L P H
REVISTA DE HISTÓRIA
Nº 8, 1998-1999, LPH/DEP. HISTÓRIA/UFOP
U N I V E R S I D A D E F E D E R A L D E O U R O P R E T O
REITOR
Dirceu do Nascimento
DIRETOR DO INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS José Benedito Donadon Leal
CHEFE DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA Renato Pinto Venâncio
COORDENAÇÃO DO LABORATÓRIO DE PESQUISA HISTÓRICA Adriano S. Lopes da Gama Cerqueira
Ângelo Carrara
Antonio Carlos Jucá de Sampaio Ivan Antonio de Almeida Marco Aurélio de Santana EDITORAÇÃO
Adriano S. Lopes da Gama Cerqueira
EXPEDIENTE
Correspondência e contribuições devem ser encaminhadas para LPH – ICHS, Rua do Seminário, s/nº, CEP. 35.420-000, Mariana, MG, tel/fax: (031) 557-1322
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Índice
ENTREVISTA
O Ofício do Historiador: uma entrevista com Ronaldo Vainfas 5 ARTIGOS
Considerações sobre a arte médica na Capitania das Minas (Primeira metade do século XVIII)
Ramon Fernandes Grossi
11
Capitães-do-Mato em Mariana (1711-1822) Liliana Dias de Souza
27 A Província de Minas no Período Regencial
Marcos Ferreira de Andrade
39 Assessores sindicais e participação na esfera de poder interno em
sindicatos: um estudo sobre intelligentsia, saber e poder Jorge Ventura de Morais
75
Homens que migram e mulheres que ficam: noções de tempo e memória
Marilda Aparecida de Menezes
105
Tracing Hybridity in Theory Nikos Papastergiadis
115 Reconstruindo o futuro: o movimento sindical metalúrgico e os antecedentes da transição democrática (1974/1978)
Francisco Carlos Palomanes Martinho
147
“Hell, No! We Won’t Glow”. The Bailly Alliance: Memories of an Antinuclear Coalition
James B. Lane
173
RESENHAS
FARIA, Sheila de Castro. A colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial.
Antonio Carlos Jucá de Sampaio
189
FONTES, Paulo. Trabalhadores e cidadãos Marco Aurelio Santana
193 PEABODY, Sue. "There are no slaves in France"
Renato Pinto Venâncio
197 SILVA, Maria Beatriz Nizza da. História da Família no Brasil Colonial
Ângela Domingues
199
ENTREVISTA
O Ofício do Historiador: uma entrevista com Ronaldo Vainfas Renato Pinto Venancio (entrevistador)
Inicialmente, gostaria de saber algumas informações a respeito do seu período de formação. Devido a qual motivo você resolveu estudar História?
A decisão surgiu no curso clássico do São Vicente, no Rio de Janeiro, por volta de 73. Pesou muito a qualidade do ensino da história no colégio, a elevadíssima carga horária e a qualificação dos professores. Muito importante foi o Marçal Versiani dos Anjos, ex- padre e jornalista ativo, que ensinava história geral, sobretudo moderna e contemporânea. O Mocayr Góes, que ensinava história do Brasil. O Ivo Barbieri, que ensinava literatura com forte perspectiva histórica. O Clóvis Dottori, que fazia o mesmo com a geografia.
Esses eram marxistas, mas havia o Ricardo Rossi, ex-oficial da Marinha, que tinha posições muito diferentes. Recusava qualquer determinismo e dava magníficas aulas factuais de Antiga e Medieval.
De todo modo, o clássico do São Vicente era plural, até os professores de matérias exatas tinham posições humanistas, que tem a ver com a orientação política e filosófica do colégio então adotada.
O coordenador geral do curso era o físico Jorge Luiz de Souza e Silva, dotado de uma cultura geral extraordinária e muito combativo politicamente. Eram os “anos de chumbo”, mas no São Vicente respirava-se o ar da liberdade que, por isso mesmo, alimentava a crítica ao regime militar. Esta era era a marca do São Vicente nos anos 70, o que acabou marcando minha opção por seguir a Ð carreira de historiador.
No seu período de formação, quais foram os historiadores que mais te influenciaram?
No tempo do clássico o que mais pesou foi literatura, universal e brasileira. Aliás tenho saudade daqueles em que lia muita literatura, muito mais que hoje, absorvido que sou pela vida acadêmica. Mas também li quase toda a História Geral das Civilizações na edição da DIFEL, organizada pelo Maurice Crouzet.
