SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL UNIVERSIDADE FEDERAL DE JATAÍ
UNIDADE ACADÊMICA DE ESTUDOS GEOGRÁFICOS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
JOSIMAR GONZAGA DIAS
EFEITOS ECONÔMICOS DA AGROINDÚSTRIA CANAVIEIRA NO MUNICÍPIO DE JATAÍ (GO)
JATAÍ-GO 2020
UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
UNIDADE ACADÊMICA ESPECIAL DE ESTUDOS GEOGRÁFICOS
TERMO DE CIÊNCIA E DE AUTORIZAÇÃO (TECA) PARA DISPONIBILIZAR VERSÕES ELETRÔNICAS DE TESES
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JOSIMAR GONZAGA DIAS
EFEITOS ECONÔMICOS DA AGROINDÚSTRIA CANAVIEIRA NO MUNICÍPIO DE JATAÍ (GO)
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Referência: Processo nº 23070.049912/202011 SEI nº 1759418
JOSIMAR GONZAGA DIAS
EFEITOS ECONÔMICOS DA AGROINDÚSTRIA CANAVIEIRA NO MUNICÍPIO DE JATAÍ (GO)
Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Geografia/PPG-GEO- Stricto Sensu-Universidade Federal de Jataí, sob orientação do Prof. Dr. William Ferreira da Silva.
JATAÍ-GO 2020
Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor, através do Programa de Geração Automática do Sistema de Bibliotecas da UFG.
GONZAGA DIAS, JOSIMAR
EFEITOS ECONÔMICOS DA AGROINDÚSTRIA CANAVIEIRA NO MUNICÍPIO DE JATAÍ (GO) [manuscrito] / JOSIMAR GONZAGA DIAS. - .
109 f.: il.
Orientador: Prof. WILLIAM FERREIRA DA SILVA.
Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Goiás, Unidade Acadêmica Especial de Estudos Geográficos, Jataí, .
Bibliografia. Anexos. Apêndice.
Inclui siglas, mapas, abreviaturas, gráfico, tabelas, lista de figuras, lista de tabelas.
1. Agroindústria canavieira. 2. Arrecadação tributária . 3.
Trabalho X Capital. I. , WILLIAM FERREIRA DA SILVA, orient. II.
Título.
CDU 911
UNIVERSIDADE FEDERAL DE JATAÍ COORDENAÇÃO DE PÓS-GRADUAÇÃO - REGIONAL JATAÍ
ATA DE DEFESA DE DISSERTAÇÃO
Ata nº 20 da sessão de Defesa de Dissertação de Josimar Gonzaga Dias, que confere o título de Mestre em Geografia.
Ao primeiro dia de dezembro de 2020, a partir das 14h, por videoconferência, realizou-se a sessão pública de Defesa de Dissertação intitulada “EFEITOS ECONÔMICOS DA AGROINDÚSTRIA CANAVIEIRA NO MUNICÍPIO DE JATAÍ (GO)” . Os trabalhos foram
instalados pelo Orientador, Professor Doutor William Ferreira Silva (UFG /REJ) com a participação dos demais membros da Banca Examinadora: Professor Doutor Dimas Moraes Peixinho (UFJ), membro titular interno; Professora Doutora Marluce Silva Sousa (IFG / JATAÍ) membro titular externo. Durante a arguição os membros da banca não fizeram sugestão de alteração do título do trabalho . A Banca Examinadora reuniu-se em sessão secreta a fim de concluir o julgamento da Dissertação, tendo sido o candidato aprovado pelos seus membros.
Proclamados os resultados pelo Professor Doutor William Ferreira Silva, Presidente da Banca Examinadora, foram encerrados os trabalhos e, para constar, lavrou-se a presente ata que é assinada pelos Membros da Banca Examinadora, ao primeiro dia de dezembro de 2020 . TÍTULO SUGERIDO PELA BANCA
Documento assinado eletronicamente por William Ferreira Da Silva, Orientador, em 01/12/2020, às 17:27, conforme horário oficial de Brasília, com fundamento no art. 6º, § 1º, do Decreto nº 8.539, de 8 de outubro de 2015.
Documento assinado eletronicamente por Marluce Silva Sousa, Usuário Externo, em 01/12/2020, às 17:39, conforme horário oficial de Brasília, com fundamento no art. 6º, § 1º, do Decreto nº 8.539, de 8 de outubro de 2015.
Documento assinado eletronicamente por Dimas Moraes Peixinho, Professor do Magistério Superior, em 01/12/2020, às 17:48, conforme horário oficial de Brasília, com fundamento no art. 6º, § 1º, do Decreto nº 8.539, de 8 de outubro de 2015.
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Referência: Processo nº 23070.049912/2020-11
Dedico esse trabalho a Deus e aos meus tios Rubens Gonzaga Dias (in memorian) e Regina Francisca Dias. E a todos que de alguma maneira contribuíram para a construção deste.
AGRADECIMENTOS
Primeiramente a Deus por me proporcionar vitalidade e disposição para poder vencer obstáculos e conseguir concluir esta etapa.
A minha amada mãe, Izabel Bernardes Dias (in memorian) mesmo que no seu modo simples de ser e viver e ainda por ter tido somente quinze dias de frequência escolar sempre me orientou dizendo que eu deveria sempre estudar “e que o conhecimento é a única coisa que ninguém consegue lhe tirar’’.
Gratidão.
Aos meus queridos tios Rubens Gonzaga Dias (in memorian) e Regina Francisca Dias, que sempre me proporcionaram bons exemplos, ensinamentos, apoio e me deu oportunidade de ter uma segunda família, isso, para que eu pudesse me reestabelecer em vários momentos de dificuldade em que passei ao longo de toda minha vida, minha eterna gratidão.
Aos meus tios Valdenir Gonzaga Dias e Roseli Thiago de Freitas que contribuíram para a minha caminhada me acolhendo em sua família por algum tempo, minha gratidão.
Aos meus queridos primos, Tatiane Francisca Dias, Daiane Francisca Dias Bononi e Marcelo Roberto Bononi, por me acolherem com tamanho amor e dedicação na vida de vocês, por ter sempre aceitado incondicionalmente minha presença em meio a família de vocês e assim socializar e dividir comigo momentos tão importantes, obrigado.
A minha tão amada priminha Maria Fernanda Dias Bononi, que cada vez mais tem me proporcionado momentos incríveis de vivência a cada dia que passei ao seu lado, minha gratidão por poder tê-la como prima, pessoinha iluminada, obrigado por existir na minha vida.
Ao meu orientador, Prof. Dr. William Ferreira da Silva, que de maneira muito especial me acolheu como orientando, o qual, foi verdadeiramente um professor que me abriu portas que até então as desconhecia, sua orientação contribuiu para a consolidação dessa pesquisa. Meu eterno agradecimento e gratidão por ter me orientado com tamanha humildade, sabedoria, humanidade e hombridade. Gratidão eterna.
Aos professores que ministraram aulas nas disciplinas cursadas, minha gratidão pelo acolhimento e pelos ensinamentos que cada um à sua maneira contribuíram para a consolidação deste.
Aos meus amigos Relicler Pardim Gouveia e Christianne de Lima Borges Moraes, que sempre me apoiaram para que eu persistisse trilhando pelos caminhos da Pós-Graduação, minha gratidão. Aos meus colegas de trabalho da Coordenação Regional de Educação de Jataí e das Unidades Educacionais em que trabalhei, pela contribuição direta e indireta que de alguma forma somaram forças para que esse trabalho se concretizasse. Obrigado.
De maneira muito especial a todos que disponibilizaram dados para a investigação, ao Sr.
