Há também um vazio neste campo, também trabalhos em que, a partir das memórias das mulheres que trabalharam naquele contexto, foram destacados os caminhos contraditórios que percorreram para dissolver os padrões, convenções e regras em que se baseavam as relações de género. Situada nas mesmas condições sócio-históricas da geração de mulheres que se destacam neste trabalho, vivi aquele momento nas décadas de 70 e 80, sentindo-me no meio de um turbilhão de forças que ameaçava destruir tudo. destruir. as referências com as quais nos orientamos e que ao mesmo tempo evidenciaram perspectivas de um futuro diferente para homens e mulheres. É, portanto, no sentido de uma produção sócio-histórica e cultural que diferentes conteúdos podem ser observados na memória de homens e mulheres.
Esses movimentos iniciam processos complexos em que se alternam mudanças e permanências nas relações de gênero. Desta forma, constituo-me como mediadora das “histórias a contar”, e como referido anteriormente, estas serão apoiadas por outras interpretações e análises, que se limitam às questões da memória e das relações de género.
AS MULHERES NAS LUTAS PELA IGUALDADE SOCIAL
As mulheres cresceram muito com todas essas lutas democráticas: a campanha eleitoral de JK, as Forças Armadas Nacionalistas. Em 1964, porém, as mulheres foram espancadas, tiveram que recuar, houve muita surra... e dessa surra as mulheres só lentamente se recuperaram... quando fui presa em 1969, eu estava grávida . As mulheres da classe média, algumas mais conscientes, começaram a aderir aos Partidos de Esquerda, a coisa da luta armada foi um erro... Saí do país em 1969, saí quando estava ruim.
O momento em que saí do Brasil, no início da década de 1970, foi quando as mulheres começaram a fortalecer seus movimentos organizados. Hoje eu olho como feminista, antes não, fazíamos campanhas, mas foram poucas as mulheres que chegaram a cargos de liderança, mas foram muitas. Houve muita confusão...as mulheres estavam forçando uma certa agenda que não era intencional.
Apontaram que o movimento negro era machista, que as mulheres eram trabalhadoras, que fazíamos feijoada e. Ao registrar como homens e mulheres sindicalizados são genericamente designados como trabalhadores, o narrador “C” aponta para o quadro social, numa perspectiva homogeneizante, ou mesmo, como destaca Edgar Morin, unidimensional. Porém, pela forma como recortei as histórias, fica claro que as mulheres que delas participam gradualmente se mobilizam e participam ativa e significativamente da História.
A partir desta inserção, criam-se ações organizadas, em defesa das mulheres que tenham visibilidade como atores sociais, e que seus interesses específicos sejam incluídos na luta por um mundo mais justo e solidário.
As Mulheres nas Lutas por suas Próprias Causas
Feminino e feminista tornaram-se então distinções aplicáveis a quem se enquadrava nos modelos tradicionais de feminilidade ou a quem se propunha romper com esse modelo e reformular os parâmetros que norteavam as relações de género. Todos os grandes contadores de histórias têm em comum a facilidade com que sobem e descem os degraus da sua experiência, como se estivessem numa escada. As relações homem-mulher foram definidas como uma espécie de relação de poder, em que se percebe uma hierarquia entre o masculino e o feminino.
O narrador “H” ainda fala de “histórias muito parecidas”, que se assemelham e se identificam com as demais histórias. Esta reflexão faz-me pensar nas dificuldades e bloqueios que pude sintonizar, ao ouvir as histórias, em fragmentos muito curtos e, até, em atitudes, que, como muitas questões, eram “das mulheres” em geral. já está discutido. Num grupo grande como o nosso sempre teve coisas assim... fulano de tal quem se destaca mais, ou quem quer aparecer mais que os outros.
Então quando eu ia dar essas palestras, tinha muita gente que não queria ir, e aí eram sempre os mesmos que se destacavam por isso... e acabavam assumindo o controle dos outros, um certo poder, que demos. Se continuarmos dizendo que queremos mudar as coisas, transformar a sociedade, essa mudança tem que partir de nós. Tal como os fios da memória, estas mulheres continuam a tecer as suas narrativas e a revelar configurações formadas na dinâmica das relações mais íntimas em grupo.
Nesta tese, os movimentos dos narradores ilustram claramente as complexas combinações em que se articulam os sujeitos sociais constituídos.
FEMININO E MASCULINO
MOVIMENTOS DE CONSTRUÇÃO
Em casa, mesmo sendo o mais velho, era tolerável que um irmão chegasse mais tarde e eu tivesse que vir mais cedo, esses eram os padrões... Tive um período em que a diferença de educação e tratamento era bem definida, entre os meninos e as meninas. O modelo de feminilidade que se destaca no conteúdo deste material baseou-se claramente num trinômio: passivo-infantil-materno. Rita Kehl7, para referir as mudanças de consistência que ocorrem dentro destes eixos de referência, das relações de género.
Numa outra vertente feminista, Juliet Mitchell20 é contra a abolição da família, mas sugere que procuremos compreender o conjunto estrutural em que se baseia o modelo de família vigente, ainda na década de 1970. Acho que fui uma das primeiras pessoas aqui a se envolver com a questão da licença maternidade, da instabilidade da gestante. As pessoas ligaram para minha casa e disseram: olha, você estava ausente, com medo que eu não acompanhasse, e aí a surpresa delas, porque não é assim... Tirei A no trabalho dele, e algumas pessoas tiveram que exagerar no trabalho .
