeiro volume de seu mais recente trabalho, Escravidão (2019), Laurentino Gomes (re)introduz a personagem histórica Francisco Félix de Souza e a geografia do antigo Daomé – mais precisamente a cidade de Ajudá, no litoral da República do Benim – ao leitor interessado no tema das trocas interatlânticas e no impacto proveniente dos fluxos e refluxos que marcaram o tráfico de escravizados entre África e Brasil. Desde o primeiro leilão de escravizados que se deu em Portugal, no ano de 1444, na vila de Lagos, no Algarve (GOMES, 2019, p. 11) até a morte de Francisco Félix de Souza (1849), as rotas da escravização foram marcantes em algumas etapas da história, como apontou Pierre Verger (2021, p. 22), em sua clássica tese de doutorado, Fluxo e refluxo:

do tráfico de escravos entre o Golfo do Benim a Bahia de Todos-os-Santos, do século XVII ao XIX:

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OLIVEIRA, Paulo César Silva de. Trânsitos interatlânticos: The Viceroy of Ouidah, de Bruce Chatwin, em múltiplas leituras. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 188-207.

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190 1º: O ciclo da Guiné durante a segunda metade do século XVI;

2º: O ciclo de Angola e do Congo no século XVII;

3º: O ciclo da Costa da Mina durante os três primeiros quartos do século XVIII;

4º: O ciclo do golfo do Benim entre 1770 e 1850, incluído aí o período do tráfico clandestino.

O tráfico dos africanos vindos do Daomé se deu nos dois últimos ciclos (3º e 4º) e, de acordo com Verger (2021, p. 12), a influência desses povos, sobretudo dos nagôs-iorubás, foi decisiva na configuração cultural da Bahia, já que a presença de sacerdotes com formação sólida nos princípios de sua religião e de prisioneiros advindos de classes sociais elevadas contribuiu para a resistência à imposição cultural dos escravizadores brancos. Esse fenômeno não se reproduziu no restante do país, nem sequer no Rio de Janeiro, capital (1763- 1960) e sede do Império. No entanto, em se tratando do fluxo migratório interno dessas populações, veremos que a chegada ao Rio de Janeiro de sujeitos oriundos da Bahia, especialmente do Recôncavo Baiano, foi decisiva para a cultura negra e popular que se formaria especialmente nas primeiras quatro décadas após a abolição da escravização.

Neste artigo queremos tratar, especificamente, de um dos momentos cruciais para se entender os processos coloniais e a ignomínia da escravização que foram responsáveis por um intenso sistema de trocas interculturais que foi paulatinamente dando sentido a muito do que hoje chamamos de cultura brasileira. Esta reflexão se concentrará na figura do baiano Francisco Félix de Souza, que teve grande influência no reino do Daomé em fins do século XVIII, até sua morte, em 1849.

Em um primeiro momento, situaremos a trajetória da personagem biografada por autores como Alberto da Costa e Silva (2004a) e Robin Law (2001), principalmente, e a ficcionalizada por Bruce Chatwin em The viceroy of Ouidah (2005, cuja primeira edição veio a lume em 1980). Em nosso trabalho, as citações do romance pioneiro de Chatwin serão feitas a partir da edição brasileira e que contém um “Prefácio” aqui publicado. Por vezes os nomes de localidades serão referidos de acordo com a forma com que os vários autores os citam.

O romance nos guiará no percurso que classificamos como trânsitos interatlânticos. O estudo comparativo com obras de especialistas na história do tráfico negreiro no chamado Atlântico Negro busca compreender como as trocas – culturais, sociais e humanas – decorrentes da escravização foram determinantes para o fluxo e refluxo de ideias, hábitos, conhecimentos religiosos e histórias, não só entre as populações vitimadas, mas para a

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191 ressignificação da cultura brasileira, notadamente através dos movimentos migratórios internos na então capital do Império. Esse percurso é essencial, defendemos, para a construção da ideia de cultura nacional, confundida com a herança trazida de África, que, hibridizada, definiu o caráter do que se entende por identidade nacional. O estudo desse percurso, ora relevante pela contribuição para a nossa formação cultural ora pela recuperação da memória sobre os inomináveis crimes que o marcaram, formam a matéria vertente com a qual lidaremos aqui.

No segundo momento desse trabalho, investigaremos o romance O vice- rei de Uidá e mostraremos sua importância para o surgimento de obras literárias, além do adensamento do debate crítico sobre a figura de Francisco Félix de Souza e seu papel na reconfiguração dos trânsitos narrativos e humanos a partir da região do Daomé.

Finalmente, a ficcionalização dos anos iniciais da vida de Francisco Félix de Souza, efetuada por Miguel Real (2007a), abrirá caminhos de discussão sobre as relações críticas entre prosa ficcional e discurso histórico e as potencialidades da ficção na abertura de brechas que nos ajudem a melhor compreender o passado da nação.

Desta forma, contribuiremos para inserir o diálogo comparativo entre as obras de ficção e de outras áreas na construção de saberes acerca da formação cultural brasileira, ampliando, assim, a bibliografia crítica que trata da literatura como recuperação crítica dos estatutos de uma modernidade intensamente marcada pelos processos traumáticos aqui examinados, mas que frequentemente são minimizados ou silenciados quando se trata da participação fundamental dos escravizados na cena político-cultural brasileira.

TRÂNSITOS NARRATIVOS EM O VICE-REI DE UIDÁ, DE BRUCE CHATWIN Segundo Susannah Clapp (1997, p. 9), editora que ajudou a dar forma a dois livros de Chatwin, o escritor foi um viajante, um fabulador e criador de histórias que dificilmente poderão ser enquadradas na clausura dos gêneros.

