Esta dissertação trata da trajetória da defensora de direitos humanos Nilce de Souza, mais conhecida como “Nicinha”. CBDDH - Comitê Brasileiro de Defensoras dos Direitos Humanos CFEMEA - Centro Feminista de Estudos e Assessoria.
Projetos desenvolvimentistas na Amazônia: a Hidrelétrica de Jirau -
Vi homens sendo estuprados (DULCE – ATINGIDA DE JACI PARANÁ, DOCUMENTÁRIO JIRAU E SANTO ANTÔNIO: RELATOS DE UMA GUERRA AMAZÔNICA, 2016). Conhecida pelos impactos socioambientais na região amazônica, a hidrelétrica de Jirau também entrou na lista de empreendimentos com problemas trabalhistas.
Pescadores de Abunã
O Programa de Monitoramento das Atividades Pesqueiras é composto pelo Subprograma de Monitoramento das Atividades Pesqueiras e pelo Subprograma de Apoio às Atividades Pesqueiras. De acordo com reclamações de vários pescadores, os resultados do Subprograma de Monitorização da Actividade Pesqueira não reflectem claramente os resultados reais. Estes resultados erróneos serviram de pretexto para a não execução do Subprograma de apoio às actividades produtivas, uma vez que não indicavam a existência de impacto nas actividades pesqueiras.
Foram identificadas fraudes na coleta e sistematização de dados do Subprograma de Monitoramento das Atividades Pesqueiras. O subprograma de monitorização da actividade pesqueira não tem em conta as condições socioeconómicas e a vulnerabilidade das famílias afectadas. Além disso, o Subprograma de Apoio às Atividades Pesqueiras prevê o pagamento de verbas de manutenção, como é o caso das famílias integrantes do público do Subprograma de Reorganização das Atividades Produtivas do Programa de Deslocamento da População Atingida.
A categoria “atingido”
Assim, a autoidentificação dos “afetados” adquiriu um significado politizado, tornando os agentes conhecidos nos órgãos e espaços de decisão. Através da categoria de “afectados”, os actores tornam-se sujeitos políticos que partilham experiências comuns de violações de direitos e expropriações. Ser “afetado”, fazer parte do MAB e reagir garantiu aos pescadores de Abunã o reconhecimento de outros agentes.
Como aponta Baraúna (2014), ser “afetado” também é entendido da seguinte forma: As hidrelétricas causarão efeitos em uma localidade. As inundações são um dos efeitos, mas ser “afetado” não se limita apenas a quem sofre quando um local é tomado pela água. Através do termo “afetados” torna-se possível estabelecer uma identidade coletiva entre os ribeirinhos de Abunã.
Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB
A partir de 1980 passou a se chamar Comissão Regional de Barragens e, posteriormente, Comissão Regional de Atingidos por Barragens. Nos anos desde a sua criação, a Comissão Regional dos Atingidos pelas Barragens do Alto Uruguai (CRAB) apresentou suas demandas em cinco regiões, entre elas uma demanda "país por país" para criar políticas destinadas a realocar os afetados. Para ampliar a luta dos atingidos por barragens, que havia sido regionalizada, foi realizado em 1989 o I Encontro Nacional dos Trabalhadores Atingidos por Barragens, onde se decidiu formar uma organização nacional para enfrentar os planos de construção de grandes barragens. no brasil.
Em abril de 1989, foi realizada na cidade de Goiânia/GO a primeira Assembleia Nacional dos Atingidos por Barragens, com a participação de representantes dos atingidos de diversas regiões do Brasil. O CRAB, que começou a organizar outros movimentos regionais após a luta contra as barragens de Itá e Machadinho, abordou o Departamento Nacional dos Trabalhadores Rurais da CUT em 1988 com o objetivo de criar uma organização do movimento nacional dos atingidos pelas barragens. De 1989 até hoje, o movimento dos atingidos pelas barragens cresceu e se fortaleceu, tornando-se uma articulação nacional.
O “caso Nicinha”
Os restos mortais de Nicinha foram encontrados próximos ao local do crime, a cerca de 400 metros de distância. No dia 13 de dezembro, a Secretaria anunciou que o exame de DNA realizado pelo Laboratório Oficial de Identificação Forense e Técnica (Politec) da Secretaria de Segurança de Mato Grosso confirmou que o corpo encontrado no lago da barragem era o de Nicinha. Após seis meses de espera pelo laudo do cadáver, o Laboratório Oficial de Identificação Forense e Técnica de Mato Grosso (Politec) confirmou que o corpo encontrado no lago da represa era de Nicinha.
Notamos também a centralidade do símbolo da UHE Jirau com uma caveira, que representa a forma como a comunidade vivenciou e se responsabilizou pela morte de Nicinha. Ivanilce denunciou o assassinato da mãe e demonstrou publicamente, em meio a lágrimas e dor, seu sentimento de perda e indignação pela morte de Nicinha. No próximo subcapítulo tentarei compreender outras versões presentes na composição do assassinato de Nicinha como um ‘caso’.
Entre documentos e práticas, a construção de uma memória
Além desses, também analiso documentos elaborados pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), pela Justiça Global e pelo Comitê dos Defensores dos Direitos Humanos, a fim de compreender o modelo através do qual diferentes atores da sociedade utilizam a morte de Nicinha. sociedade civil na constituição da memória da luta e enquadramento do ativista na categoria de “defensor dos direitos humanos”. O comunicado reflecte os rumores relacionados com o desenrolar da morte de Nicinha e as consequências deste assassinato na comunidade piscatória de Abunã. Neste segundo momento da investigação, novos depoimentos são colhidos e a trama envolvendo a morte de Nicinha parece mais complicada.