Adelino Gameiro das Neves, e ao Sr. Idenilson Rodrigues Morais. Meu muito obrigado.
A todos aqueles que contribuíram de alguma maneira para a realização da pesquisa.
“Numa sociedade dominada pela produção capitalista, até o produtor não capitalista é dominado por concepções capitalistas”.
Karl Marx
RESUMO
Os incentivos de políticas governamentais e as características físicas do centro-oeste brasileiro proporcionaram a expansão da agroindústria canavieira para diferentes estados da região, como Goiás, que transformou vários de seus munícipios em importantes produtores, sendo um dos principais, Jataí (GO). Nessa perspectiva, o objetivo desse estudo é compreender os efeitos econômicos da agroindústria canavieira no município de Jataí (GO). Os procedimentos e técnicas consistem em revisão bibliográfica da temática e interpretação de dados provenientes de órgãos públicos e privados relativos à agroindústria canavieira. Com a realização desse estudo diagnosticou-se que o país teve períodos históricos marcados com avanços econômicos com a produção e exportação de derivados de cana-de-açúcar e momentos de crises, minimizados com modernização e aumento da competividade da agroindústria canavieira com outras atividades agrícolas. A realização desse estudo demonstra que Goiás representa um dos estados com maiores produtividades de cana-de-açúcar e seus derivados no país. O município de Jataí (GO) destacou-se nesse processo devido às características físicas (clima, solo, relevo) que predominam no local e são favoráveis à mecanização agrícola. A territorialização da agroindústria canavieira em Jataí (GO) ocorreu por meio da ocupação de terras para o cultivo de cana-de-açúcar e pelo estabelecimento de formas de controle sobre o trabalho e as finanças municipais, uma vez que a atividade tende a se tornar um dos principais empregadores e geradores de tributos nos municípios onde se instala. Mesmo com a incisiva participação no ordenamento econômico do município, ainda permanece o desafio de fazer com que esses recursos contribuam para avanços na saúde, educação, segurança, entre outros elementos fundamentais para a evolução da sociedade e da economia dos municípios.
Palavras-Chave:Agroindústria canavieira. Arrecadação tributária. Trabalho X Capital.
ABSTRACT
The incentives of government policies and the physical characteristics of the Brazilian Midwest provided the expansion of the sugarcane agribusiness to different states in the region, such as Goiás, which transformed several of its municipalities into important producers, one of the main ones being Jataí (GO). In this perspective, the objective of this study is to understand the economic effects of the sugarcane agribusiness in the city of Jataí (GO). The procedures and techniques consist of a bibliographic review of the theme and interpretation of data from public and private agencies related to the sugarcane agribusiness. With the realization of this study, it was diagnosed that the country had historic periods marked by economic advances with the production and export of sugarcane derivatives and moments of crisis, minimized with modernization and increased competitiveness of the sugarcane agribusiness with other agricultural activities. The realization of this study demonstrates that Goiás represents one of the states with the highest productivity of sugarcane and its derivatives in the country. The municipality of Jataí (GO) stood out in this process due to the physical characteristics (climate, soil, relief) that prevail in the place and are favorable to agricultural mechanization. The territorialization of the sugarcane agribusiness in Jataí (GO) occurred through the occupation of land for the cultivation of sugar cane and the establishment of forms of control over municipal work and finances, since the activity tends to become one of the main employers and tax generators in the municipalities where it operates. Even with the incisive participation in the economic ordering of the municipality, the challenge still remains to make these resources contribute to advances in health, education, security, among other fundamental elements for the evolution of society and the economy of the municipalities.
Keywords: Sugarcane sector. Tax collection. Work X Capital.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1- Colheita de cana-de-açúcar mecanizada e manual das safras de 2007/2008 e 2018/
2019 em Goiás. ... 38
Figura 2– Área Plantada (mil ha) de cana-de-açúcar nos estados de Goiás, Minas Gerais e São Paulo entre 1980-2018. ... 39
Figura 3- Zoneamento agroecológica da cana-de-açúcar no estado de Goiás realizado em 2009. ... 40
Figura 4- Localização do município de Jataí/Goiás ... 43
Figura 5 - Evolução de 1991 a 2018 da população de Jataí (GO). ... 45
Figura 6- Uso da terra no município de Jataí (GO) ... 46
Figura 7- Usina Cosan/Raízen de Jataí (GO) ... 47
Figura 8- Área Plantada com cana-de-açúcar em 2000 no estado de Goiás ... 50
Figura 9- Área Plantada com cana-de-açúcar em 2010 no estado de Goiás ... 51
Figura 10- Área Plantada com cana-de-açúcar em Goiás/2018. ... 52
Figura 11- Área Plantada e unidades em operação e suspensas de cana-de-açúcar em Goiás/2018. ... 54
Figura 12– Área de fornecedores e de proprietários rurais na região de influência da unidade agroindustrial de Jataí (GO) ... 62
Figura 13 – Arrecadação de ISS/ISQN (R$) com atividade canavieira no município de Jataí (GO) entre 2007-2019. ... 71
Figura 14 - Repasses total anual do Fundo de Participação do Municípios (FPM) na atividade canavieira em Jataí (GO) entre 2005 -2019. ... 73
Figura 15- Produto Interno Bruto - PIB municipal de Jataí (GO) entre 2000 a 2015. ... 74
Figura 16- Produto Interno Bruto Per Capita- municipal de Jataí (GO) entre 2000 a 2015. .... 75
Figura 17– ICMS anual no município de Jataí (GO) entre 2005 a 2019. ... 79
Figura 18 - GOIÁS: Postos de trabalho formais - agroindústria canavieira (2006/2018) ... 83
Figura 19 - GOIÁS: Postos de trabalho formais - agroindústria canavieira (2006/2018) ... 84
Figura 20 - JATAÍ (GO): postos de trabalho formais - agroindústria canavieira (2006/2018) 85 Figura 21 - JATAÍ (GO) - Postos de trabalho formais - agroindústria canavieira (2006/2018) ... 85
LISTA DE TABELAS Tabela 1- Produção de Etanol entre os maiores produtores em 2016. ... 25
Tabela 2– Relação dos Municípios que tiveram ganho no Índice Final de Participação dos municípios (IPM) 2019 em relação ao Índice Final 2018. ... 79
Tabela 3 - Arrecadação mensal de ICMS no município de Jataí (GO) entre 2005 a 2019. ... 96
Tabela 4- Repasse da Cota-Parte do Fundo de Participação dos Municípios - Cota Mensal e da Cota-Parte do Fundo de Participação do Municípios - 1% Cota* ... 97
Tabela 5 - Repasse da Cota-Parte do Fundo de Participação dos Municípios - Cota Mensal e da Cota-Parte do Fundo de Participação do Município de Jataí-GO- 1% Cota*. Período de 2013-2019. ... 98
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Ranking de cana-de-açúcar/ Valor da produção (Unidade: R$x1000) ... 48
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
CANASAT - Mapeamento da Cana via Imagens de Satélite de Observação da Terra.
CONAB- Companhia Nacional de Abastecimento.
EMBRAPA - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.
FPM - Fundo de Participação dos Municípios.
IAA- Instituto do Açúcar e Álcool.
IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
ICMS - Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços ISS - Imposto Sobre Serviços
PDE 2023 - Plano Decenal de Expansão de Energia.
PLANALÇUCAR - Programa Nacional de Melhoramento da cana-de-açúcar.
PROÁLCOOL - Programa Nacional do Álcool.
PRODUZIR - Programa de Desenvolvimento Industrial de Goiás.
UNICA - União da Indústria de cana-de-açúcar.