Bruce Chatwin nasceu em Sheffield, em 13 de maio de 1940 e morreu em Nice, França, em 18 de janeiro de 1989. Em 48 anos de vida construiu uma pequena, porém sólida obra que, segundo Clapp (1997, p. 9), conferiu-lhe reconhecimento ainda em vida. O vice-rei de Uidá é seu segundo livro, antecedido por In Patagonia (1977). Publicou ainda On the Black Hill (1982); The songlines (1987);

Utz (1988) e What am I doing here? (1989), além de ter tido algumas de suas obras publicadas postumamente.

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OLIVEIRA, Paulo César Silva de. Trânsitos interatlânticos: The Viceroy of Ouidah, de Bruce Chatwin, em múltiplas leituras. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 188-207.

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192 Para se compreender a importância da personagem Francisco Félix de Souza para a obra de Bruce Chatwin, precisamos recorrer a alguns aspectos biográficos que marcaram a escrita de O vice-rei de Uidá. Contaremos ainda com a ajuda de historiadores interessados na personagem e pelo momento histórico marcante para a cultura brasileira, como veremos.

O mais importante biógrafo de Bruce Chatwin, Nicholas Shakespeare (2000), conta que, em uma carta de 21 de setembro de 1976 endereçada ao escritor Gerald Brenan, Chatwin mencionara uma viagem à conhecida Costa dos Escravos do Daomé, em 1971; informação confirmada no “Prefácio” do escritor na edição brasileira de The viceroy of Ouidah. Esta breve carta é reproduzida na íntegra em Under the sun (CHATWIN, 2012, p. 257), obra póstuma que veio a público em 2010 pela Jonathan Cape, na qual sua Susannah Clapp era sua editora. Na ocasião, ele tivera contato com descendentes de De Souza. Segundo eles, o ancestral foi um sujeito de origem humilde, campesina, que teria chegado em África foragido ou em busca de oportunidades (as fontes históricas dos motivos da ida de De Souza à África não são seguras) e lá se tornara uma das mais importantes e poderosas figuras de seu tempo. O trajeto de De Souza, antes de aportar em África, é, além de rocambolesco, eivado de imprecisões, lacunas, contradições. Por enquanto, guardemos o interesse de Chatwin pela personagem.

Ainda criança, segundo Nicholas Shakespeare (2000), Chatwin havia lido os historiadores Richard Burton e J. Skertchly (SHAKESPEARE, p. 320), por meio deles memorizara uma gravura das amazonas do Rei Gezo, que o impressionaram sobremaneira. Além disso, o assassinato de seu tio Humphrey Chatwin na África Ocidental acentuou seu interesse pela região. No Daomé, Chatwin pôde ver de perto como eram as amazonas e presenciou o processo de transição para o atual Benim. Foi nessa segunda viagem que encontrou Pierre Verger, que desde 1946 estudava as relações entre África e Bahia. O livro de Verger, Fluxo e refluxo (2021), havia sido sua primeira fonte de pesquisas sobre De Souza. O encontro não trouxe grandes informações a Chatwin.

Após as duas viagens ao Daomé, Bruce Chatwin não mais retornaria ao país. De lá partiria com o núcleo da história que queria contar. Uma semana depois de deixar a África, Chatwin já se encontrava no Rio de Janeiro, colhendo mais informações para o livro. Mais tarde, no Recife, teria um encontro com Gilberto Freyre, o que, segundo Nicholas Shakespeare (2000, p. 339), foi igualmente frustrante, a exemplo da entrevista com Verger.

Após intensas, porém fragmentárias pesquisas, que resultaram na coleta de material importante, porém esparso e inconcluso, Chatwin revela sua decisão pela escrita de um romance acerca da vida de Francisco Félix de Souza, conforme explica no “Prefácio”: “O material que levantei se revelou, porém, tão

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OLIVEIRA, Paulo César Silva de. Trânsitos interatlânticos: The Viceroy of Ouidah, de Bruce Chatwin, em múltiplas leituras. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 188-207.

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193 fragmentado que decidi modificar os nomes dos personagens e escrever um trabalho de pura ficção” (CHATWIN, 1987, p. 12). Não sabemos se essas palavras dão a dimensão do problema das fontes e se a decisão pela ficção se deveu à documentação claudicante ou o que se afirmava no “Prefácio” seria uma estratégia de Chatwin, tornando paratexto um suplemento com a função de estruturar o jogo ficcional tão frequente em sua obra. A indefinição entre os gêneros literários e textuais sempre marcou seus textos, híbridos de relatos de viagem, trabalho etnográfico, biografia, autoficção, história e invenção. Para sua editora-biógrafa, “um dos encantos de Chatwin residia em ser várias coisas contraditórias de uma só vez, contradições que se reconciliavam em seus livros”

(CLAPP, 1997, p. 10).1 Clapp (1997, p. 194) reforça que The viceroy of Ouidah é um desafio para quem tentar classificá-lo e, de fato, Chatwin foi exímio na arte de escrever suas vivências e representá-las em obras nas quais não diz “eu”, embora suas pegadas possam ser rastreadas ao longo da escrita. Neste sentido, uma breve exposição da narrativa é um parêntese necessário para o leitor não familiarizado com o romance.

The viceroy of Ouidah foi lançado no Brasil em 1987, com o título de O vice-rei de Uidá (doravante, utilizaremos esta edição). A trama se inicia com um narrador heterodiegético que narra uma reunião da família, uma missa e um jantar em honra da memória do protagonista. Aqui começam as interferências da ficção na história e as liberdades de Chatwin para com o passado histórico.

No romance, Francisco Félix de Souza é Francisco Manoel da Silva. A troca dos nomes deste e de vários outros personagens se deveu à opção pela ficção. No entanto, não nos parece suficiente a explicação, visto que é próprio dos romances contemporâneos o uso dos nomes verdadeiros, à diferença dos romans à clefs (em que o autor trata pessoas reais por nomes fictícios). Pierre Verger (2021) achou o romance bom, porém estranhou a troca de nomes, segundo Nicholas Shakespeare (2000, p. 327).

Também as datas foram alteradas para efeito de construção romanesca.