Eu não fazia parte de um grupo de mulheres negras... Achei que tinha que trabalhar ao lado de homens negros. O conflito que tenho com os homens não é dentro das organizações... sempre tive esse papel de construtor, de apoio, em quase todas as organizações que estou envolvida... é um espaço relativo de poder. Essa narradora disse que o trabalho realizado nos grupos de mulheres negras e brancas teve como foco a desconstrução do modelo de feminilidade que era rotulado como dominante em nossa sociedade.
Também é importante pensar na força e na agência que esses conteúdos têm nos indivíduos de quem estamos falando.
MOVIMENTOS DE DESCONSTRUÇÃO
A narradora “H”, em trechos de suas memórias, já havia registrado há páginas que alguns homens ficavam muito chateados com as mulheres de seu grupo, que trabalhava ao lado do C.C.N; sobre as questões ali discutidas: a libertação do corpo, a sexualidade, as férias, os afetos, os relacionamentos amorosos, que foram descartados por eles como assuntos de interesse secundário em relação à luta negra, em geral. Por outro ângulo, o slogan do Encontro a que se refere a narradora “D”: “Abrir os olhos e colocar a boca para o mundo”, sugere que as mulheres, nesse momento, abram os olhos, ou seja, olhem para o mundo lá fora. o mundo, seu território interior e ampliar sua visão para o conhecimento de outros mundos, que lhes eram convencionalmente proibidos. Ao abrir os olhos e a boca para o mundo”, descobri que trabalhar com mulheres urbanas era diferente de trabalhar com mulheres rurais.
Antes, o que eu fazia não tinha caráter de compromisso, de engajamento, como projeto de vida. A narradora “N”, por exemplo, destacou a sensação de estar enjaulada e aprisionada, à qual se sentia condicionada, dentro do casamento, referindo-se a poder se sentir livre para resolver seus problemas e iniciar seus projetos de vida, somente após a separação. O interessante é que ele foi procurar terapia, para ver o que havia de errado, porque foi um choque tão grande para ele, a forma como ele cresceu e a forma como eu era muito autônomo e queria levar essas coisas. nas minhas mãos.
Estava fora da norma para ambas as famílias, mas uma vez vencida a batalha destas resistências, estabelecemos uma rotina, e só por volta do quarto ano de casamento é que comecei a passar por uma crise profunda, porque me senti como Eu não seria capaz de decidir por si mesmo dentro do casamento. O riso que surge de vez em quando quando os narradores dizem: talvez hoje eu usasse estratégias diferentes, como o narrador “D”, senão ficaria autoritário e agressivo. Muitos estudiosos notaram que mesmo quando um indivíduo ainda está sozinho e apenas antecipando relacionamentos futuros, os homens geralmente falam em termos de “eu”, enquanto as histórias das mulheres sobre si mesmas são frequentemente expressas em termos de “nós”.
O discurso individualizado que aparece na citação acima é qualificado por um “nós” oculto, alguém que será amado e cuidado e transformará o “eu” em.
MOVIMENTOS FINAIS
As mulheres estavam por toda parte, mas éramos anônimas..", escreveu um dos narradores. Através deste enfoque, as mulheres mostraram que o que é construído socialmente pode ser desconstruído, tornando-se um dos eixos de suas práticas marciais. As mulheres negras, no entanto, apontaram para a escalada de outras questões que foram articuladas em nós históricos que ainda prendem a maioria delas a uma posição de pobreza e inferioridade.
Em termos de saúde, as mulheres continuam a dar à luz crianças nas ruas sem a devida orientação e assistência médica. Segundo os contadores de histórias, uma das áreas que deve ser trabalhada com persistência são as práticas cotidianas, entre mulheres e homens em geral. Vi que todas as mulheres que lá passaram tinham a mesma dúvida: como viver um relacionamento sem se tornar metade dele.
Homens e mulheres são desconfiados, com razão, e o mais certo são as divergências entre eles. As mulheres não têm acesso à informação, não sabem como funcionam os partidos políticos, como são geridos os recursos. Temos que fazer isso, mas quem são as mulheres que se sentem preparadas ou confortáveis para fazer isso?
Muitas coisas assim já estão incorporadas, mas ainda me surpreende que tenham crescido nos anos noventa, para elas é quase natural para as mulheres.
Cadernos MAIS Especial – I, Folha de São Paulo/Racismo Cordial, São Paulo, søndag den 25. juni 1995. The Feminine Condition, São Paulo: Vértice, Ed. Escritos no Rio, Rio de Janeiro: Red. orgs.), A Spørgsmål om køn, São Paulo: Fundação Carlos Chagas, 1992. Traps of Difference, São Paulo: Postgraduate kursus i sociologi ved University of São Paulo – USP/Ed.
Color and Race in Intimacy, V: NOVAES, Fernando in SCHWARCZ, Lília (ur.) História da Vida Privada no Brasil, V.4, São Paulo:. org.) Nove paradigme, kultura in subjektivnost, Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. Eksperimenti z življenjskimi zgodbami (Italija-Brazilija) – Odprta enciklopedija družbenih ved, São Paulo: Vértice, Ed. Memória e Identidade Social, V: Estudos Histories , Rio de Janeiro, V. Spomin, pozaba in tišina, São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais/Publicações Estudos Históricos, 1989.
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