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REPRESENTAÇÕES DE ESTUPRO E TORTURA CONTRA MULHERES EM LA SANGRE DE LA AURORA

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Academic year: 2023

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CRUZ, Sonia María Chacaliaza; CARVALHO, Isaías Francisco. Representações de estupro e tortura contra mulheres em La sangre de la aurora. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 208- 228.

Curitiba, Paraná, Brasil Data de edição: 11 dez. 2021

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REPRESENTAÇÕES DE ESTUPRO E TORTURA CONTRA MULHERES EM LA SANGRE DE LA AURORA

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SONIA MARÍA CHACALIAZA CRUZ (DOUTORANDA) Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) Ilhéus, Bahia, Brasil ([email protected])

Dr. ISAÍAS FRANCISCO DE CARVALHO Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) Ilhéus, Bahia, Brasil ([email protected])

RESUMO: O romance peruano La sangre de la aurora, de Claudia Salazar Jiménez (2018), centra-se nas histórias de Melanie, Marcela e Modesta durante o Conflito Armado Interno (CAI). Visamos analisar os métodos usados para reprimir as protagonistas, por parte de senderistas e militares peruanos. Para isso, fundamentamo- nos nas noções de repressão, tortura e estupro definidas por Jelin (2002) e Segato (2003, 2013). Dessa forma, pretende-se mostrar os métodos violentos utilizados contra as mulheres, a modo de uma reescrita da história da guerra desde uma ótica feminina que, para além da denúncia, contempla potenciais perspectivas para a emancipação e inclusão de vozes antes silenciadas e ainda no entremeio do poder dizer e da inviabilidade de narrar a violência extremada.

Palavras-chave: Corpo feminino. Violência sexual. Tortura. Romance peruano.

Artigo recebido em: 17 set. 2021.

Aceito em: 28 out. 2021.

1 Resultado parcial de pesquisa realizada com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – código de financiamento 001.

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CRUZ, Sonia María Chacaliaza; CARVALHO, Isaías Francisco. Representações de estupro e tortura contra mulheres em La sangre de la aurora. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 208- 228.

Curitiba, Paraná, Brasil Data de edição: 11 dez. 2021

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REPRESENTATIONS OF RAPE AND TORTURE AGAINST WOMEN IN LA SANGRE DE LA AURORA

ABSTRACT: The Peruvian novel La Sangre De La Aurora, by Claudia Salazar Jiménez (2018), focuses on the stories of Melanie, Marcela and Modesta during the Conflito Armado Interno (CAI). We aim to analyze methods used against women by senderistas and the Peruvian military to repress these protagonists. Therefore, we base our analysis on the notions of repression, torture, and rape, as defined by Jelin (2002) and Segato (2003, 2013). By representing such violence, this literary work contributes to denounce and rewrite the history of war from a female perspective, which favor the emancipation and inclusion of voices that were (and still are) silenced midway between the power to speak and the impossibility of narrating extreme violence.

Keywords: Female body. Sexual violence. Torture. Peruvian novel.

INTRODUÇÃO

nos sembraron miedo, nos crecieron alas Vivir Quintana O romance peruano La sangre de la aurora, de Claudia Salazar Jiménez,2 foi publicado em 2013 e recebeu o Prêmio Las Américas no ano seguinte.

Centra-se nas histórias de Melanie, Marcela e Modesta, três mulheres que padecem os embates do Conflito Armado Interno (CAI)3 ocorrido no Peru entre

2 Claudia Salazar Jiménez é Doutora em Literatura pela Universidade de New York.

Também é docente universitária, gestora cultural e editora. Elaborou a edição das coletâneas Escribir en Nueva York (2014) e Voces para Lilith (2011). Sua publicação mais recente é o livro de contos Cordenadas temporales, em 2017.

3 Conflito Armado Interno (CAI) é a denominação utilizada pela Comisión de la Verdad y Reconciliación (CVR) do Peru, para designar o período de guerra entre os guerrilheiros do Partido Comunista Peruano-Sendero Luminoso e as Fuerzas Armadas del Perú. Vale ressaltar que Ayacucho foi a província considerada o epicentro do confronto. Portanto, ela se constituiu como a zona de maior violência

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CRUZ, Sonia María Chacaliaza; CARVALHO, Isaías Francisco. Representações de estupro e tortura contra mulheres em La sangre de la aurora. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 208- 228.

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210 1980 e 1990. Melanie, jovem aristocrata e fotógrafa, vai à zona mais perigosa do conflito para registrar a realidade que a mídia oculta. Marcela é professora de escola, mas deixa sua vida burguesa para aderir ao Partido Comunista Peruano – Sendero Luminoso (doravante também denominado apenas “Sendero Luminoso” ou “Partido”) e colaborar com a luta armada. Por sua vez, Modesta é uma camponesa indígena que testemunha e sofre a violência acontecida em sua comunidade com a chegada dos senderistas4 e dos militares. A partir das categorias repressão, tortura e estupro, analisamos essas três personagens e as violências que sofrem com o objetivo de mostrar os mecanismos de dominação masculina de que padecem as mulheres em períodos de conflito social, por meio das representações nesse romance sob análise.

Como é assinalado por Elizabeth Jelin (2002, p. 101), o modelo de gênero identifica a masculinidade com a dominação e a agressividade; enquanto as mulheres e a feminilidade são associadas à submissão e à passividade perante os desejos e mandatos dos homens. Apoiando-nos tanto em Jelin (2002) como em Segato (2003, 2013), propomos que La sangre de la aurora enfatiza a violência física e psicológica contra as mulheres durante o CAI, por meio da escrita e perspectiva femininas. Dessa forma, essa obra aparece como contraste a outras narrativas da mesma temática, escritas majoritariamente por homens, nas quais omitiram ou minimizaram a presença feminina para destacar o confronto dos militares e senderistas ou para exaltar um desses agrupamentos.

Por isso, antes de iniciar a análise das personagens, consideramos necessário mostrar qual é a valorização do romance por parte da crítica literária. Assim, pretendemos refletir sobre o diálogo que os críticos estabeleceram entre o livro e a categoria analítica peruana “literatura de violência política”.

LA SANGRE DE LA AURORA E A CRÍTICA LITERÁRIA

Literatura de violência política é a denominação utilizada, no contexto peruano, para agrupar narrativas que têm como tema principal o CAI. No ano 2000, Mark Cox elabora, no prólogo da coletânea El cuento peruano en los años de violencia, uma primeira tentativa para registrar a produção literária que abordava essa temática. Além do contexto sócio-político-cultural que se

durante esse período. Para um maior aprofundamento, pode ser consultado o site da CVR – http://cverdad.org.pe/ifinal/.

