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QUESTÃO PENITENCIÁRIA

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Academic year: 2023

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No que diz respeito a este trabalho, reunimos cinco textos de cunho mais epistemológico e metodológico relacionados à questão penitenciária. No entanto, não se trata de uma neutralização da disciplina, nem de um esquecimento, enfatiza o autor, pois é justamente a "caixa de ferramentas" foucaultiana que permite encontrar as coexistências entre as práticas de normalização, os mandamentos da docilidade dos corpos, a a soberania de deixar morrer, deixar viver - tão bem expressa nas nubladas taxas de mortalidade das prisões brasileiras - e as técnicas de controle de fluxos, passagens, sociabilidades e marcações - que o racismo estrutural do Brasil se impõe como força dominadora - que moldam sua governança do questão penitenciária nacional, em que a disciplina, em grande parte devido à tradição escravocrata, racial e de classe que se formou e se perpetuou no Brasil, torna-se um feixe presente, mas não dominante.

SUMÁRIO

PODER SOBERANO E

BIOPODER: REVISITANDO AS CONTRIBUIÇÕES DE MICHEL

FOUCAULT PARA A QUESTÃO PENITENCIÁRIA BRASILEIRA

A punição do soberano pode estar associada à repressão, à reconciliação, que, como já foi dito, se resume em “deixar morrer” e também se expressa em táticas punitivas de branding. Isso sugere que não é por meio dessa grade disciplinar de compreensão do poder que essa questão penitenciária pode ser analisada.

A QUESTÃO PENITENCIÁRIA

Introdução

Dentre os inúmeros méritos deste livro, destacamos o fato de apontar a complexidade constitutiva da chamada questão correcional, complexidade criada na estruturação das dimensões social, política e econômica da sociedade moderna. Com efeito, embora a LEP tenha avançado no estabelecimento de direitos sociais para as populações encarceradas – como se verifica pela vinculação entre o atendimento que presta aos presos17 e os direitos sociais previstos no artigo 6º.

Do castigo à penalidade e desta ao poder punitivo

Estas alterações não decorreram de razões humanitárias, mas de um certo desenvolvimento económico que revelou o valor potencial da massa de material humano completamente à disposição das autoridades (Idem, p. 39). Assim, a revelação da conexão funcional entre o sistema penal, por um lado, e as possibilidades de controle/gestão da força e do mercado de trabalho, por outro, foi a primeira e mais característica abordagem da economia política do estado. punição. Vale citar a recomendação de Pedro Bodê quando nos pede para pensarmos o castigo a partir da antropologia da crueldade e da dor, se levarmos isso em conta.

Com efeito, nessa percepção de significados e discursos relacionados aos sistemas de punição e punição, mesmo nesse vislumbre de uma nova utopia, revela-se o aprofundamento da complexidade da questão penitenciária. Entretanto, a complexidade não se esgota nos aspectos já mencionados; avança de uma dimensão a outra, de um nível a outro dos elementos e tecidos que compõem o caso penitenciário. A noção que se constitui na reflexão (isto é, bem como através de manifestações concretas e simbólicas) das sobredeterminações sócio-históricas da funcionalidade da pena com base num sistema de penas da liberdade do rapto; aquela que, a partir de construções discursivas ambivalentes, tensiona de forma paradoxal (contraditória e complementar) as dimensões social e política de uma sociedade; dimensões em termos de poder, governança, civilização e cidadania.

