PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM LITERATURA, MEMÓRIA CULTURAL E SOCIEDADE
ALCINÉA SIQUEIRA DE SOUZA FREITAS
MARIO QUINTANA E O ARQUÉTIPO DE POETA
Campos dos Goytacazes/RJ
2008
ALCINÉA SIQUEIRA DE SOUZA FREITAS
MARIO QUINTANA E O ARQUÉTIPO DE POETA
Monografia apresentada ao Centro Federal de Educação Tecnológica de Campos como requisito parcial para a conclusão do curso de Pós-Graduação em Literatura, Memória Cultural e Sociedade.
Orientador: Profª.: Ms. Sandra Venancio Kezen Buchaul
Co-orientadora: Terapeuta: Ms. Andréa Hamminni Ávila Franqueto
Campos dos Goytacazes/RJ 2008
ALCINÉA SIQUEIRA DE SOUZA FREITAS
MARIO QUINTANA E O ARQUÉTIPO DE POETA
Monografia apresentada ao Centro Federal de Educação Tecnológica de Campos como requisito parcial para a conclusão do curso de Pós-Graduação em Literatura, Memória Cultural e Sociedade.
Aprovada em 25 de agosto de 2008.
Banca Avaliadora:
...
Profª Sandra Venancio Kezen Buchaul (orientadora) Mestre em Cognição e Linguagem - UENF Centro Federal de Educação Tecnológica de Campos
...
Profª Vania Cristina Alexandrino Bernardo Doutora em Literatura Comparada – UFF
Centro Federal de Educação Tecnológica de Campos
...
Profª Aída Maria Jorge Ribeiro Mestre em Letras - UFF
Centro Federal de Educação Tecnológica de Campos
AGRADECIMENTOS
Ao meu Deus, que me sustentou em todo o curso, concedendo-me sabedoria e graça.
Ao meu marido, que me apoiou.
Aos meus pais que acreditaram em mim desde a minha infância e investiram na minha educação.
A minha irmã Aldicéa que é minha companheira e deu suporte à minha casa durante minha ausência.
À profª. Sandra Kezen e a terapeuta Andréa Franquetto, que me orientaram com esmero e competência. Às professoras Vania Bernardo e Aída Maria Jorge Ribeiro por terem aceitado participar da minha banca.
“Das utopias Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora A mágica presença das estrelas!”
(Mario Quintana)
A minha dedicada e singela amiga e terapeuta Andréa e a meu filho, Iago, motivo e razão de minha existência.
RESUMO
A arte poética do poeta Mario Quintana enquanto manifestação de padrões específicos e gerais pertencentes à humanidade em suas características arquetípicas, ou seja, padrões da humanidade. O construir de uma linguagem poética compreensível por abarcar temas universais e ser símbolo do humano em suas relações cotidianas. O diferencial de assimilação do poeta em relação aos outros homens; ou seja, seu olhar, seu sentir e a capacidade de traduzir em imagem as emoções e sentimentos nos quais há tantas identificações. O porquê deste aspecto da arte que democratiza emoções, que promove o encontro dos seres numa mesma sensação.
Palavras-chave: Linguagem. Poeta. Arquétipo. Imagem. Símbolo.
ABSTRACT
The poetic art of Mario Quintana while manifestation of general specific patterns belonging to mankind in its archetypal characteristics, or rather, patterns of humanity.
The building of a poetical language which is understandable for embracing universal themes and for being a symbol of what is human in day-to-day life. The difference of the poet´s assimilation in relation to other men; or rather, his look, his feeling and the capacity of translating into images the emotions and feelings in which there are so many identifications. The reason for this aspect of art which democratizes emotions, which promotes the gathering of beings in the same sensation.
Key words: Language. Poet. Archetype. Image. Symbol.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO... 10
I – O CONCEITO DE ARQUÉTIPO ... 16
II –VIDA E OBRA DE MARIO DE MIRANDA QUINTANA... 25
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 46
REFERÊNCIAS... 51
ANEXOS... 54
ANEXO A: O VELHO DO ESPELHO... 54
ANEXO B: AS MÃOS DE MEU PAI ... 54
ANEXO C: AULA INAUGURAL... 55
ANEXO D: POEMA ... 56
ANEXO E
:
JOGOS PUERIS ... 56ANEXO F: QUANDO EU MORRER... 57
ANEXO G:AH, SIM, A VELHA POESIA... ... 58
ANEXO H: O MAPA... 59
ANEXO I: SE EU FOSSE UM PADRE ... 60
ANEXO J: AH! OS RELÓGIOS ... 61
ANEXO L: CONFESSIONAL... 61
ANEXO M: XII ... 62
ANEXO N: CANÇÃO DE BARCO E DE OLVIDO ... 63
ANEXO O: CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO... 63
ANEXO P: CRIPTA ... 64
ANEXO Q: O AUTO-RETRATO... 65
ANEXO R: PEQUENA CRÔNICA POLICIAL... 65
ANEXO S: AS BELAS, AS PERFEITAS MÁSCARAS ... 66
ANEXO T: CANÇÃO DA NOITE ALTA... 67
INTRODUÇÃO
O poeta moderno Mario Quintana era embevecido pelo cotidiano, as imagens do prosaico dia-a-dia eram sua companhia e seu motivo poético mais recorrente, segundo seu amigo, o professor e escritor Armindo Trevisan, em trecho do DVD Quintana Anjo poeta (PERIN, 2006), Quintana faz poesia porque tem necessidade de criar, ela nasce dele, e, assim sendo, ele é capaz de vivenciar as mínimas coisas e delas retirar poesia,
sendo esta uma ligação com a realidade, com a vida e até mesmo com a sua vida pessoal.
O poeta de temática variada desconcerta o leitor ao utilizar imagens que não se enquadram em uma apreensão racional, por pertencerem a um universo onírico, como cita a professora e escritora Gilda Neves da Silva Bittencourt, em prefácio do livro Canções: “Quintana faz a transferência direta de estados oníricos para a linguagem, desconcerta o leitor, que se vê desarmado e incapaz de uma apreensão racional do significado” (QUINTANA, 2005 e, p.20). Nesse universo temático, se enquadra o tema da morte como a passagem para uma dimensão melhor, sem qualquer conotação lúgubre ou pesarosa. Outro elemento de sua temática é a recorrência à infância, conforme analisa o psiquiatra e escritor Celso Gutfreind (PERIN, 2006) são freqüentes as imagens do menino, da menina, a casa da infância, as tias; e é por sempre trabalhar estes temas com humor, que consegue passar a idéia tão profunda e verdadeira de que a infância é passado e presente. Ele nos transmite a criança que fomos e que nunca deixou de existir, fala de uma infância que não está morta e enterrada, mas, ao contrário, é dinâmica e nos acompanha por toda vida. Quintana cria um mundo artificial, como disse o professor e escritor Donaldo Schüler:
A arte é brinquedo e talvez o essencial em nossa existência é justamente sabermos brincar com as coisas e isto é importante na vida, na literatura de Mario Quintana; esse brincar com as palavras. É um homem que brinca com as palavras e na medida que brinca ele inventa.
(PERIN, 2006).
Quintana mantém uma alma pueril e se manifesta num tom confessional, como é próprio do poeta lírico, ele faz uso das formas verbais em primeira pessoa e dos pronomes pessoais. Como diz o próprio poeta em entrevista (BINS,1984) “nunca escrevi uma vírgula que não fosse confessional”. Armindo Trevisan, em prefácio do livro Sapato Florido (QUINTANA, 2005 b, p.15), afirma que “Quintana tematiza as coisas líricas da existência cotidiana. O seu mundo é pré-tecnológico, o mundo anterior à eletrônica e à informática, o universo das cidades em vias de metropolizarem-se” e de acordo com o crítico, ensaísta e contista pernambucano Cunha (2005, p.09), ele “possui uma aparente simplicidade formal, encoberta por uma extraordinária riqueza de recursos poéticos, de sutilezas verbais, de soluções rímicas e rítmicas”.
