Surge então “o desaparecimento estratégico do narrador, disfarçado numa terceira pessoa confundida com a primeira. Nesse sentido, supera-se a expectativa criada pelas análises feitas nos contos da escritora, pois o discurso introduzido em seus textos simultaneamente desconcerta o leitor. Então, até certo ponto, o leitor pode se desviar da história pelo fato de os personagens de Lygia apresentarem digressões muito próximas da vida real.
Assim, partindo do pressuposto de que Lygia Fagundes Telles tem como referência literária, entre tantos escritores, o contista americano Edgar Alan Poe, seria natural ou aparente que ela o procurasse para desenvolver suas histórias, os temas do perspectiva de tensão são ambas as abordagens. Além disso, entrar no universo das personagens lígias, principalmente femininas, torna-se um desafio pelo fato de que “tudo em sua obra é espinhoso e difícil de especificar” (GALVÃO considerando que as histórias da escritora dão voz a diferentes mulheres.
O conto segundo Lygia Fagundes Telles
O conto e suas peculiaridades
A palavra "leitor" geralmente denota um círculo bastante mal definido de pessoas, do qual o próprio escritor muitas vezes não tem consciência exata. Posto isso, é importante ressaltar que por ser o conto uma história concisa, ele foi estudado sob a ótica da estrutura e das partes que compõem o enredo, pois por terem tipos diferentes, seu conteúdo basicamente também é diferente . . O conto geralmente é considerado curto, pois é uma das peculiaridades recorrentes desse gênero, portanto, sua brevidade é menor do que a de um romance.
O motivo de tecermos aqui informações sobre o gênero vai ao encontro do que o escritor argentino defende claramente de que a complexidade de colocar em prática, materializar os elementos de uma história e traduzi-los para o papel não é tarefa fácil. Dessa forma, mesmo em dimensões e profundidade menores que um romance, o conto possui articulações igualmente complexas, somando-se a necessidade de o autor buscar uma brevidade para adequar o texto.
Bakhtin e os três elementos
Não pelo tema em si, mas pela dificuldade de materializar o que é dito pelo tratamento que o autor se dispõe a dar à sua criação. E é na interação entre os personagens propostos no conto de fadas que se dá o processo de vivenciar as “verdades” de cada personagem de acordo com os objetivos que o autor pretende alcançar. Além disso, a construção composicional varia de uma história para outra, pois quando os escritores a constroem, deve-se levar em conta um conjunto de fatores em que os textos são criados, como contexto histórico, condições de produção, etc.
Ou seja, antes da história principal, outros se apresentaram para fazer o encaixe, o entrelaçamento de ideias organizadas em direção ao desfecho e, consequentemente, ao entendimento da história. Na verdade, os três elementos estão interligados, pois quando se trata de temática na perspectiva de Bakhtin, o tema (conteúdo temático) é sempre o que o texto diz, mas dentro de um contexto de produção. Por exemplo, o formato de um poema, uma crônica, um conto é variável, ou seja, não é padrão.
Quando lemos uma história que começa assim: "Era uma vez um leão adormecido, quando um ratinho começou a andar em suas costas...". Dessa forma, o contexto da produção, por exemplo, está diretamente relacionado ao conteúdo temático, como explica Bakhtin: que o autor utilize elementos textuais, escolhas lexicais, seleção do momento em que a história se passa, para enquadrar a produção . Ampliando o conceito, ele nos alerta que "o artista usa a palavra para trabalhar o mundo e para isso a palavra deve ser transcendida de forma imanente, para se tornar uma expressão do mundo dos outros e uma expressão da relação de um autor com este mundo." (BAKHTIN, 2010, p. 209), ou seja, o contexto e a consciência do autor sobre esse contexto.
Outro elemento estabelecido no gênero do conto é o tema, que geralmente é a ideia principal em torno da qual a história se desenrola; pode ser reconhecido em, por exemplo, o título. Nesse caso, a distinção entre dois elementos do gênero é que o conteúdo temático é o que é dito no texto. A loucura é o tema, mas ao invés de chamar a história de "A Loucura", cria-se uma metáfora que se torna símbolo graças à construção verbal.
A junção dos Fragmentos de um discurso amoroso aos contos de Lygia
Nesse sentido, a fusão de fragmentos aqui realizada se baseia na metáfora da “colcha de retalhos”, mas não no sentido de sobras, de aproveitamento do que poderia ser jogado fora, mas sim na ideia de absorver os fragmentos de outros autores que Barthes utilizou em sua obra e agregá-los à análise dos contos "Pomba Enamorada ou Uma História de Amor" e "A Confissão de Leontina" com o objetivo de criar uma unidade de sentidos para os textos. Também serão analisados dois contos de Lygia Fagundes Telles: “Pomba Enamorada ou Uma História de Amor” (1977) e “A Confissão de Leontina” (1991). Mas o que temos originalmente é que a história começa com o evento, o próprio ato: um homem convida uma mulher para dançar; e uma sequência de ações é estabelecida a partir deste segmento.
No caso do conto “Pomba Enamorada ou Uma História de Amor”, os espaços variam de local para local. As indicações que se tem em relação ao tempo neste conto são subjetivas, ou seja, não há informações concretas sobre quando a história se passa. Outra informação relacionada ao tempo encontrada na narrativa é que o homem inventou um jantar para antecipar a comemoração do aniversário dela.
