Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários, da Universidade Estadual de Feira de Santana, como requisito parcial do curso de Mestrado em Estudos Literários. À equipe pedagógica do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários (PROGEL), pelos horários e aulas veiculadas.
A LITERATURA POLICIAL E O DIÁLOGO COM OUTROS MODELOS LITERÁRIOS
Começamos a pesquisar o tema apenas por diversão, e só então ficamos surpresos com o fato de não encontrarmos nenhuma referência à literatura policial de “ação”. Procuramos também mostrar o caráter transgressor da literatura policial noir e de ação em relação à narrativa policial clássica;
GÊNEROS LITERÁRIOS: ALGUMAS DEFINIÇÕES
Superficialmente, a narrativa policial oferece ao leitor apenas uma história de crime, mas nas entrelinhas desvenda não apenas o mistério do assassinato, mas também o paradeiro da pessoa. Para ele, “Zadig está muito mais próximo dos seguidores do que de um verdadeiro detetive.
O DIALOGISMO NA NARRATIVA POLICIAL
Embora as referências na história de Borges só tenham surgido com o objetivo de relativizar as normas arraigadas na literatura policial e de nos fazer repensar os dogmas presentes nos clássicos do mistério - a solução de um mistério nem sempre está na superfície, nem sempre é fácil entender o que está acontecendo ao nosso redor, como pregavam os primeiros escritores policiais ─ o diálogo com dois grandes autores da literatura enigmática está aberto aos leitores. A novidade deste trabalho, salvo engano, será conceituar e exemplificar a literatura policial de ação, que - embora já exista e seja publicada há anos, desde que a tipologia de mistério, a mais tradicional, nasceu com Edgar Allan Poe ─ nunca foi estudado, tendo sua terminologia e teoria criadas pelo autor - também de histórias policiais - Mayrant Gallo, apenas em 2005.
A NARRATIVA POLICIAL DE ENIGMA
Outro aspecto da ficção policial enigmática é o fato de sempre começar com um crime, que na maioria dos casos é gratuito. Sherlock Holmes, personagem criado por Conan Doyle em 1887, é um exemplo desse herói na literatura policial enigmática. Quando um detetive não conseguia resolver o mistério de um crime, procurava a ajuda de Holmes, sempre infalível.
Porém, a “rainha do crime” foi uma das primeiras a renovar a trama do enigmático romance policial. Apesar de permanecer vinculada a diversas regras impostas pelos defensores da ficção policial clássica, Agatha Christie já introduziu inovações no gênero policial acima mencionado. Um escritor policial que podemos de fato apontar como um escritor de transição entre a literatura policial clássica e a literatura noir ─ que analisaremos na próxima vez ─ é Georges Simenon.
Outras violações, ainda maiores, relativas à literatura policial de enigma, serão analisadas no próximo tópico.
A NARRATIVA POLICIAL NOIR
48 mostra, assim, outra grande diferença com o enigma policial, onde nenhum valor é atribuído à vítima, pelo contrário: ela é apenas uma peça de um quebra-cabeça que o detetive, cheio de habilidade e coragem, deve desvendar. Embora haja mais ação do que mistério na literatura policial noir, há sempre uma investigação de um crime que também acontece no início, assim como no enigma. A descrição de Borges, que acabamos de ler, deixa bem claro que se trata de um policial de ação, pois o leitor acompanha o assassino e todo o pano de fundo de um assassinato que só ocorrerá no final da história.
Podemos perceber claramente que o conto “O Jardim dos Caminhos Fortes” é uma história policial de ação, pois conta a história de um espião que foge de ser encontrado e, enquanto isso, tenta enviar uma mensagem ao capitão sobre que trabalha A ficção policial de ação ganha força atualmente na narrativa contemporânea, justamente porque o raciocínio, a lógica, o desvendar de um quebra-cabeça, nada disso parece importar muito, pois não cabe mais nos nossos tempos. A ficção policial noir e a ficção policial de ação são variantes da clássica e enigmática ficção policial.
Além disso, com todas as variações na literatura policial, uma característica permanece fixa: a ocorrência de um crime.
UM POUCO DA LITERATURA POLICIAL NO BRASIL .1 A primeira narrativa policial brasileira: O mistério
Outra ironia dos quatro escritores do primeiro romance policial brasileiro diz respeito a uma tendência na ficção policial de criar citações e jogos intertextuais. Portanto, Coelho Neto, Afrânio Peixoto, Medeiros e Albuquerque e Viriato Corrêa desempenharam um papel importante em favor da literatura policial no Brasil. O escritor Flávio Moreira da Costa considera Machado de Assis um precursor da ficção policial no Brasil, tanto que o incluiu em sua antologia de histórias policiais brasileiras: Crime Caseiro (2005).
Segundo eles, o conto "The Fortune Teller", publicado em 1884, pode pertencer à literatura policial de ação. Mas para não nos determos na ilustração, já que o objetivo deste tópico é apenas dar um breve panorama da literatura policial no Brasil e não perder o foco do trabalho, vamos resumi-lo e falar apenas do romance O Grande Arte de Rubem Fonseca ─ um dos mais respeitados autores contemporâneos de ficção policial brasileira ─, que tem grande importância para o esporte no Brasil. O escritor mineiro Rubem Fonseca aperfeiçoa as características da literatura policial ao mesmo tempo que da transgressão.
Não seria correto dizer que a literatura policial é altamente desenvolvida no Brasil, mas é certo que vem se afirmando, se consolidando e ganhando seu lugar desde Machado de Assis.