4 Senderista é o termo utilizado para designar aos militantes do Partido Comunista Peruano – Sendero Luminoso. Outros nomes que se registram no romance para designá-los são terrorista e terruco.

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CRUZ, Sonia María Chacaliaza; CARVALHO, Isaías Francisco. Representações de estupro e tortura contra mulheres em La sangre de la aurora. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 208- 228.

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211 estabelece nesse prólogo, o mais ressaltante nele e na coletânea é a escassa presença de escritoras mulheres. Dos quinze autores escolhidos, só Pilar Dughi é incluída no grupo. Posterior a esse livro, Cox publica outros textos que abordam a temática da violência política, todos eles anteriores à data de publicação de La sangre de la aurora, com a exceção do artigo “Describiendo lo ajeno” (COX, 2016). Nesse trabalho, o autor excluiu de sua pesquisa o romance de Salazar Jiménez, apesar do sucesso literário e editorial que obteve desde 2014. Essa omissão, que poderia estar condicionada pelo tipo de abordagem que Cox faz da literatura de violência, demonstra o pouco interesse do autor por incluir textos escritos por mulheres.

Outro crítico que pretende sistematizar a literatura de violência é Jorge Terán (2017). Sob a premissa de ser uma primeira tipologia, Terán estabelece vários critérios para classificar as narrativas de violência política.

Diferentemente de Cox, Terán incluiu La sangre de la aurora em seu corpus de pesquisa. Não obstante, a valoração feita é negativa:

[...] existe uma narrativa que tem abordado o texto a partir de um anseio estético, que paradoxalmente resulta mais um desejo do que um logro, [...] não existe uma preocupação pelo tratamento do conflito, já que ele não resulta o eixo central, é apenas acessório [...] a violência política é simples elemento decorativo ou no melhor dos casos o elemento tangencial [...] a representação do Conflito Armado Interno se expande em função à crise existencial, motivo pelo qual resta a sensação de que ela pode ter se desenvolvido em qualquer outro mundo e não tivesse acontecido mudança alguma. Pensamos, por exemplo, nos seguintes casos: La sangre de la aurora (2013) de Claudia Salazar, e Abril rojo (2006), de Santiago Roncagliolo. O caminho que seguem esses romances, no geral, resulta particularmente estreito. Teríamos que perguntar o porquê de seu êxito no mercado nacional e internacional, o que, possivelmente, resulte de uma percepção aproblemática do referente tratado. (TERÁN, 2017, p. 338, tradução e grifos nossos)5

5 No original: “[...] existe una narrativa que ha abordado el texto desde un afán estético, que paradójicamente resulta más un deseo que un logro [..] no existe una preocupación por el tratamiento del conflicto, pues este no resulta eje central, sino accesorio […] la violencia política es mero elemento decorativo o en el mejor de los casos elemento tangencial […] la representación del Conflicto Armado Interno se despliega en función a la crisis existencial, por lo que queda la sensación que esta pudo ambientarse em cualquier otro mundo y no hubiera habido gran cambio.

Pensamos, verbigracia, en los siguientes casos: La sangre de la aurora (2013), de Claudia Salazar Jiménez, y Abril rojo (2006), de Santiago Roncagliolo. La ruta que siguen estas novelas, en general, resulta particularmente estrecha. Habría que

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CRUZ, Sonia María Chacaliaza; CARVALHO, Isaías Francisco. Representações de estupro e tortura contra mulheres em La sangre de la aurora. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 208- 228.

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212 Acreditamos que a leitura feita por Terán seja, no mínimo, tendenciosa em sua valorização do romance. Desde nosso ponto de vista, ele comparte com Cox a visão de que a literatura deve manter seu caráter nacional por meio da abordagem de temáticas focadas no âmbito público. Sua crítica ao romance demonstra uma visão tradicional e hegemônica, pouco tolerante ou incapaz de destacar os aportes de narrativas que se desenvolvem sob uma perspectiva mais intimista, dos afetos/efeitos que produziu essa guerra no corpo e na subjetividade das suas vítimas.

Embora La sangre de la aurora não centre exclusivamente sua narrativa na representação do confronto entre os dois grupos, não é motivo suficiente para considerá-la aproblemática. Reiteramos que esse romance destaca a posição das mulheres na guerra, assim como as submissões, violências e os traumas sofridos por elas. O diferencial dessa narrativa é o tratamento que faz do CAI a partir da alteridade feminina, pois “[...] quando as mulheres decidem falar não o fazem do ponto de vista de uma narração épica da guerra, como os homens, e sim contam como as afetou de forma pessoal, familiar e em sua cotidianidade” (MORALES MUÑOZ, 2020, p. 13, tradução nossa).6 Dessa forma, o romance “[...] cria um coro de vozes femininas representativo de distintas posições da guerra, mas que ao mesmo tempo reclama uma longa sequência de marginalizações sociais profundas” (CÁRDENAS MORENO, 2019, p. 44, tradução nossa).7

Por outro lado, a estrutura fragmentada da obra e o uso da linguagem como impossibilidade de narrar a violência são elementos que devem ser destacados e valorizados no nível estético. A fragmentação das histórias, a concatenação de palavras de fluxo livre, o uso parcial de signos de pontuação e a incorporação de onomatopeias são estratégias narrativas herdadas do modernismo vanguardista (DIAZ, 2019), mas também visibilizam as falhas da linguagem como ato comunicativo dessa etapa na história peruana (ELTIT, 2018). Assim, o romance se posiciona em um lugar de fala contra-hegemônico e decolonial (DIAZ, 2019), pois possibilita a representação do CAI a partir de uma perspectiva alterna que elabora uma anti-História, “[...] no sentido

preguntarse el porqué de su éxito en el mercado nacional e internacional, lo cual, posiblemente, resulte síntoma de una percepción aproblemática del referente tratado.”

6 No original: "Cuando las mujeres deciden hablar no hacen una narración épica de la guerra, como los hombres, sino que cuentan cómo las afectó de manera personal, familiar y en su cotidianidad."

7 No original: "[…] crea un coro de voces femeninas representativo de distintas posiciones de la guerra, pero que a la vez reclama una larga secuencia de marginaciones sociales profundas."

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CRUZ, Sonia María Chacaliaza; CARVALHO, Isaías Francisco. Representações de estupro e tortura contra mulheres em La sangre de la aurora. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 208- 228.

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213 produtivo de resistência cultural em diálogo com discursos dominantes”

(CARVALHO, 2010, p. 127). Essa caraterística é importante na construção da narrativa, pois esses discursos dominantes estão representados por personagens masculinos que utilizam métodos de repressão, a exemplo do estupro e da tortura contra os corpos femininos.

