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REPRESENTAÇÕES DOS ESPAÇOS RURAL E URBANO NA FICÇÃO DE ADONIAS FILHO

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Academic year: 2023

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Assim, tanto o espaço rural como o urbano - ambos com as suas tensões, idealizações e contradições - são presença constante na obra do autor, que se revela um excelente construtor de romances modelo para o estudo do espaço. Portanto, as reflexões aqui apresentadas giram em torno da perspectiva de dilapidação e preservação do espaço.

REPRESENTAÇÕES DO ESPAÇO NA LITERATURA: CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS

Alguns escritores, ao contrário de Osman Lins e Bakhtin, assumiram uma postura mais ontológica ao estudar o espaço nas obras literárias. É neste sentido que alguns investigadores têm defendido recentemente dar maior visibilidade ao estudo do espaço ficcional na literatura.

ESPAÇO, LUGAR E PAISAGEM: APONTAMENTOS

Outros aspectos contribuem para a definição da paisagem, como o ponto de vista, a ideia da parte e a ideia do todo, apontados justamente por Collot (2012). Dessa forma, a transformação da paisagem pelo homem representa um dos principais elementos na sua formação (SCHIER, 2003, p. 80).

Assim, o tratamento estético que Adonias Filho deu às suas obras causou certo estranhamento entre o público e a crítica. Adonias Filho queria que prevalecesse a autoimagem de um escritor interessado em arte, em questões sociais e no homem, mas nunca a imagem de autor de uma tese política.

PARAGENS ADONIANAS: NOTAS PARA UMA CARTOGRAFIA

Aqui, como em Memórias de Lázaro, o destino parece ser mais violento do que qualquer outra força que regula a vida humana, e o espaço parece ligado ao infortúnio dos personagens que tremem como presas prestes a serem derrotadas. Depois de idealizar a trilogia do cacau, ambientada no sul da Bahia, e O forte, romance de temática urbana ambientado em Salvador, Adonias Filho estreia como romancista com um livro que reúne histórias “[..] em que misturam amor e ódio, solidariedade. Largo da Palma (1981) é um livro que reúne seis romances ambientados em um espaço específico: o bairro que dá nome ao livro, na cidade de Salvador.

A representação dos espaços rurais e urbanos na ficção de Adonias Filho ainda é reflexo de suas experiências, como observaram Jorge Amado e outros críticos que estudaram a literatura adoniana. As relações que se desenvolvem na área, porém, vão muito além dos princípios ambivalentes aqui mencionados. Com o advento dos romances rurais e a priorização da representação da vida agrícola, os autores tiveram como objetivo divulgar aspectos do Brasil ainda desconhecidos, especialmente os aspectos geográficos.

No campo, muito mais do que na cidade, viam-se as contradições e tensões do Brasil, que queria ser moderno, mas ainda conservava muitos resquícios de um país arcaico e atrasado.

O MUNDO RURAL MULTIFACETADO: O QUINZE, VIDAS SECAS, SÃO BERNARDO, FOGO MORTO E TERRAS DO SEM FIM

Assim, autores como Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos, para citar os maiores expoentes deste período, preocuparam-se em descrever um espaço rural cada vez mais frágil, mas ainda longe de ser perfeito. desintegração e consequências fundamentais para este universo. Neste ponto, vemos como a prosa produzida pela geração de 30 anos não se deixa cair na ingenuidade. No que diz respeito à fazenda São Bernardo, se Paulo Honório se poupar de uma descrição detalhada de suas instalações, ainda é possível compreender sua importância como elemento capaz de configurar uma série de relações baseadas justamente na questão da propriedade.

Porém, se vemos em São Bernardo um indivíduo que se torna proprietário de terras através do seu. A estrutura do romance é dividida em três partes, e em cada parte é contada a história desses personagens, que se apresentam como seres decadentes – ainda que cheios de orgulho –, uma decadência física e/ou moral que condiz com a natureza do espaço. . A partir do romance é possível vislumbrar os processos sociais que ocorriam durante o plantio da cana-de-açúcar.

Muito mais do que um espaço oposto à cidade e no qual se produzem alimentos, o campo é uma representação sociocultural, um espaço simbólico que mobiliza a afetividade e a subjetividade dos seus atores.

CORPO VIVO E AS BRENHAS DO CACAU: O ESPAÇO RURAL EM FOCO

A estrutura de Corpo vivo, embora desafiadora, não apresenta as dificuldades evidentes em Osservos da morte, romance de estreia de Adonias Filho. Neste ponto, a obra de Adonia Filho aproxima-se da do norte-americano William Faulkner, autor que sem dúvida serviu de inspiração para o baiano. O espaço enfocado e ficcionalizado por Adonias Filho é um espaço rural que, por questões sócio-históricas, é muito diferente de outras regiões agrícolas do Brasil.

Segundo Adonias Filho (2007, p. 10): “O cacau, ao mudar a paisagem, empurrando e encolhendo a selva, abrindo fazendas, criando um sistema de comércio, molda culturalmente uma região”. Assim, a civilização que se formou pelo plantio do cacau carrega consigo uma variedade de tradições e costumes, apresentando-se verdadeiramente como uma área diferenciada dentro do Brasil - “um país dentro de um país”. Ao refletir sobre um espaço rural específico, a região cacaueira, Adonias Filho mostra ter consciência de que o espaço rural, em geral, não deve ser definido como o local onde são realizadas, única e exclusivamente, as atividades agrícolas. Em Piso de cacau do Sul da Bahia, Adonias Filho (2007, p. 23) diz o seguinte sobre esse período histórico: “É a fase hoje lendária, dos bandeirantes, que conquistaram a selva com fogo, pólvora e machado.