SUMÁRIO
1 - INTRODUÇÃO ... 10
2 - DINÂMICA SÓCIO-ESPACIAL DA AGROINDÚSTRIA CANAVIEIRA EM GOIÁS. ... 16
2.1 - Produção de cana-de-açúcar no Brasil: breve histórico ... 19
2.2 - O Proálcool, os veículos bicombustíveis e a expansão da agroindústria canavieira . 21 2.3 - A agroindústria canavieira no Cerrado brasileiro ... 26
3 - ORGANIZAÇÃO ESPACIAL E TEMPORAL DA ATIVIDADE CANAVIEIRA NO MUNICÍPIO DE JATAÍ – GO ... 33
3.1 - A agroindústria canavieira em Goiás: o município de Jataí como objeto de territorialização canavieira ... 36
3.2 - As implicações da inserção da agroindústria canavieira no município de Jataí (GO) ... 49
4 - EFEITOS SOCIOECONÔMICOS DA TERRITORIALIZAÇÃO DA AGROINDÚSTRIA CANAVIERA EM JATAÍ (GO) ... 56
4.1- O acesso e o controle sobre as terras pela agroindústria canavieira ... 58
4.2 - Arrecadação municipal: Imposto sobre Serviços (ISS) ... 68
4.3 - Repasses federais: Fundo de Participação dos Municípios (FPM) ... 72
4.4 - Repasses estaduais: Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) 72 4.5 - Agroindústria canavieira e o mercado de trabalho em Jataí (GO). ... 80
5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 87
REFERÊNCIAS... 90
ANEXOS... 95
APÊNDICE ... 99
1 - INTRODUÇÃO
As ações humanas transformam constantemente o espaço geográfico, resultado da reprodução das relações sociais. Santos (1999) ressalta que a técnica e o trabalho representam um conjunto de meios instrumentais e sociais com os quais o homem realiza sua vida, produz e, ao mesmo tempo, transforma o espaço.
Conforme afirma Sanchez (1990) as técnicas que transformam e criam o espaço encontram-se associadas com as relações sociais gerais transformadas com base em cada tempo histórico. Desse modo, as primeiras ações que definiram o homem como histórico foram aquelas relacionadas ao processo de construção do espaço em diferentes escalas temporais das sociedades.
No decorrer da história foram constantes as transformações no espaço, especialmente, relacionadas às atividades econômicas, como a agricultura, que evoluiu conforme as sociedades avançaram nas técnicas de produção e transformação do espaço geográfico. Todos os espaços hoje usados pela humanidade para as mais diversas finalidades foram, em algum grau, transformados para melhor atender às demandas, desde as mais elementares às mais sofisticadas. As configurações espacial e territorial que caracterizam um recorte espacial são permeadas pelo tempo, pelas técnicas e pelas potencialidades de uso deste espaço pela sociedade.
O Brasil, por sua grande extensão territorial, pelo conjunto de eventos, explorações, culturas, técnicas e elementos naturais tão diversos, não se permite ser entendido por vias que não sejam aquelas que privilegiem a pluralidade. Com o início da colonização portuguesa no Brasil, foram inseridas diferentes técnicas e atividades para exploração e obtenção de lucros na colônia. Uma das primeiras atividades econômicas implantadas, e que se mantém em evidência até os dias atuais, é a produção de cana-de-açúcar e seus derivados, a qual ganhou destaque nos séculos XVI e XVII e forneceu importantes contribuições para a economia do país, devido aos engenhos no nordeste brasileiro, nos estados de Pernambuco, Bahia, Alagoas, Sergipe e Paraíba (CANABRAVA, 2005).
Na trajetória da produção canavieira no Brasil foram ocupados diferentes espaços reordenando a distribuição territorial da atividade de acordo com condições ambientais, técnicas, econômicas e políticas. A região Nordeste se manteve como o centro da produção canavieira entre o final do século XVI e meados do século XVII, com base no sistema Colônia- Metrópole, principalmente na faixa litorânea do Nordeste, atualmente conhecida como Zona da Mata, que tinha como mercado consumidor Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, agreste e sertão
nordestinos, sul fluminense, litoral norte de São Paulo, e demais espaços econômicos excluídos do paradigma agroexportador (GODOY, 2007).
Os estados do Rio de Janeiro e São Paulo passaram a ser ocupados pela atividade canavieira em um movimento de distribuição pelo território colonial e, em diferentes momentos, foram importantes produtores e fornecedores, especialmente, para as regiões Sul e Sudeste do país. Conforme (GODOY, p. 9. 2007) indica “Ainda que com quantidades expressivas de açúcar exportadas já na primeira metade do século XVIII, foi somente na segunda metade da centúria, com a implantação e expansão da atividade na região de Campos de Goitacazes, que a produção carioca passou a rivalizar com a nordestina”.
Posteriormente a produção de cana-de-açúcar ampliou-se em diferentes regiões do país, como no Centro-Oeste e no Norte. No século XIX aexpansão dos polos produtores de açúcar em outros países reduziu a importância do Brasil no mercado mundial, o que provocou o aumento da competividade e de novas estratégias para realização dessa atividade.
Considerando a longeva trajetória da atividade canavieira no Brasil, uma condição recorrente é a participação estatal, de diferentes formas e com diferentes instrumentos, no sentido de viabilizar e regular a produção. A ação estatal sobre a atividade canavieira é condição que acompanha sua implantação, consolidação e expansão em diferentes momentos.
Intervenções marcantes podem ser identificadas em 1933, por ocasião da criação do Instituto de Açúcar e Álcool (IAA), com a finalidade de regular a produção interna e desenvolver pesquisas sobre a cultura, enquanto em 1975, com a primeira crise do petróleo o Brasil iniciou o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), com o objetivo de inserir o etanol na matriz energética brasileira, processo esse que se intensificou no fim da década de 1990 (CALDARELLI, 2016).
O uso de etanol, como combustível teve novo movimento de expansão a partir de 2003 com o início do uso no país dos veículos automotivos com motores adaptados para operarem com etanol e gasolina, os chamados veículos bicombustíveis ou “flex-fuel”. Este advento, associado ao mercado internacional de açúcar foram responsáveis por proporcionar condições de competitividade à agroindústria canavieira brasileira e dar início a um movimento de ampliação da produção de etanol e de açúcar que caracterizou a primeira década deste século.
Dessa forma, a produção de cana-de-açúcar no Brasil tem aumentado desde o início do século XXI, com a implantação da cultura em novos locais impulsionada principalmente pelo consumo de etanol no mercado interno (MARIN et al., 2011).
Por conta da ampliação da demanda por etanol no mercado nacional e a manutenção da liderança brasileira nas exportações de açúcar, a primeira década do século XXI assiste a mais
um movimento de expansão da atividade canavieira. A instalação de unidades agroindustriais canavieiras em áreas nas quais esta atividade não se fazia presente de forma incisiva leva a alterações na dinâmica e configuração espacial.
A atividade canavieira contribuiu no processo de construção do espaço de diversos municípios brasileiros, como em Jataí, localizado no sudoeste de Goiás, local com características naturais de relevo e clima que favoreceram a produtividade elevada dos canaviais que abastecem a atividade.
Até o referido movimento de expansão da atividade canavieira o município de Jataí se restringia ao cultivo de cana com finalidade forrageira ou à pequena produção de derivados como cachaça, rapadura e melado de forma praticamente artesanal. A unidade industrial de produção de etanol e a possibilidade de instalação de outras possibilitou a Jataí (GO) introduzir- se no circuito produtivo da agroindústria canavieira com repercussões sobre a dinâmica espacial, em especial à ocupação de terras para o cultivo e a contratação de trabalhadores. Tais movimentos são capazes de estabelecer alterações na dinâmica econômica do município, com possíveis desdobramentos em diferentes segmentos da organização espacial e da economia.