Na história do Brasil, Celso Furtado, Caio Prado e Nelson Werneck Sodré. Curioso isso: na história geral li mais autores clássicos da escola francesa e na do Brasil, autores de orientação marxista ou à esquerda. Já como estudante universitário, na altura, de 1975, li quase tudo o que podia. Muito Marx, Engels, Gramsci, Lenin, considerados "legítimos", pela opinião militante que prevalecia. Mas não deixei de ler livros que então me encantaram, embora a "patrulha ideológica" os considerasse menores ou "reacionários": Lucien Febre, o do Lutero e o dos Combates; Johan Huizinga, Delumeau, só para citar alguns. No caso da história do Brasil, sempre tive enorme fascínio pelo Casa Grande e Senzala, do G. Freyre, embora o criticasse muito. A esquerda o considerava um livro abominável, imagine. Fiquei muito desencantado com o despreparo intelectual dos militantes de esquerda na Universidade daqueles anos, inclusive no campo do marxismo, sem falar dos preconceitos intelectuais. Isto me frustou, porque a experiência de esquerda que conhecia do curso clássico era muito mais aberta, criativa e plural. Mas este é assunto muito vasto, haveria outras dimensões a considerar. Deixa para lá.
Você começou estudando a escravidão, ou melhor, a "versão" cristã da escravidão, e depois se interessou pelos comportamentos de contestação sexual no Brasil colonial, como se vê no Trópico dos Pecados (89). Qual foi o motivo dessa mudança de tema?
Essa é daquelas situações em que o tema é outro, mas talvez o assunto seja o mesmo. As idéias jesuítas acerca da escravidão, tema do primeiro trabalho (1983) possuía forte inspiração marxista, mas já foi considerado meio "heterodoxo" por tratar das ideologias,
discursos, etc. O próprio Ciro Cardoso, meu grande mestre no mestrado e orientador da tese (na época chamavam dissertação de tese), disse na Banca que preferia estudos marxistas de tipo sócio- econômico, o que não era o caso. Mas fez um excelente prefácio para o livro. Mas, como dizia, o estudo da "ideologia cristã" da escravidão me fez adentrar a dimensão moralizante da atuação missionária. Daí ao Concílio de Tento e à Inquisição foi um passo. Na verdade, o meu interesse no Doutorado era estudar a ação moralizante e repressiva da Inquisição e não os que contestavam a Igreja. Mas depois de ler a tese da Laura de Mello e Souza, ainda antes que ela a defendesse (86), e o Carlo Ginzburg, procurei adotar este dupla perspectiva: a dos inquisidores e a de suas vítimas. Houve, pois certa continuidade, mas também algumas rupturas no doutorado da USP, no meado dos anos 80. Aliás, o grupo de estudos que tínhamos lá era o máximo: a Mary Del Priore, Renato Venâncio, a Lana Lage, a Ida Lepkowicz.
Todos nós andamos em franco concubinato com a "história das mentalidades", para dizer o mínimo, se me permite esta imagem algo insólita. Mas líamos muito Flarin, Ariès, Delumeau, Bennassar, pra não falar de Michel Foucault. Tudo isto pesou no Trópico dos Pecados.
estudo da "santidade", da "heresia dos índios", não seria um retorno às suas preocupações iniciais de pesquisador?
Do ponto de vista do núcleo temático, foi sim. Porque no trabalho ponto de vista do núcleo temático, foi sim. Porque no trabalho sobre aÐas idéias jesuíticas, o pano de fundo era o conflito entre senhores e escravos na Colônia: conflito abstrato e potencial, mas também concreto, a exemplo de Palmares. No Trópico dos Pecados, a oposição de classe não está ausente, mas convive com outras, sexuais, afetivas, morais, vicinais, institucionais, religiosas etc., e todas se diluem numa longuíssima duração. A heresia dos índios põe de novo em foco a luta de classes e o tema da rebelião.
Mas trata disso em perspectiva cultural ou etno-histórica. Foi um retorno mais amadurecido ao tema da rebelião, das crises, mas a longa duração talvez esteja mais presente na Santidade que nos
outros livros. Nele incursiono até nos mitos, ancorado em Mircea Eliade e no História Noturna de Ginzburg.
Como você avalia as transformações da historiografia brasileira da década de 1970 em diante?