O poeta Quintana (PERIN, 2006) nos revela que “a poesia é uma maneira de falar sozinho... o comum das gentes raciocina por associações de idéias, e o poeta, por associações de imagens”. Essas imagens que passam por nossas retinas e levam o ser comum a pensar, a questionar, são acessadas de forma diferente pelo ser poético, que, por sua percepção aguçada e sensível, usa da linguagem, com suas conexões não compreensíveis racionalmente, mas que por meio da experiência simbólica pode dar um sentido de significado. Tais imagens trazem o conteúdo mítico, arquetípico, acessível apenas à visão simbólica, uma vez que, de acordo com a escritora Emma Brunner:
Mito é um tipo de linguagem simbólica, compartilha seu silêncio com o signo. Aquilo que não pode ser apreendido pelo intelecto luta para obter a realização no símbolo, no signo mítico e no próprio mito.
(WHITMONT, 1987, p.71)
Deriva desse limite da estrutura psicológica de apreender intelectualmente os conteúdos que a vivência interativa impõe à abordagem simbólica, o mito, representante de um arquétipo. O símbolo, ou seja, a imagem tem a capacidade de envolver, de penetrar; não se convenciona a raciocínios, é algo que nos possui, que sentimos; segue vertente diferente do intelecto. Como cita o analista Carl Gustav Jung (1996, p. 90) “os símbolos apontam direções diferentes daquelas que percebemos com nossa mente consciente e, portanto, relacionam-se com coisas inconscientes, ou apenas parcialmente conscientes”.
Alguma coisa fica de residual dos símbolos ou das imagens que nos cercam, e que não decodificamos em um nível de linguagem, contudo, este conteúdo não decodificado pertence a nosso psiquismo enquanto experiência vivida e fica armazenado em nosso inconsciente. Isso se manifesta de forma diferenciada no artista, um anseio criativo que vive e cresce dentro dele como uma árvore em solo fértil. Neste sentido, é possível estabelecer uma conexão entre a psicologia e a obra de arte porque a arte, assim como toda atividade humana, é oriunda de causas psicológicas. E tal conexão é possível levando em conta esse aspecto da arte que existe no processo de criação artística e que pode ser submetido à pesquisa psicológica. Cita Jung (1991, p. 55):
A relação entre psicologia e arte, tratando apenas daquele aspecto da arte que pode ser submetido à pesquisa psicológica sem violar a sua natureza. Seja o que for que a psicologia possa fazer com a arte, terá que se limitar ao processo psíquico da criação artística e nunca atingir a essência profunda da arte em si.
Assim sendo, o artista é tomado por percepções que são assimiladas de forma diferenciada. Às vezes, se atém mais à sensação, ou seja, o limiar de percepção/realidade e, conduzido por seu inconsciente, delimita tal percepção em seu fazer artístico como explica o filósofo francês Bergson (2000) em “falhamos ao traduzir exatamente o que se sente na nossa alma: o pensamento continua a não poder medir-se com a linguagem”.
E neste sentido é possível analisar a obra poética de Quintana como aquela em que o arquétipo do poeta se manifesta devido a sua produção literária enquadrar padrões específicos comuns aos poetas de todos os tempos, como a vivência da solidão, o desenvolvimento de um olhar estreitamente observador e uma sensibilidade aguçada.
Ele mesmo diz: “a poesia fala de sentimentos que pertencem a toda a humanidade, é o maior aprofundamento da visão da vida, o poeta é aquele que disse o que todos podiam dizer e não disseram”. (PERIN, 2006) Este conhecimento, pertencente a todos, de que fala o poeta, está na memória arquetípica, ou seja, são imagens arquetípicas não associadas à genética, mas sim a configurações cerebrais que pertencem a todo homem, como um legado humano. Para Jung (1996, p. 67/78):
O arquétipo é uma tendência para formar estas mesmas representações de um motivo _ representações que podem ter inúmeras variações de detalhes _ sem perder a sua configuração original (...) os arquétipos criam mitos, religiões e filosofias que influenciam e caracterizam nações e épocas inteiras.
É possível fazer uma associação do conceito de arquétipo com o conceito de memória de Henri Bergson, em seu ensaio “Matéria e memória”, em que fala da existência de dois tipos de memórias, a espontânea e a voluntária, sendo aquela perfeita, uma vez que “o tempo não poderá acrescentar nada à sua imagem sem desnaturá-la.”
(1999, p. 91) É a memória espontânea que em um registro único conserva o lugar e a data de um fato ou de uma imagem para memória. Estes conteúdos arquivados pela memória espontânea são perceptíveis em imagens de sonhos, ou seja, estas imagens são como se fossem visões que elucidam as imagens arquetípicas lembrando um dos conceitos de Jung (1996, p. 68) em que “arquétipo é o instinto manifestado como fantasia e que revela sua presença apenas através de imagens simbólicas. Sua origem não é conhecida, e se repete em qualquer época e em qualquer lugar do mundo”.
Segundo Bergson (1999, p. 96) “essa lembrança espontânea, que se oculta certamente atrás da lembrança adquirida, é capaz de revelar-se por clarões repentinos: mas ela se esconde, ao menor movimento da memória voluntária”. E explica que esta memória espontânea, que é volúvel em reproduzir, é fiel em conservar, permanece caprichosa em suas manifestações.
Também pode-se considerar que, sendo Mario Quintana a representação do poeta arquetípico, neste se manifeste o arquétipo da anima, isto é, o feminino que há dentro de cada homem e que representa os padrões humanos gerais instintivos, inconscientes e a priori, nos quais se baseiam muitas das características pessoais. Apesar de a anima ser uma manifestação inconsciente, pode-se manter um diálogo com esta num processo de autoconhecimento. E é neste dialogar constante que o artista será conduzido à fonte de criatividade, uma vez que fantasias e sentimentos se tornarão acessíveis, deixando de ser ameaçadores para serem aliados. Reconhece-se assim a anima como uma outra personalidade independente a que se está ligado, transformando-a em uma aliada, como cita Jung (1996, p. 32): “Parte do inconsciente consiste, portanto, de uma profusão de
pensamentos, imagens e impressões provisoriamente ocultos e que, apesar de terem sido perdidos, continuam a influenciar nossas mentes conscientes”.
Uma possível constatação da anima presente e atuante na arte de Mario Quintana é o fato de ele agir de uma forma diferenciada em seus relacionamentos e em sua poesia.
Como revelam alguns de seus amigos, ele era um anjo escrevendo, mas pessoalmente era radical, irascível, difícil de lidar, homem de opiniões convictas; chegando a ter reações inesperadas ou até mesmo agressivas. De acordo com Jung (2000 a), o autor é aparentemente o próprio criador completamente livre e sem a mínima coação. A afirmação de trabalhar a poesia, trabalhar as palavras é ilusória, o domínio da anima é uma manifestação inconsciente, por isso, pode-se afirmar que ele era tomado pelo arquétipo da anima ao escrever; por apresentar-se como outra pessoa, ou seja outra persona, mais singelo, como disse o escritor Luis Fernando Veríssimo, em entrevista à produção do DVD (PERIN, 2006), “na poesia de Quintana predomina a singeleza.”
Cita Jung (1991, p. 63): “A convicção do poeta de estar criando com liberdade absoluta seria uma ilusão de seu consciente: ele acredita estar nadando, mas na realidade está sendo levado por uma corrente invisível.”
Outro fato também relevante na análise do arquétipo da anima é o fato de o amor ser vivenciado apenas de forma platônica, idealizada. Como sugere Armindo Trevisan (in PERIN, 2006) ao falar que talvez Quintana tivesse sofrido um trauma que o afastou definitivamente dos contatos pessoais ou concretos, de relacionamentos pessoais e o tivesse jogado para os lados do platonismo, da imaginação romântica que o levava a adorar as musas, sendo a poesia sua verdadeira noiva.