Por exemplo, a ano da celebração dos 117 anos da morte do patriarca no romance seria 1974, visto que na trama a personagem Francisco Manuel da Silva teria nascido no Brasil em 1785 e falecido em 08 de março de 1857, em Ajudá (Ouidah) (CHATWIN, 1987a, p. 26). Na história, há certo consenso para a data de falecimento da personagem histórica, 08 de maio de 1849, mas seu nascimento ainda permanece envolto em controvérsias. Segundo Alberto da Costa e Silva (2004b, p. 12), sua descendência assegura que ele veio ao mundo em 04 de outubro de 1754, mas o comerciante inglês Thomas Hutton, com quem

1 No original, na edição espanhola: “Uno de los encantos de Chatwin residía en ser varias cosas contradictorias a la vez, contradicciones que se reconciliaban en sus libros”.

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OLIVEIRA, Paulo César Silva de. Trânsitos interatlânticos: The Viceroy of Ouidah, de Bruce Chatwin, em múltiplas leituras. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 188-207.

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194 De Souza tratara de negócios pessoalmente, afirma ter ouvido do próprio que ele teria chegado à África em 1792, aos 24 anos de idade, o que nos levaria ao ano de nascimento em 1768. Já sua família afirma ter sido 1788 o ano de sua chegada. Ainda quanto à dificuldade com a veracidade das datas e dos fatos, Robin Law (2001, p. 9) afirma o “caráter problemático dessas fontes e das dificuldades em sintetizar as informações sobre os diferentes aspectos da carreira de Francisco Félix de Souza”.

Não nos caberá aqui questionar a opção de Chatwin pela troca dos nomes e pelo uso de datas mais aceitáveis. Mas, para escusar o autor, a escolha da morte da personagem em 1857 e a comemoração dos 117 anos do falecimento nos leva a 1974, um ano depois da viagem de Chatwin em um Daomé prestes a se tornar a República do Benim, em 1975, em um regime de esquerda liderado pelo major Mathieu Kérékou e que governaria o país até 1990, nacionalizando empresas estrangeiras, que estatizou grandes empresas privadas e investiu em programas populares nas áreas da saúde e da educação. A doutrina dominante foi o marxismo-leninismo, embora a agricultura e o comércio se mantivessem nas mãos das iniciativas privadas. Com a crise do regime, o país hoje vive uma recente, porém elogiada democracia.

Como dito, o capítulo 1 é dedicado à descrição das comemorações dos 117 anos de falecimento do Chachá e de como De Souza ficou conhecido, por conta de sua proximidade com o Rei Gezo. A numerosa família, que vai do Daomé à Europa e a outras partes do continente africano e do mundo, reuniu- se na Catedral da Imaculada Conceição, situada do lado oposto ao Templo da Serpente (Dãgbé, Serpente Celeste, um dos cultos religiosos mais bem documentados durante o período do tráfico de escravizados).2 A profusão de membros da elite local e dos que vinham de fora é assim descrita por Chatwin (1987, p. 14):

Os Da Silva tinham acorrido da Nigéria, do Togo, de Gana e até mesmo da Costa do Marfim. Os pobres vieram de ônibus e táxi. Os ricos chegaram em seus carros, e a mais abastada de todos, madame Hélène da Silva, mais conhecida como Mamãe Benz, agora se refestelava no banco traseiro de sua Mercedes creme, refrescando-se com um leque de notas de dez mil francos à espera de que a missa terminasse.

2 É grande a importância da localização desses templos, que domina o início da narrativa. Elisée Soumonni (2001, p. 14) diz que o fato de que De Souza tenha sido enterrado no Daomé foi importante por conta do culto aos mortos e ancestrais que ali se desenvolvera. Esse culto, que a 4 de outubro de cada ano se repete, contribui para manter viva a memória, não só do patriarca, mas também do legado brasileiro no Daomé.

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OLIVEIRA, Paulo César Silva de. Trânsitos interatlânticos: The Viceroy of Ouidah, de Bruce Chatwin, em múltiplas leituras. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 188-207.

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195 A diversidade, a opulência de uns e a pobreza de outros evidenciam a prole numerosa do Chachá e também o caráter de suas uniões com brancas e negras, ao sabor de desejos e interesses.3 Quanto a isso, Alberto da Costa e Silva (2004b, p. 24) mostra que o De Souza histórico seguiu o exemplo de Antônio Vaz Coelho, figura proeminente do Daomé que teceu seu poder mediante matrimônios com as mulheres de grandes famílias locais. O filho Isidoro foi fruto do casamento de De Souza com Djidgiabu, filha de Comalangã, poderoso chefe local e, segundo algumas fontes, sua primeira esposa, embora outras afirmem ser seu segundo matrimônio. O ramo togolês dos De Souza conta que Djidgiabu era esposa e não mãe de Isidoro. Como se vê, o problema das fontes é uma justificativa plausível para que Chatwin optasse pela troca dos nomes e pelo romance.

Na narrativa, a profusão de familiares, amigos e outros influenciados por Da Silva marcam o capítulo 1, que narra o aparecimento da emblemática Mama Wéwé, ou Eugênia da Silva, supostamente a ascendente mais velha de De Souza, ainda viva e cujo corpo ainda carregava um fiapo de vida, um “verdadeiro milagre”, segundo a família, “o que não era tão inacreditável”, se se pensar que ela “não tinha muito mais idade do que Sagbadju, o rei, que morava com suas mulheres e servidores num bangalô atrás do palácio, em Abomey” (CHATWIN, 1987, p. 36). Com a entrada dessa personagem, o narrador heterodiegético nos conta sua história de amor não correspondido, há exatos 98 anos, por um oficial inglês, que partira prometendo casar-se, sem jamais retornar. Em seus delírios de quase morte, Mama Wéwé volta a falar, mas em português, e aí a narrativa passa às recordações da personagem, que vão do terceiro ao último capítulo. A estratégia de Chatwin é importante para compreendermos os eventos que sucedem a longa fala de Eugênia.