QUESTÃO PENITENCIÁRIA

OBSTÁCULOS

EPISTEMOLÓGICOS E COMPLEXIDADE 20

A ênfase é colocada na produção de conhecimento científico que se proponha a contribuir para o atendimento dos objetivos da questão penitenciária. Essa é uma relação bem conhecida no campo penitenciário, mas não raramente negligenciada. A vigilância epistemológica exigida pela questão penitenciária inclui atitudes que, ao radicalizar a leitura da realidade (a partir do que se extrai dos dados empíricos) diante das ilusões dos obstáculos epistemológicos, reconhecem, agem e enfrentam não apenas elementos como a seletividade e a vulnerabilidade. mas também outros que não são tratados aqui (não menos reais e influentes), como

Independentemente disso, assim como as sucessivas advertências de autores do campo sobre a inadequação da abordagem política da questão das penitenciárias nos estreitos limites do ambiente prisional - Fischer e Adorno (1987), por exemplo, já no início do LEP. validade ( 1987, p. é um instrumento cognitivo (epistemológico, metodológico) que requer aperfeiçoamento, pendente. está paradoxalmente vinculado aos esforços para desenvolver políticas públicas penais que correspondam aos marcos da "segurança civil".

FIGURA 1 – ESBOÇO PRELIMINAR DA COMPLEXIDADE  SISTÊMICA CONSTITUTIVA E OPERACIONAL NAS  CONFIGURAÇÕES PRISIONAIS E QUESTÃO PENITENCIÁRIA FONTE: elaborado pelo autor
FIGURA 1 – ESBOÇO PRELIMINAR DA COMPLEXIDADE SISTÊMICA CONSTITUTIVA E OPERACIONAL NAS CONFIGURAÇÕES PRISIONAIS E QUESTÃO PENITENCIÁRIA FONTE: elaborado pelo autor

DO CAMPO AO CAMPO

ANÁLISE DA QUESTÃO PENITENCIÁRIA NO BRASIL

Trajetos do Campo ao Campo: (des)controles e modernidade periférica

Coloque as pessoas em interação prolongada e algumas tendências se manifestarão nas configurações sociais que serão produzidas: abordagens por afinidades espontâneas ou não, com surgimento de grupos; emergências de liderança; empreendimentos com dinâmica cooperativa e competitiva, favorecendo lealdades e rivalidades; disputas e conflitos, especialmente quando apela. O próprio caráter de configuração social inerentemente violenta atribuível aos ambientes prisionais redimensiona e reconfigura o contexto em que ocorrem os embates próprios da execução penal, mesmo sob a ótica estritamente jurídico-judicial. Mas não é só a este nível que se desenvolvem as disputas que, em suma, se traduzem por “ampliar/restringir a liberdade”, “deixar as pessoas ressocializarem, deixarem sofrer”.

A esse respeito e com a cumplicidade dos representantes do Ministério Público Estadual, destacam-se o conteúdo ou não e a fundamentação de suas decisões. A obra apresentada por Thayla Fernandes da Conceição e Pablo Ornelas Rosa (2015), contextualizada no sistema prisional do estado do Espírito Santo, revela a tolerância ou mesmo a possibilidade oficial por meio de discursos e práticas que revelam o biopoder, a biopolítica, “faz ressocializar, deixa sofram", "deixem-nos viver, deixem-nos morrer", que se tornou um tema-chave das administrações prisionais. Embora alguns possam argumentar que casos dessa ordem são casos isolados - ocasionalmente (falta de) controles administrativos -, evidências empíricas registradas não apenas em pesquisas acadêmicas e científicas, mas também em documentos como o relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito, sobre do sistema penal (2008), a partir do estudo do Conselho Estadual do Ministério Público (2013) ou mesmo nos dados frequentemente divulgados pelo Conselho Estadual de Justiça, constata-se a complexidade e degradação da questão penal. O Brasil não apenas na gradual consolidação do Campo sui generis, em que se contesta o poder de definir a liberdade, a vida e a morte, mas na gradual formação de espaços excepcionais onde as leis dominam sem sentido (AGAMBEN, 1995).