Assim sendo, a análise temática de uma obra poética é relevante por envolver conteúdos que se movem na consciência humana, porque o poeta é aquele que, tendo captado tais conteúdos em sua alma, transforma-os, movendo-os do trivial à essência dos homens em suas alegrias e dores, suscetíveis de renovarem-se indefinidamente. A poesia fala dos universalismos, as expressões arquetípicas que observamos ser inerentes à natureza humana básica e não a simples construção da mente humana. Em uma configuração poética, tais temas triviais são esclarecidos e transformados, o poeta é,
então, aquele que iguala as emoções, que, partindo das suas, atinge a totalidade por meio do arquétipo.
Pode-se considerar, então, que Mario Quintana manteve este diálogo com o arquétipo da anima em sua vida pessoal, num relacionar-se aliado, que o conduziu à criatividade na sua produção literária, fato comprovado pela presença em sua poesia de imagens arquetípicas do feminino como: natureza, lua, feiticeira, bruxa, sereia, nuvem, árvore, alma, noite, estrelas, anjos, cabelos, vida e morte.
II – O CONCEITO DE ARQUÉTIPO
Jung (2000 a) relata o conceito de arquétipo no decorrer de sua obra afirmando que se trata de um termo emprestado da filosofia. Falar de "arquétipo nada mais é do que uma expressão já existente na antigüidade, sinônimo de idéia no sentido platônico", ou
seja, idéia enquanto algo preexistente e supra ordenado aos fenômenos em geral.
Jung (2000 b) buscava “O Conceito de Arquétipo”. Para isso, buscou analisar o grau da interferência da personalidade do observador na percepção da realidade, e concluiu que precisaria de uma análise de fórum mais profundo, no que diz respeito à percepção e seu objeto de observação, então, se perguntou: “será possível que um homem só possa pensar, dizer e fazer o que ele mesmo é”?
A hipótese de o homem só pensar e fazer o que ele mesmo é remete a pensar se é possível o homem ter “livre arbítrio” em relação aos seus pensamentos e sua história pessoal. E a indagação desta hipótese pode ser associada ao conceito de arquétipo, uma vez que aponta para um fator inato, anterior as características de personalidade individual, ou seja, existe um potencial para desenvolver tal personalidade que é inato.
É de se observar que todo ser humano apresenta uma característica singular que o difere dos demais sujeitos da sua espécie. Segundo Jung (2000 b) "é impossível supor que todas essas particularidades sejam criadas só no momento em que aparecem", seriam, então, vias herdadas que conferem ao ser humano um padrão de comportamento, como uma espécie de ‘norma biológica’ na atividade psíquica. No arquétipo, percebe-se que há um fator independente da experiência em nossa atividade humana, o qual é estrutural e inato na psique, sendo dessa forma, pré-consciente e inconsciente.
Não é necessário ser terapeuta analítico para observar que o ser humano possui um aparelho que lhe oferece potencialidade conforme sua espécie. É próprio do humano nascer com uma carga de comportamentos potenciais que pode vir a desenvolver, inclusive a capacidade de se diferenciar e organizar uma personalidade pessoal própria.
Foi a esse potencial exclusivamente humano que Jung chamou de arquétipo, um conceito formal, um arcabouço, preenchido com idéias, temas e vivências. A forma do
arquétipo é herdada, mas o conteúdo não, pois não depende de mudanças históricas e ambientais, sendo sempre determinado pelo indivíduo. Ressalta-se, portanto, que a personalidade não é determinada somente pelo coletivo, uma vez que todo conteúdo de vivência assume o caráter de subjetividade, passando pelo filtro da individualidade. Por meio da vivência das experiências por um ponto de vista único torna-se possível o desenvolvimento daquela carga, de comportamentos potenciais, que é inata e exclusivamente humana como também a revelação do aspecto coletivo. Os arquétipos, por serem estruturas universais, estão imersos no inconsciente coletivo e atuam alternadamente na personalidade do indivíduo. Há, portanto, correspondência entre o inconsciente coletivo e o indivíduo.
Esta correspondência entre o inconsciente coletivo e o indivíduo gera uma relação entre os campos individual e coletivo que são os responsáveis pela formação do homem no que ele é: gestor de uma visão de mundo, só possível por seu olhar, por seus sentimentos, seus desejos, sua singularidade e qualquer atividade desenvolvida pelo homem durante sua existência individual têm um correspondente nuclear arquetípico.
A noção de conteúdo de um arquétipo, enquanto elemento vivenciado por um indivíduo pode ser associado à filosofia de Bergson no que tange a parte de sua teoria de que a memória traz ao presente todas as lembranças para que este possa ser construído, ou seja, organizado e o futuro revelado.
De acordo com Bergson (1999), o homem tem o corpo como representante do centro de ações porque é referência para percebermos o mundo, mas esse não armazena lembranças, simplesmente escolhe, para trazê-las à consciência distinta, logo, ele acreditava na existência de uma reserva memorialista que reside no nosso espírito e que o corpo tem o poder de acessá-la de maneira fragmentada, nunca completa. A sua proposta de reflexão começa a partir da leitura do mundo através de imagens e a apreensão desse mundo através do corpo.
À proporção que cada ser humano é único e vai experienciando a vida, os arquétipos vão sendo constelados e em torno deles as vivências carregadas de afetos vão se organizando. A esse conjunto de afetos em torno de um arquétipo, Jung chamou de complexos de tonalidade afetiva.
O conceito de complexo foi elaborado por Jung a partir de suas experiências com o teste de associação livre de palavras, que consistia em fornecer palavras e solicitar ao sujeito testado para que respondesse com a primeira palavra que lhe ocorresse. E foi observado que algumas palavras causavam no individuo reações diferentes daquelas esperadas no teste como: tosse, sorriso, silêncio, ou demora na resposta. E após analisar esses “erros”, Jung concluiu que alguma coisa tomava conta do ego naquele momento, essa “alguma coisa” era um complexo. Jung (2000 a) define complexo como sendo:
[...] a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia,[...].
Os complexos fazem parte da constituição psíquica que é o elemento absolutamente predeterminado de cada indivíduo, eles vão se formando a partir das experiências externas e internas de cada um. Jung afirma que os complexos são
“aspectos parciais da psique dissociados”, ou seja, partes de nós mesmos que habitam nossa alma e compartilham de nossa vida consciente. Como se fossem “vozes” e que às vezes falam quando menos se deseja ouvi-las, são parte vital da psique, sendo impossível subtraí-las ou ignorá-las. E como para ele “a base essencial de nossa personalidade é a afetividade” cada complexo pode ser considerado um aglutinamento de idéias e sentimentos, com tonalidade afetiva, originados a partir das experiências únicas vivenciadas e também da constelação arquetípica que se faz presente em cada indivíduo.
Essas experiências, de acordo com a sensibilidade do ser humano, ou seja, a maneira como cada um sente e percebe tais experiências, podem ser percebidas pela consciência como positiva ou negativa. Tanto quanto o excesso de positividade pode transformar-se em algo nefasto para a psique, experiências a princípio muito negativas podem transformar-se em força motriz para a busca de transformação.
Um complexo pode ser predominantemente positivo ou negativo, porque sendo os complexos formados a partir de experiências organizadas em torno de um centro
arquetípico, a polaridade inata do arquétipo se faz presente, assim sendo os complexos originalmente positivos são aqueles que partem de experiências promotoras do desenvolvimento, no entanto, isso não exclui a possibilidade de tornarem-se inibidores.