Para efeito de verossimilhança, ao delegar grande parte do relato a uma centenária moribunda, Chatwin representou na trama o que os biógrafos e historiadores de De Souza enfrentaram ao resgatar os dados inconclusos de sua vida, corroborando Alberto da Costa e Silva (2004b, p. 5) em relação aos percalços do historiador:

[...] esta é a tarefa de quem escreve história: juntar o que se tem por fatos, ainda que insuficientes, eivados de fabulações ou contraditórios, e procurar dar-lhes forma, coerência, movimento e, se possível, rumo, no vão intento de recriar ou imitar o passado”.

3 Elisée Soumonni (2001, p. 13) faz constar que, ao morrer, Francisco Félix deixou 25 rapazes e 25 moças, escolhidos e reconhecidos dentre os 312 filhos de suas 302 esposas.

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196 Como o romancista Chatwin e o historiador Costa e Silva (2004a), pesquisadores mais recentes são categóricos ao afirmar a importância dos estudos biográficos sobre Francisco Félix para a construção de uma memória plural da escravização:

Embora às vezes convirjam, essas memórias múltiplas muito frequentemente apresentam elementos dissonantes. Na República do Benim, uma memória específica é visível nos discursos dos descendentes dos antigos escravizados e de seus mercadores. Porque esses indivíduos não viveram a experiência de seus ancestrais, entretanto, estudar suas memórias implica lidar com mediadores, pois a testemunha não mais existe. (ARAUJO, 2011a, p. 81, nossa tradução)4 Em outro momento, Araujo (2010, p. 63) destaca que a partir da década de 1990 houve um processo de reabilitação da memória de Francisco Félix de Souza, inclusive com seus ancestrais falando abertamente de seu passado escravagista. Advogam que a descendência não pode ser julgada pelo olhar de hoje e que as práticas escravagistas eram legais, embora, contraditoriamente, a família tenha mantido a atividade ilegal até a década de 1850. Obviamente, De Souza não era o único traficante de humanos, mas sua importância junto ao então reinado do Daomé o torna personagem essencial à recuperação histórica das memórias daquela época. Conforme Elisée Soumonni (2001, p. 11), se o desenvolvimento de Uidá no século XIX deveu-se em grande parte pelas relações entre o Brasil e o Daomé, dado que, se a cidade foi um porto importante de envio de escravizados para o Novo Mundo, a cidade foi também um porto de chegada para os que conseguiram voltar para casa.

A perspectiva dos trânsitos narrativos amplia possibilidades de diálogos, no caso de Chatwin, seja com a história, de um lado; ou com as possibilidades abertas pelo discurso literário contemporâneo na ficcionalização do passado e dos estatutos de verdade transgredidos, o que nos conduz à crítica da ideia de verdade histórica. Em O vice-rei de Uidá, as estratégias de Chatwin estimulam algumas reflexões. Conforme Oliveira (2019, p. 38):

A contribuição da série literária [...] é determinante para a leitura do texto ficcional como local de passagem, de trânsito interdisciplinar, espécie de entre-

4 No original em inglês: Though they sometimes converge, these multiple memories very often present dissonant elements. In the Republic of Benin, a specific memory is visible in the discourses of the descendants of former slaves and slave traders. Because these individuals did not live the experience of their ancestors, however, studying their memories entails dealing with mediators: the witness no longer exists.

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197 lugar no qual o olhar voltado ao passado produz efeitos sobre a compreensão do presente, abrindo caminhos de reflexão e negociação de sentidos, essenciais ao surgimento de novas compreensões históricas acerca da complexa colcha de retalhos que é a modernidade no ocidente. A força da mathesis que decorre da leitura literária é decisiva e ao lado do jogo semiótico propiciado pelas obras artísticas nos revela as interseções produtivas que vão estruturando relações dialógicas entre discurso histórico e representação ficcional.

Mais adiante, observaremos a importância do romance de Chatwin para os estudos da memória da escravidão, concentrados na leitura da obra literária comparativamente a um conjunto de discursos que dialogam com o romance de modo cooperativo.

O VICE-REI DE UIDÁ: O QUE FAZER COM ESTE LIVRO?

Dissemos que é difícil classificar as narrativas de Chatwin. Em uma breve revisão de sua obra, percebemos a dimensão de seu trabalho, produzido ao longo de uma vida curta, porém intensa. Entre In Patagonia (1977) e What am I doing here? (1989), The viceroy of Ouidah (1980) possui lugar de destaque, por ser seu primeiro romance, embora, à diferença de On the Black Hill (1982) e Utz (1988) – mais afeitos à forma mais “clássica”, digamos, da narrativa romanesca – seja uma narrativa de classificação problemática, aproximando-se mais das estratégias adotadas em The songlines, lançado em 1987. Como nosso espaço não permite análise detalhada de cada uma de suas obras, concentramos esforços na estrutura discursiva de O vice-rei de Uidá.

Como dito, ao escolher a forma romance para O vice-rei de Uidá, Chatwin pode intercalar com mais liberdade espécies literárias como a biografia, a autobiografia, o romance histórico, a autoficção ou metaficção historiográfica etc. Com tantos elementos em jogo, não surpreende que a recepção do romance tenha sido bem diversa. Susannah Clapp (1997, p. 193) assim classifica o romance:

[...] é um conto de espaços confinados e condições opressivas. Seu protagonista, que considera que "qualquer conjunto de quatro paredes é um túmulo ou uma armadilha", faz do trabalho de sua vida o confinamento de outras pessoas: ele deixa o Brasil natal para virar negreiro no Reino do Daomé, na África Ocidental.

Surge um palácio com poucas portas, uma prisão, um harém. Aparecem homens

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OLIVEIRA, Paulo César Silva de. Trânsitos interatlânticos: The Viceroy of Ouidah, de Bruce Chatwin, em múltiplas leituras. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 188-207.