Além de demandar volumosa quantidade de matéria-prima, alterar o perfil produtivo e interferir em cadeias produtivas pré-existentes, devido a escala de produção das unidades agroindustriais canavieiras instaladas no recente movimento de expansão da atividade, a influência da atividade sobre diversos municípios faz com que se tornem significativamente dependentes da geração de empregos e da dinamização da economia local.
Considerando que, atualmente, a sociedade mundial, encontra-se marcada pela pandemia do Coronavírus (COVID-19) que afeta não apenas a saúde mundial, mas também a economia, inclusive a agroindústria canavieira, esta atividade teve ampliada a preocupação, desde março/2020, quando as quedas nas cotações internacionais do petróleo tornaram a gasolina competitiva frente ao etanol. Além disso, as cotações do açúcar entraram em trajetória de queda de preços, devido à redução de demanda, alinhado a uma economia global em recuo com a pandemia reduzindo o consumo (UNICA, 2020).
A possibilidade de estagnação do setor e mesmo de fechamento de unidades agroindustriais coloca no horizonte de diversos municípios a preocupação com a possível redução de arrecadação e o desemprego. As empresas brasileiras de açúcar e etanol, desde março/2020, entraram em modo de redução das operações de colheita e tiveram que buscar linhas de crédito para resistir à queda na demanda de combustível (UNICA, 2020).
O cenário atual fortalece a capacidade de percepção de duas condições que serão mais detalhadamente discutidas ao longo do trabalho: a agroindústria canavieira depende de
condições específicas de mercado e do apoio estatal para se manter; e os municípios que abrigam unidades agroindustriais canavieiras são impactados em sua dinâmica econômica e, por consequência, espacial.
Nessa perspectiva, o objetivo geral desse estudo consiste em compreender os efeitos econômicos da agroindústria canavieira no município de Jataí, localizado no sudoeste de Goiás.
Dentre os objetivos específicos encontram-se:
Verificar o processo sócio histórico de implementação da agroindústria canavieira em Goiás, com atenção ao município de Jataí.
Avaliar a organização espacial e temporal da atividade canavieira no município de Jataí, bem como a substituição de áreas de plantio de grãos para o cultivo de cana-de-açúcar.
Identificar os efeitos econômicos da agroindústria canavieira no município de Jataí, como a geração de empregos, as contribuições através de impostos, repasses diretos e indiretos ao poder público, considerando os benefícios fiscais e outros tipos de apoio estatal, em referência ao setor.
Portanto, o presente estudo justifica-se pela necessidade da análise dos efeitos econômicos do avanço da agroindústria canavieira no município de Jataí, especialmente, por verificar as formas de interação entre a atividade canavieira e as demais atividades agropecuárias presentes na região, bem como, para identificar a capacidade desta atividade participr do processo de transformação do espaço geográfico e do estabelecimento de territórios.
A pesquisa ressalta, também, a importância da compreensão sobre as políticas tributárias, que atraíram indústrias para Goiás, as quais contribuíram para a implementação de unidades da agroindústria canavieira no estado. Dentre essas políticas, encontra-se o Programa de Desenvolvimento Industrial de Goiás (Produzir), que corresponde um dos principais planos de incentivo à industrialização e proporcionou Goiás tornar-se um dos estados que mais recebeu novas unidades produtivas canavieiras no contexto da expansão recente, sendo o município de Jataí um dos que foi alcançado nesse processo.
Para realização dessa pesquisa optou-se pela abordagem qualitativa, conforme mencionado por Gil (2010) na revisão de literatura inicialmente faz-se a leitura exploratória, que tem por objetivo verificar em que medida a obra consultada interessa à pesquisa, posteriormente são verificados outros elementos que auxiliam na interpretação das obras em análise. Desse modo, a revisão de literatura possibilita a realização de um diálogo entre as informações de forma crítica e reflexiva.
Além da revisão de literatura o estudo buscou a interpretação de dados capazes de refletir a interação da agroindústria canavieira na dinâmica econômica e, consequentemente, na dinâmica socioespacial do recorte avaliado. No estudo foram consultados dados sobre área colhida e produção de cana-de-açúcar disponibilizados no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) e pelo Projeto de Monitoramento da Cana-de-açúcar (CANASAT) na intenção de captar os movimentos de territorialização da agroindústria canavieira, bem como o desempenho desta atividade produtiva.
Adicionalmente, foram consultados valores relativos à arrecadação e repasses ao Município, como o Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o Imposto Sobre Serviços (ISS) e o Fundo de Participação dos Municípios Transferido pela União (FPM) na intenção de identificar as contribuições ao poder público realizadas a partir da atuação da agroindústria canavieira. Outra informação de relevância buscada neste processo se refere a dados relativos à geração de empregos pela atividade canavieira, condição identificada por meio de dados do Programa de Disseminação de Estatísticas do Trabalho (PDET), responsável por sistematizar e divulgar o quantitativo e o perfil do trabalhador formal nas atividades econômicas.
A coleta de dados primários ocorreu junto a atores do setor público e privado que atuam diretamente na atividade canavieira. Especificamente no setor privado o interesse recaiu sobre proprietários rurais que atuam na atividade canavieira como fornecedores de cana-de-açúcar ou que dispõem de suas terras para que nelas seja produzida a matéria-prima. Acredita-se que uma das formas de participar da dinâmica econômica local seja ocupando terras para a produção de cana-de-açúcar, podendo, inclusive, impactar em outros segmentos produtivos presentes no município devido à concorrência por terras.
O presente estudo encontra-se estruturado em cinco partes, sendo a primeira esta Introdução, na qual se apresenta o recorte espacial do estudo e contextualiza as principais temáticas relacionadas à agroindústria canavieira, bem como os procedimentos metodológicos para seu desenvolvimento.
A seção seguinte se destina a identificar o processo sócio histórico que permeou a inserção da agroindústria canavieira no estado de Goiás, a partir das políticas públicas e de diferentes circunstâncias mercadológicas que acompanharam este segmento produtivo. O caminho percorrido buscou demonstrar as principais fases históricas da implantação, a expansão recente da agroindústria canavieira no Brasil e sua inclusão nos Cerrados, com foco na Microrregião Sudoeste de Goiás e no município de Jataí. Esta seção ainda buscou ressaltar
os lucros com a produção e exportação de derivados de cana-de-açúcar, períodos de crises, que resultaram em realização de medidas políticas para minimizar, bem como, para modernização e aumento da competividade da agroindústria canavieira com outras atividades agrícolas.
Na segunda seção buscou-se apresentar uma análise reflexiva sobre as principais implicações socioespaciais no município de Jataí causadas pelo avanço da agroindústria canavieira. Esta seção abordou as condições para a instalação e a manutenção da agroindústria canavieira no município, bem como explorou a repercussão deste movimento sobre outros segmentos produtivos que se colocam como complementares ou como concorrência à atividade canavieira na escala local. Esta seção atende condição chave no contexto da investigação ao permitir que seja traçado um panorama da atividade canavieira na escala local a mais de uma década desde o movimento inicial de territorialização.
A terceira seção trouxe as informações acerca das transformações na dinâmica socioespacial no município de Jataí a partir da produção de cana-de-açúcar e de seus derivados.
De forma mais específica, buscou-se enfatizar as implicações sobre a arrecadação de tributos de modo a ressaltar os efeitos no dinamismo da economia. Com base na avaliação dos seguintes impostos: ISSQN (Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza); ICMS (Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e Sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação) e relativos à geração de empregos no município foi possível identificar pontos de maior interferência desta atividade econômica em Jataí (GO).