MÉTODOS REPRESSIVOS DE DOMINAÇÃO DO CORPO FEMININO

Mencionamos previamente que, por meio do uso da linguagem, La sangre de la aurora representa a incomunicabilidade da violência sob uma perspectiva tradicional. Walter Benjamin (1994), em “O narrador”, já alertava sobre a perda da capacidade de transmitir experiências, especialmente quando se trata de narrar eventos desde o pós-guerra. Para o filósofo, a sabedoria entendida como o lado épico da verdade não pode ser comunicada, pois a guerra e a violência geram uma experiência comunicável pobre. Por outro lado, Giorgio Agamben (2008, p. 161) também assinala que narrar em contextos posteriores às guerras é um processo em que os “[...] poetas fundam a língua com o que resta, o que sobrevive em ato à possibilidade – ou à impossibilidade – de falar [...]. Não enunciável, não arquivável é a língua na qual o autor consegue dar testemunho de sua incapacidade de falar.” O resto é aquilo que está dentro e fora da linguagem, entre o dizível e o indizível, entre a possibilidade e a impossibilidade do dizer (AGAMBEN, 2008). La sangre de la aurora se coloca nesse meio-termo, entre a impossibilidade e a possibilidade de narrar a violência. É devido a essa peculiaridade que o romance não se centra na representação épica do CAI, mas nas vozes particulares de suas vítimas. Por isso, a construção narrativa não é linear, apresenta cenas fragmentadas e o fluxo da palavra se faz reiterativo.

Nessa possibilidade impossível de narrar a violência, o romance encontra, nos métodos repressivos, uma estratégia para representar a dominação masculina contra os corpos femininos durante o CAI. A repressão é um mecanismo de dominação violenta exercida principalmente por sujeitos masculinos que ostentam o poder. Parafraseando Jelin (2002), arguimos que a repressão tem gênero e ela é utilizada com o objetivo de submeter o inimigo para reafirmar o poder e a liderança de determinados setores em contextos de conflito social ou de ditadura. Outra caraterística da tecnologia da repressão é seu caráter institucional e legítimo, pois está amparada na lei e é aceita pela sociedade como uma prática que regula os maus elementos sociais (GINZBURG, 2017). Não obstante, a repressão não se restringe ao uso estatal, pois também pode ser executada por grupos coercitivos, como foi o caso do Sendero

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214 Luminoso. Assim, deve ser entendida como “[...] o conjunto de mecanismos dirigidos ao controle e à punição de condutas ‘desviadas’ da ordem ideológica, política, social ou moral [...]” (GONZÁLES, 2006, n/p., tradução nossa).8

Entre os métodos de repressão mais utilizados, encontramos a tortura e o estupro. A primeira é exercida com fins utilitários, porque pode ser executada tanto para obter informações do prisioneiro como para demonstrar ou reforçar a dominação contra os opositores (GINZBURG, 2017; SEGATO, 2013). Em outros casos, sua aplicação tem como objetivo a eliminação do inimigo e possui uma finalidade “pedagógica” – é uma mensagem educativa dirigida a indivíduos e comunidades dissidentes ou rebeldes. Durante o CAI, a repressão e a tortura foram praticadas contra a população rural pelos dois lados da guerra. Os senderistas realizavam torturas e assassinatos a indivíduos e comunidades que se negavam a doar-lhes seus alimentos e animais. Por sua vez, os militares capturavam aleatoriamente camponeses, muitos deles inocentes, para torturá- los à procura de informação sobre os senderistas. No romance, duas grandes repressões são narradas, a tortura e posterior assassinato dos moradores nos povoados Lucanamarca e Accomarca9 (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p. 21-20; p.

40). Nesses massacres massivos, além de homens, idosos e crianças, também morreram 38 mulheres, algumas delas grávidas, que, antes de serem assassinadas, foram torturadas e estupradas.

Dessa forma, apresenta-se o estupro como outra prática de repressão direcionada principalmente à danificação do corpo feminino. É dirigido ao aniquilamento da vontade da vítima e à supremacia e apropriação de seu corpo por parte do agressor. Rita Segato (2013, p. 20, tradução nossa) assinala que o estupro “[...] é o ato alegórico por excelência da definição schmittiana da soberania: controle legislador sobre um território e sobre o corpo do outro como anexo a esse território [...]”,10 como se tem reiterado ao longo da história humana. Além da apropriação física do corpo estuprado, a violência sexual também implica a derrota psicológica e moral da vítima por parte do agressor.

8 No original: “[…] el conjunto de mecanismos dirigidos al control y la sanción de conductas ‘desviadas’ en el orden ideológico, político, social o moral […].”

9 Em 3 de abril de 1983, um grupo de 60 senderistas armados de machados, facões, facas e armas atacaram o povoado de Lucanamarca. O resultado foi o aniquilamento de 69 pessoas que se negaram a alimentá-los. Por outro lado, em 14 de agosto de 1985, 25 soldados da Patrulha Militar Lince 7 também mataram 69 moradores da comunidade Accomarca. Segundo Telmo Hurtado, militar líder da intervenção, essa era uma ação necessária na luta contra o terrorismo.

10 No original: “[…] es el acto alegórico por excelencia de la definición schmittiana de la soberanía: control legislador sobre un territorio y sobre el cuerpo del otro como anexo a ese territorio […]."

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CRUZ, Sonia María Chacaliaza; CARVALHO, Isaías Francisco. Representações de estupro e tortura contra mulheres em La sangre de la aurora. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 208- 228.

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215 Por outro lado, essa violência também é uma mensagem que o estuprador encaminha às vítimas e a seus pares, em uma comunicação vertical e horizontal (SEGATO, 2013). Na comunicação de eixo vertical, o agressor fala à vítima, seu discurso possui caraterísticas punitivas e ele se autodefine como um sujeito moralizador, pois considera que “[...] o destino da mulher é o de ser contida, censurada, disciplinada, reduzida, pelo gesto violento de quem reencarna, por meio desse ato, a função soberana” (SEGATO, 2013, p. 23, grifos e tradução nossos).11 Já no eixo horizontal, o estuprador se dirige a seus pares. Aqui a comunicação está direcionada à criação de uma irmandade, na qual cada homem deve demonstrar sua virilidade e poder. Tanto a tortura quanto o estupro estão presentes em La sangre de la aurora e ambas as formas de repressão são utilizadas pelos militares e senderistas como mecanismo para o fortalecimento de seu poder, aspecto que analisamos a seguir.