Só dá pra resumir em linhas muito gerais. Pois bem, antes de tudo, a profissionalização da pesquisa através dos cursos de Pós- Graduação com apoio das agências de fomento. Daí a sofisticação dos métodos, o cuidado maior na seleção e uso dos corpi documentais, etc. Ganhou-se em qualidade historiográfica, perdeu-se um pouco na abrangência dos grandes ensaios de outrora. De todo modo, a atual restrição no apoio oficial aos Programas de Pós ameaça muito os avanços realizados nas últimas duas décadas.. Vejo também diferenças entre o período 70-85, mais ou menos, e a fase seguinte. Na primeira fase, prevalecia, nas teses, uma forte preocupação com o sócio-econômico, de maneira geral, e com o a história social ou política contemporânea, em particular. Surgiram aí grandes teses sobre o movimento operário, a Primeira República, a Revolução de 30, sobretudo na USP e na Unicamp. Do meado dos 80 pra cá, vejo uma forte revalorização do período colonial, e nele, dos enfoques culturais ou do tipo mentalidades. Isto tem a ver com as mudanças da historiografia no plano mundial e também com as mudanças ocorridas no País, tipo redemocratização, libertação da Universidade das "patrulhas ideológicas", etc. No entanto, vale dizer que, nos anos 80, os estudos sobre República atingiram cerca de 40%
das teses, segundo o levantamento do Fico & Polito. O período colonial adquiriu, porém, mais visibilidade. E vale um comentário à parte sobre os estudos acerca da escravidão, sobretudo a do século XIX: hoje são muito menos generalizantes e mais densos como pesquisa, além de atualizados com a bibliografia norte-americana e preocupados com a história da África.
O marxismo ainda é um instrumento teórico válido para a análise do Brasil colonial?
Claro que sim e não só para o período colonial, desde que livre de esquematismos economicistas ou "filosofantes". O que considero danoso é a adoção do marxismo como álibi para encobrir a falta de erudição, a preguiça de pesquisar documentos e o proselitismo pseudo-revolucionário. Mas isso não tem nada a ver com o marxismo, que fornece instrumental valioso para se entender o conflito social na história. Conflito que obviamente não se reduz à
"luta de classes". Basta ver o que ocorreu e ocorre hoje no leste europeu depois da queda dos regimes comunistas: só se pode entender isso historicamente numa perspectiva que valorize o cultural, a etno-história, a antropologia religiosa, etc.
Atualmente, quais seriam as principais lacunas, os principais campos ainda não explorados, em termos de pesquisa a respeito do Brasil Colonia ?
Há inúmeros campos a serem explorados, assim como acervos documentais riquíssimos, tanto no Brasil como no exterior.
Em termos de fontes, limito-me a lembrar o acervo inquisitorial depositado na Torre do Tombo, em Lisboa. Ele já deu base a vários livros importantes, mas ainda há um mar de fontes a serem pesquisadas para temas totalmente inexplorados. Em termos de temáticas, limito-me a dizer que, não obstante os avanços, os historiadores da escravidão devem se lançar ao estudo da África.
Impossível avançar mais sem dar este passo. O que, como disse, já começou, vide João Reis, Robert Slenes, Manolo Florentino e outros.
Quais são seus atuais projetos de pesquisas?
A propósito das africanidades, estou trabalhando num movimento religioso ocorrido no Congo, em fins do século XVII, conhecido como antonianismo. Liderado por uma aristocrata congolesa de 23 anos, Kimpa Vita, que dizia ser Santo Antônio ressucitado, que Mabanza Congo era a verdadeira Belém, que Cristo nascera de uma Virgem Negra, etc. Morreu queimada por ordem do
rei do Congo, D.Pedro IV. Caso belíssimo de africanização do catolicismo contra o modelo de Estado congolês, aportuguesado e não menos católico. Fiz alguns artigos, farei mais um e só. Não tenho fôlego para mais e o movimento foi bem estudado pelo norte- americano John Thornton e pelo português António Custódio Gonçalves, embora com perspectivas bem diferentes da minha.
Trabalho também em temas ligados ao V Centenário dos Descobrimentos. Dentre eles, há o projeto de um Dicionário Crítico, com vários autores, pelo qual a Nova Fronteira já demonstrou interesse em publicar. Vamos ver se sai, seria utilíssimo, porque nossa bibliografia é muito carente de boas obras de referência.
