Na visão de Levinas, o rosto constitui uma categoria chave para pensar e refletir sobre a ética da alteridade. Para ele, o rosto constitui uma categoria chave para pensar e refletir sobre a ética da alteridade.
Levinas influenciado pela fenomenologia de Husserl e pela ontologia de
Levinas, que tenta ir além de seus mestres, apresenta em sua análise filosófica em que o sentido da relação com o outro se constitui na revelação do rosto como relação ética. A busca filosófica primordial na perspectiva de Levinas consiste em situar o “lugar” no âmbito do pensamento como seu ponto de partida na epifania do rosto.
Da ontologia à ética como filosofia primeira
Neste caso, todo o esforço da filosofia consiste em compreender o significado da relação com o outro, como original e fundamento de toda relação com o ser. Portanto, a relação com o outro se dá face a face, como abertura que possibilita pensar a alteridade e a transcendência.
Por uma ética do infinito
Porém, na concepção de Levinas, a palavra Deus deve ser considerada para além do problema de sua existência ou inexistência (cf. LEVINAS, 2008, p.11). Dessa forma, ele inverte os pólos do campo filosófico ocidental, passando de uma ontologia para pensar a ética como filosofia primeira.
Filosofia inédita: articulação entre ética e religião
Nesse sentido, escreve: “Propomos que o vínculo estabelecido entre o Mesmo e o Outro se chame religião, sem constituir uma totalidade” (LEVINAS, 1980, p.28). Trata-se do desejo infinito que se concretiza em relação ao outro, na alteridade.
A filosofia da alteridade levinasiana
Alteridade como desejo
Dessa forma, o desejo humano pelo infinito se realiza através da abertura metafísica em busca da alteridade. Portanto, surge uma questão quanto à perspectiva da filosofia da alteridade de Levinas: ela não se torna também uma abstração de natureza universalista, como qualquer outra categoria metafísica.
Alteridade como rosto
Segundo Levinas, a entrada do outro em minha existência se dá pela abertura metafísica da relação, especialmente pelo outro que sofre e que traz uma interpelação. Isto significa que as circunstâncias dos outros me afetam, desafiam-me e, acima de tudo, responsabilizam-me. É uma tarefa que vem de fora, sem consultar o desejo de recebê-la ou não e para a qual não exerço nenhum controle ou poder.
Portanto, no acolhimento e na revelação do outro no seu rosto, que existe sempre como expressão histórica, nenhuma abstração se torna possível. Portanto, o outro que me desafia não é uma categoria transcendental, mas um rosto que me machuca e me chama à compaixão e à responsabilidade. Ao propor uma interpelação ética do rosto do outro como primeira instância e como base e significado de toda liberdade, Levinas questiona os conceitos de uma cultura baseada no eu natural.
A epifania do rosto como responsabilidade e linguagem
Pelo contrário, do rosto sai a “palavra” que sai da boca do outro, como se ele estivesse dando uma ordem: não me mate. Portanto, a palavra ética na filosofia levinasiana assume um significado inédito, causado pela revelação do rosto que. É através da revelação do rosto do outro que se fortalece a relação entre responsabilidade e justiça, pois o eu deve tudo ao outro e torna-se responsável pelo outro antes mesmo de ser livre.
A vulnerabilidade do rosto do outro aparece-nos como indefeso e sujeito a olhares, discriminação, preconceito, exclusão e risco de ser assassinado. A responsabilidade que vem do rosto, que é da ordem da nudez e da santidade, aumenta o cuidado com o outro, assim como o cuidado vem do rosto que se eleva na sua dimensão fecunda, que é propícia ao surgimento e ao pleno desenvolvimento da o outro. Segundo Levinas, a relação com o rosto situa o acontecimento da justiça, que só é alcançado quando o terceiro a move, o que acontece com o aparecimento do rosto.
O itinerário da ética como filosofia primeira
Saindo da malha da ontologia
Dessa forma, fica claro que seu interesse está direcionado para o estar em perspectiva de existência. Para Heidegger, a relação estabelecida entre o homem e o ser se estabelece como a própria condição de existência do homem. Portanto, o sentido da existência como transcendência existe na compreensão do sentido do ser como verbo.
