O infanticídio é considerado crime, a menos que a mulher em trabalho de parto o cometa sob a influência do estado pós-parto. Portanto, para configurar o crime de infanticídio, devem ser combinados os seguintes fatores: mãe em estado de parto + morte do próprio filho + menstruação - durante ou logo após o parto. O legislador tratou de forma diferenciada pelo fato de o agente causador estar sob influência da condição puerperal e ter causado a morte do nascituro ou recém-nascido.
Pois bem, então com o desenvolvimento da ciência, principalmente da medicina, o conceito de estado de parto passou a ser considerado, principalmente por ser um aspecto psicológico. Por outro lado, a condição puerperal nem sempre ocorre e é considerada uma condição especial e anormal. 11. Alguns chamam a gravidez, o parto e o pós-parto que se segue de estado puerperal; outros, apenas o último; outros entendem que o estado puerperal se inicia após o parto e perdura durante o período de involução clínica do útero.
A condição puerperal pode determinar, embora nem sempre determine, a mudança no psiquismo da chamada mulher normal. Nosso Código Penal, que aprova o critério fisiológico, considera essencial o sofrimento psíquico que a condição puerperal pode causar ao nascimento. O perito deve estabelecer o diagnóstico vitalício, o diagnóstico de nascido vivo, o diagnóstico do mecanismo de morte, o diagnóstico da condição puerperal e o diagnóstico do puerpério do autor ou do último ou anterior nascimento.
Assim, o estado puerperal pode ser visto como um transtorno mental transitório, de modo que, ao ser examinada, a mulher ainda não apresenta sintomas.
O ato filicida
O filicídio materno
Ao mesmo tempo, não é raro perceber na literatura certo preconceito quanto à definição de mãe doente. Já não se pode negar que a mãe tem uma ligação biológica, de sobrevivência, ou seja, uma relação intensa com o filho. De fato, desde a gravidez o vínculo materno é mais forte, pois este é um momento muito especial para a mulher.
Para tal sistema, essas doenças associadas à gravidez ou ao parto estariam associadas a outro tipo de doença mental, como o transtorno afetivo bipolar.39. Vale ressaltar que há registros de que 40% dos homicídios de crianças ocorrem durante um surto psicótico43. Nesse caso, a mãe mata o filho por amor, e o melhor caminho para o filho seria a morte.
As mulheres que cometem tais atos consideram-se boas mães e não entendem como cometer o crime.44. A mãe sofre de psicose ou delírios e acaba matando o filho sem motivo aparente. 46 Transtorno psiquiátrico em que o paciente causa, provoca ou simula sintomas de doença de forma compulsiva, deliberada e contínua, sem nenhum benefício óbvio de tal atitude além da obtenção de cuidados médicos e de enfermagem.
No caso do infanticídio de criança indesejada, a autora47 relata que a mãe vê seu filho como um problema e acaba por matá-lo. A ausência da figura paterna, o filho oriundo de uma relação extraconjugal e as dificuldades econômicas são alguns dos fatores que podem motivar esse tipo de infanticídio.48. Nesta categoria estão os agressores com graves transtornos de personalidade, com relações familiares caóticas e histórico de automutilação.50.
O que parece inegável é que um ambiente saudável, acolhedor, no qual a mãe encontra seus alicerces, a torna segura, contribuindo para sua saúde mental e sobrevivência de seu filho. Disfunção familiar, laços emocionais fracos entre os pais, histórico de abuso infantil e abuso de drogas e álcool também podem ser vistos como fatores que contribuem para o problema.51. O acompanhamento da gravidez, o diagnóstico precoce, o conhecimento da história de vida da futura mãe é sem dúvida a melhor opção para um diagnóstico preciso em que os fatores pessoais têm um impacto significativo.
O filicídio paterno
Parece, portanto, que não se pode generalizar, uma vez que existem várias razões para o infanticídio. É preciso analisar o caso e o histórico da mãe, que muitas vezes apresenta uma gravidez sem acompanhamento médico, além de apresentar, em algum momento do passado, uma situação ou reação típica de uma doença mental, que sem tratamento adequado , acrescenta ao quadro que também pode estar associado ao uso/abuso de drogas e/ou álcool, abandono familiar, antecedentes criminais e até mesmo abuso sexual na infância. Ora, vê-se que quando o homem tira a vida da criança, o faz porque não tolera seu choro, porque não aceita ser contestado em sua autoridade, porque não se conforma com o fim da lei. relacionamento amoroso ou por motivos relacionados ao incesto.
Um homem, analfabeto, casado, agricultor, jovem, de 26 anos, enforcou as duas filhas, uma de três anos e uma de um ano e meio, em uma árvore. Enquanto o filicídio cometido por mulheres tende a estar associado a quadros psicóticos; no caso dos homens, os transtornos de personalidade são diagnosticados com mais frequência.55. Dúvidas sobre a paternidade também aparecem como motivação, além da percepção da criança como um obstáculo para o sucesso profissional.56.
O que se vê é a prática desse ato horrível em diferentes culturas e épocas pelos mais diversos motivos. As desculpas para a doença do filho ou o medo de que algo pior aconteça com ele também se repetem. A repetição de golpes e o uso de objetos contundentes como faca também apontam para o fato de que podemos dizer que a violência extrema é comum.
Eles justificam o ato com motivos relacionados à masculinidade, por abandono ou separação da esposa, além de questões financeiras. Vários fatores não podem ser negligenciados: o histórico de violência doméstica na infância ou na vida conjugal, bem como o abandono e a baixa escolaridade desses pais filicidas. As mulheres são as que mais praticam o ato e, ao contrário do que se pensava no início deste trabalho, a doença mental não pode ser diretamente ligada à prática filicida como única causa.
Evidência de que a doença mental não tratada pode ser um dos desencadeadores da prática filicida, os fatores hormonais relacionados com a doença mental podem ser um fator de risco para o crime que, no entanto, não pode ser considerado como resultado direto da doença mental. Movimentos sociais e políticas baseadas na antipsiquiatria e na crença ingênua de que o fechamento de hospitais psiquiátricos acabaria com as doenças mentais deixaram os doentes mentais à própria sorte. O estudo da prática filicida não pode, portanto, apontar apenas um fator, apenas identificar determinadas situações de risco, bem como situações recorrentes.
A mulher portadora de doença mental ou com histórico de sintomas psiquiátricos não tratados, portanto, merece atenção especial, pois é possível detectar crianças em situação de risco, bem como a necessidade de um trabalho preventivo com essas mulheres, principalmente nos casos de intenção de engravidar. nosso país, política pública voltada para a atenção à saúde mental durante a gravidez e após o parto, a fim de realizar um diagnóstico precoce durante a assistência perinatal. Mestre em Ciências Criminais) – Faculdade de Direito, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2004.