A Questão Penitenciária brasileira como Campo (Agamben)

Também o Homo Sacer, figura jurídica do arcaico direito romano que salva Agamben para representar o estado de vida nua exposta à condição soberana e ao Estado, às relações, às exceções, para poder ser morto sem cometer homicídio e sem celebrar um sacrifício ( 2004, p. 91). Nesse sentido, o esquema da exceção – e da emergência do Campo – torna-se dinâmico quando a lei é aplicada e não aplicada (AGAMBEN, 2004, p. 57), gerando a estrutura de banda que separa os dois pólos de liga o campo. exceção: “a vida nua e o poder, o homo sacer e o soberano” (AGAMBEN, 2004, p. 117) e a possibilidade de matar sem cometer homicídio e festejar sem sacrifício. Que evidência empírica, então, podemos apresentar para apoiar a estrutura de gangues na questão penitenciária de hoje e, portanto, a ascensão do Campo?

Por tudo o que já vimos – mas principalmente pela refratariedade das lideranças político-administrativas e político-jurídicas dos sistemas prisionais brasileiros em relação aos direitos humanos. e a cidadania dos presos e o surgimento e consolidação de grupos e organizações de presos que, num governo amparado na crueldade funcional, ocupam o vácuo deixado pela ausência de autoridades que deveriam ser civilizadas e legítimas - é preciso que identifiquemos os espaços prisionais. como espaços onde se racionaliza o esquema de exclusão, onde se aplica a lei desaplicando-se e se cria a estrutura da quadrilha, que liga os dois polos da exclusão: "vida e poder nu, homo saceri e soberano". 2004, pág. 117) e a possibilidade de matar sem cometer homicídio e sem celebrar o sacrifício. O quadro abaixo, construído com dados de recente reportagem da BBC (KAWAGUTI, 2014), em que especialistas foram instados a identificar as piores prisões do Brasil, é a ilustração final - mas não excepcional (vale a pena repetir) - da realidade factual de nossa questão da punição como campo. O campo como lugar deslocado é a matriz oculta da política que ainda vivemos, que devemos reconhecer em todas as suas metamorfoses [..] (AGAMBEN, 2004, p. 182).

Considerações finais

Um sistema político não mais regula formas de vida e normas legais em um determinado espaço, mas contém em si um local deslocado que o transcende, no qual toda forma de vida e toda norma podem ser virtualmente contidas. Usar a retórica arcaica e “medieval” – como já fez o Ministro da Justiça (KAWAGUTI, 2012) – significa afastar-se do foco de tratar das questões macroestruturais que produzem e sustentam o Campo, e eufemizá-lo como “Crise”. Não vemos a diferença e talvez até mesmo a incompatibilidade teórica que alguns podem argumentar que existe entre Camp e Camp – entre Bourdieu e Agamben – como uma falha em reconhecer o poder de ambos em promover um confronto mais efetivo com nossa questão penal.

Extraindo a estrutura e o jogo sui generis do presídio – seus integrantes, objetos de disputa, capital, suas crenças e doxes – e apontando os indícios de que uma estrutura de quadrilha, o presídio, está se formando na execução penal brasileira, eis um passo na busca de ferramentas cognitivas e epistemológicas que se conjugam com uma perspectiva política: a superação da incivilidade social e a consolidação de uma sociedade emancipada e solidária em que se constituam as sanções negativas, recursos excepcionais, quer nos parâmetros da dignidade humana. Teoria do capital humano e o discurso da ressocialização: docilidade, produção do "homo oeconomicus" e resistência na era da biopolítica. Capitalizando o tempo social na prisão: a redenção no contexto da temporalização das lutas prisionais.