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198 algemados, pesadelos de quartos de dormir sem ar, sonhos frustrados de fugir de um país para outro. (Nossa tradução).5

Já Robin Law (2001, p. 18) não tinha grande entusiasmo pelo livro, o considerava, inclusive, equivocado, acusando-o de ser um dos textos responsáveis pela “deturpação” – embora considere que esse problema precedeu Chatwin, já na própria época em que De Souza viveu – da biografia do mercador de escravos:

A natureza da posição de Francisco Félix em Ajudá é frequentemente falseada na tradição local, como de “vice-rei de Ajudá e chefe dos brancos”. Esse equívoco foi consolidado internacionalmente pelo romance histórico de Bruce Chatwin, que, embora confessadamente uma obra de ficção, se baseia estreitamente (na sua parte africana, mas não, na brasileira) na vida de Francisco Félix de Souza (LAW, 2001, p. 18).

Law admite ser a obra de Chatwin confessadamente ficcional, o que levou o inglês inclusive a mudar os nomes históricos, como já dito. Isso, é claro, longe de ser um demérito de Chatwin, demonstra que seu estatuto de romancista não atenuou as dificuldades dos historiadores que tentaram dar unidade aos dados fragmentados acerca de Francisco Félix. Quanto a isso, Oliveira (2014, p. 139) aponta que:

Obviamente, faltou a Law uma teoria da ficção que melhor avaliasse o fenômeno ficcional. Não sabemos se ele teve acesso ao “Prefácio” publicado na edição brasileira do romance, porém, se concordarmos com a ideia de que a ficcionalidade dos relatos não se manifesta somente na literatura, veremos que a história não é imune aos “equívocos” tidos como próprios do texto literário.

O próprio Law (2001, p. 19) mostra que os textos da época estão em discordância com o que relatam as tradições locais. Em outro momento, Law (2002, p. 43-44) afirma que Francisco Félix de Souza foi um elemento de coesão da comunidade brasileira em Uidá, até mais ou menos 1840, quando

5 No original, em espanhol: “[...] es un cuento de espacios encerrados y condiciones opresivas. Su protagonista, quien considera que “cualquier decorado de quatro paredes es una tumba o una trampa” hace que el trabajo de toda su vida sea el negocio de confinar a otros: abandona su Brasil natal para convertirse em negreiro en el Reino de Dahomey, en África Occidental. Aparece un palacio con pocas puertas, una prisión, um harén.

Aparecen hombres esposados, pesadillas de habitaciones sin aire, sueños frustrados de huida de un país a outro”.

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OLIVEIRA, Paulo César Silva de. Trânsitos interatlânticos: The Viceroy of Ouidah, de Bruce Chatwin, em múltiplas leituras. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 188-207.

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199 comerciantes rivais se estabelecem na região. Naquela época, iniciara-se a dispersão da comunidade brasileira, fruto da concorrência de portos adjacentes no embarque de escravizados, ocasionada pela tentativa de escapar da apreensão dos navios portugueses que comercializavam vidas humanas.

Estudiosos recentes apontam que Law negligenciou uma dimensão importante da conversão de De Souza em mito local, apesar de ele não ter sido o único mercador de sucesso na região. Referindo-se a Elisée Soumonni (2001) e Alberto da Costa e Silva (2004a), Ana Lucia Araujo (2010, p. 64) recorda que Francisco Félix “foi percebido como ‘protetor’ da comunidade Agudá”, considerado “mais ocidentalizado e mais ‘evoluído’ do que a população nativa”

e “um chefe africano exemplar” (aspas da autora). Desta forma, Francisco Félix foi patrimonializado e, a partir dos anos 1990, a narrativa passou a se deslocar das atividades da personagem com relação ao tráfico negreiro para a

“reconstituição dos laços do Golfo do Benim com o Brasil”, além da miscigenação promovida por De Souza e seus descendentes.

A patrimonialização se concentra na ideia de desenvolvimento e tem como meta inserir as comunidades locais nos processos de valorização dos bens culturais, sejam eles materiais ou imateriais. A patrimonialização da cultura faz parte, portanto, de políticas de estado – e, obviamente, de governo – que visam a fomentar o desenvolvimento através da valorização e revitalização de culturas.

O patrimônio torna um bem algo permanente e não pode ser confundido com a dinâmica dos processos culturais, já que estes estão em constante transformação. No caso da família De Souza, as práticas religiosas e a herança colonial passam a fazer parte do processo de revitalização de um passado que tem potencial para se transformar em bem simbólico que leve ao reconhecimento e à identificação da população envolvida; essencial na integração da comunidade no desenvolvimento socioeconômico.

Ana Lucia Araujo (2010, p. 64) entende que “a reconstrução da memória de Francisco Félix de Souza é baseada na reconstituição dos laços do Golfo do Benim com o Brasil”. Essa característica é acentuada em várias passagens do romance de Chatwin, como o aniversário de cem anos de Mama Wéwé, em que

“ela apontou os dedos para os parentes e disse: ‘Lembrem-se de que são brasileiros!’. Desde então nunca mais falou. Os anos ecoavam sem que ela abrisse a boca, a não ser para comer” (CHATWIN, 1987, p. 37). Araujo (2010, p.

65) aponta, ainda, o mito das três raças como elemento importante na configuração étnico-cultural de identidades híbridas, o que “permitiu a de Souza construir uma identidade ‘brasileira’ idealizada que, combinada com o catolicismo, o paternalismo e as religiões africanas, foi aos poucos incorporando diversas culturas e religiões”. As ambiguidades quanto à celebração de uma personagem escravagista são perturbadoras:

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OLIVEIRA, Paulo César Silva de. Trânsitos interatlânticos: The Viceroy of Ouidah, de Bruce Chatwin, em múltiplas leituras. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 188-207.

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200 Se celebrar a memória do escravagista é geralmente inconcebível do ponto de vista ocidental, no contexto africano isso é possível e relativamente aceito, porque o comércio atlântico de escravos e a escravidão nas Américas não são percebidos como sendo um problema que também diz respeito à África (ARAUJO, 2010, p. 65).