ESTUPRO E TORTURA EM LA SANGRE DE LA AURORA

As protagonistas do romance são três mulheres de localidades e estratos socioeconômicos distintos. Porém, podemos realizar algumas conexões entre Melanie e Marcela. As duas moram na capital peruana e são profissionais. A primeira é uma fotógrafa e pertence à elite limenha, e a segunda pode ser considerada como da classe média: é casada, tem uma filha e trabalha como professora. A diferença mais notória entre elas é que Marcela decide ser militante do Partido12 e participar na luta armada contra o governo. Contudo, suas vidas apresentam semelhanças porque, desde crianças, tentam se rebelar contra as marcas estereotípicas do gênero, gerando um desvio do modelo de mulher imposto pela sociedade.

No caso de Melanie, seu desvio está vinculado ao prazer sexual. Durante sua etapa infantil, descobriu esse prazer na sala de aula. “Chateada de cortar e colar papéis, deixei as tesouras e me coloquei em pé. Apertei minha pelve contra a mesa, esfreguei-me com grande ansiedade, cada vez mais e mais veloz”

(SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p. 82-83).13 Observamos na citação como Melanie

11 No original: “[…] el destino de la mujer es ser contenida, censurada, disciplinada, reducida, por el gesto violento de quien reencarna, por medio de este acto, la función soberana."

12 Uma das caraterísticas do Partido Sendero Luminoso é a mudança de nome de seus integrantes. No caso de Marcela, ao se aderir ao partido troca o nome a Marta. Porém, aqui utilizaremos o nome de Marcela durante a análise.

13 No original: Harta de cortar y pegar papeles, solté las tijeras y me puse de pie. Apreté mi pelvis contra la mesa, frotándome con gran ansiedad, cada vez más y más veloz.

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CRUZ, Sonia María Chacaliaza; CARVALHO, Isaías Francisco. Representações de estupro e tortura contra mulheres em La sangre de la aurora. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 208- 228.

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216 já apresenta uma atitude rebelde contra o sistema. Sua função como estudante de pré-escolar é realizar as atividades corriqueiras de sua etapa formativa, mas ela expressa aborrecimento com essa rotina pela satisfação pública de seu desejo. A punição por essa atitude é exercida pela professora, tirando Melanie da aula e colocando-a na sala de castigo.

Esse caráter rebelde, e também curioso, da personagem faz com que decida ir à zona de conflito; pois percebe que seu entorno social minimizava ou ocultava a verdade. Dois eventos são determinantes para concretizar sua decisão. O primeiro é o jeito despreocupado e depreciativo com que suas amigas falam sobre os camponeses e o conflito:

– Comunistas, garotas. Vermelhíssimos, muito radicais. Alistam camponeses e planejam uma “guerra popular” na serra. Nada do que se preocupar, de certo, em algumas semanas o Exército se ocupa de tudo.

– Se eles alistam camponeses, então, porque o tem massacrado? – replicou alguém.

– Talvez algum problema de propriedades. Às vezes, essa galera da serra briga por qualquer coisa e podem ser meio violentos na resolução das suas disputas.

Se desejam saber mais, já sabem, assistam o noticiário. (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p. 25)

A primeira e a terceira intervenções são de Ana María Balducci, integrante da família proprietária da emissora de televisão mais poderosa do país. É ela quem acalma as amigas, minimizando os eventos, mas também reforça o estereótipo do sujeito andino como alguém bárbaro que resolve seus problemas por meio da violência. Apesar desse diálogo, Melanie se faz algumas perguntas e reflexões mais profundas, alimentando sua curiosidade e sua preocupação sobre os massacres que acontecem na serra.

O segundo evento é a censura na reportagem de um colega seu. Antes de ser emitida, ela é modificada pela emissora com o objetivo de suavizar o impacto real da guerra; motivo pelo qual o jornalista está evidentemente irritado:

Me ligou um dos jornalistas que acabaram de voltar da região central do conflito.

Usualmente é um homem de caráter pacífico e decidido, mas agora noto que está chateado, irritado [...]. Nunca me editaram uma reportagem desse jeito tão escandaloso. Nunca, Mel, nunca. Parece que são ordens que vem de muito alto...

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217 Apagam o sangue no papel para que não pingue na cidade da garoa. (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p. 47, grifo da autora)14

A manipulação das palavras e do sentido na reportagem do colega incentivam ainda mais Melanie para ir à zona de conflito. Ela acredita que o registro visual e suas fotos são capazes de mostrar a face cruel da guerra, essa que o Estado e as elites pretendem manipular e ocultar por meio da modificação das palavras.

Ela e seu colega Álvaro chegam à zona de conflito e percorrem diversos povoados ao lado de um guia e de militares que os resguardam. Devido à desconfiança e medo que os moradores tinham dos soldados, rejeitavam a presença dos jornalistas. Por isso, decidem escapar da proteção militar e percorrer a região sozinhos. Depois de ingressar na casa de Modesta para entrevistá-la, são capturados pelos senderistas. Enquanto Álvaro é imediatamente assassinado com um tiro na cabeça, Melanie é trasladada a outro lugar para ser estuprada:

Era um fardo sobre o chão. Pouco importava o nome que tivesse, o que interessava eram os dois buracos que tinha. Puro vazio para ser enchido. Sem perguntas nem necessidade de respostas. Já sabiam tudo sobre esse fardo. Na verdade, não importava. Era suficiente essas quatro extremidades das quais podia ser apertado, imobilizado, parado. Eles usavam fuzis e a mesma roupa que os camponeses, com balaclavas ou lençóis que ocultavam suas faces. Dava na mesma, ela era só um fardo.

Golpes no rosto, no abdome, as pernas esticadas até o infinito. Branquela vende pátria. Fazem fila para desfrutar sua parte do espetáculo. Nenhum buraco ficou livre nessa dança sanguinolenta. Jornalista anticomunista, você vai ser exemplo para outros que venham aqui. Só dor nesse fardo como um nó apertado no qual não se encontra a solução. Quanto tempo mais pode durar isso? Que pare agora.

Parem, parem, parem. Isto te acontece por burguesa, vai ver por onde te entra a ideologia. Até quando poderão seguir fazendo isso? Continue você, camarada.

Quantos mais vão ser? Dói muito. É demais. São muitos. Você devia ter feito a nós essa reportagem para que o Estado genocida saiba que estamos alcançando

14 No original: Me llama uno de los periodistas que acaba de regresar de la zona central del conflicto. Usualmente es un hombre de carácter pacífico y decidido, pero ahora lo noto molesto, iracundo […]. A mí jamás me editaron un reportaje de esta manera tan escandalosa. Jamás, Mel, jamás. Parece que son órdenes que vienen de muy arriba… Borronean la sangre en el papel para que no salpique en la ciudad de la garúa.