Mais uma vez pode-se associar Bergson e Jung, aquele chamou de verdadeira memória aquela que sobrevive no espírito, que não remonta somente as nossas experiências, mas as de nossa espécie. E o fato da impossibilidade de aprender completamente esta memória verdadeira, associa-se ao inconsciente coletivo de Jung, sendo o acesso a este apenas uma reminiscência, um reservatório de imagens latentes, possível de se acessar pela literatura ou outra arte. Jung percebeu que há uma universalidade entre as nossas lembranças e estas não se restringem a uma vivência pessoal, nem de um grupo, mas da espécie humana e pré-humana. O inconsciente é pessoal e coletivo. O que lembramos pode ser fruto de nossa vivência individual, social ou de reminiscências de vivências de outros da nossa espécie, havendo, portanto, o liame da evolução. Segundo Jung (1991, p. 71):
O processo criativo consiste (até onde nos é dado segui-lo) numa ativação inconsciente do arquétipo e numa elaboração e formalização na obra acabada.(...) Partindo da insatisfação do presente, a ânsia do artista recua até encontrar no inconsciente aquela imagem primordial adequada para compensar de modo mais efetivo a carência e a unilateralidade do espírito da época. Essa ânsia se apossa daquela imagem e, enquanto a extrai da camada mais profunda do inconsciente, fazendo com que se aproxime do consciente, ela modifica sua forma até que esta possa ser compreendida por seus contemporâneos.
É importante observar que na história pessoal de Mario Quintana havia uma relação de super proteção da mãe para com ele, assim reforça-se a teoria de Jung que durante um período da vida da criança, a proteção é importante e promove o desenvolvimento oferecendo uma base segura. Mas quando a criança vai crescendo essa proteção tem que ser reordenada, pois se ela se torna excessiva inibe o desenvolvimento.
Complexos positivos podem se tornar inibidores e complexos negativos podem ter função promotora de desenvolvimento, isto em termos de dinâmica da psique. O contato da consciência com os complexos e arquétipos é fundamental para que a alma
possa se expressar em sua singular totalidade. E um meio de estabelecer esse contato é através dos símbolos, uma vez que a psique se manifesta por meio de imagens,
[....] tudo o que dela (a alma) sabemos é ela própria, a alma é a experiência direta do nosso ser e existir. Ela é para si mesma a experiência única e direta [...] Ela cria símbolos cuja base é o arquétipo inconsciente e cuja imagem aparente provém das idéias que o inconsciente adquiriu. [...] Os símbolos funcionam como transformadores, conduzindo a libido de uma forma “inferior” para uma forma superior. Esta função é importante que a intuição lhe confere os valores mais altos. O símbolo age de modo sugestivo, convincente, e ao mesmo tempo exprime o conteúdo da convicção.
(JUNG, 1989, p.344)
Os arquétipos são a estrutura da imaginação, portanto só esta pode acessá-los. A imagem é todo o material que constrói a psique em si, a forma como ela se apresenta, a própria paisagem da alma e não criações da consciência. As imagens são autônomas, independentes, circulam nas esferas psíquicas por livre vontade e não se submetem aos desejos egóicos. Elas não se expressam só por sonhos, desenhos, fala, movimento, aroma ou som. A imagem não é algo que se apresenta aos sentidos ela é uma maneira de perceber o mundo, a este respeito pode-se citar Quintana: “O comum das gentes raciocina por associação de idéias, e o poeta, por associação de imagens”. (PERIN, 2006)
É necessário um olhar através da alma para compreender a poesia de Quintana, que nos remete as lembranças da infância, a presença da morte, ao cotidiano, enquanto uma impressão momentânea do real, ou seja, a fonte de sua poesia é o instante vivido com seus encantos, dores, amores ilusões e desilusões.
Quintana trabalhou suas emoções por meio das representações ocorridas através da poesia. Quando perguntavam a ele sobre sua vida, na verdade deveriam apenas ler sua poesia; onde é possível encontrar dois Quintanas; em um primeiro momento como um homem sagaz, crítico sem coragem de publicar suas poesias, envolvido com alcoolismo, solitário e ermitão e em um segundo momento um homem dócil, espontâneo, bem humorado, sem a dependência química do álcool.
Ao mencionar os dois momentos da vida de Quintana, nota-se que algo aconteceu na sua história pessoal que fez com que houvesse esta transformação do homem primitivo, psicologicamente falando, ou em termos analíticos, oruborus, para o homem individual, ou seja, aquele que conseguiu atingir o seu processo de individuação leia-se Self. Isto só foi possível devido a sua relação com sua parceira interior: a anima.
Há a necessidade de escrever um pouco a respeito do conceito do arquétipo da anima para que o leitor possa interagir e compreender os dois momentos acima citados da história individual de Mario Quintana.
Segundo Jung, o arquétipo da anima, constitui o lado feminino no homem, e o arquétipo do animus constitui o lado masculino na psique da mulher. É bom lembrar que Jung sempre trabalhou com dois pólos: positivo e negativo, masculino e feminino, luz e sombra e outros; sempre tentando mostrar que o equilíbrio encontra-se nos opostos, então não seria de se estranhar que para ele ambos os sexos possuíssem aspectos do sexo oposto, não só biologicamente, através dos hormônios e genes, como também, psicologicamente através de sentimentos e atitudes.
Neste sentido o homem traz consigo, como herança, a imagem de mulher, não a imagem de uma ou de outra mulher especificamente, mas sim uma imagem arquetípica, ou seja, formada ao longo da existência humana e sedimentada através das experiências masculinas com o sexo oposto. O mesmo aconteceu com as mulheres que desenvolveram seu arquétipo do animus através das experiências com o homem durante toda a evolução da humanidade.
Anima e animus desempenham função semelhante no homem e na mulher, não são o oposto exato. Estes arquétipos não são simétricos, têm seus efeitos próprios:
possessão pelos humores para a anima inconsciente, pelas opiniões para o animus inconsciente. Quando em estado inconsciente, a anima pode fazer com que o homem, numa possessão extrema, tenha comportamento tipicamente feminino, como alterações repentinas de humor ou falta de controle emocional.
No aspecto positivo a anima, quando reconhecida e integrada à consciência, servirá como guia e despertará no homem o desejo de união e de vínculo com o feminino e com a vida. Nossa sociedade incentiva o comportamento viril para o homem,
desde criança, e o desencorajamento do comportamento mais agressivo nas mulheres, o que poderá provocar uma anima ou animus subdesenvolvidos e potencialmente carregados de energia, atuando no inconsciente.
Devidamente reconhecidos e integrados ao ego, o animus e a anima contribuirão para a maturidade do psiquismo. Jung salienta que o trabalho de integração da anima é tarefa difícil. Diz ele:
Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é obra-prima. A relação com a anima é outro teste de coragem, uma prova de fogo para as forças espirituais e morais do homem.
Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham fora de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções. (WHITMONT, 1987, p.145)
Os arquétipo da anima e animus são responsáveis pelas qualidades das relações com pessoas do sexo oposto. Enquanto inconscientes, o contato com estes arquétipos são feitos em forma de projeções. Quando a paixão se manifesta no homem ele está projetando a imagem da mulher que ele tem internalizada. É fato que a pessoa que recebe a projeção é portadora, como dizia Jung, de um “gancho” que a aceita perfeitamente. O ato de apaixonar-se e decepcionar-se, nada mais é do que projeção e retirada da projeção do objeto externo. O que acontece é que a pessoa amada deixou de ser aquela por quem ele se apaixonou quando na verdade ela nunca foi, só serviu como suporte da projeção de seus próprios conteúdos internos.