ARTIGO
Considerações sobre a arte médica na Capitania das Minas (Primeira metade do século XVIII.)
Ramon Fernandes Grossi.
Mestrando em História - UFMG Categorias profissionais.
A arte médica era praticada por quatro tipos de profissionais:
físicos, cirurgiões, boticários e barbeiros. A distinção entre as categorias de físico e cirurgião, presente em Portugal, não foi adotada, enquanto prática, pela América Portuguesa1. Aos físicos, que eram licenciados pela Universidade de Coimbra ou por Salamanca, dentre outras escolas ibéricas2, competia a administração de remédios, devendo ter conhecimento da qualidade e quantidade a ser ministrada. Ao cirurgião cabia, formalmente, a execução de funções mais elementares como sangrias, escarificações, aplicação de ventosas e sanguessugas, curas de ferimentos externos e outras atividades dependentes da habilidade manual, com prerrogativa de exercer a clínica onde não houvesse físico3.
Os boticários, por sua vez, deviam cuidar da comercialização de medicamentos prescritos pelos físicos. Entretanto, muitos boticários tomavam a iniciativa de indicar remédios4, sem estarem legalmente capacitados para tal. Um mesmo indivíduo podia atuar legalmente como cirurgião e boticário quando, somos levados a crer, tivesse passado pelos exames das autoridades médicas necessários à comprovação da capacidade para o exercício de ambas as funções.
Por exemplo, Antônio Labedrenne, morador em Vila Rica, era
1 RIBEIRO, Márcia Moisés. Ciência e Maravilhoso no Cotidiano: Discursos e práticas médicas no Brasil setecentista. São Paulo: USP, 1995, p.23. Dissertação de Mestrado em História.
2 SANTOS FILHO, Licurgo de Castro. História Geral da Medicina Brasileira. São Paulo: HUCITEC / EDUSP, 1991, Vol. 1, p.303.
3 RIBEIRO, op. cit., p.30.
4 SALLES, Pedro. História da Medicina no Brasil. Belo Horizonte: Editora G. Holman, 1971, p.47.
cirurgião e, ao mesmo tempo, “(...) receitou vários remédios para os ditos presos os quais muitos mandou de sua botica (...)”5 que, de acordo com as listas dos contribuintes para o real donativo, era classificada como uma “botica boa”6.
Por último, havia os barbeiros que também faziam suas incursões pelo mundo da arte médica. Este era o caso do barbeiro Furtuozo Pereira que recebeu da câmara de Vila Rica, em 1738, quinze mil réis “(...) procedida esta quantia de várias sangrias que fez aos presos doentes e negros criminosos (...)”7. Aqueles que se mostrassem mais habilidosos na arte de tosquiar e barbear passavam a atuar também na pequena cirurgia, principalmente na realização de sangrias8.
A legislação para o exercício da atividade curativa.
No condizente à legislação para o exercício da medicina, analisaremos dois Regimentos e um Alvará lançados pelas autoridades médicas lusitanas. Em 1741, D. João V estabeleceu um Alvará9 para nomeação nos territórios ultramarinos de comissários que “(...) examinem e procedam contra aquelas pessoas que sem carta de exame estão sangrando e curando medicinalmente, com prejuízo não só da faculdade medicinal, mas da minha fazenda em razão dos direitos que devem pagar das cartas (...)”. Ao rei havia chegado notícias de que “(...) muitas pessoas neste reino andavam curando e sangrando, e curando de meia cirurgia, parteiras e algebistas10, e que tiram dentes e dão suores e unturas, e curam de algumas queixas particulares, como alporcas, quebraduras, sem serem examinados (...) e sendo informado que muitos destes não vêm examinar por estarem distantes desta côrte temendo os gastos que poderão fazer nos caminhos me pediam lha mandasse provisão para
5 Arquivo Público Mineiro (APM), Câmara Municipal de Ouro Preto (CMOP), caixa 11, doc.16.
6 Sobre as listas do real donativo, Comarca de Vila Rica, ver: APM, CMOP, códices 23 (1727), 24 (1728-29), 29 (1732-34) e caixa 02 – doc.38 (1730).
7 APM, CMOP, códice 12, fl.36.
8 SALLES, op. cit., p.52.
9 APM, CMOP, códice 44, fls.08-12v.
10 “Em Portugal proliferava uma classe de curadores especializados, denominados os algebristas (...) e designava os entendidos em reduções de fraturas e deslocações dos ossos” [ SALLES, op. cit., p.45 ].
poder nomear pessoas que pudessem tirar devassas (...) e também para fazerem os exames das sobreditas artes (...)”.