Para Levinas, a concepção de existência de Heidegger é uma espécie de “poder”, pois para ele a existência consiste em poder ser. Sem a transitividade para a morte, a filosofia da existência teria inevitavelmente retornado a uma filosofia do pensamento” (LEVINAS, 1997, p.127). A transcendência da existência é lançada após a morte, pois a existência após a morte na sua possibilidade excepcional é a possibilidade da impossibilidade do Dasein (cf. RIBEIRO, 2015, p.36).
A subjetividade: rosto e sensibilidade
Os fenômenos não são de ordem tematizada, pois surgem da experiência de mundo do sujeito. Na concepção de Heidegger, o homem é Dasein, ou seja, um ser lançado no mundo ou que nele vive. O ser-no-mundo provoca uma abertura da subjetividade no sentido heideggeriano, uma vez que o Dasein constitui o espaço fundamental no qual o ser se manifesta.
Na filosofia heideggeriana, o Dasein que se compreende nada mais é do que aquele que descobre os instrumentos no mundo (cf. LEVINAS, 1997, p.88). O Dasein entende sua existência como uma possibilidade projetada em uma disposição afetiva em que sua queda no mundo dos objetos já está delineada. O Dasein preocupa-se com a sua finitude, a partir de uma existência autêntica como compreensão de si mesmo e de suas possibilidades no mundo.
A subjetividade: ética da responsabilidade por outrem
O outro não está próximo no sentido de proximidade física, isto é, no sentido de espaço ou no sentido de parentesco, mas como responsabilidade pelo outro. A responsabilidade pelo outro independe da outra parte, ou seja, um assume a responsabilidade sem esperar retribuição do outro. A subjetividade surge como uma espécie de refém, de modo que diz que “sou responsável pela perseguição que sofro”, ou seja, ser substituído por outro.
Nosso filósofo parece apontar em outra direção, isto é, para uma dimensão diferente daquela estabelecida pela ontologia. “Outro ser” não possui propriamente verbo para denotar o acontecimento de sua inquietação, de seu desinteresse, da acusação deste ser – ou daquele – ser (LEVINAS, 2013, p. 83). Neste caso, trata-se da identidade do eu da pessoa, que se confirma pela responsabilidade, ou seja, “da posição do eu soberano na autoconsciência, que é justamente a sua responsabilidade pelos outros”.
Rosto como linguagem ética que responsabiliza pelo outro
Rosto como ética do infinito
A concepção de metafísica de Levinas baseia-se na face do outro como manifestação do infinito. Trata-se de abrir mão da definição e do cativeiro do ser, para abrir-se à dimensão transcendente, através da interpelação do rosto do outro, provocada pelo aparecimento do sujeito. Quando o infinito é pensado no rosto, torna-se impossível ao sujeito trabalhar a redução do rosto à intencionalidade da consciência, ou seja, na medida em que o sujeito se adequa a determinado conteúdo ou a determinado conceito.
Transcendendo o pensamento do rosto como absolutamente outro, o infinito introduz a dimensão da altura, isto é, da santidade. Neste caso, evitando a sensibilidade fecunda do mesmo, estabelecer-se como subjetividade na abertura da alteridade do rosto. O trauma causado pela imensidão da face não se limita à subjetividade, mas é proclamado como cuidado, ou seja, um acontecimento ético.
Desejo como responsabilidade ética pelo rosto do outro
O desejo se constitui como um bem ou transferência para o outro e isso acontece quando é dada prioridade ao outro em vez de si mesmo, ou seja, o cuidado com o outro, que é o bem ético. Portanto, o desejo não pertence ao domínio da necessidade, pois escapa à satisfação do sujeito. Na análise de Levinas, é o desejo que escava sinais de bondade e inocência nos interstícios da subjetividade, num movimento que brota do bem e leva à aceitação do outro.
É a primeira palavra na cara que deve ser ouvida como linguagem ética e deve ser respondida com a prática da justiça (cf. RIBEIRO, 2015, p.78). O desejo não afeta a posse, pois o outro não se dá à compreensão, mas à justiça. O sujeito é guiado pelo desejo do outro de uma relação livre e benevolente, que se realiza na subjetividade como responsabilidade.
A primazia da responsabilidade pelo rosto do outro
A liberdade como autonomia do sujeito abrange a gentileza e a gratuidade que advém da diferença do rosto do outro. A subjetividade do sujeito se constitui numa ipseidade ética, que se tece na aceitação do rosto como diferença. A aceitação do outro aberto no interior do sujeito revela a rejeição da alteridade das posses do sujeito.