A mãe é o primeiro “gancho” a receber a projeção da anima, ainda quando menino, fato que se dá de forma inconsciente. Na medida em que este menino vai crescendo vai projetando esta anima em outras mulheres que servirão como gancho desta projeção da anima. A qualidade, do relacionamento mãe-filho será essencial e determinará a qualidade dos próximos relacionamentos, com outras mulheres. Salienta Jung:
Para o filho, a anima oculta-se no poder dominador da mãe e a ligação sentimental com ela dura às vezes a vida inteira, prejudicando
gravemente o destino do homem ou, inversamente, animando a sua coragem para os atos mais arrojados. (WHITMONT, 1987, p. 169)
O processo de individuação é o eixo da psicologia Junguiana. É através dele que a pessoa vai se conhecendo, retirando suas máscaras, retirando as projeções lançadas anteriormente no mundo externo e integrando-as a si mesmo. Não se trata de um processo fácil e simples, também não ocorre linearmente. É um processo doloroso, difícil e ocorre em um movimento circunvolutório direcionado a um novo centro psíquico, o Self. A motivação para a individuação é inata, porém o processo, em si, só se dá no confronto do consciente com o inconsciente, o que resulta num amadurecimento dos componentes da personalidade e na união destes numa síntese, como também na realização de um indivíduo único e inteiro.
O Self é o centro de toda a personalidade. Dele emana todo o potencial energético de que a psique dispõe. É o ordenador dos processos psíquicos. O objetivo de toda personalidade é chegar ao autoconhecimento que é conhecer o próprio Self. Jung conceituou o Self da seguinte forma:
O Self representa o objetivo do homem inteiro, a saber, a realização de sua totalidade e de sua individualidade, com ou contra sua vontade. A dinâmica desse processo é o instinto, que vigia para que tudo o que pertence a uma vida individual figure ali, exatamente, com ou sem a concordância do sujeito, quer tenha consciência do que acontece, quer não. (WHITMONT, 1987, p. 193)
Jung reconhece que a individuação, embora seja um impulso inato, só é possível quando da participação do ego, formando o eixo Ego-Self, um depende do outro. O ego é a maneira que a consciência tem de tomar conhecimento do Self e sem este conhecimento não haverá integração de conteúdos inconscientes, nem tão pouco individuação como uma “expansão da consciência”. Somos formados por um corpo e pelos registros de nossa memória que inscrevem o que somos.
Embora a psique seja composta de estruturas bastante diversas, muitas vezes se opondo umas às outras, existe entre elas uma forte interação que poderá se dar de três formas. Uma estrutura pode compensar a fraqueza da outra, um componente pode se
contrapor a outro, e duas ou mais estruturas podem se unir formando uma síntese. A compensação pode se dar, por exemplo, entre o ego e a anima de um homem, assim como o ego e o animus de uma mulher. O ego normal do homem é masculino enquanto a anima é feminina e na mulher sendo o ego feminino o animus é masculino. Assim, uma masculinidade exacerbada num homem pode estar mostrando um inconsciente frágil, delicado e sensível, neste caso o inconsciente atua de maneira compensatória proporcionando uma espécie de equilíbrio entre os elementos contrastantes, evitando uma desintegração da psique.
As tensões oriundas dos conflitos entre as instâncias da psique são inevitáveis e imprescindíveis, pois, são elas que constituem a própria essência da vida. Os conflitos existem porque existem oposições em qualquer parte da personalidade e o ego deve atender às exigências externas da sociedade e as exigências internas do inconsciente coletivo. Jung achava que sempre era possível haver uma união dos contrários e com isso surgir um terceiro elemento da síntese dos dois numa função que ele chamou de função transcendente.
I – VIDA E OBRA DE MARIO DE MIRANDA QUINTANA
Foi em Alegrete, uma cidadezinha interiorana do Rio Grande do Sul, que fica a mais ou menos quinhentos quilômetros da capital gaúcha, que nasceu, a trinta de julho de 1906, Mario de Miranda Quintana, o filho do farmacêutico Celso de Oliveira Quintana e de D. Virgínia de Miranda Quintana, professora de francês. De acordo com a jornalista Juliana Gomes, (GOMES, 2006), Mario foi um menino mimado pela mãe, que por ter perdido dois filhos devido à pneumonia, teme por sua saúde, então, cria-o de forma reclusa, deixando-o protegido em casa durante o inverno, fato que se repete até os oito anos de idade. Segundo o diretor da Casa de Cultura Mario Quintana, de Porto Alegre, o escritor e compositor Sérgio Napp, (PERIN,2006) o poeta foi uma criança doente, criado recluso. O poeta confirma em se texto Confessional: (1988, p. 110/111)
“fui um menino por traz de uma vidraça.”. E como cita o poeta e jornalista Carpinejar (2006): “A fragilidade do nascimento resultou infância adentro no apelido de ‘menino azul’, devido à pele fina e branca, e às veias azuis e saltitantes. Virou o protegido entre os três irmãos – Celso, Marieta e Miltom – e dos pais Celso e Virgínia...”
Essa criação reclusa levou o menino a ser alfabetizado em casa, aos sete anos, tendo como cartilha o Jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, auxiliado por seus pais que também lhe ensinaram rudimentos de francês, aprendizado precoce que produziu frutos mais tarde, em sua carreira de tradutor. Ele confirma: “Aprendi a escrever lendo da mesma forma que se aprende a falar ouvindo. Naturalmente, quase sem querer, numa espécie de método subliminar” (QUINTANA, 1988, p.25). É de opinião da jornalista, repórter do Núcleo de Comportamento e Cultura do Jornal O Povo do Ceará, Eleuda de Carvalho (2006), que o fato de o menino ter aprendido a ler nas páginas de um jornal foi antecipatório para o homem que passaria sua vida adulta ligada às redações. Conclui o curso primário aos nove anos, ainda em Alegrete, na Escola Elementar de Dona Mimi Contino e na escola do mestre português Antônio Cabral Beirão. E aos doze anos vai para Porto Alegre para estudar no Internato do Colégio Militar.
O farmacêutico Celso de Oliveira Quintana era um homem rígido e queria para o filho a formação tradicional. Por isso, conforme cita o jornalista Jayme Copstein, (QUINTANA, 2006 c) o pai de Quintana alarmado com as “poetices” do filho quisera fazê-lo “um homem” mandando-o estudar no Colégio Militar de Porto Alegre para receber a formação dada aos grandes militares como Emílio Garrastazu Médici, Costa e Silva, Geisel e outros. Segundo Gomes (2006):
A rotina de acordar às cinco horas da manhã, para, depois de um banho frio, estudar matemática e biologia, parece absurda ao guri formado dentro de casa, alfabetizado no Correio do Povo e nos livros franceses da mãe. Dos doze aos dezoito anos, Mario Quintana vive, no Colégio Militar de Porto Alegre, uma verdadeira tortura.
Assim sendo, a sensibilidade do jovem Quintana, sua preferência pelas disciplinas de Português, História e Francês, como ele mesmo dizia: “o resto passava na tangente” (PERIN, 2006); não amenizam a falta de habilidade para as contas de matemática e física, o que resulta um sujeito deprimido e desconfiado de tudo. E em 1924, aos dezoito anos, com muitas notas baixas, é expulso do colégio. Sem contar nada para a família, consegue emprego como desempacotador de livros estrangeiros na Editora Globo, de Porto Alegre, e ali estava onde gostava, perto dos livros e dos escritores. Somente no fim daquele ano, conta a verdade para o pai, que o traz de volta a Alegrete para trabalhar como ajudante no seu laboratório de farmácia. Seu pai dizia que não queria filho vagabundo, zé-ninguém. Anos depois, Quintana declara em entrevista:
(GOMES, 2006) “Entre vidrinhos de xixi e vidrinhos de cocô eu fui tentando sobreviver”. Sua relação com o pai torna-se crítica e o poeta busca compensação para o sofrimento na bebida. Ele admite: (in GOMES, 2006) “Primeiro eu era o menino doentinho, depois o filho do Dr. Celso que deu para beber e hoje sou poeta”.