SOCIOLOGIA NA QUESTÃO PENITENCIÁRIA

CAPITALIZAÇÃO DO TEMPO E JOGO PRISIONAL 30

Considerações finais

O século XXI – ainda em sua segunda década cronológica – já é emblemático da questão carcerária brasileira. Em junho de 2014, nossa população carcerária era de 607.731 pessoas: 579.423 no próprio sistema penitenciário, 27.950 nas delegacias, 358 no sistema penitenciário federal. No mesmo período, apesar da ampliação da precariedade das condições reais de encarceramento dessa superlotação carcerária, vivenciamos uma importante produção normativa de instruções políticas que, ao menos na escrita e na fala, refinavam e sofisticavam as promessas e perspectivas de civismo. direitos. e serviços sociais para prisioneiros; por exemplo: em 2003, o Plano Nacional de Saúde no Sistema Penitenciário; em 2009, por meio da Lei 11.942, as mudanças na LPP visam assegurar as condições mínimas de atendimento às mães e recém-nascidos encarcerados; em 2010, por meio da Lei 12.313, alterações na LPP para prestar assistência jurídica aos presos dentro do presídio e atribuição de poderes à Defensoria Pública; ainda em 2010, as Diretrizes Nacionais de Educação nas Prisões; bem como as últimas regulamentações nas áreas relacionadas a gênero e diversidade sexual.

Também nesse período, como já apontamos, floresceram dissertações e teses sobre a prisão (SALLA, 2006, p. 108) e se desenvolveu - pelo menos entre os "top" pesquisadores da área - que devemos estar atento ao esgotamento dos modelos teóricos, bem como ao redimensionamento das relações sociedade-prisão (ADORNO; DIAS, 2013, p. 19). O contraponto entre o boom da pesquisa e o agravamento dos paradoxos enquadra o cenário que nos conduz à relação “ciência/academia-política”. Disponível em: http://www.anpocs.org/portal/index.php?option=com_docman&task=doc_details&gid=8587&Itemid=217.

RESUMOS DE ARTIGOS RELACIONADOS COM

NO ÂMBITO DO GRUPO INTERDISCIPLINAR DE

CRIMINAIS-PENITENCIÁRIOS (GITEP), DA UNIVERSIDADE

CATÓLICA DE PELOTAS (UCPEL)

  • Encarceramento feminino
    • A prisão dentro da prisão: sínteses de uma visão sobre o encarceramento feminino da 5ª Região Penitenciária do
    • Mulheres nas so(m)bras: invisibilidade, reciclagem e dominação viril em presídios masculinamente mistos
    • A ambiguidade do trabalho prisional num contexto de encarceramento feminino: o círculo vicioso da exclusão
  • Racismo e encarceramento
    • Séculos XIX e XXI: prisão e segregação racial em Pelotas (RS)
  • Educação de Presos
    • De boas intenções o inferno está cheio: reflexões sobre a educação formal nos ambientes prisionais
  • Saídas Temporárias
    • As Saídas Temporárias na Execução Penal

CHIES, Luiz Antônio Bogo; BARROS, Ana Luisa Xavier; LOPES, Carmen Lúcia Alves da Silva; OLIVEIRA, Sinara Franke de. Avtorji: Luiz Antônio Bogo Chies, Ana Luisa Xavier Barros, Carmen Lúcia Alves da Silva Lopes, Leni Beatriz Correia Colares, Sinara Franke de Oliveira. CHIES, Luiz Antônio Bogo; BARROS, Ana Luisa Xavier; LOPES, Carmen Lúcia Alves da Silva; OLIVEIRA, COLARES, Leni Beatriz Correia; Sinara Franke de.

Autorë: Luiz Antônio Bogo Chies, Ana Luisa Xavier Barros, Carmen Lúcia Alves da Silva Lopes, Sinara Franke de Oliveira, Alexandro Melo Correa, Evelin da Silva Czerwinski, Flávia Lucimeri Rodrigues, Sabrina Rosa Paz. Autorë: Luiz Antônio Bogo Chies, Alexandro Melo Correa, Carmen Lúcia Alves da Silva Lopes, Gabriel Prestes Espiga, Juliana Ribeiro Azevedo. CHIES, Luiz Antonio Bogo; CORREA, Alexandro Melo; LOPES, Carmen Lúcia Alves da Silva; ESPIGA, Gabriel Prestes; AZEVEDO, Juliana Ribeiro.

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Referências

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Lakatos e Marconi (1993) corroboram essa afirmativa ao defenderem que o “método científico é um conjunto de processos ou operações mentais que se devem empregar na