A título de sintetizar o debate e oferecer ao leitor apontamentos sobre a questão investigada, foi realizado esforço de construção de um texto com as considerações acerca da investigação. Texto este, que busca estabelecer o retrato de uma condição que nem de longe pode ser apontada como definitiva, uma vez que a agroindústria canavieira, assim como diversos outros segmentos produtivos, é transformada por inúmeros elementos de ordem econômica, social, legal e mesmo natural. Para além do quadro de constante transformação, soma-se o fato de a humanidade atualmente enfrentar os efeitos da Pandemia de SARS COV- 2.
A produção de etanol nas unidades agroindustriais brasileiras é colocada, mais uma vez, na dependência de elementos e condições que estão além de sua capacidade de intervenção, especialmente relacionadas às alterações na cotação internacional do Petróleo e à redução na demanda por fontes energéticas.
2 - DINÂMICA SÓCIO-ESPACIAL DA AGROINDÚSTRIA CANAVIEIRA EM GOIÁS.
A Geografia, como ciência social, tem como objeto de estudo a sociedade. Como qualquer ciência prescinde de um conjunto de saberes sistematizados, códigos, teorias, método e conceitos que lhe sejam comuns e capazes de estabelecer a interlocução entre pesquisadores e a sociedade. Historicamente esta jovem ciência vem construindo seu arsenal interpretativo a partir da interação com o mundo e com as demais ciências, estabelecendo seus códigos e demarcando seu campo de atuação epistemologicamente.
Neste caminhar, é possível inferir que foram importantes cinco conceitos chaves relacionados à ação humana modelando a superfície terrestre, os quais são: paisagem, região, espaço, lugar e território. Callai (2005) aponta que os conceitos geográficos são fundamentais para compreensão dos territórios em geral e dos lugares específicos, que vão sendo construídos pelos sujeitos.
Na concepção de Carlos (1996), o lugar é o espaço possível de ser pensado, apropriado e vivido, sendo nele presente os aspectos cultural, histórico e com o sentimento de identidade por parte de sua população.
De acordo com Castro, Gomes e Corrêa (2017) o território é o lugar em que são desenvolvidas todas as ações, todos os poderes, todas as forças, todas as fraquezas, isto é, onde a história do homem é plenamente realizada a partir das manifestações da sua existência.
Enquanto a região é uma realidade concreta, física, que existe como uma referência para a população que aí vive e o papel do geografo é desvendar, desvelar, a combinação de fatores responsável por sua configuração (GOMES, 1995).
Para Az Ab’Sáber (2003) a paisagem marca o espaço e fazem parte da história humana, sendo herdado pelas diversas e contínuas ocupações e modificações realizadas pelas sociedades. Na geografia tradicional (1870-1850) é enfatizado o conceito de região, o qual foi desenvolvido pelo historicismo, enquanto o de paisagem foi elaborado pelo empirismo, sendo que o espaço não é um conceito chave na geografia tradicional, no entanto, encontra-se presente em obras de Ratzel e Hartshorne (CASTRO, GOMES, CORRÊA, 2017).
Conforme Moraes (1990) o espaço para o geógrafo Friedrich Ratzel é visto como base indispensável para a vida do homem, envolve as condições de trabalho naturais e produzidas pela sociedade. Ratzel desenvolve o conceito de território e de espaço vital, sendo o primeiro relacionado a uma área do espaço apropriado por um grupo com necessidades territoriais de
uma sociedade, enquanto a preservação e ampliação do espaço vital constituiu-se na formulação ratzeliana na própria razão de ser do Estado.
Harstshorne (1939) ressalta a importância do conceito de espaço para analisar a interação e integração de fenômenos em termos de espaço, sendo caracterizado pelo espaço absoluto, que tem influência do filósofo Kant e do pensamento de Newton, em que espaço e tempo estão associados a todas as dimensões da vida.
A geografia teorético-quantitativa da década de 1950 adotou a epistemologia das ciências da natureza e física, sendo o método de pesquisa do raciocínio hipotético dedutivo consagrado. E a corrente geográfica teorético-quantitativa, considerou o espaço como conceito chave e o dividiu em duas formas: planície isotrópica, que refere a geomorfologia, clima, cobertura vegetal e ocupação humana e na forma de representação matricial, que corresponde os fluxos, hierarquias e organização econômica (CASTRO, GOMES, CORRÊA, 2017).
Na década de 1970 origina a geografia crítica fundamentada no materialismo histórico e na dialética, sendo caracterizada pelos debates marxistas e não marxistas. Ao apresentar a sua acepção sobre a produção social do espaço, o filósofo francês Henri Lefebvre (1901-1991) resgata o princípio fundamental da teoria de Marx, que enfatizava o homem como sujeito da sua história e destaca o espaço como lugar de reprodução das relações de produção da sociedade. Desse modo a cotidianidade moderna se resume a uma constante programação de hábitos sempre direcionados para a produção e o consumo, produzindo uma “sociedade burocrática de consumo dirigido” (LEFEBVRE, 1980, p. 47).
No período de 1970, a geografia cultural valoriza os conceitos de paisagem, região, território e lugar. A geografia cultural traz o humanismo para o centro da análise, valorizando o lugar como perspectiva de análise. E o espaço geográfico adquire o significado de espaço vivido, que é fragmentado no pertencimento do mesmo povoado, área cultural, sendo marcado pela afetividade maior nas sociedades industriais (CASTRO; GOMES e CORRÊA; 2017).
Para Moreira (1982) os objetos de ordem natural são os únicos que não derivam do trabalho social e a primeira natureza somente é incorporada ao espaço geográfico quando absorvida pelo processo da história. Desse modo, o processo de produção do espaço ocorre conforme os homens produzem as condições materiais e culturais necessárias à sua existência.
Atualmente, as necessidades materiais das pessoas mantém estreita relação com as formas de organização social, que apresenta relação direta com o modo de produção capitalista.
Como brevemente visto, em diferentes momentos históricos e em diferentes circunstâncias, a ciência geográfica valorizou diferentes categorias e conceitos geográficos na tentativa de epistemologicamente se consolidar no rol das ciências e delimitar sua atuação, seu
alcance e seu método. O quadro que emerge das diferentes concepções de como fazer a geografia é bastante fluido, capaz de absorver, de diferentes formas, debates e metodologias. É, justamente, nesse quadro de fluidez que se faz necessário delimitar o caminho teórico a ser adotado nesta investigação.
Nesse contexto, Santos (2006), destaca a importância da compreensão do conceito espaço para análise nas questões sociais e econômicas, que são realizados pelos sujeitos na construção espacial em diferentes lugares e períodos históricos. De acordo com Santos (2003) o espaço é resultado da história e dos sujeitos que produzem através do processo de trabalho.
O espaço geográfico na concepção de Santos (2006) encontra-se associando-o à evolução das técnicas e às noções de objeto e de ação, compreendidos enquanto sistemas e analisados desta maneira. Santos (2006) concebe o espaço como um conjunto indissociável de sistemas de objetos e de ações, sendo os sistemas de objetos representam o conjunto das forças produtivas, enquanto os sistemas de ações englobam o conjunto das relações sociais de produção. Os objetos são funcionam através de sistemas, podendo ser simbólicos ou sociais e adquire valor social apenas através das relações.