De acordo com depoimentos de algumas pessoas, o poeta, quando embriagado tinha um comportamento nitidamente autopunitivo, abordava os freqüentadores dos bares com grosserias, a fim de esgotar-lhes a paciência e ser agredido. Era como se as grosserias fossem a busca para punir e aliviar uma culpa. O alcoolismo esteve em sua companhia por mais ou menos vinte e cinco anos como ele mesmo disse: “Eu não bebi
alguma coisa, eu passei 25 anos tomando um único porre”. (ibidem, 2006) Chegou a dormir em calçadas, quando, então internado por um ano em uma clínica psiquiátrica, é detectada uma pequena deficiência de condução elétrica no cérebro, cujos sintomas a embriaguez aliviava. E tendo substituído a bebida por um medicamento adequado, nunca mais pôs álcool na boca. Neste período de internação, com apoio psicológico por um ano, foi ajudado a superar o conflito com seu pai o que pode ser notado nos poemas “O velho no espelho” e “as mãos de meu pai”:
Podemos ver a transcrição abaixo de Quintana (2006 b, p. 55):
(...)
Nosso olhar _ duro _ interroga:
“O que fizeste de mim?!”
Eu, Pai?! Tu é que me invadiste,
Lentamente, ruga a ruga... Que importa? Eu sou, ainda, Aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra.
Mas sei que vi, um dia _ a longa, a inútil guerra! _ Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste...
Abaixo podemos constatar um trecho da Leitura Comentada de Quintana (1988, p. 67):
As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor da terra – como são belas as tuas mãos pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre cólera dos
justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se chama simplesmente vida.
(...)
O jovem Quintana volta à capital, agora órfão e com vinte e um anos. A disputa por herança desagregara completamente a família fazendo com que o poeta deixasse a cidade natal. Os trabalhos conseguidos pelo poeta têm uma diversidade e afinidade congruente. Trabalha como tradutor de serviço telegráfico – na época entrava o noticiário em espanhol ou inglês _ tradutor de livros e jornalista. Então, o trabalho, a luta diária com as letras, já era, neste tempo, uma constante em sua vida. Só depois vem a ser o conhecido poeta de Porto Alegre, para quem poesia era uma “maneira de falar
sozinho” (PERIN, 2006), atividade que já exercia desde seus doze anos, na escola militar, quando não tinha com quem falar. O escritor declara: “comecei a fazer versos quando via alguma coisa que não servia para conversar” (PERIN, 2006), e também em trecho do livro Sapato Florido “O poeta, para entrar em contato com outros homens, põe-se a fazer poemas” (2005 b, p.62). A solidão do poeta se comunica com outras solidões e é assim que se estabelece o fluxo da poesia. Em entrevista diz: “quando a gente escreve um poema, a gente fica dentro de uma redoma de silêncio, por mais barulho que haja entorno” (BRANDALISE, 1990).
O trabalho junto ao pai, na farmácia, deixou saldo positivo, pois, tendo exercido por cinco anos a profissão de seu pai, foi levado por esta experiência a se tornar o prático das palavras, como afirma em outra entrevista: “eu atribuo a esse cuidado que eu tinha com a medida exata, o cuidado que eu tenho com a forma dos meus versos”
(BINS, 1984). Quintana dosava bem as palavras, buscando sempre a forma e não a fôrma. Ele dizia que “é o poema que dá a forma” (ibidem, 1984). Opina o poeta e jornalista Fabrício Carpinejar (2006):
(...) Quintana poderia ter ficado a vida inteira atrás de um balcão em sua terra natal. Seu pai tinha farmácia e ele chegou a atuar como prático durante cinco anos. A experiência o motivou a dosar as palavras, cuidar das contra-indicações e a partir das bulas de remédio, não desprezar nada que fosse escrito, ainda que em caractere mirrado. Sua principal cliente acabou sendo a poesia. Foi atendê-la em Porto Alegre, após a morte dos pais em 1927...
Tânia Franco Carvalhal, doutora em Letras, especialista e organizadora da obra completa de Mario Quintana, considera que a importância do poeta está em sua obra, em sua poesia. A vida de Mario Quintana é sua obra e, no dizer de Octávio Paz a biografia do poeta são seus poemas; “minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo” (PERIN, 2006). Acerca disso, argumenta Cunha (2005, p. 07):
Cada poema é um fragmento do poema geral que Mario Quintana vem compondo ao longo de toda sua vida [...] sua obra mantém uma qualidade, marca, timbre, ressonância ou maneira que só posso definir como quintanidade.
Os primeiros versos de Quintana datam da época do Colégio Militar e são publicados na revista “Hyloea”, órgão da Sociedade Cívica e Literária dos Alunos do Colégio; acontece, então, a prematuridade de sua jornada literária, como colaborador desta revista. A primeira premiação acontece aos vinte anos com o conto A Sétima Personagem, em um concurso promovido pelo Jornal Diário de Notícias de Porto Alegre e, no ano seguinte, o cronista Álvaro Moreyra diretor da revista “Para Todos”, do Rio de Janeiro, publica um poema de sua autoria.
O ingresso na vida profissional se dá aos vinte e três anos como redator do diário
“O Estado do Rio Grande”, em Porto Alegre. E aos vinte e quatro, a revista do “Globo”
e o jornal “Correio do Povo” publicam seus poemas. Também tem início seu trabalho de tradutor, a convite do escritor Érico Veríssimo. De acordo com o professor, Mestre em Literatura Brasileira, Perissé (2007), durante muitos anos, Mario Quintana recorreu à tradução como atividade profissional paralela. Foi em 1932, aos vinte e seis anos de idade, depois de perder o emprego no jornal, por conta da intervenção do General Flores da Cunha, inicialmente seguidor de Getúlio Vargas, que o poeta buscou alternativas e teve sua primeira tradução publicada pela Editora Globo, em 1934, aos vinte e oito anos.
Chegava, então, ao público brasileiro o livro de contos “Palavras e Sangue”, do autor italiano Giovanni Papini que naquele tempo era conhecido e apreciado. Realizou a atividade de tradutor até morrer “ao todo, eu traduzi 138 livros” (PERIN, 2006). De acordo com o advogado e professor universitário Simon (1994), em seu artigo ‘Glória e Humildade’:
Para pagar a pensão – 200 cruzeiros por mês – traduzia, para Editora Globo, escritores franceses e ingleses, a cinco cruzeiros por página.
Graças a ele, podemos ler, ainda hoje, em delicioso vernáculo, “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust; “Palavras e sangue”, de Papini; “Lord Jim”, de Joseph Conrad, e tantos outros, como Balzac, Somerset Maugham, Graham Greene, Voltaire e André Maurois.
Também menciona Perissé (2007) que o poeta Quintana traduziu muitos contos policiais e histórias românticas ao longo de duas décadas, sem que seu nome constasse das publicações, o que era comum na prática editorial da época. E, em pesquisa literária,
ele descobriu algumas relações entre a produção literária de Quintana e as traduções que realizava para sobreviver. Dentre elas o poema “telegrama a Lin Yutang” do livro
“Sapato Florido”, publicado em 1948 em que alude a uma passagem da obra do escritor chinês, o pensador e filósofo, Lin Yutang: “Melhor um ovo hoje que uma galinha amanhã” e em Quintana: “Acabo de ver um negrinho comendo um ovo cozido”.
Quintana provoca e de certo modo apóia Lin Yutang, referindo-se ao negrinho brasileiro, sem filosofia oriental, mas entregue à felicidade do momento presente, destituído de qualquer preocupação metafísica com a galinha do futuro.