Trata-se de compreender a subjetividade a partir da responsabilidade pelo outro e não compreendê-la apenas de acordo com as necessidades e escolhas do sujeito. O outro coloca o sujeito no caminho do bem que se estabelece como uma espécie de transição da subjetividade de si para a alteridade do outro. Estabelece-se, assim, a prioridade da responsabilidade diante do outro, superando o princípio da autonomia do sujeito consolidado na filosofia ocidental.
Separação, verdade e justiça
Noção de separação
O “outro que não é o mesmo” dá assim origem à noção de diferença e, por sua vez, causa-a. Esta interioridade não se deixa revelar, mas resiste à totalização, razão pela qual a filosofia de Levinas forma a noção de singularidade. Portanto, pode-se concluir que na análise de Levinas a noção de separação é mais importante no que diz respeito à questão da ética.
Nesse caso, a separação entre o mesmo e o outro constitui um ponto de partida, no qual se coloca a ideia de separação como noção de totalidade. Dessa forma, o conceito de separação permite conceber “a relação entre o Mesmo e o Outro” como uma “ideia de infinito” ou “face a face” (LEVINAS, 1980, p.48). O conceito de infinito foi emprestado da filosofia cartesiana e tornou-se a chave para a compreensão da filosofia levinasiana da alteridade.
Verdade e justiça
Primazia da justiça sobre a verdade
Quando a noção de verdade é definida como adequação, fica claro que ela não se refere ao rosto, pois “excede o pensamento em um sentido completamente diferente da opinião” (LEVINAS, 1980, p.13). Uma nova forma de conceber a verdade em que a relação estabelecida entre o mesmo e o outro não se configura na ordem do conhecimento. A ontologia que reduz o Outro ao mesmo, promove a liberdade que é a identificação do mesmo, que não se deixa alienar do Outro (LEVINAS, 1980. p.30).
Assim, surge uma espécie de tensão na relação entre o mesmo e o outro, semelhante àquela entre teoria e prática. Carrega um significado essencial no sentido de separação e externalidade como forma de relacionamento, para que o mesmo e o outro não constituam um sistema. Mas o mesmo e o outro, pelo contrário, permanecendo separados em relação, não constituem uma identidade ontológica.
Noção de verdade
Segundo a visão levinasiana, não é possível através do simples conhecimento ou da teoria aceitar o rosto do outro, pois o rosto é externo, ou seja, a alteridade do outro (cf. LEVINAS, 1980, p.270). Na visão de Levinas, não é concebível pensar o outro a partir da verdade objetiva, mas pelo contrário ele percebe a verdade a partir do outro, isto é, a partir da face do outro. Portanto, o que determina a concepção de verdade de Lévinas é a característica do outro, da alteridade do rosto, ou seja, o rosto ou o infinito possibilitará a recepção do outro como absolutamente outro.
Assim, a verdade ética se constitui ao acolher o outro face a face ou face a face na fala. A condição de verdade e falácia teórica é a palavra do Outro - sua expressão - que já pressupõe qualquer mensagem [...] A relação com o Outro no Discurso é uma relação não alérgica, uma relação ética, mas o discurso que recebeu é um ensinamento. Em que não é possível receber nada que venha de fora, ou seja, de terceiros.
A chegada do terceiro reclama por justiça
Noção de justiça na filosofia da alteridade de Emmanuel Levinas
E esse esquecimento da face do outro como diferença, na concepção de Levinas, causou exclusão social. Dessa forma, o conceito de face do outro ou diferença aparece como conceito-chave no pensamento filosófico de Levinas. Por isso achamos importante partir da epifania do rosto do outro para desenvolver o caminho que percorremos na nossa dissertação.
Iremos esclarecer alguns aspectos do conceito de rosto, ou seja, a diferença do rosto do outro e a responsabilidade pelo outro. Na filosofia de Levinas, o rosto deve ser considerado como diferença, e a responsabilidade pelo rosto do outro como ética, e assim se alcança o conceito de justiça. A expressão no rosto do outro provoca esse despertar do egoísmo para uma dimensão ética nas situações vulneráveis do cotidiano.