A percepção de Santos (2006) sobre sistemas de objetos e ações encontra-se diretamente relacionado com a atividade canavieira, que abrange um conjunto de ações, que pode ser representado pelas terras disponível, demanda, o mercado de arredamento e parceria da terra, geração emprego e recolhimento de imposto. O sistema de ações do setor canavieiro é viabilizado por objetos, como o maquinário, a estrada e o solo. Portanto, o objeto desse estudo, que é a atividade canavieira em Jataí (GO) encontra-se diretamente relacionado com o sistema de objeto e ações, exemplo desse processo, refere ao uso da terra, que é uma ação da sociedade que transforma os objetos através das técnicas.
O conjunto de complexos territoriais que constituem a base física do trabalho humano, que são materializados de diferentes formas, como pelo uso do solo, que refere a destinação que o homem emprega para uma cobertura de terra, alterada constantemente, conforme as atividades da sociedade são inseridas (TURNER; MEYER, 1994). Na percepção de uma economia espacial a atividade da agroindústria canavieira representa uma das relações de produção, circulação e distribuição do capital.
A territorialização da atividade canavieira revela sua importância na história econômica do Brasil. Portanto, compreender a organização desse setor é essencial para a construção de um conhecimento consistente sobre a dinâmica econômica gerada pela atividade, a fim de verificar o emprego de novas técnicas, as formas de apropriação territorial e os rebates na organização da dinâmica espacial.
2.1 - Produção de cana-de-açúcar no Brasil: breve histórico
A estrutura socioeconômica no espaço brasileiro advém de diversas transformações históricas, desde a fase colônia, no entanto. No entanto, uma atividade marcou todos os períodos, refere-se à produção de cana-de-açúcar e de seus derivados.
De acordo com diferentes pesquisadores, como Van Dillewijn (1952) a cana-de-açúcar originou-se entre o sudeste asiático e o norte da Oceania como resultado de uma combinação fortuita de eventos naturais. Enquanto, Artschwager e Brandes (1958) sugeriram a hipótese de que a cana-de-açúcar seja originária de uma forma primitiva da espécie Saccharum spontaneum do sudeste da Ásia e então tenha se espalhado para o Sul em direção à Austrália ao longo do período geológico Cretáceo, momento esse, que os continentes ainda estavam unidos.
Apesar das diferentes concepções sobre a origem, principalmente genética, da cana-de- açúcar, esta gramínea se adapta bem em ambientes com temperaturas elevadas e disponibilidade de umidade. Tais características possibilitaram que na fase inicial de exploração do território Portugues na América fosse instalada, em 1532 (séc. XVI) a primeira plantação de cana-de- açúcar, que ocorreu na capitania hereditária de São Vicente, administrada por Martin Afonso de Souza, o mesmo responsável pela fundação do primeiro engenho no Brasil, denominado São Jorge. Em pouco tempo essa atividade se difundiu e em 1550, o país já era o maior produtor mundial de açúcar (VIEIRA, 2007).
Conforme Coelho (2003), durante o século XVI, o cultivo de cana-de-açúcar, no litoral brasileiro, influenciou no povoamento dessa região e na organização do espaço geográfico brasileiro atual, exemplo disso, são as metrópoles com maiores densidades populacionais que se formaram próximas ao litoral. Outra transformação resultado do processo de apropriação da cana-de-açúcar no território brasileiro foi a destruição rápida da Mata Atlântica nas áreas de mais fácil acesso de construção de engenho e edificações para indústria (ANDRADE, 1994).
Entre os séculos XVI e início do XVII, a produção de cana-de-açúcar no Nordeste brasileiro foi dominada pela coroa portuguesa. Os engenhos eram empresas particulares, a Coroa fazia a concessão da terra e controlava a trágico negreiro, que auxiliou na obtenção de lucro, devido as condições de clima e terras favoráveis a produtividade (LAPA, 1986), além das demandas por açúcar no mercado externo.
Em meados do século XVII o Brasil enfrentou uma das primeiras crises na produção de cana-de-açúcar, especialmente, devido à concorrência com os antilhanos, o descobrimento das
minas de ouro, os custos com os escravos, mão-de-obra assalariada, equipamentos, entre outros aspectos (LISBOA, 2014).
A crise na produção de cana-de-açúcar no Brasil marcou o século XVIII, sendo que apenas no início do XIX reestruturou-se através de políticas voltadas para ocupação da região centro-sul do Brasil, fase em que a expansão da fronteira de cana-de-açúcar tornou-se mais competitiva, especialmente, por essa atividade não ser a mais a dominante na economia do país (FAUSTO, 1996).
No século XIX, quando ocorre a independência administrativa do Brasil, é registrada expansão da cultura de cana-de-açúcar nas áreas de maior concentração populacional, por exemplo, São Paulo. Mesmo com a expansão cafeeira, a produção açucareira cresce no centro- sul do país. Em meados do século XIX a produção de cana de açúcar novamente entrou em crise, devido à concorrência do açúcar de beterraba produzido na Europa (ANDRADE, 1994).
Durante o século XX a atividade canavieira convive com diferentes condições que levaram a movimentos de expansão acelerada e de retrações do avanço, sempre condicionados ao mercado externo de açúcar e a ação estatal no sentido de as vezes, incentivar e as vezes disciplinar as ações da agroindústria canavieira.
Ilustra este cenário a crise de 1930, que afetou fortemente a economia brasileira e proporcionou a expansão de áreas dos canaviais em áreas de café no estado de São Paulo, o que provocou medidas do governo federal, como a limitação da produção e distribuiu cotas de produção por estados, empresas e proibiu a instalação de novas fábricas (ANDRADE, 1994).
Nessa perspectiva, Andrade (1994, p.21) destaca:
O crescimento foi detido apenas por alguns anos, porque, com a Segunda Guerra Mundial, desorganizou-se a exportação do açúcar e tornou-se difícil a circulação do produto pelo território nacional através da navegação de cabotagem. O governo passou a ser mais liberal quanto à instalação de novas usinas e destilarias, fazendo com que o Centro-Sul, por ser uma área de maior povoamento e nível de renda, fosse grande beneficiado. Houve, em consequência, um desequilíbrio na produção, tornando-se São Paulo, na década de 1950, o maior produtor nacional.
Outra importante fase ocorre no período militar, quando o governo procurou realizar a modernização do setor, sem necessariamente promover mudanças sociais e fortalecer preocupações ecológicas (ANDRADE, 1994). Foram “desenvolvidos programas, como o Programa Nacional de Melhoramento da cana-de-açúcar (Planalsúcar) e o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), com finalidade de tornar a produtividade competitiva no mercado
internacional e realizar uma alternativa biológica para baixar a importação do petróleo”
(ANDRADE, 1994, p. 21).
No final século XX a produção de cana-de-açúcar voltou a se fortalecer, principalmente na região Centro-Sul, em destaque na região do Estado de São Paulo, que tinha um desenvolvimento industrial realizado pelos imigrantes europeus, que possibilitou a ascensão da indústria metalúrgica e das usinas de cana-de-açúcar mais modernas (CALLE et al, 2005).
No século XXI além de São Paulo, os estados de Goiás, Minas Gerais e Paraná, se destacaram como áreas de expansão da agroindústria canavieira do país, aspecto esse, influenciado pelas condições físicas, como solos, declividade e clima favorável, além disso, essas áreas adotaram novas estratégias produtivas (CALLE et al, 2005).
Conforme dados utilizados no Plano Decenal de Expansão de Energia- PDE 2023 (BRASIL, 2014) a produção de cana-de-açúcar, estimada para 2023 no Brasil é de 8,7 milhões ha e com base no Ministério de Minas e Energia e Empresa e Pesquisa Energética para o ano de 2023 a cana ocupará uma área total de 10,5 milhões de ha.