Outros exemplos citados na pesquisa de Perissé (2007) são a frase da última linha do conto “Une passion dans le désert”, incluído na Comédia Humana: “O deserto é Deus sem os homens” que Quintana reproduz no poema em prosa “O mundo de Deus”, extraído do livro “Caderno H” e também do “Caderno H” quando o poeta cita Shakespeare várias vezes, e Proust, do qual traduziu seis livros; traduções realizadas com intensidade e interesse, mais do que simplesmente verter um texto para outro idioma, o autêntico escritor, ao traduzir, sente-se co-autor da obra traduzida. Explica a professora Tânia Franco Carvalhal, especialista na obra do poeta:
Mario adestrava a sua habilidade para a escrita. A tradução é outra forma de criação. Portanto pode-se considerar que determinadas traduções do Mario Quintana, da obra do Proust, de Conrad, de Virgínia Woolf, são verdadeiras recriações. (in GOMES, 2006)
Mario Quintana, com renda modesta, viveu em pensões simples, contando mais ou menos cinqüenta e duas pensões da capital gaúcha, além dos hotéis, Royal, no Porto Alegre Residence Hotel e no Hotel Majestic, onde viveu por treze anos e hoje convertido na Casa de Cultura Mario Quintana, inaugurado em 1983, em festa de papéis picados e com a presença do poeta aos setenta e sete anos. Sempre viveu sozinho, nunca teve mulheres, filhos ou casa e quando perguntavam onde vivia, costumava dizer: “Eu moro dentro de mim mesmo”, (PERIN, 2006) procurava e gostava de viver uma solidão intensa; era introvertido, introspectivo e fez poesia porque sentiu invencível necessidade:
“Da saudade. A saudade que dói mais fundo – e irremediavelmente – é a saudade que temos de nós.” (QUINTANA, 2006 a, p. 237).
A poesia para Quintana era refúgio das convenções, mas não alienação. Na década de trinta participara da revolução como voluntário no Sétimo Batalhão de Caçadores de Porto Alegre, ajudando Getúlio Vargas a derrubar Washington Luis e tomar o governo federal. E também em entrevistas falava de sua postura ideológica nos cafés sentados, fumados e conversados com os amigos, quando pensavam em salvar o mundo. E quando em 1946, em artigo da Revista Província de São Pedro, o crítico James Amado sugere que o poeta alegretense havia tomado o bonde errado em poesia, o poeta, então, com sua particular ironia, faz pouco do pedido de engajamento social, e afirma interesse por outros temas poéticos:
Há outras coisas, as coisas eternas, que não se resolvem nunca, graças a Deus: estrelas, grilos, penas de amor, saudades, anjos, nuvens, mortos, arroios, todas as paisagens, alegrias e tristezas deste e do outro mundo. (QUINTANA, 2006 c).
O poeta, despreocupado em relação à crítica, faz poesia porque “sente necessidade interior”, como ele mesmo diz. Sua profissão era o jornalismo, costumava dizer que ser poeta era uma coisa de alma. Segundo Simon (1994), “Quintana era incorpóreo, alienado completamente das coisas materiais. Ele tinha o seu mundo próprio, no qual vivia em permanente estado de poesia”. E como disse o poeta em seu texto “Aula inaugural”:
(...)
Fora do ritmo, só há danação.
Fora da poesia não há salvação.
(...)
Tece coroas de rimas...
Enquanto o poema não termina A rima é como uma esperança Que eternamente se renova.
(...)
Dança, Poeta,
E sob o áureo, o implacável, o irresistível ritmo de teus pés, Deixa rugir o Caos atônito...
(QUINTANA, 2005 c, p. 9/10)
Quintana sempre fez excelentes amigos entre os grandes intelectuais de sua época. Seus trabalhos eram elogiados por Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles e João Cabral de Melo Neto. E é somente aos trinta e quatro anos, por insistência destes amigos, que Quintana publica o seu primeiro livro: “A Rua dos Cataventos”. Segundo o escritor Sérgio Napp, (PERIN, 2006) a publicação acontece na “contra maré”, uma vez que este primeiro livro, composto apenas por sonetos, acontece em um momento de desuso desta forma poética. “A Rua dos Cataventos” faz um grande sucesso devido à forma como ele apresenta seu texto, revestido de feição popular, característica principal de seus poemas, aquela que determina de modo mais marcante sua individualidade poética. Devido a um agudo senso crítico, como cita Gilda Neves da Silva Bittencourt em prefácio de “Canções” (2005 e p.7), o poeta retia, às vezes, por algum tempo, seus poemas e por isso alguns críticos situam seu segundo livro
“Canções”, como contemporâneo, apesar de editado seis anos depois de seu primeiro livro, “A Rua dos Cataventos”. E conforme conta sua sobrinha Elena Quintana em entrevista a Marcio Vassallo, no momento de renovação de contrato com a Editora Globo, “O tio Mario escrevia, deixava os poemas numa gaveta, olhava para eles,
olhava de novo, alguns ele guardava, outros ele rasgava” (VASSALLO, 2004).
Quintana, agora, mais conhecido e admirado, segue produzindo, com publicações em intervalos de um, dois e três anos, sendo o intervalo maior, de nove anos. E a audiência nacional de Quintana é conquistada com o lançamento de duas antologias. A primeira em 1962, pela Editora Globo, com o título “Poesias”, reúne em um só volume seus livros A “Rua dos Cataventos”, “Canções”, “Sapato Florido”, “Espelho Mágico” e
“O Aprendiz de Feiticeiro”. A segunda, em 1966, em edição comemorativa por seus sessenta anos, organizada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, recebe o prêmio Fernando Chinaglia como melhor livro do ano, sendo saudado na Academia de Letras por Augusto Meyer e Manuel Bandeira, que recita o poema de autoria do próprio Quintana em homenagem a ele.
O famoso poeta Mário Quintana não conquista uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Este fato muito explorado pela imprensa, gerou opiniões diversas: Para Gomes (2006):
É claro que este poeta cheio de personalidade seria recusado pela Academia Brasileira de Letras. Congregando Getúlio Vargas, que nunca foi escritor ou intelectual, o general Aurélio Lira Tavares, devido aos seus discursos e José Sarney, um escritor, no máximo, razoável, por causa do poder político, a Academia recusa Mario por três vezes.
O jornalista e crítico de música Juarez Fonseca relata: “Ele era um sujeito tão surpreendente que eu acho que os acadêmicos temiam que ele pudesse colocá-los em saia justa, de uma certa forma acho que a espontaneidade do Mario aterrorizava os acadêmicos”. (GOMES, 2006).
A sua sobrinha Elena diz:
O tio Mario só queria entrar para ABL porque a mãe dele adorava os seus versos de menino e dizia que um dia ele seria da Academia. Havia um certo sentimentalismo nisso. Mas esse desejo passou, assim que ele desistiu de se candidatar. Ele dizia que perder três vezes era trágico, mas que perder quatro vezes seria cômico. Acho que a ABL resistiu ao Mario por sua irreverência, por sua dificuldade de se enquadrar em escolas literárias, em formalidades, em partidos políticos. (VASSALO, 2004).
In, “Quintana Anjo Poeta”, pode-se conferir a opinião: de Armindo Trevisan:
Como era sonho de seus pais que ele entrasse na Academia, isso o levou a introjetar esta idéia e acabou sem ter vocação para a Academia, já que seu perfil era antiacadêmico por excelência; tendo aceitado o ritual de eleição só teve tristeza, não por vaidade, mas por pensar que a Academia representava o reconhecimento oficial de sua condição de poeta. (PERIN, 2006)
Tânia Carvalhal considera que ele absorveu este fato e aprendeu a conviver muito bem com isso e Antonio Hohlfeldt, jornalista e crítico literário, para quem Quintana teria gostado e teria freqüentado os espaços específicos de debates, de seminários sobre poesia porque ele tinha esse orgulho, era muito consciente de sua obra.
No entanto, foi com seu conhecido humor e sarcasmo que compôs o conhecido Poeminha do Contra:
Todos esses que aí estão Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!
(QUINTANA, 2006 a, p. 107)
De acordo com alguns escritores, Mario Quintana vivia em um mundo próprio, interior. Tradutor notívago, poeta observador do cotidiano, neste aspecto é que ele associava o fato de ser poeta e jornalista; morador de um hotel, sem convívio familiar, depois doente de cirrose por excesso de bebida. Deixa claro em sua poesia que a vida era um paradoxo, um solitário em quarto de hotel, em pensões; “ora , era uma coisa natural.
