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Redes de saberes nas rodas de samba

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Academic year: 2023

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O fragmento acima provém de um samba do compositor Paulo da Portela, denominado Cidade Mulher, em que esse espaço é recriado e personificado na forma de uma mulher. Metáfora espacial destinada ao pensamento combativo, que coloca o espaço do discurso como terreno e objeto das práticas políticas (FOUCAULT, 2001, p.159).

Figura 1 - Rio de ladeiras
Figura 1 - Rio de ladeiras

Questões epistemológicas

Os fóruns regionais e as peculiaridades em que se expressam as diferenças culturais tornam-se obstáculos à unidade nacional que sustenta o poder do Estado. É precisamente neste momento em que as culturas populares e locais são deixadas sem razão, no momento em que o seu direito de existir é negado, que os estudiosos se interessam por elas. O pensamento em rede insere-se num contexto que busca superar o conhecimento fragmentado e, além disso, respeitar as diferentes formas de produção de conhecimento que se desenvolvem em nossa sociedade, com participação na dinâmica de sentido do mundo.

O objetivo é aprender com os corpos rebeldes, que não se deixaram colonizar, talvez taticamente, fingindo ser corpos seguidores (SANTOS, 2002, p.241), ou com a ajuda de uma língua estrangeira, incompreensível para os colonizadores. conhecimento. Tocar, cantar, dançar uma música é preenchê-la de significados através da voz, do corpo, da execução dos instrumentos que se entrelaçam, dá movimento e proporciona interações variadas e simultâneas cuja explicação se torna evasiva, minada pela emoção, por relações sutis de cumplicidade estabelecida neste momento de encarnação da Linguagem do morro. O consumo como forma especial de uso, como tipo específico de recepção, tem sido considerado uma forma de pensar (CANCLINI, 1995) produzida na comunidade que consome textos globais, os atualiza localmente, que atribui significados a esses elementos. redes locais e, por meio desse processo, configurações identitárias inteiramente relacionais, percebidas não em sua essência autoabsorvida, mas como material simbólico que é narrado.

Liberto da sua “aura”, do seu valor ritual (BENJAMIN, 1993, p. 173), o filme comporta-se como um ícone da emergente indústria cultural de massa, um sinal do globalismo (SANTOS, 2000), que se imporá como um emblema do mercado, nas culturas locais, que ultrapassarão a fronteira entre a mercantilização dos seus objectos e a reapropriação de materiais das indústrias de massa para seu próprio uso.

Figura 6 - Tudo lá no morro
Figura 6 - Tudo lá no morro

Questões metodológicas

Acredito que o samba de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho compartilha desse sentimento abrangente, amplificador de uma vida que é algo mais, que os olhos não percebem. Ao realizar pesquisas sobre o cotidiano, aprendemos no cotidiano dos nossos parceiros de pesquisa, incluímos em nossas variáveis ​​“elementos da vida de cada um que, se não servem para construir um modelo explicativo das ações pedagógicas que empreendem, ajudando-nos participar da rede de valores, crenças e conhecimentos que nela interferem (OLIVEIRA, 2001, p.41). Os diálogos entre o imperador Kublai Khan e o viajante Marco Polo traduzem fabulosamente a tensão entre uma abordagem imperialista e normativa e uma abordagem fantástica e transgressora, a autoridade narrativa de um contador de histórias.

Mas não posso conduzir a minha operação além de um certo limite: conseguiria cidades que são boas demais para ser verdade. O samba, na sua visão de mundo, pode funcionar como uma contribuição para um estado de instabilidade que aumenta a racionalidade estético-expressiva em relação à racionalidade cognitivo-instrumental, de modo a promover relações desequilibradas em que a primeira opera de forma mais decisiva na favor de um movimento marcado pela emancipação, pelo reconhecimento do sujeito como autor, participante da criação da vida. Contudo, apresentam limites, pois não atingem o estado de um nativo, no meu caso, que propõe uma avaliação teórica do seu espaço, o que na verdade eliminaria o pesquisador, pelo menos formalmente, em relação à pesquisa.