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218 o equilíbrio estratégico. Espolones rasgando as frágeis paredes que suportam e seguem suportando o desfile, apesar do sangue e as fezes que se abrem passo entre as extremidades. (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p. 71-72, grifo da autora)15 O fragmento transcrito apresenta várias das características que assinalamos sobre o estupro e sua funcionalidade como método/tecnologia de subjugação e castigo. Um dos primeiros aspectos a destacar é o destino que os agressores decidem para os jornalistas. Diferentemente de Álvaro, Melanie é torturada e estuprada, mas não é assassinada. A violência sexual contra ela é considerada pelos senderistas como o exemplo pedagógico – “Jornalista anticomunista, você vai ser exemplo para outros que venham aqui.”. Eles também se autodefinem como moralizadores da ideologia. Se consideram sujeitos que possuem uma superioridade e poder devido à ideologia que seguem e professam:

Isto te acontece por burguesa, vai ver por onde te entra a ideologia”. O estupro é uma forma de introduzir a ideologia senderista no corpo feminino de uma integrante da elite limenha.

Essas falas, e outras, vão dirigidas a Melanie, recriando a comunicação de eixo vertical, que produz na vítima a expropriação do corpo. Deixa de lhe pertencer para se transformar em um fardo inútil e dolorido, ao ponto de se misturar com as fezes e o sangue que emana. Por outro lado, também se observa a comunicação de eixo horizontal entre os senderistas: o comentário “Continue você, camarada” mostra a irmandade que existe entre eles e a necessidade que têm de demonstrar a seus pares sua virilidade. “Somos guerrilheiros, mas

15 Era un bulto sobre el piso. Importaba poco el nombre que tuviera, lo que interesaba eran los dos huecos que tenía. Puro vacío para ser llenado. Sin preguntas ni necesidad de respuestas. Ya sabían todo sobre este bulto. En realidad no les importaba. Lo suficiente eran esas cuatro extremidades de las cuales podía ser sujetado, inmovilizado, detenido. Éstos usaban fusiles y la misma ropa que los campesinos, con pasamontañas o pañuelos que les cubrían el rostro. Daba lo mismo, ella era solo un bulto.

Golpes en el rostro, en el abdomen, las piernas estiradas hasta el infinito. Blanquita vendepatria. Hacen fila para disfrutar su parte del espectáculo. Ningún orificio queda libre en esta danza sangrienta. Periodista anticomunista, tú vas a ser ejemplo para otros que vengan por acá. Sólo dolor en este bulto como un nudo apretado al cual no se le encuentra solución. ¿Cuánto tiempo más puede durar esto? Que pare de una vez. Paren, paren, paren. Esto te pasa por burguesa, ya verás por donde te entra la ideología. ¿Hasta cuándo pueden seguir haciéndolo? Siga usted, camarada.

¿Cuántos más serán? Duele mucho. Es demasiado. Son demasiados. A nosotros tenías que habernos hecho el reportaje para que el Estado genocida vea que estamos logrando el equilibrio estratégico. Espolones rasgando las frágiles paredes que soportan y siguen soportando ese desfile a pesar de la sangre y el excremento que se abre paso entre las extremidades.

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CRUZ, Sonia María Chacaliaza; CARVALHO, Isaías Francisco. Representações de estupro e tortura contra mulheres em La sangre de la aurora. Scripta Uniandrade, v. 19, n. 3 (2021), p. 208- 228.

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219 também somos homens, camarada Marta” (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p. 73),16 diz um dos estupradores quando é recriminado dias depois por Marcela, que é a líder da região. O estupro e as marcas no corpo de Melanie são a manifestação da dominação masculina. Também representam ou metaforizam o ideal senderista por conseguir soberania sobre a capital peruana.

Do outro lado da moeda, temos Marcela, a outra personagem que também demonstrou prematuramente um desvio da norma social relacionado com a religiosidade. Quando criança, queria ser “padre” e dirigir a eucaristia. Tal desejo é rebatido por sua mãe e irmã Rosa, “Marcelinha, as mulheres não podem ser padres. Só os homens podem dizer missa” (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p.

68).17 Essa primeira diferença entre homens e mulheres é, provavelmente, o início de uma personalidade questionadora que encontrou, na leitura de Santa Teresa de Ávila, uma influência para criar um caráter altruísta, mas também contestatário. Adulta, Marcela se torna professora e uma mulher preocupada com as problemáticas sociais. Junto a outras mulheres, participa de um projeto para a criação de serviços urbanos, como redes de água, esgoto e a construção de uma escola em um arenal,18 às margens de Lima. O projeto é rejeitado pelas instâncias governamentais, o que se configura o ponto de inflexão que determina sua conversão ao senderismo. Assim, deixa para trás sua vida burguesa e sua família para aderir ao Partido e à luta armada.

Além do questionamento ao Estado, Marcela quebra outros estereótipos, a exemplo da renúncia a seu papel de esposa e mãe, já que seriam um empecilho para a militância integral. Também recusa sua feminilidade, pois a considera uma fraqueza. “Um pedaço de algodão umedecido para limpar a maquiagem do meu rosto. Limpo e puro devia ficar nesse novo nascimento. Sujeição plena e incondicional. Sem enfeites, nem brincos, nada. O cabelo curto” (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p. 33).19 Apaga qualquer traço de feminilidade, para adotar uma imagem masculinizada que lhe permite a promoção à chefa militar da região central em que o Partido atuava.

No caso de Marcela, o estupro que sofreu é perpetrado por militares como uma tentativa metafórica de recuperação da soberania perdida na zona de

16 No original: “Somos combatientes, pero también somos hombres, camarada Marta.”

17 No original: “Marcelita, las mujeres no pueden ser sacerdotes. Sólo los hombres pueden decir misa.”

18 Arenal é o termo usado para designar zonas afastadas do centro que foram invadidas para a moradia de pobres. Geralmente, o solo desses lugares é composto por areia, motivo pelo qual recebe o nome.

19 No original: “Un trozo de algodón humedecido para limpiar el maquillaje de mi rostro.

Limpio y puro debía quedar en este nuevo nacimiento. Sujeción plena e incondicional. Sin adornos, ni aretes, nada. El pelo recortado.”