As minhas namoradas sempre foram formidáveis. A bem amada era um pretexto para a poesia” (in BRANDALISE, 1990). Visitou outros lugares, mas manteve-se preso a sua terra, enraizado em seu lugar; como disse Fabrício Carpinejar em prefácio de “A Cor do Invisível”:
Quintana é um ouriço, encaracolado em suas convicções, centrado no mesmo tema. Destoa das raposas que mudam de estilo e de formato interminavelmente. O regionalismo e a vida interiorana fomentam o material de suas obras. A língua alça o patamar de temperamento de um lugar, muito além de constituir um fundo temático. São autores de um único nascimento, entranhados do berço. Alcançaram uma tal identificação com seu Estado natal que é difícil vê-los em outras paragens. Não questionam sua origem, somente apregoam. (Quintana, 2005 a, p.17)
O poeta Quintana era homem enraizado em sua terra. Segundo Armindo Trevisan não apresentava o machismo gaúcho, a petulância do Caudilho, era refinado intelectualmente vivia e respirava sua poesia. Por esta sua noiva, deixou de beber, quando doente de cirrose foi avisado da possibilidade de deixar de escrever caso não se cuidasse, escolheu viver para continuar a escrever “tudo que escrevo é tirado da minha vivência, fora da poesia não há salvação” (PERIN, 2006). Cita Armindo Trevisan em
“Quando o simples é profundo demais”:
O que ele tinha de gaúcho era por dentro, na alma, no seu fatalismo, no seu surrealismo retrabalhado à luz do pampa, ou à luz do morto que
não se apaga nunca! Com suas vastidões, estrelas intermináveis, grilos, chaleiras, e guarda-chuvas importados. Era mais gaúcho do que pensaram seus comentadores! Tão gaúcho que basta escavar um pouco sua obra para se descobrir nela um homem orgulhoso, como os melhores gaúchos: ‘Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura’. (in CARVALHO, 2006).
O fato de ter sido internado em uma clínica psiquiátrica foi um divisor de águas.
Após a internação, saiu outro, sua vida começa uma nova fase, abandona o temperamento irritadiço, radical, sério e rude, as reações inesperadas e agressivas e passa a ser uma outra pessoa: disposto, alegre, com risadas inesperadas e contagiantes. A poesia era seu recurso de felicidade como diz o próprio Quintana:
Tudo ajuda poetar, tudo atrapalha poetar. Mas, nos momentos de criação, onde quer que se esteja, as injunções de ambiente desaparecem na alegria da criação. Poesia é alegria, porque, por mais infeliz que esteja acaso o poeta, se ele consegue expressar isso com toda a felicidade _ cadê tristeza? (GASTAL, 2008).
A vida de Mário Quintana pode ser dividida em três fases. A primeira que foi de sua juventude, seus estudos, as primeiras experiências profissionais. Segundo o professor da UNIJUÍ Larry Wizniewsky:
O Quintana subterrâneo, romântico, enamorado da morte é o homem que dá a grande lição da poesia brasileira. Primeiro a lição do enfrentamento pela poesia. A poesia inicial do Mario Quintana não é fácil, não é agradável de ser lida, coloca o ser humano no centro do seu maior sofrimento. Em segundo lugar, é um enorme depoimento da força de vontade poética do Mario. O Quintana que a gente conhece sai desse processo de gestação sofrido, sai entendendo melhor o mundo, mas principalmente é um sujeito que nunca vai desistir do seu objetivo de vida, que é ser poeta. (in GOMES, 2006)
A segunda fase foi quando, mais maduro, era o tradutor, o poeta que começava a se tornar conhecido. Nesta fase, era de temperamento fechado, zeloso de sua privacidade, gostava de se isolar em um mundo próprio. Sempre morou sozinho, nem mesmo pessoas de sua família entravam em seu quarto, fato que causou uma lacuna
porque não se tem conhecimento direto de quem foi o homem Mario Quintana, do porquê desse seu estilo de vida. E na terceira fase, quando já idoso, com a vivência da popularidade, do sucesso de grandes vendas de seus livros nas décadas de 60 e 70, continuava a morar sozinho, e depois, quando mais idoso, ainda continuava a morar sozinho, mas agora tinha um acompanhante devido aos problemas de saúde. Nesta fase, ele se torna mais maleável, mais sociável, isto já em uma fase final de sua vida, como conta Tânia Carvalhal:
Tinha noção da necessidade do público, que para vender seus livros precisaria ser um autor de livre acesso _ se tornou esse personagem que as pessoas costumavam apontar na rua: ali vai o Mario Quintana, olha o poeta Quintana. (PERIN, 2006)
A vida solitária e a dedicação exclusiva à poesia levaram o poeta para o lado dos amores platônicos. Quintana buscava sempre a discrição com relação a sua vida pessoal, mas é sabido que teve três grandes paixões platônicas assumidas em versos: Greta Garbo, Cecília Meireles e Bruna Lombardi, com direito a fotos no quarto; “A amizade é um amor que nunca morre”(PERIN, 2006), disse o poeta.
Quintana via a poesia não como uma torre de marfim e sim como o maior aprofundamento da visão da vida, e para tanto, usava de diálogo. Sua vida era este articular de vivência das mínimas coisas de onde formava com singeleza sua poesia.
Neste universo cotidiano, era um filósofo, partia do senso comum e prosseguia como mestre. A respeito disso, comenta Carpinejar (2006): “Desconcertava com o raciocínio analógico, virando o senso comum de ponta-cabeça”. Também pode-se acrescentar o que disse a professora de Literatura, escritora e especialista em literatura infanto-juvenil, Regina Zilberman ele vê a realidade de forma não convencional; criança e maturidade se fundem, o adulto é o ídolo infantil e a criança o resíduo do adulto. Um jogo de ir e voltar no tempo, atando infância e velhice num olhar crítico em relação à realidade, envolve o leitor com ludismo, numa fuga das convenções, num exercício de evasão dos aprisionamentos e nunca de alienação; o desligamento traduz um desinteresse pelas convenções e pelos atos rotineiros, como pode-se perceber no poema “Ah, Mundo....”:
Perdão!
Eu distraí-me ao receber a Extrema-Unção.
Enquanto a voz do padre zumbia como um besouro eu pensava era nos meus primeiros sapatos
que continuam andando _ rotos e felizes! _
por essas estradas do mundo.
(QUINTANA, 1988, p.59)
O professor e escritor Donaldo Schüler (PERIN, 2006) diz que no poeta a criança não morre nunca. É um trânsito permanente entre a criança e o adulto, o homem que brinca com as palavras e na medida que brinca, inventa:
Poema
Oh! aquele menininho que dizia
“Fessora, eu posso ir lá fora?
Mas apenas ficava um momento Bebendo o vento azul...
[...]
(QUINTANA, 1988, p.69)
Regina Zilbermam em “Quintana Anjo Poeta”, declara sobre o texto do poeta
“uma poesia em que se encontra ali um mundo imaginário, uma outra realidade _ e que faz com que a gente veja a realidade de uma maneira muito pouco convencional”.
Segundo os críticos, a temática de sua obra perpassa do cotidiano ao metafísico:
a morte direta ou indireta, a própria questão da criança, da doença, da finitude da vida, da brevidade da vida, a tensão entre a essência e a aparência. O doutor em Letras e professor da PUC-RS, Antonio Hohlfeldt, que trabalhou na redação do Correio de Povo com Quintana afirma:
Na verdade, a essência da poesia de Mario Quintana foi exatamente a vida cotidiana, quase invisível – possivelmente por sua rotina – quando surpreendida por um olhar mais apurado. Aliás boa parte dos poemas do escritor natural de Alegrete apresenta este fenômeno: a surpresa da realidade. (QUINTANA, 2006 c).
O tema da morte como amiga desconhecida e surpreendentemente simpática ao encontro, algo irreversível, mas bom; ou porque se avizinha a alguma lembrança da