Com estes materiais foi possível realizar um teste de DNA para identificar o corpo de Nicinha. Percebendo que um caso nunca é apenas um caso e pode apresentar desempenho analítico no estudo de fatos sociais mais amplos (FONSECA, 1998), procurarei analisar a morte de Nicinha dentro de um espectro mais amplo: os assassinatos de defensores de direitos humanos em todo o país. Portanto, observar o fio condutor dos efeitos vivenciados pelos ribeirinhos de Abuna é também compreender a reconstrução da trajetória de Nicinha.
Assassinatos de defensoras e defensores de direitos humanos no
A coleta de dados baseia-se no reconhecimento de que há significativa subnotificação de dados sobre violações contra defensores de direitos humanos no Brasil. Entre os desdobramentos podemos citar a ampla divulgação na mídia, surgida na reconstrução do caso nos capítulos anteriores, e também no acionamento do Conselho Nacional de Direitos Humanos para acompanhamento do caso, como será melhor demonstrado a seguir. Segundo a CBDDH, em 2016 o estado de Rondônia já havia presenciado uma alarmante escalada de violência e criminalização dos defensores dos direitos humanos, com mulheres trabalhadoras e trabalhadores rurais sem terra sujeitos a despejos, ataques, ameaças, roubos, perseguições e assassinatos.
Como resultado da ampla divulgação e denúncia apresentada à opinião pública por movimentos e organizações da sociedade civil, aqui demonstrada, o Conselho Nacional de Direitos Humanos foi acionado, criando dentro dele um grupo de trabalho focado apenas no estado de Rondônia em junho de 2016. grupo, melhor detalhado na subseção a seguir, destinado a realizar uma visita ao estado de Rondônia, chamada pelo órgão de “missão”, resultando em um relatório, no qual são identificadas as regiões onde estão localizados os defensores dos direitos humanos. país, identificando os principais tipos de conflitos e fazendo recomendações aos órgãos envolvidos nas compensações. Assim, nota-se que, a partir da coordenação do Comitê e das informações sistematizadas e distribuídas por seus membros, outros órgãos da administração pública, como o Conselho Nacional de Direitos Humanos e o Ministério dos Direitos Humanos, começam a ser acionados, através do Programa Nacional de Proteção dos Direitos Humanos dos Defensores dos Direitos Humanos, visando a compensação e proteção dos defensores dos direitos humanos em todo o país.
Proteção de defensores: redes em ação
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento Nacional pelos Direitos Humanos, Rede Justiça nos Trilhos, Sociedade de Direitos Humanos do Maranhão, Sociedade de Proteção aos Direitos Humanos do Pará (SDDH) e Terra de Direito. Para monitorizar as políticas públicas de protecção dos defensores dos direitos humanos, o Comité trabalha para pressionar os governos a garantir a continuidade e a melhoria do programa de protecção dos defensores dos direitos humanos. A CBDDH entende que é dever do Estado garantir a proteção dos defensores dos direitos humanos e que as políticas públicas voltadas para esse fim devem ter uma agenda prioritária para esse fim.
É importante sublinhar que o Comité entende que o papel do Estado é garantir a protecção e segurança dos defensores dos direitos humanos. Além deste conteúdo informativo, o comité presta apoio urgente aos defensores dos direitos humanos ameaçados. Defensoras dos Direitos Humanos (CBDDH) e que presta anualmente homenagem às mulheres defensoras dos direitos humanos em todo o país.
O Programa Nacional de Proteção às Defensoras e Defensores de
O Programa Nacional de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos (PPDDH) no Brasil foi criado em 26 de outubro de 2004. A falha do Estado brasileiro em resolver esses problemas perpetua situações de risco, ameaça e ataque aos defensores dos direitos humanos. É também importante que as ameaças sejam investigadas de forma eficaz, levando à responsabilização dos intervenientes que atacam os defensores dos direitos humanos.
Vários defensores de direitos humanos inseridos no PPDDH são acompanhados pela equipe federal apenas por telefone. Situação enfrentada por Nicinha e vários defensores de direitos humanos, especialmente os da região amazônica. A fragmentação do Programa Nacional de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos (PNPDDH) pode ser entendida desta forma como, pelo contrário, como parte de procedimentos, técnicas e práticas estatais que, operando a partir de uma governança específica, definem determinados temas, temas e moralidades, independentemente de não ser mais reconhecida ou não (FOUCAULT, 2006).
Acompanhamento CNDH - Caso Nicinha
Diante disso, enfatizo o papel do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), instituído com base na Lei nº. Em reunião realizada em 9 de março de 2016, a referida Comissão decidiu criar um grupo de trabalho para direitos humanos ameaçados de extinção. defensores de direitos humanos em Rondônia. Com base em dados compilados desde 2015 sobre “defensores de direitos humanos” (CONFLICTOS NO CAMPO DA CPT, 2015; DOSSIÊ CBDDH 2016 e 2017), o Conselho começa a concentrar suas preocupações na violência sofrida por defensores de direitos humanos na região amazônica, mais especificamente o estado de Rondônia.
A categoria “defensor dos direitos humanos” enfatiza então a dimensão “abstrata” da ideia de “Estado”, como sugere Abrams (1988), pois no momento em que se consolida como categoria, começa a ser montada dentro de muitos diferentes casos e experiências de violência e violação de direitos, conforme indicado na descrição do relatório elaborado pela Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH). Entre as diferentes categorias ativadas, procurei focar na constituição de uma categoria identitária e política específica: a de defensor dos direitos humanos. Para tanto, apresentei como estratégia de análise o mapeamento do processo de construção política desta categoria, a partir de uma experiência de violência, que chamei de “caso Nicinha”, com o objetivo de apontar a forma como essa denúncia constitui um quadro de denúncias mais amplas baseadas no reconhecimento de determinados sujeitos como defensores dos direitos humanos em todo o país.