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220 conflito. A narração dessa violência é muito parecida com a de Melanie; por isso, enfatizamos a tortura que sofreu depois de sua captura. Essa escolha não é à toa, já que esse método de repressão se efetua depois da violência sexual acometida contra ela:

Me perguntavam, queriam me exprimir informação. Quantos éramos, por onde estávamos. Nada lhes diria, cachorros. Que não lhe fizeram ao meu corpo. Tudo podia ser elemento para causar dor e humilhação. A água, a corrente, os cigarros, arames, baldes, urina, seus braços, mãos, pernas. Tudo isso doía, mas meu pensamento continuava firme e junto, não como minhas extremidades que estavam quase desconjuntadas por força dos esticamentos. É forte esta cuzona, murmuravam eles. Mergulha ela de novo para ver se assim reage, diziam também. Corta o outro de uma vez, assim ficam iguais, lhe gritaram ao soldado que olhava meus mamilos. Ferida que abriam, causticavam para evitar que me dessangre. [...] Batida, interrogada, cortada, machucada, fraturada, mordida, alfinetada, esmagada, picada, lamacenta, chutada, humilhada, sujada, partida, atada, fundida, sufocada, afogada. Confiava em nosso triunfo a pesar de que meu corpo gritava o contrário. Às vezes vou na capital e recebo as ordens diretas do Comité Central. Falou meu corpo, não fui eu. (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p.

76-77, grifo da autora)20

A tortura sofrida por Marcela tem a finalidade de obter informações sobre a cúpula senderista. Todas as violências físicas contra ela estão justificadas no marco da legalidade por serem exercidas por militares à procura de informação.

Entretanto, esse tipo de práticas repressivas também demonstram um componente sádico por parte dos agressores. Os abusos, marcados pelos adjetivos, mostram a centralidade do corpo e sua transformação em um fardo que é dilacerado e quebrado até perder sua vontade própria. O corpo, ao

20 No original: Me preguntaban, querían exprimirme información. Cuántos éramos, por dónde estábamos. Nada les iba a decir, perros. Qué no le hicieron a mi cuerpo. Todo podía ser elemento para causar dolor y humillación. El agua, la corriente, los cigarros, alambres, baldes, orina, sus brazos, manos, piernas. Todo eso dolía, pero mi pensamiento seguía firme y junto, no como mis extremidades que estaban casi descoyuntadas a fuerza de los estirones. Recia es esta huevona, murmuraban ellos.

Sumérgela de nuevo a ver si así reacciona, decían también. Córtale el otro de una vez, así queda pareja, le gritaron al soldado que miraba mis pezones. Herida que abrían la cauterizaban para evitar que me desangre. […] Golpeada, interrogada, cortada, magullada, quebrada, mordida, hincada, lacerada, punzada, embarrada, pateada, vejada, ensuciada, partida, atada, fondeada, asfixiada, ahogada. Confiaba en nuestro triunfo a pesar de que mi cuerpo gritaba lo contrario. A veces voy a la capital y recibo las órdenes directas del Comité Central. Habló mi cuerpo, no fui yo.

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221 contrário da mente, também é expropriado ao se submeter aos desejos e exigências dos seus agressores.

Essas duas mulheres, que de uma forma ou de outra foram subversoras da ordem social estabelecida, são punidas por suas escolhas. Melanie, pelos senderistas, devido a sua decisão de ir à zona de conflito, a sua condição socioeconômica e a seu gênero. Marcela, por outro lado, é punida por participar em um grupo armado opositor do Estado. Os métodos de repressão exercidos contra ela têm amparo na legalidade; por isso, seu corpo sofre diversas violências além do estupro.

Nos falta incluir Modesta, que vai sofrer ainda mais com a repressão, pois se encontra na posição de subalternizada, motivo pelo qual sofre a violência tanto dos senderistas como dos militares. É uma camponesa indígena pobre, semianalfabeta e moradora em um povoado rural de Ayacucho, epicentro do CAI. Em contraste com as duas personagens anteriores, Modesta não teve pensamentos ou atitudes questionadoras sobre seu gênero nem sobre o estereótipo feminino. Ela cumpre o papel socialmente designado à mulher, pois é casada, tem dois filhos e está dedicada a sua família e aos afazeres da casa.

Contudo, também é vítima da violência estrutural contra o seu gênero. Em sua infância, seu pai proibiu sua frequência à escola. Segundo ele, o que a filha devia fazer era aprender a cozinhar bem e saboroso. Já casada, sofre de violência doméstica: o marido grita e eventualmente bate nela. A caraterística mais marcante dessa personagem é sua falta de voz devido à violência estrutural que sofreu desde criança. “Você escutava tudo e ficava caladinha” (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p. 58),21¡Idiota você parece, calada nada mais está no conselho”, diz Gaitán, seu marido (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p. 44, grifo da autora).22

A falta de voz de Modesta é uma constante na narrativa, não apenas como caraterística de personalidade, mas também como enunciadora de sua história.

Durante quase todo o romance, seu passado e seu presente são apresentados na segunda pessoa. Ela não é quem narra, é a destinatária do relato. O silêncio dela, sua falta de linguagem oral e escrita e a submissão parecem ser características culturalmente aprendidas pela personagem durante a vida inteira. Esses traços contribuem para sua vulnerabilidade durante as interações que tem com os senderistas e os militares.

O primeiro contato da personagem com a violência do conflito vai ser vivido durante uma das reuniões no salão comunal do povoado. Nesse ponto da

21 No original: “Tú escuchabas todo y te quedabas calladita.”

22 No original: “¡Sonsa pareces, callada nomás paras en el consejo!

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222 história, se encontra sozinha, já que o marido viajou. Os senderistas ingressam violentamente no salão, assassinam sua amiga Justina e obrigam Dominga, outra amiga, a matar o marido que é o concejal da comunidade. Durante a cena, Modesta se mantém calada, embora sinta-se horrorizada com tudo o que está acontecendo, mas seu filho, bebê ainda, começa a chorar:

Seu filho Enrique quebra com seu choro o silêncio que deixou a morte de Fabian.

Felipe [o senderista] eleva uma sobrancelha de cóndor predador, chateado pelo choro irrefreável da criança. Disse-lhe que o aperte contra seu peito. Você se nega, não vai sufocar seu próprio filho. Ou aperta ele contra seu peito você mesma ou eu vou fazer é isto e no ar faz como se colocasse algo boca abaixo e o rasgara pela metade como uma folha de papel.

Você sabe que nunca sufocaria seu próprio filho, mas o pequeno Enrique não vive mais. (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p. 61, grifo da autora)23

O assassinato involuntário da criança marca a primeira ruptura na feminilidade de Modesta e a primeira expropriação de seu corpo, que age contradizendo sua vontade de mãe. Porém, ela ainda tem seu filho Abel; por isso, se submete às ordens dos senderistas e a cozinhar para eles. A narradora diz: “Você é sempre aquela que alimenta, aquela que provê. Quem chegar a sua mesa será bem-vindo sempre, porque você é a provedora, a nutriente” (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p. 62, grifo nosso).24 O destacável da citação é que a função que o pai lhe designou quando criança é aquela que permite com que sobreviva durante a permanência dos senderistas na comunidade.