Embora essa reconstrução histórica seja contestada fortemente entre grupos afro-americanos e pelas populações originárias de Ketu e Savalu, a valorização da memória de Francisco Félix de Souza tem sido “baseada na ideia de que ele não era somente o mais importante mercador de escravos da região, mas também o protetor dos fracos, é um feito relativamente bem-sucedido entre a população local” (ARAUJO, 2010, p. 66). Neste sentido, a abertura propiciada por Chatwin, ao ficcionalizar essas incongruências, permitem-nos pensar para além dos binarismos e estabelecer relações bem mais complexas do que a historiografia apresenta. Contribui para esse efeito patrimonial a ideia de sincretismo religioso aliada ao hibridismo cultural e à miscigenação: “Áfrico fez uma proclamação: – Os Mortos comeram! – Alguém predisse que a chuva seria boa para os milharais e do outro lado do pátio ouviu-se a voz estentórea do padre Olimpio bradar: - Syncretisme!” (CHATWIN, 1987, p. 31).

Com mais elementos de análise para questões intrínsecas à elaboração de uma biografia ficcional, vemos que os elementos históricos transfigurados em O vice-rei de Uidá, levaram à criação da personagem Mama Wéwé que, em delírio de morte, recorda aos leitores a aventura africana do Chachá. É quando, às descrições predominantes no capítulo 1, a partir da introdução na trama da personagem centenária e de seu drama amoroso no capitulo 2, avultam aspectos de um discurso ficcional de feição meta-historiográfica, visto que o documento, a historiografia e o arquivo são submetidos aos delírios da velha senhora em seus últimos instantes. Chega-nos uma vida contada sem a pretendida veracidade histórica e sim ficcionalizada, levando em conta as muitas incongruências do material coletado, conforme Ana Lucio Araujo apontou, com respeito à percepção das atrocidades da escravização.

Do terceiro ao último capítulo (capítulo 6), acompanhamos a história de Francisco Manoel da Silva (Francisco Félix de Souza), do Brasil à sua morte em África – 1849, para os historiadores; 1857, no romance. O capítulo 3 trata especificamente da vida de De Souza no Brasil, narrado em uma falsa focalização heterodiegética. Segundo o romance, De Souza teria nascido no Brasil em 1785 e desembarcado em Uidá em 1812. De sua vida no Brasil, saberemos de sua origem sertaneja, em ambiente hostil e espinhoso, a sonhar com campos verdejantes e histórias de um rei fantasmagórico chamado Dom Sebastião (CHATWIN, 1987, p.

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201 59). Francisco Manoel perdera o pai com 1 ano de idade, vira sua mãe se amigar com um mestiço de nome Manuelzinho, presenciou a seca e sofreu privações de uma vida miserável quando ainda contava com 7 anos. Levado para viver com o padre português Menezes Brito, após a morte da mãe, ele se alfabetizou, aprendeu rudimentos de latim, as quatro operações e lições de religião. Francisco foge aos 13 anos e perambula pelo interior do Nordeste, exercendo ofícios de açougueiro, vaqueiro, tropeiro e garimpeiro. No ano de 1807, casa com a filha de um poteiro e aprende o comércio de gado, mas seu horror pela vida gregária o leva a deixar mulher e filha.

Nessas peregrinações, chega a Tapuitapera, onde trabalhará no engenho da família Coutinho. Lá conhece Jerônimo, iorubá liberto que lhe conta histórias do Daomé: “[...] histórias de palácios feitos de adobe e forrados de crânios; de tribos que trocavam ouro em pó por fumo; da Serpente Sagrada, que também era um arco-íris, e de reis com testículos do tamanho de abacates” (CHATWIN, 1987, p. 81). O Daomé jamais lhe saíra da cabeça. Morto o patriarca dos Coutinho, ele é expulso do engenho e migra para Salvador, onde vagou pela Cidade de Todos os Santos. Chatwin assim apresenta Francisco Manoel, em suas andanças pela cidade:

Seus olhos verdes o tornaram famoso no bairro. Quando passava por um beco atopetado de gente, era certo que alguém parasse. Com parceiros dos dois sexos, ele executava os atos mecânicos do amor, em quartos forrados de tábuas. Eles partiam com a sensação de terem roçado a morte e nenhum voltava pela segunda vez (CHATWIN, 1987, p. 83).

De Salvador, a ida ao Daomé se concretiza em 1812, ano em que desembarca na África, onde, após cuidar do forte de São João Batista da Ajuda, passa a traficar armas e a gerenciar o tráfico negreiro, “como se não tivesse conhecido outra ocupação na vida” (CHATWIN, 1987, p. 95). No entanto, o sonho de fazer fortuna e voltar à Bahia persistia e a adaptação se deu por muito esforço, o que aparece nas cartas que escrevia a seu compatriota Joaquim Coutinho: “Esse povo deve ser os maiores ladrões do mundo. Eu seria capaz de morar em qualquer outro continente, mas neste não” (CHATWIN, 1987, p. 101).

Porém, “aos poucos ele se foi atolando em África” (CHATWIN, 1987, p. 102), contraiu, como vimos, diversos matrimônios, participou da destituição de um rei e tornou-se amigo de outro, que lhe trouxera poder e fortuna. No capítulo 4, vemos Francisco Manoel como favorito do rei, embora preso definitivamente à vida gregária de que tanto buscou fugir.

Chatwin narra brevemente o apogeu e a derrocada de Francisco Manoel, em capítulos sucedidos de muitas peripécias e descrições. Esse discurso é

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202 legitimado pelo fato de que esses eventos são ficcionalizados no delírio de morte de Mama Wéwé. No capítulo 5, saberemos que Mama Wéwé foi concebida na velhice de Francisco, fruto de seu relacionamento com dona Luciana, que chegara ao Brasil com o marido, o médico Marcos Brandão Ferraz. Na primeira visão de Francisco Manoel por dona Luciana, a percepção era “de que naquele dia ela avistara o Demônio” (CHATWIN, 1987, p. 146). Seu marido morre, acometido de febre amarela. Dona Luciana também se debateu entre a vida e a morte e, ao descobrir que fora Francisco Manoel quem a salvara, foi tomada de um horror que, futuramente, transformou-se em amor. Com dona Luciana, Francisco Manoel gera Eugênia da Silva, e então as duas pontas do relato se encontram.