Ando em redes/rodas que leio, escrevo e que se escrevem através de mim, e muitas vezes me encontro num lugar indefinido onde as vozes de um imperador e de um viajante soam simultaneamente, entrelaçadas.

Depois dos arcos

Nos conhecemos alguns meses antes por causa de um projeto musical do qual participei como convidado do grupo dele, o Repercussão. Porém, todos sabiam que eu trabalhava em rodas de samba pela educação, mas ninguém sabia exatamente do que se tratava, nem eu. Ele falou da importância política da Escola do Quilombo, como resistência e respeito aos aspectos tradicionais do samba num momento em que surgia uma enorme indústria cultural com o poder de manipular e transformar as características das manifestações populares.

Instrumentos que me foram explicados didaticamente a cada citação do que se tratava, sua origem, sua função como um todo, sua forma. Tráfego de ideias que desviam de suas disciplinas, configuram-se em um sistema semiótico diferente, estabelecem vínculos entre uma linguagem e outra. Terreno sonoro (CERTEAU, 1994) produzido pela narratividade musical, de modo que as mãos não podem tocar e os olhos não podem perceber, Dobrando se apresenta e povoa de vozes os lugares onde se estabelece.

Portanto, reconheço-o como um território simbólico formado pelo movimento fronteiriço entre países e desenraizado do seu próprio terreno.

Figura 9 – Walter Nunes alfaiate
Figura 9 – Walter Nunes alfaiate

O samba no Buraco do Galo

Transportados de um espaço para outro, estes lugares são criados através da fusão de texto e contexto, pois a música é habitada pela história local, pelas pessoas que participam no círculo em curso. É difícil, nestes tempos, elaborar algo, face a um encanto que só existe naquele espaço/tempo em que se estabelece um determinado tipo de relação e que neste trabalho entendo como parte de uma rede complexa. de conhecimento. Assistir à instalação de uma tecnologia de gravação muito sofisticada no ambiente rústico de um bar parece uma estranha colagem, o ambiente tecnocientífico moderno penetrando em um território que por muito tempo esteve excluído do uso dessas inovações.

A produção de um prato na rua, organizado pela comunidade em torno de um bar onde costuma reunir um grupo de pessoas para saborear um prato especial - galo estufado, daí o nome Buraco do Galo - tem para nós, Marcelo e eu, um sabor muito especial. frase. Pude participar de um quadro revelador de novas possibilidades de ações coletivas que acontecem na articulação das identidades locais diante do suposto poder homogeneizador da cultura de massa. A realização do disco permite a fixação de um pensamento autoral subjetivo coletivo, conferindo-lhe fluidez, capacidade de percorrer outros terrenos, penetrando ativamente no movimento de forças que marcam o espaço socialmente produzido, distribuídas através do uso de instrumentos que, na origem, é típico da indústria de massa (SANTOS, 2000).

Esta oportunidade foi possível graças à colaboração dos meus amigos de Dobrando a Esquina: Paulino, Marcelo e Luciane, a quem dedico esta música.

Figura 12 - O samba no Buraco do Galo
Figura 12 - O samba no Buraco do Galo

Imagens sonoras

Posso sugerir que Chico Buarque, na música “Maninha”, refere (ou até cita, como gosta a academia) a música “Chão de Estrelas”, criando um diálogo com um “outro” que se faz presente na música sua. Habermas relata a experiência em que um grupo de trabalhadores berlinenses, através de um curso noturno, adquiriu meios para investigar a história social da arte europeia. Ele também observa que, assim que a experiência estética toca nos problemas das experiências pessoais, a arte se torna um jogo de linguagem que não é mais o do crítico de arte.