MAYRANT GALLO: NOTA BIOGRÁFICA
Leitor e admirador de escritores como Machado de Assis, Albert Camus e Kafka, Mayrant Gallo destaca em sua obra de ficção o ceticismo que ronda os textos desses autores. Em suas narrativas, Gallo revela de forma irônica e impiedosa a rotina vazia e sem sentido do homem em meio às crises existenciais. Miguel Sanches Neto no livro Os Inéditos de Kafka (2003) escreve: “A largura de Mayrant Gallo é a largura da incerteza, criaturas que se desviam do rebanho, são roídas por todas as dúvidas”.
Minhas histórias refletem isso, o fardo que é a vida, a dor que é viver num determinado contexto social sem nenhuma graça para o homem e ao qual ele se entrega como que ao capricho de uma corrente inevitável. E é essa visão, de um mundo absurdo, que percebemos constantemente nas histórias do autor. 72 Em resenha para a Revista Iararana (2000, p. 90), o jornalista e escritor Elieser Cesar considera inevitável o tom de pessimismo nas histórias de Mayrant Gallo, já que seus personagens quase sempre terminam de determinada forma. por outro lado, experimentar um desses momentos de vida; um daqueles golpes traiçoeiros do destino.”
O forte ceticismo de Mayrant Gallo está presente principalmente em histórias ambientadas em ambiente urbano, com uma Salvador suja, degenerada, distante dos cartões-postais, e em narrativas policiais em que os personagens esbanjam desprezo, cinismo, sarcasmo e uma atitude estóica diante do absurdo da vida.
O CRIME COMO MÉTODO: OS CONTOS POLICIAIS DE MAYRANT GALLO Como mencionamos no capítulo anterior, para o teórico e escritor Mayrant
Podemos deduzir desta história que um dos motivos do crime também é a fome (real ou simbólica). O sentimento de Rodrigo Paulo não é apenas imaginação de escritor, é algo que atinge muitos e até os transforma em criminosos. Não se trata de um espelho torto, trata-se de uma encenação criativa ─ e portanto complexa.
11 O significado que o nome do personagem sugere é um “piedoso” (gentil, piedoso) e ao mesmo tempo alguém que manipula o “gatilho” de armas de fogo, afinal é um assassino. E é quando os investigadores não encontram um crime que mostra desde o início que será arquivado prematuramente, como observamos na mini-história "Escuridão", onde os detetives Nicolau e Ricardo encontram o corpo de um menino que havia sido assassinado em uma rua ruim - iluminada e deserta: “Mais um crime sem solução - na periferia, no subúrbio. Nesta mini-história, Nicolau e Ricardo encontram o corpo de um menino que aparentemente caiu do décimo oitavo andar de um prédio.
Ao se aproximar de seu destino, o ar fresco inundou seu rosto com um alívio inesperado.
OUTROS CONTOS, OUTRAS REFLEXÕES
Entendemos que quando Gallo cria o personagem do barão condenado, ele está se referindo a nós mesmos por meio de uma metáfora. Trigger revela: “A partir daquele momento fui dominado por uma paixão estranha e humilhante que rapidamente se intensificou”. É a dor da decepção, de se sentir tolo, de se ver humilhado pelos primos, provavelmente mais velhos, que você talvez admirasse.
Entendi que havia destruído o equilíbrio do dia, o silêncio incomum de uma praia onde fui feliz. Mesmo que a violência pareça gratuita, mesmo que o crime aconteça “por causa do sol”, o absurdo da acção advém muitas vezes de uma existência igualmente absurda. Nos próximos tópicos abordaremos outros motivos para um crime ─ por mais banais que sejam ─ ou mesmo a falta de motivação, que em momentos de aridez e dor também é capaz de transformar pessoas antes inofensivas em criminosos.
Voltando à discussão dos motivos do crime, na literatura de ação policial a morte ocorre muitas vezes sem qualquer propósito ou motivação, mas apenas como resultado da investigação ou perseguição de um criminoso.
Em 2005, Mayrant Gallo, também estudioso da modalidade, cunhou o termo "ficção policial de ação" para um tipo de narrativa policial que se diferenciava das outras duas, mais conhecidas, mas já vinha sendo publicada há muito tempo, talvez até junto. com o quebra-cabeça e a narrativa policial noir e, apesar disso, ainda não havia sido discutido teoricamente. Alguns críticos chamaram ─ e ainda chamam ─ a narrativa policial de ação da ficção policial de "contemporânea" ou "atual", pelo fato de ter assumido maior importância em nossa época mais transgressora. A modalidade de atuação policial, tão escrita e publicada, mas até agora pouco pesquisada academicamente, e os trabalhos de Mayrant Gallo, também pouco estudados em nível universitário, ainda merecem o desenvolvimento de um projeto maior.
Lidiane Nunes: A criação da história policial de enigma é atribuída ao escritor Edgar Allan Poe, com o conto 'Os Assassinatos da Rua Morgue', de 1841. Quanto à criação de literatura policial de enigma ou mistério, esta modalidade é muito antes de Poe e Voltaire, como afirmam muitos teóricos. Lidiane Nunes: Como você chegou à terminologia ‘literatura policial de ação’, quais as características dessa variante e como ela se diferencia da ficção policial clássica e do noir.
Mayrant Gallo: O mistério ou detetive misterioso conta a investigação, ela é centrada no personagem do detetive, o investigador.