Por outro lado, quando os senderistas são capturados e os militares retomam o controle dessa região, acontece a segunda ruptura da identidade feminina da personagem. Modesta, além de fornecer a comida, também é a pessoa que satisfaz o apetite sexual dos militares. Ela é estuprada sistematicamente e se encontra submetida à vontade deles.

23 No original: Tu hijo Enrique rompe con su llanto el silencio que ha dejado la muerte de Fabián. Felipe levanta una ceja de cóndor depredador, fastidiado por el llanto incontenible de la criatura. Te dice que lo aprietes contra tu pecho. Te niegas, no vas a ahogar a tu propio hijo. O lo aprietas contra tu pecho tú misma o lo que voy a hacer es esto y en el aire hace como si pusiera algo boca abajo y lo rasgara por la mitad como una hoja de papel.

Sabes que nunca ahogarías a tu propio hijo, pero el pequeño Enrique ya no vive.

24 No original: “Tú eres siempre la que alimenta, la que provee. Quien llegue a tu mesa será bien recibido siempre, porque tú eres la proveedora, la nutriente.”

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223 Gritam. Ao longe gritam. Vai começar de novo. [...] A cabeça gira, mas você não cai. O peito lhe dói, o peito se lhe afunda e seus pulmões colam às costas. Ele se emaranha nas costelas. Você vai enlouquecer. As caras eram sempre as mesmas, os mesmos olhos, as mesmas vozes, as mesmas mãos, os mesmos paus. Tudo igual. Todo doía da mesma forma. Saiam, saiam de mim, era o único que você podia pedir enquanto destruíam você de forma selvagem, desgarrando você em seu centro, como destruíram muitas outras nesse mesmo povoado, em muitos povoados. Gritava sempre, mas sabia antecipadamente que era inútil.

Transformado em um campo de batalha, seu corpo tem ficado absolutamente vulnerável. (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p. 77-78)25

Os estupros que Modesta sofre se tornam cotidianos e transformam seu corpo em “campo de guerra”, em “território” que deve ser reapropriado pelos militares como metáfora da recuperação dos espaços perdidos durante o CAI – o retorno da soberania estatal. Como é assinalado por Yolanda Westphalen (2016, p. 42), “[...] o corpo estuprado é visto [...] como via para configurar um campo posicional que permite apreender e conhecer o mundo. Trata-se, então, do corpo de mulher, sim, mas como metáfora do corpo social.”26

Não obstante, a personagem continua aceitando essa situação devido a seu filho Abel ainda estar vivo e sua função de mãe ser proteger a criança a custo do próprio corpo. Ele é o único vínculo com seu mundo anterior. Sua maternidade faz com que permita as violências dos militares, para que seu filho não seja maltratado. A situação se modifica quando ele é assassinado durante um dos estupros cotidianos. Modesta escondeu a criança pouco antes da chegada dos soldados, que descobriram a presença de Abel no quarto:

25 No original: Gritan. A lo lejos gritan. Va a comenzar de nuevo. […] La cabeza te da vueltas pero no caes. El pecho te duele, el pecho se te hunde y tus pulmones se pegan a tu espalda. Se enreda en tus costillas. Vas a volverte loca. Las caras eran siempre las mismas, los mismos ojos, las mismas voces, las mismas manos, las mismas vergas. Todo igual. Todo dolía de la misma manera. Quítense, quítense de mí, era lo único que podías pedir mientras te destrozaban salvajemente, desgarrándote en tu centro, como habían destrozado a muchas otras en este mismo pueblo, en cientos de pueblos. Gritabas siempre, pero de antemano sabías que era inútil. Convertido en un campo de batalla, tu cuerpo ha quedado absolutamente vulnerable.

26 No original: "El cuerpo violado es visto […] como medio de configurar un campo posicional que permite aprehender y conocer el mundo. Se trata, entonces, del cuerpo de la mujer, sí, pero como metáfora del cuerpo social."

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224 O que você olha, chola?27 Viras o rosto. Algo estava olhando, caralho, que chucha28 olhava! O soldado vira também e ali encontra ele. Abel. Um soldado dentro de você, os outros tiram Abel de embaixo da cama. Você não quis olhar, mas olhou quando teu filho estava deixando de olhar, quando lhe apagaram a luz para sempre. Abel sem luz. Nunca mais. (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p. 80, grifos da autora)29

A morte de Abel significa a ruptura final com o mundo que Modesta conhecia. Não tem nada por que lutar mais. Sua maternidade, o único elo que lhe restava do mundo que conheceu, se estilhaça por completo. É a última expropriação do seu corpo, aquela que vai impulsionar a superação do medo à repressão e aos que ostentam o poder. É o impulso para que ela, calada sempre, pegue a palavra e emita sua voz. Sua fuga representa a quebra dos estereótipos e da opressão/repressão à qual esteve submetida. Não por acaso, sua decisão de falar acontece depois da perda de todos os homens que dirigiam sua vida.

Primeiro, o marido, que nunca voltou; depois, a morte dos filhos. O grito “Estou cansada. Me cansei” (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p. 85) marca uma nova aurora para Modesta. Toma a palavra na narrativa, agora é ela quem conta sua história.

Depois de fugir, chega a um povoado vizinho e pede às mulheres água e comida, estabelecendo relações de sororidade. Todas elas, lideradas por Modesta, vão se vingar do sistema de violência militar que se instaurou nas comunidades ao castigar um soldado novato que chega na procura de ajuda:

Quando abrem a porta é apenas um soldadinho, sozinho, disse que quer comida.

Peguem ele mamachas.30 Elas tardam em detê-lo. Ele se encabrita. Miserável.

Peguei a panela com canja fervendo e a jogue em sua genitália. Ele gritou como se sua alma estivesse fugindo. Seu fuzil caiu e nós o pegamos para bater sua cabeza. Para isso, não é corajoso, pois soldadinho. A mais ninguém, você vai fazer

27 Chola é a denominação despectiva utilizada para se referir a mulheres indígenas (Diccionario de americanismos, 2010).

28 Chucha é uma expressão despectiva que demonstra desagrado ou contrariedade (Diccionario de americanismos, 2010).

29 No original: ¿Qué miras, chola? Volteas el rostro. Algo estabas mirando, carajo, ¡qué chucha mirabas! El soldado voltea también y ahí lo ve. Abel. Sus ojos. Un soldado en ti, los otros sacan a Abel debajo de la cama. No quisiste ver, pero miraste cuando tu hijo estaba dejando de mirar, cuando le apagaban la luz para siempre. Abel sin luz.