Essa música faz parte do repertório Dobrando a Esquina, muitas vezes interpretada pelo próprio Pixinguinha, ao lado de outros, um dos compositores mais presentes na parte das apresentações em que tocamos coros instrumentais, gênero musical muito presente no samba. rodadas neste momento. É essa articulação entre diferentes culturas e grupos musicais que se reúnem nas rodas de samba que nos dá pistas para compreender os chamados lugares sonoros, que não percebemos em nossas raízes terrenas, mas presos a narrativas, configurados como territórios sonoros que não possuem terras, que usam terras estrangeiras. Solo móvel, criado e incriado pelo encontro de pessoas que partilham interesses comuns.

Momentos em que a recepção estética se torna uma ação no cotidiano, através de uma instituição que tem origem nela mesma, as rodas de samba que celebram.

Dança – a imagem do som

A música filmada

Dê a Coleridge uma palavra animada de algum conto antigo; deixe-o misturá-lo em sua mente com outros dois; e então (para traduzir termos musicais em termos literários), “de três sons ele formará uma estrela” (LOWE apud EISENSTEIN, 1990, p.13). Neste caso, de uma representação das doze badaladas, a imagem da meia-noite deve surgir como uma espécie de “hora do destino”, cheia de significado [...] O exemplo tem uma importância adicional porque é sonoro (LOWE apud EISENSTEIN , 1990), p.21). Um a zero, narrando uma partida de futebol, todas músicas de Pixinguinha, começo a vagar pela cidade, imerso em imagens que me sugerem tais sons.

Momento em que tais músicas são usadas em mim, imagens que não só o autor criou, mas também participei - o espectador que cria. Uma partida de futebol onde a persistência do som de uma gaita é representada por um fragmento melódico, o movimento da música sugerindo os movimentos do jogo, pode ser ouvido no refrão. Um a zero, contando a vitória do Brasil sobre o Uruguai a partir do ponto que dá título à música.

Este compositor dá-nos receitas de como a música pode articular culturas segmentadas pela lógica de uma razão instrumental que, ao serviço do mercado e do dinheiro, fragmenta o espaço e desestabiliza os laços de amor da comunidade.

Por trás das câmeras

Após concluir a graduação em geografia pela UFRJ, tive a oportunidade de continuar meus estudos em outra escola: a roda de samba. Ao me matricular no curso de Mestrado em Educação da UERJ pude retornar a questionamentos sobre minhas experiências como músico, meu aprendizado nas redes de samba no espaço acadêmico. Sob a orientação de Nilda Alves, acompanhada de Inês Barbosa, Paulo Sgarbi e Valter Filé, pude manter diálogos ricos entre minha experiência em rodas de samba e a produção acadêmica ligada à educação e ao ensino de geografia, desenvolvida no grupo de pesquisa "Redes de conhecimento em educação e comunicação: uma questão de cidadania”.

O samba, persistentemente repetido nesta obra, foi entendido como porta-voz dos excluídos, daqueles para quem o Estado de bem-estar social não aconteceu. No cenário da vida, esses ambientes/conhecimentos são realidade e, como tais, não têm dono, mas sim seres vivos com os quais temos muito a aprender/trocar. Escolhi a Filosofia do Samba para encerrar este trabalho porque essa música canta coisas, sentimentos que compartilho com o grupo “Redes de conhecimento em educação e comunicação: a questão da cidadania”, o desejo de trabalhar por uma educação emancipatória que respeite a estrutura do conhecimento. de onde quer que venha.

É um privilégio ter participado deste processo com pessoas extremamente sensíveis e atuantes na criação de uma sociedade mais justa.

Figura 16 - Candeia
Figura 16 - Candeia

Imagem

Figura 1 - Rio de ladeiras
Figura 2 - Morro
Figura  3  -  Walter  Alfaiate  vestindo  Nelson  Sargento  para a festa de premiação do Grammy
Figura 4 - Ele é um samba de quadra da mangueira
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Referências

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Ali, naquela hora, dava-se à cidade do Rio de Janeiro a principal de suas obras simbólicas: A Passarela do Samba ou Sambódromo como o povo a chama.”9 Mais reservado, na carta de