Conforme apontado, embora a atividade tenha diferentes períodos de movimentos de expansão e retração, condição que lhe permitiu estar presente em distintas áreas, o movimento mais recente de expansão canavieira apontou para a interiorização da atividade em direção a espaços que, até então, não se apresentavam como prioridade para a produção canavieira. Na sequência, busca-se priorizar, dentre os diversos momentos e intervenções estatais sobre a agroindústria canavieira, aqueles que possibilitaram ocupações mais intensas. Atualmente, a produção de cana-de-açúcar no Brasil tem o Centro-Oeste como área foco de expansão.
2.2 - O Proálcool, os veículos bicombustíveis e a expansão da agroindústria canavieira Na década de 1970 o Brasil foi afetado pela crise do Petróleo, que provocou efeitos na economia do país. A elevação da cotação do petróleo no mercado internacional evidenciou a necessidade de se obter fontes alternativas de energia, o que provocou o surgimento da primeira etapa do Programa Nacional do Álcool (Proálcool). Este Programa surge como expressão do Estado regulador e movido pela necessidade de reagir às consequências da crise internacional do petróleo do início da década de 1970 (ANDRADE, 1994).
O Estado brasileiro, por meio do Proálcool, financiou a implantação de destilarias em todo o país para aumentar a produção de álcool. Os estados do Centro-Oeste tornaram-se atrativos para o capital canavieiro oriundo principalmente de São Paulo e do Nordeste, que até
então eram os polos de produção da cana e possuíam os maiores engenhos do país (ANDRADE, 1994).
O PROÁLCOOL, aprovado pelo Decreto 76.593/1975, contribuiu para modernização e desenvolvimento de alternativas de energia renovável por incentivar a produção de álcool anidro para adição à gasolina. Em 1979 o programa avança para a produção de álcool hidratado, uma vez que a tecnologia para fabricação de carros movidos exclusivamente a álcool se encontrava em andamento, bem como incentivos fiscais à compra do carro a álcool.
Nos primeiros dez anos de existência do Proálcool, a produção brasileira de álcool aumentou a uma taxa média de 35% ao ano, sem que o setor deixasse de produzir volumosas quantidades de açúcar, tanto para a exportação como para o mercado interno (SZMRECSÁNYI e MOREIRA, 1991, p.72).
Para Andrade (1994) o início da década de 1980 marca a expansão acelerada do Proálcool, devido às políticas específicas de incentivo para a produção de álcool hidratado, que foram amplamente utilizadas conjuntamente com ações de instituições como o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA).
O Proálcool esteve ativo durante 10 anos e segundo Lopes (1996), recebeu investimentos de aproximadamente 16 bilhões de dólares em pesquisas genéticas para melhoria da cana-de-açúcar e subsídios ao preço do álcool, compra de novas máquinas agrícolas com financiamento a juros baixos. Entretanto, por volta de 1985 iniciou-se uma fase de crise no setor com a diminuição dos investimentos no Programa (LOPES, 1996).
Entre as décadas de 1980 e 1990 o Brasil apresentava elevados valores de dívidas externas e um processo de redemocratização do país pós período de ditadura militar. Neste cenário ocorre a redução gradativa dos incentivos ao setor de produção dos derivados da cana- de-açúcar.
Uma das principais mudanças que ocorreram no mercado de produção de cana-de- açúcar na década de 1990, corresponde a extinção do IAA pelo Decreto nº 99.240, publicado no Diário Oficial em 8/5/1990, dentro do programa de reformulação da máquina estatal do governo Collor, que resultou na necessidade de consumidores e produtores adequarem a um livre mercado, em que o Estado tinha o perfil mais de coordenador do que de interventor.
Ramos (2008) destaca que o planejamento das atividades da agroindústria canavieira do Brasil com a extinção do IAA e com a praticamente finalização das ações do Proálcool, a política setorial tem medidas realizadas mais a curto prazo e com base em interesses dos agentes econômicos. Em substituição ao IAA, mas com funções diferentes, foram criados a Secretaria
de Desenvolvimento Regional da Presidência da República e o Departamento de Assuntos Sucroalcooleiros, que auxiliaram na liberação dos preços de cana-de-açúcar e álcool, antes controlados pelo IAA (CAMELINI, 2011).
Na prática, a extinção do IAA representou a desregulamentação do setor e, por consequência, a adequação do parque produtivo às demandas de mercado. Trata-se de um breve período no qual a agroindústria canavieira teve a oportunidade de ensaiar seus primeiros passos sem a tutela estatal e sem contar com programas vigorosos de financiamento, garantia de mercado e incentivos à produção. A variação da extensão de área colhida com cana-de-açúcar nas décadas de 1980 e 1990 é sintomática do comportamento e da dependência da atividade canavieira a algum programa ou ação estatal. Entre 1980 e 1990 a área colhida com cana-de- açúcar foi ampliada em 63,8%, saltando de 2,6 para 4,3 milhões de hectares. Entre 1990 e 2000 a ampliação da área colhida foi de 12,4%, alcançando ao fim do período 4,8 milhões de hectares (IBGE, 2020).
O ano de 2003 marca o início de um novo ciclo de expansão da agroindústria canavieira, desta vez pautada na expectativa de consolidação do mercado doméstico brasileiro de etanol e na possibilidade de que este se tornasse uma commodity. Tal situação foi potencializada pela entrada no mercado de veículos automotivos com motores adaptados para operarem com etanol e gasolina – os chamados veículos bicombustíveis ou “flex-fuel”, que atualmente dominam o mercado brasileiro (MOREIRA, 2013).
De acordo com Anfavea (2011) entre 2003, ano do lançamento de lançamento de veículos bicombustíveis ou flex-fuel, e 2010 as vendas acumuladas destes veículos atingiram 12,5 milhões de unidades, sendo que as participações no licenciamento total de veículos leves, no período, foram as seguintes: 2003, 4%; 2004, 22%; 2005, 50%; 2006, 78%; 2007, 86%;
2008, 87%; 2009, 88%; e 2010, 86%.
O lançamento dos veículos bicombustíveis provocou um maior interesse pelo álcool combustível, ou etanol hidratado, e transformou a indústria automobilística brasileira e o agronegócio da cana de açúcar. Desde então, o etanol tem despertado o interesse de investidores e grandes grupos nacionais e internacionais e, consequentemente, provocado uma rápida expansão de áreas cultivadas com cana-de-açúcar, que ultrapassou os 5,4 milhões de hectares em 2003 para 9,2 milhões de hectares em 2010 (IBGE, 2020).
Conforme Silva (2011) as atividades relacionadas à produção de cana-de-açúcar do início do XXI aos dias atuais se concentram no Centro-Sul, especialmente no estado de São Paulo, entretanto, os estados do Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás são áreas em contínua expansão do plantio de cana-de-açúcar e da fabricação de etanol.
Silva (2011), também, aponta que a formação de diferentes arranjos produtivos faz com que a cana-de-açúcar seja associada ao setor agropecuário, ao setor energético e ao setor industrial, sendo que, nesse setor o açúcar e o etanol há muito tempo deixaram de ser os únicos produtos. Desse modo, a expansão da agroindústria canavieira no centro-sul, inclusive, em Goiás, teve forte influência primeiro do Programa Nacional do Álcool (Proálcool) e posteriormente da inserção dos veículos bicombustíveis no mercado brasileiro.
A produção de etanol de cana-de-açúcar nos estados do Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás e principalmente em São Paulo contribuiu para que o Brasil fosse considerado o segundo maior produtor de etanol do mundo, atrás apenas do EUA. E a participação de Goiás na produção de etanol segundo estimativa da safra 2020/2021 apresenta a previsão de 17% da produção nacional, sendo segundo lugar no ranking, com mais de 4,7 bilhões de litros na atual safra.