A despeito das críticas de Pierre Verger (2021) sobre as trocas dos nomes e das leituras pouco favoráveis de Robin Law (2001), Chatwin (1987a) conseguiu mesclar em seu primeiro romance sua paixão pelos mapas e a inquietude quanto aos círculos fechados através de uma personagem que atraiu e atrai os mais diversos estudiosos. Se Verger (2021) foi um dos pioneiros nos estudos sobre o De Souza histórico, e Robin Law (2001) desenvolveu importantes trabalhos que ajudam a organizar o quebra-cabeças em torno dessa figura emblemática, os estudos recentes revelam nuances sobre aspectos multidimensionais envolvendo as relações entre o Atlântico Negro e o Brasil. O fascínio pela personagem histórica inquietou o adolescente Alberto da Costa e Silva (2001; 2004b), nos anos de 1940, e levou Bruce Chatwin a escrever um romance que popularizou a figura de Francisco Félix de Souza, mas não só: ele contribuiu para o reconhecimento do discurso literário como arquivo reafirmando o papel da literatura como força de saber e apontando a ficcionalização como uma das possibilidades de se escovar a história a contrapelo, de se refazer as rotas dos estudos da memória e do passado.

Conforme Ana Lucia Araujo (2011a, p. 81), “a biografia de Francisco Félix de Souza lança luz na existência de memórias plurais da escravidão” (Nossa tradução).6 Araujo (2011a) afirma que a atenção internacional sobre o Benim impulsionou projetos que divulgam o Vodum7 e as culturas africanas, fundamentais para a recuperação da memória da escravidão. No entanto, segundo Araujo (2011a, p. 86), “conceber uma memória brasileira comum é por

6 No original, em inglês: “Francisco Felix de Souza’s biography sheds light on the existence of plural memories of slavery”.

7 Vodum, também grafado vudu ou vodu, é um termo abrangente para se referir aos vários ramos de uma tradição religiosa baseada no culto dos ancestrais e que é praticada da costa da África Ocidental à Nigéria. Essa tradição possui raízes entre católicos e os povos Jeje e Fon do Benim e hoje agrega cerca de 7 milhões de adeptos.

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OLIVEIRA, Paulo César Silva de. Trânsitos interatlânticos: The Viceroy of Ouidah, de Bruce Chatwin, em múltiplas leituras. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 188-207.

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203 vezes uma tarefa complicada, visto que isso significa apagar a pluralidade das memórias da escravidão” (Nossa tradução).8

Quanto a isso, o primeiro capítulo de O vice-rei de Uidá é primoroso em estabelecer a ficcionalização dessas memórias plurais, conforme as seguintes passagens: “As vidas dos Da Silva mais velhos eram vazias e tristes. Sentiam saudades do tempo do Tráfico dos Escravos e referiam-se a ele como a Idade do Ouro, para sempre perdida. Nessa época, a família era rica, famosa e branca”

(CHATWIN, 1987, p. 15); “Os nomes dos pratos brasileiros estavam na boca de todo mundo: xinxim de galinha, vatapá, sarapatel, muqueca, molokoto”

(CHATWIN, 1987, p. 29); “luzes suaves eram vistas ao longo da trilha que conduzia à praia, na qual dom Francisco desembarcara e de onde a palavra

“Vudu” empreendeu sua viagem em direção às Américas” (CHATWIN, 1987, p.

23).

A reunião por conta do aniversário de 117 anos da morte do patriarca ilustre é marcada por revelações, disputas, ironias, revelando a multiplicidade do clã e suas diferenças sociais, econômicas, políticas e ideológicas. O encontro é também o momento de relembrar os tempos de opulência, mas, principalmente de lamentar a perda de prestígio e da riqueza da outrora opulenta família. Se pode ser lido como biografia ficcional, por um lado, O vice- rei de Uidá é também um romance da decadência, por outro.

Já encaminhando as considerações finais, observamos que a opção pela ficção justifica a rarefação dos dados históricos na construção romanesca de Chatwin, desafiando o leitor a questionarem os percursos da memória e os trânsitos narrativos que desmistificam a história ao mesmo tempo em que a tomam como essencial ao discurso.

BRUCE CHATWIN: HISTÓRIA, MEMÓRIA, TRÂNSITOS

Como vimos, se as relações históricas que circundaram a biografia de Francisco Félix de Souza motivaram estudiosos de diversas áreas, as pesquisas sobre a memória e a herança que movimentam a recente patrimonialização da figura do Chachá de Ouidah nos estimulam a repensar a importância da ficção pioneira de Bruce Chatwin sobre aquela região do Atlântico e seus impactos em nossa formação sociocultural. As questões propostas por Chatwin serviram para que problematizássemos, em nosso pensamento social, o papel da escravização.

A ficção pioneira do inglês abriu caminhos para obras posteriores, a se

8 No original, em inglês: “conceiving a common Brazilian memory is sometimes a complicated task because it means erasing the plurality of the memories of slavery”.

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OLIVEIRA, Paulo César Silva de. Trânsitos interatlânticos: The Viceroy of Ouidah, de Bruce Chatwin, em múltiplas leituras. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 188-207.

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204 destacarem, nesta breve conclusão, a prosa de Miguel Real, em O último negreiro (2006) e a de Eliana Alves Cruz, em Água de barrela (2018). Não analisaremos estas duas obras, mas acentuaremos seu projeto de recriar literariamente o período marcado pelo tráfico de humanos e que teve em De Souza uma figura central.