Assim, a expectativa criada em torno desse personagem de ter alguma alegria em sua trajetória final é superada. Por outro lado, e conjugado com o verbete “irrealidade” em FDA, há uma loucura impregnada em Pomba Enamorada que se concretiza à medida que ela se distancia da sua própria realidade, ou seja, a sua vida é estabelecida em função do seu pretendente O que se pode entender nesse sentido é que a questão da divisão das partes da trama não se encontra no PE de forma segmentada, pelo fato de sua estrutura textual inicialmente ter a função de prender, de manter a atenção do leitor atenção procurando o que vai acontecer a seguir.
Outra entrada incluída no FDA é "indução", que se refere à amizade entre a assistente do cabeleireiro e Ron. O sentimento de amor que se materializa na história “A Confissão de Leontina” aparece de forma intimista, de forma menos avassaladora, tendo em vista que os episódios vividos pela protagonista são narrados por ela aos poucos, então há todo um leque de informações, de elementos adicionais antes da divulgação final. Quanto às qualidades visíveis da personagem, o texto diz-nos que se trata de uma jovem, “a pele era clara.
Ou seja, a partir da explicação dada e da contribuição assertiva de Roland Barthes, pode-se supor que na personagem há um transbordamento do sentimento de amor diluído em sua essência, que se materializa na forma de resignação, de resiliência. A compaixão do personagem pode ser ligada ao FDA em "compaixão", pelo fato de que "independente da força do amor, isso não acontece: eu me emociono, desespero, porque é terrível ver as pessoas que você ama sofrer, mas ao mesmo tempo permaneço seco, impenetrável". E é aí que se percebe o movimento da construção textual, a partir da qual sua confissão, no decorrer da história, emerge através das descobertas que vão sendo trazidas à tona, deixando ao leitor a busca pelo resultado.
Por fim, Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes, aproximou os dois personagens para trabalhar questões de comportamento sentimental.
Análise de A Confissão de Leontina: a prisão de si mesmo em um amor
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao analisar os contos, podemos chegar a duas conclusões relacionadas aos dois teóricos mobilizados para a análise dos contos: Mikhail Bakhtin, que contribui no nível dos três elementos indissociáveis do gênero discursivo, no qual categoriza como conteúdo temático , construção composicional e estilo; e Roland Barthes que, por meio de sua obra Fragmentos de um Discurso Amoroso, apresenta verbetes relacionados ao sujeito apaixonado, cujas questões servem de suporte na inclusão das ações dos personagens. A primeira conclusão estende-se ao modo como Lygia Fagundes escreve, como realiza sua obra. A construção composicional dos textos lígios não apenas apresenta um narrador que se afasta ou se aproxima da narrativa, mas também comenta ações externas ou adivinha os pensamentos dos personagens.
Nos dois textos apresentados, houve um súbito passar do tempo, há também o narrador que se confunde com o personagem em uma linha tênue separada por aspas, fonte frequentemente utilizada pelo autor, além da diferença para o surpreender o leitor. com a revelação final da trama. O que se deduz do conteúdo temático dos dois contos lígios analisados é que o sentimento de amor é trazido e oferecido pelos dois protagonistas, mas não devolvido na mesma proporção, ou melhor, sem proporção. 67 ou Uma História de Amor” rejeita o amor do cabeleireiro, foge dele, não acalenta nenhuma possibilidade de projetar nesse sentimento uma possível história de amor.
No conto “Pomba Enamorada ou Uma História de Amor” Lygia torna o texto compreensível, recorrendo a fontes de ficção, sem deixar de ser credível que ao ler subconscientemente se possa perceber que se pode tratar de uma história de alguém próximo. E as falas amorosas desenvolvidas por Barthes combinam e ampliam os aspectos psicológicos da protagonista, pois ela tem vida própria a julgar pelas palavras de Lygia Fagundes que Telles disse no programa de entrevistas Roda Vida da TV Cultura (1996) ao mencionar que "Os escritores dão até certo ponto liberdade às suas criaturas, porque os personagens, como nós, criam força e, portanto, querem assumir seu destino, sua direção." Ou seja, adquirindo uma vida, a Pomba Enamorada decide desempenhar o papel de sujeito amoroso, de maneira que se aproxima das submissões descritas no FDA. No caso de “Pomba Enamorada ou Uma História de Amor”, a personagem se projeta em um amor apaixonado, apaixonado, louco e prova por esse viés que por estar cegamente apaixonada por Antenor, poderia provocar a loucura em nome do saudade insana que eu tinha dele.
Assim Lygia Fagundes Telles escolhe, como escritora, descrever os sentimentos humanos ocultos que nos habitam. Entre as duas personagens analisadas, Lygia Fagundes Telles prova que, mesmo sob o pretexto da simplicidade, uma mulher poderia enfrentar todos os obstáculos que encontrasse na tentativa de conquistar o amor; o outro mata um homem em legítima defesa, mesmo tendo que pagar o preço pelo que cometeu. E Lygia Fagundes Telles nos ensina a alimentar o outro em sua mais transparente condição humana em sua forma de texto, para justificar as ações dos personagens.