Ao observar os dados de produção de etanol (Tab. 1) é possível identificar que a produção de etanol se concentra nos EUA, que usa principalmente o modelo de produção do etanol com milho, tecnologia essa cada vez mais proeminente no Brasil. Em 2016 o EUA e o Brasil foram responsáveis por 85% da produção mundial. A participação brasileira na atividade é indicativa da importância desta na organização econômica do país.
Tabela 1- Produção de Etanol entre os maiores produtores em 2016.
Produção 2016 (milhões de litros) Participação mundial
Mundo 100.628 100%
Estados Unidos 58.027 58%
Brasil 27.615 27%
São Paulo* 13.365 13%
União Europeia 5.213 5%
China 3.199 3%
Canadá 1.650 2%
Tailândia 1.219 1%
Argentina 999.00 1%
Índia 852.00 1%
Outros países 1.855 2%
Fonte: Valor estimado baseado em UNICA, 2016. Organização Próprio autor (2020)
A produção canavieira, no decorrer das últimas duas décadas conseguiu realizar significativa expansão da produção de derivados e subprodutos, como o Etanol, açúcar, bagaço da cana e energia elétrica, entre outros. No entanto, a safra 2020/2021, encontra-se marcada pelas consequências da pandemia do Coronavirus (COVID-19), que afeta diretamente a demanda por fontes de energia e pode contribuir para a redução da cotação internacional do petróleo e levar à redução da competitividade do Etanol frente aos derivados de petróleo.
As repercussões da pandemia na agroindústria canavieira começaram a ser noticiadas pela imprensa especializada que aponta para consequências negativas para o segmento. Notícias veiculadas no Canalrural (2020) dão conta de que a empresa BR Distribuidora, maior distribuidora do Brasil, busca a flexibilização dos contratos, enquanto, a Raízen, segunda maior distribuidora de combustíveis do Brasil, comunicou a fornecedores de etanol que, em razão da queda na demanda, devido ao Covid-19, revisará os contratos de volumes programados com a usina, sendo que essa medida tem como objetivo permitir que esses fornecedores planejem melhor as próprias operações.
Desse modo, o Covid-19 representa um novo fator de interferência na expansão da agroindústria canavieira em todas as regiões do país, o que necessita de diversas ações de planejamento para evitar intensas crises econômicas ou mesmo o colapso do setor. Um dos eventos mais importante no setor é a redução de unidades, especialmente por endividamento das empresas com grandes defasagens tecnológicas
2.3 - A agroindústria canavieira no Cerrado brasileiro
A produção de cana-de-açúcar teve um importante papel na ocupação e formação do território no Cerrado brasileiro. O cultivo de cana-de-açúcar e a produção de derivados foi capaz de contribuir no processo de ocupação e adensamento populacional e econômico em diferentes momentos, sendo possível afirmar que, especialmente, após o final do século XIX tornou-se predominante para a dinâmica populacional e econômica no cerrado brasileiro (ANDRADE, 1994).
Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) a exportação de cana-de-açúcar do Brasil para Europa era significativa, no entanto, durante a Segunda Guerra Mundial (1939- 1945) ocorreu um declínio da exportação, devido aos riscos no transporte marítimo, o que provocou uma superprodução de açúcar em alguns regiões e a escassez do mesmo produto em outras, consequentemente gerou a insatisfação dos centros consumidores, nesse processo ocorreu a transferência do eixo produtor da cana-de-açúcar para as regiões Sudeste e Centro oeste do país (SZMRECSÁNYI; MOREIRA, 1991).
Nesse contexto, o governo federal, através do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), criado em 1933, realizou incentivos para a expansão do plantio de cana-de-açúcar no Centro- Sul, contribuindo para a região ampliar o plantio e a produção de bens derivados da cana-de- açúcar.
Paralelamente à alteração da área de concentração da atividade canavieira, ocorria outra alteração quanto a destinação da matéria-prima. No início da década de 1930 começava no Brasil a produção de álcool para ser utilizado como aditivo à gasolina em veículos automotores sob a forma de álcool anidro, tendo incentivo direto do IAA, o que contribuiu para o aumento da quantidade de usinas sulcroalcooleiras no país.
O IAA criou o sistema de quotas de produção de açúcar, que teve como objetivo conter o grande avanço da produção paulista, que sinalizava o fim da colocação do produto nordestino na região Sudeste (SZMRECSÁNYI; MOREIRA, 1991). A intenção do IAA ficou clara no Relatório da Presidência que dizia o seguinte:
O Instituto do Açúcar e do Álcool enfrentou dificuldades criadas pela guerra.
Já o programa de safra de 1940/41, verificando a existência de um excesso, dentro da limitação, sobre as necessidades do consumo, destinava a maior parte desse excesso à transformação em álcool. Aos produtores concedia-se o direito de transformar em álcool de qualquer qualidade, o açúcar em excesso de sua produção, sem falar na produção direta de álcool que era inteiramente livre (IAA, 1946. p.305).
O IAA atuou para evitar maiores prejuízos com as crises enfrentadas pelo país nas exportações de açúcar, devido a intervenção governamental no setor da agroindústria, que adotou como medidas planos anuais de defesa da safra de açúcar, do álcool e tornou obrigatória a mistura de 5% de álcool à gasolina importada, bem como a utilização pelos veículos pertencentes a órgãos públicos (SZMRECSÁNYI; MOREIRA, 1991).
A partir de então, vários instrumentos de planejamento macroeconômico do setor foram realizados, como o Estatuto da Lavoura Canavieira (Decreto Lei 3.855 de 21/11/1941) e a modificação no sistema de cotas, as quais incidiram a ser concedidas a partir do consumo e produção de cada estado (VIAN, 2002).
As décadas de 1950 a 1960 são marcadas por fortes incentivos estatais às exportações de açúcar, devido ao contexto do mercado internacional. O desenvolvimento das exportações de açúcar na década de 1960 ampliou-se de forma significativa, devido ao aumento da demanda dos mercados consumidores, especialmente, pelo comércio de Cuba estar bloqueado (DEFANTE et al., 2018).
Considerando a possibilidade da ampliação de demandas nos mercados interno e externo de açúcar, as lideranças empresariais da agroindústria canavieira elaboraram em 1962 um documento endereçado à presidência do IAA, no qual projetavam uma demanda (interna e externa) de 80 a 90 milhões de sacos de açúcar para 1970, essa meta deveria ser alcançada através da ampliação da capacidade instalada das unidades existentes, e mediante a autorização e o financiamento parcial da implantação de nada menos que cinquenta novas usinas de açúcar no país, especialmente, localizadas na região Centro-Sul.
Nesse contexto, o Estado, através do IAA, criou o Plano de Expansão da Indústria Açucareira Nacional (elaborado entre 1963 e 1964) e posteriormente o Programa Nacional de Melhoramento de cana-de-açúcar (Planalsucar) e o Programa de Racionalização da Agroindústria Açucareira (elaborados em 1971), com finalidade de ampliar a capacidade produtiva, prioritariamente no Centro-Sul, o que proporcionou a consolidação da expansão do setor (SZMRECSÁNYI; MOREIRA 1991).
Assim, a produção de açúcar e álcool no Brasil ampliaram-se entre 1950 e 1970, influenciada pelas ações do Estado, via IAA, que financiava, e até subsidiava, a fabricação destes produtos no país (SZMRECSÁNYI; MOREIRA, 1991).
Na década de 1990, a diferença da produção entre as regiões Centro-sul e Nordeste aumenta em aproximadamente 75%, o Nordeste recebeu cada vez menos subsídios e teve que se adaptar ao mercado competitivo, buscando menores custos e melhores tecnologias. A região