Nunca más.

30 Mamacha é uma palavra híbrida que mistura o termo espanhol mamá e o sufixo diminutivo quéchua -cha. Mamacha é usada em dois contextos: (1) para se referir à Virgem Maria, (2) para falar de uma mulher adulta que é natural ou que mora na serra peruana. (Diccionario de americanismos, 2010).

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225 porcarias, porco! Ele desmaiou. Deixamos jogado ele no chão. Vamo-nos mamachas, vamo-nos. Elas me seguem, iremos juntas pelos caminhos. Pego e levo o fuzil. (SALAZAR JIMÉNEZ, 2018, p. 71-72, grifos da autora)31

A cena é particularmente significativa, porque apresenta a situação inversa às cenas de estupro coletivo sofrido por elas. São várias mulheres e um único homem. Elas, se aproveitando da superação numérica, castigam o soldado pelas violências sofridas anteriormente. Jogar água fervendo nos genitais significa privá-lo de sua virilidade e, consequentemente, é a emancipação da subalternidade e subjugação em que estiveram imersas. Por último, pegar o fuzil indica o empoderamento dessas mulheres que vão deixar suas comunidades para criar uma nova habitada por elas e os filhos que nasceram dos estupros militares. Efetua-se assim, com Modesta e as outras mamachas, o pachacuti: processo da cosmovisão andina, entendido como a inversão do mundo e o estabelecimento de uma nova ordem na sociedade. A reapropriação de seus corpos permite a regeneração dos seus destinos e a criação de uma nova sociedade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Durante o CAI (1980-1990), a repressão contra a sociedade por parte de militares e senderistas foi uma prática constante. De todos os setores sociais, as mulheres sofreram os maiores efeitos dessa violência. Devido a sua posição subalternizada, eram vítimas recorrentes de métodos repressivos, tais como o estupro e a tortura, que contribuíram e reforçaram a dominação masculina.

A literatura peruana, nos últimos anos, tem se focado nesse período histórico. Diversos romances e contos, escritos maioritariamente por homens, apresentam uma perspectiva pública do conflito. Nessas narrativas, se destaca o lado épico da guerra – a prevalência de um dos grupos confrontados: militares ou senderistas. La sangre de la aurora (2018) modifica o olhar e se centra nas vítimas mais vulneráveis, as mulheres, e nos efeitos que a guerra produziu na

31 No original: Cuando abren la puerta es apenas un soldadito, uno solito, dice que quiere comida. Agárrenlo mamachas. Ellas demoran em detenerlo. Él se encabrita.

Desgraciado. Agarré la olla de sopa hirviendo y se la eché en sus partes. Ha gritado como si el alma se le estuviera escapando. Su fusil se ha caído y lo levantamos para golpearle la cabeza. Para eso no eres valiente, pues soldadito. A nadie más le vas a hacer porquerías, ¡chancho! Se ha desmayado. Lo dejamos tirado. Vámonos, mamachas, vámonos. Ellas me siguen, iremos juntas por los caminos. Me agarro el fusil.

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226 subjetividade e na relação que elas estabelecem com a sociedade. Por outro lado, no nível estético, a obra também apresenta as “falhas” da linguagem ao representar a violência desses anos, o uso de onomatopeias, repetições, fluxo de palavras, etc. são marcas que evidenciam a impossibilidade do dizer e de narrar essa violência.

O romance, a partir de uma ótica feminina, apresenta as repressões que as mulheres sofreram na região de conflito. As protagonistas, que pertencem a distintos setores sociais, são violentadas tanto por senderistas quanto militares.

Os métodos de subjugação utilizados pelos homens têm como objetivo reafirmar o poder que ostentam e deixar as marcas dessa dominação no corpo feminino.

Cada uma sofre a expropriação de seus corpos, o apagamento da vontade própria e a satisfação dos desejos masculinos.

Entre os métodos de subjugação exercidos contra essas mulheres, encontramos o estupro e a tortura. O semelhante nas três – além do curioso fato de que seus nomes têm a mesma inicial M – é o estupro coletivo que sofrem.

De forma particular, cada uma sofre outras violências. Melanie, embora não tenha sido mencionado na análise, sofre também um aborto, voluntariamente efetuado, mas que é consequência do estupro sofrido. Marcela, além da violência sexual, é torturada pela busca de informação sobre a cúpula senderista. Por último, Modesta é a personagem que sofre uma dupla violência, pois será reprimida por senderistas e por militares.

É necessário, também, destacar a figura de Modesta como a personagem que, depois de acontecidos os fatos contra ela e sua comunidade, decide se rebelar e estabelecer uma nova ordem social, ao lado de outras mulheres com quem compartilha a mesma condição, camponesas e indígenas. É com ela que se estabelece uma comunidade de mulheres que passam seus dias tecendo (construindo) e convivendo em harmonia. O fuzil, símbolo da repressão e da violência, está guardado na esperança de não ser utilizado outra vez.

REFERÊNCIAS

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2019.

SONIA MARÍA CHACALIAZA CRUZ é mestra em Estudos de Literatura pela Universidade Federal de São Carlos (2017). Atualmente é doutoranda em Letras na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC-PPGL), atuando na linha de pesquisa Literatura e Interfaces. Dentre suas publicações estão o artigo “Los albores del teatro limeño en el siglo XVI” (Paso de gato, 2018) e o capítulo de livro “Las relaciones interpersonales en Tus amigos nunca te harán daño de Santiago Roncagliolo” (Puesta en escena y otros problemas de teatro, 2017).

ISAIAS FRANCISCO DE CARVALHO é mestre e doutor em Teorias e Crítica da Literatura e da Cultura pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atualmente é professor titular da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, atuando em atividades de docência, pesquisa e extensão, com vínculo aos Programas de Pós-Graduação em Letras: Linguagens e Representações (PPGL-UESC), de Mestrado Profissional em Letras – PROFLETRAS-UESC e de Mestrado em História do Atlântico e da Diáspora Africana (PPGH-UESC), nas seguintes linhas de pesquisa, entre outras: literatura e interfaces, crítica cultural, literaturas brasileira e anglófona; literaturas pós-coloniais anglófonas, literatura e ensino de línguas portuguesa e inglesa e letramento literário. Dentre suas publicações estão o artigo “As barbas de um Bluesman: um signo de resistência negra no rap baiano” (SANTOS; ROCHA; CARVALHO; Bakhtiniana, 2021) e o capítulo de livro “Confluências teórico-crítico-literárias em vozes do Caribe Estendido e do Atlântico Negro” (Nuevos diálogos: Asia y África desde la mirada latino- americana, 2019).

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