O caráter especial deste espaço, aparentemente, não passaria despercebido a um autor da categoria de Adonias Filho, que, embora evitasse a "literatura comprometida", pintou um retrato incomparável da região.

DILAPIDAÇÃO E CONSERVAÇÃO DO ESPAÇO: ECOS DA ECOLOGIA EM CORPO VIVO

Mas o estudo do espaço não é, como esta investigação demonstrou, algo simples, nem as relações estabelecidas entre o homem e o seu oikos podem ser consideradas desta forma. A ecologia é uma forma de pensar e olhar o mundo, um movimento – muito mais que uma ciência – que tem despertado o interesse de cada vez mais pessoas e que se refere não só à vida em sociedade, mas também à política, à economia e cultura. O movimento de crítica literária que trata do estudo das relações entre o homem e a natureza surgiu recentemente e passou a ser chamado de ecocrítica.

O meio ambiente é uma construção social e a natureza fora da história nada mais é do que matéria, portanto é necessário levar em conta as relações que se desenvolvem entre o homem e o meio ambiente, levando em consideração os aspectos sociais, políticos e culturais que emergem nesta relação . Assim, embora o tema central do romance Corpo Vivo seja a vingança, há um alerta implícito sobre as condições ambientais, que se expressa por meio das relações que surgem entre o homem e o meio ambiente. Uma leitura superficial levaria à conclusão de que este é o fim da guerra mobilizada por Cajango.

A relação criada entre os personagens e o ambiente em que vivem é, portanto, topofílica, pois existe um vínculo emocional que os conecta.

A RURALIDADE E O MITO DO PARAÍSO PERDIDO

Ao contrário da cidade de Caim, Babel foi um empreendimento coletivo, com a cidade surgindo ao seu redor. Portanto, a leitura da cidade inclui não apenas o conhecimento da realidade urbana, mas também a imaginação do “leitor” que não se utiliza exclusivamente para descrever os dados objetivos que sua visão alcança, embutindo seus desejos e quimeras no processo de decifrando a cidade.. Cada leitor da cidade a vê de uma forma única, especial, abrindo assim a cidade a inúmeras interpretações.

No livro Cidade e História, José D‟Assunção Barros (2007) trata a cidade como um fenómeno complexo e procura dar exemplos de diferentes formas de abordar este fenómeno. Ora, como todo texto pressupõe um interlocutor/leitor, Barros (2007) coloca o citadino/visitante como agente privilegiado no processo de decifração da cidade. Desta forma, a leitura da cidade depende fundamentalmente da percepção de quem por ela transita, pois é através deste olhar particular que a paisagem urbana começa a ser revelada.

Um dos primeiros cantores da cidade moderna, o poeta francês Charles Baudelaire, alcançou fama incrível ao traduzir sua Paris em versos justamente porque tinha a capacidade de compreender a cidade como um grande texto decifrável.

O CANTO E OS ENCANTOS DA CIDADE DE SALVADOR EM O FORTE

Klostre som Nossa Senhora da Graça, Nossa Senhora das Mercês, Santa Clara do Desterro, Nossa Senhora do Monte Carmo, Nossa Senhora da Soledade. Eller klostre som São Bento, Santa Tereza, Nossa Senhora da Piedade, Nossa Senhora da Conceição da Lapa. I sine fortællinger bruger Adonias Filho disse historiske elementer i byen – forterne, kirkerne, pladserne – til at konfigurere et minde om byen.

Em O forte, a partir de um lugar concreto - a cidade de Salvador - Adonias Filho retrabalha a realidade trazendo visões imaginadas da capital baiana, que serviu a muitos autores baianos como matéria-prima para a tessitura ficcional. O espaço representado por Adonias Filho é mágico, encantado, e a relação entre ele e os personagens fica evidente ao longo do romance. No já citado discurso de aceitação de Adonias Filho na Academia Brasileira de Letras, Jorge Amado comenta a grandeza da história contada em O forte.

Todos os discursos sobre a cidade baiana tiveram importância decisiva em sua formação, e disso não há dúvida, mas poucos escritores alcançaram um tom tão sui generis como o de Adonias Filho ao cantar sobre a capital baiana.

MONUMENTO ARQUITETÔNICO OU PONTE MNEMÔNICA? ESPAÇOS DE MEMÓRIA EM O FORTE

Cada um dos seres que habitam os espaços da cidade tem uma relação particular com tais espaços, traçando cartografias afetivas que podem dizer tanto sobre as pessoas quanto sobre os lugares. Em O forte, romance que ilustra perfeitamente o exposto, vemos Adonias Filho cavar o terreno da memória para reconstruir – pedra por pedra, literalmente – os primeiros momentos da história da cidade de Salvador. Ao definirem o traçado urbano, os castelos tiveram importância crucial na história de Salvador, mesmo depois de não servirem à defesa da cidade.

Através deste trabalho, buscamos demonstrar como Adonias Filho representou os espaços rurais e urbanos em seus romances, levando em consideração os aspectos sociais, econômicos e culturais que permeiam a obra do autor. Uma leitura, ainda que superficial, da obra de Adonias Filho deixa claro que há certas características que caracterizam o refinado processamento literário do autor. Dito isto, chegamos à conclusão de que em muito mais do que espaços rurais ou urbanos, Adonias Filho conseguiu representar espaços humanos.

Nosso percurso pelos espaços representados nas obras de Adonias Filho nos permitiu traçar uma cartografia até então ignorada.

Referências

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