Em O último negreiro, Real se concentra nos anos de formação de Francisco Félix de Souza. À diferença de Chatwin, Real não altera o nome das personagens, a não ser por um “Sousa”, diferenciado dos historiadores consultados pela grafia “Souza”. Real inclui uma pequena “Tábua de Personagens”, paratexto que antecede o romance; e uma “Bibliografia”, ao final, um tanto incomum em obras de ficção, mas que tem a função de guiar o leitor quanto às fontes recriadas ficcionalmente pelo romancista. Curiosamente, Chatwin não é referido nesta bibliografia, embora na quarta capa afirme-se que De Souza “criou um clã imortalizado por Bruce Chatwin em O vice-rei de Ajudá

(REAL, 2006, contracapa). À maneira de Chatwin, o escritor português mescla personagens ficcionais (como Mário Marinho Marinhas, banqueiro e negreiro) e outros de seu romance anterior, A voz da Terra – Júlio Telles Fernandes, o Julinho; Florentino, antigo escravo de Julinho; Samuel Dias, enteado de Julinho e filho de Violante Dias, que também ressurge em O último negreiro etc.

(REAL, 2007a). A trama de A voz da Terra quase coincide com nascimento de Francisco Félix, já que o centro dessa narrativa gira em torno do terremoto de Lisboa, ocorrido em 1755.

Quanto a De Souza, Real ficcionaliza as tramas comerciais, as de poderosos da igreja e dos governos português e brasileiro, em meio a magistrados e banqueiros. A parte africana recobre cerca de 120 das 390 páginas do romance concentrado nos processos que levariam De Souza ao Ajudá, para onde, segundo Real (2007, p. 250), De Souza rumaria em busca “da paz que procurava”. Em meio aos eventos que marcaram a Bahia da época, como a Revolta dos Alfaiates (que exigia a abolição da escravização e independência frente ao domínio português), De Souza perfaz sua viagem sem retorno. Adaptado, jamais deixou de ser brasileiro (REAL, 2007, p. 393); tido como benfeitor, notabilizou-se e criou fortuna pela “exploração econômica do corpo dos escravos” (REAL, 2007, p. 393). Ostentou seu portuguesismo, viu nascer a Independência do Brasil e talvez tenha mesmo acreditado que sua vida foi célebre por resgatar do demônio os corpos africanos que escravizou e pelo sentido civilizacional que acreditava ter sido o mote de sua vida. Ao final, porém, Real não condescende: “Continente eternamente sem perdão, a Europa sugou de África 13 milhões de escravos, transplantando-os para a América, substitutos em trabalho forçado dos 15 milhões de índios que nesse continente matou” (REAL, 2007, p. 396).

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OLIVEIRA, Paulo César Silva de. Trânsitos interatlânticos: The Viceroy of Ouidah, de Bruce Chatwin, em múltiplas leituras. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 188-207.

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205 Em Água de barrela, romance lançado em 2016, Eliana Alves Cruz (2018) resgata o percurso de uma tragédia histórica que toma por base os horrores históricos em que “o tráfico de escravos da África para o Brasil já estava proibido, mas quem é que cumpria a lei?” (CRUZ, 2018, p. 19). A trajetória de Akin, Gowon, Ewà Oluwa e Umbelina e seus sucessores tem como ponto de partida a memória familiar da autora/narradora que, ao final do romance, em

“Sobre como este livro aconteceu”, revela sua fonte: as memórias difusas de Tia Anolina (tia Nunu), aprisionada nas lembranças dos anos 1920 a 1940. Assim com Chatwin, Eliana ficcionaliza as lembranças de uma personagem cujas memórias são rarefeitas. Em Cruz (2018, p. 309), os dados obtidos de sua tia

“conferiam com registros históricos, com a descrição dos locais, com informações de residentes e amigos que são competentes pesquisadores”. A pesquisa de Cruz resulta em uma ficcionalização sobre as mulheres fortes de uma família cuja ancestralidade remete à região onde Francisco Félix de Souza estabeleceu seu comércio de almas.

Com os exemplos de Real (2007a) e Cruz (2018), finalizamos essa pequena incursão na obra pioneira de Chatwin, afirmando o papel da literatura como arquivo da memória e da história. Futuramente, os romances de Real e Cruz renderão reflexões que têm em Chatwin um dos primeiros e fundamentais documentos literários sobre a trágica experiência colonial. Essas obras ganham em relevo quando lemos em Pierre Verger (2021, p. 31-32) que “grande parte dos documentos sobre a questão dos escravos e do tráfico foi destruída no Brasil em 1891, após a abolição da escravatura”. As duas explicações mais prováveis para isso seriam a de que a República queria apagar a lembrança e os traços da escravidão no país ou que tal ato se deveu à ameaça dos antigos proprietários de escravos exigirem reparação financeira, à maneira do que aconteceu nas colônias francesas e inglesas.

Sem entrar, por agora, no mérito dessas versões, apontaremos o discurso literário como porto seguro para as mais diversas versões acerca dos acontecimentos passados. O romance pioneiro de Chatwin não somente provoca as versões oficiais, como também reelabora a visão aristotélica de que a arte está mais próxima da filosofia do que a história, pois não somente o evento, mas também as possibilidades que rondam os acontecimentos tornam-se objetos da representação, o que a faz lugar de passagem e trânsito dos saberes.

REFERÊNCIAS

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PAULO CESAR SILVA DE OLIVEIRA é mestre em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1993) e doutor em Letras (Ciência da Literatura) pela mesma instituição (2001), com pós-doutorado pela Universidade Federal Fluminense (2016). Atualmente é professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), atuando como professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Letras e Linguística (PPLIN), na linha de pesquisa Literatura, Teoria e História. É Bolsista de Produtividade em Pesquisa pelo CNPq e Bolsista do PROCIÊNCIA (FAPERJ). Publicou os livros Poética da distensão (Muiraquitã, 2010) e, em parceria com Lucia Helena, Uma literatura inquieta (2016), dentre outros, além de dezenas de artigos em revistas e várias obras organizadas.

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