No mesmo Alvará, era nomeado o Licenciado Antônio de Mello como comissário do cirurgião mor do reino para as Minas, o qual devia tirar “(...) devassa das pessoas que curam de cirurgia, ou fazem quaisquer operações pertencentes à dita arte, como sangrar, tirar dentes, ser parteira (...) mandando notificar os culpados (...)”
para que estes se defendessem em juízo. Aqueles que curassem de cirurgia sem licença deveriam se apresentar ao dito comissário e seus assistentes para serem examinados, devendo apresentar certidão do mestre com quem aprenderam o ofício e preencherem um tempo mínimo de experiência profissional de dois anos, servindo em hospital, ou de quatro anos, não servindo em hospital. Pagando uma taxa seriam examinados e, caso aprovados, receberiam certidão jurada e assinada pelo comissário e seus assistentes. Esta certidão de aprovação seria então remetida ao cirurgião mor do reino, em Portugal, para que este passasse a carta de exame oficial que seria enviada ao Brasil11.
Os indivíduos seriam examinados em cada uma das funções médicas que desejassem exercer, de modo que haveria um exame para parteiras, para os sangradores, para os algebistas ou qualquer outro tipo de prática dita cirúrgica. Para cada exame seria paga uma taxa, independente da aprovação ou reprovação.
Enquanto o referido Alvará legislava sobre a prática cirúrgica, havia um Regimento específico para a profissão de boticário. Em 1744, foi lançado o “Regimento que devem observar os comissários delegados do Físico Mor do Reino no Estado do Brasil”12, que cuidava da fiscalização das boticas e dos boticários.
De acordo com o Regimento de 1744, os comissários delegados do físico mor do reino nas terras dalém mar, físicos
11 Manoel da Cunha Coelho, morador na freguesia de Santo Antônio da Itatiaia, Comarca de Vila Rica, foi examinado por requerer carta de cirurgião aprovado e alegou que “(...) tinha aprendido no hospital Real de Todos os Santos da cidade de Lisboa (...)”. Foi examinado pelo comissário Antônio de Mello e considerado apto. Enquanto a carta de aprovação oficial não chegava de Lisboa, após o envio do perecer a seu favor, recebeu uma carta provisória com um prazo de validade preestabelecido. [ APM, CMOP, códice 44, fls.41-41v, 1742 ]
12 APM, Seção Colonial (SC), códice 02, fls.200-204v.
formados em uma universidade, deveriam visitar as boticas, levando consigo três boticários aprovados pelo físico mor, de três em três anos13. Era competência destes fiscais verificar se os boticários haviam sido aprovados pelo físico mor, recebendo carta de aprovação.14
Os comissários do físico mor poderiam examinar os boticários em nome do físico mor, como ocorreu com Sebastião da Silva Brandão15, morador em Antônio Dias onde tinha botica, e no caso de apresentarem-se aptos para a profissão aguardavam a carta de aprovação vinda de Lisboa e reconhecida pelo físico mor.
Brandão fez um requerimento à Côrte pedindo carta de aprovação para exercer o ofício de boticário, sendo que afirmava ter aprendido
“(...) a arte de boticário com mestre aprovado os anos do Regimento e se achava muito capaz de poder usar dela (...)”. O rei ordenou ao físico mor do reino “(...) o mandasse examinar por assistir distante desta Côrte na forma do seu Regimento o qual mandou examinar por comissão sua que para este efeito passou ao Doutor Antônio Antunes médico formado pela Universidade de Coimbra e morador na cidade do Rio de Janeiro o qual com efeito o examinou com os boticários aprovados (...) foi achado apto e suficiente assim na prática como na teoria (...)”. Com sua carta de aprovação o boticário podia exercer seu ofício em qualquer parte dos domínios portugueses, “(...) exceto nesta minha Côrte e cidade de Lisboa onde só o não poderá fazer sem outra especial licença do dito meu Físico Mor do Reino (...)”.
O comissário ainda deveria verificar se os boticários seguiam o Regimento que definia os preços dos medicamentos na América Portuguesa e se tinham balanças, pesos e medidas de acordo com as determinações da lei, caso contrário pagariam multa. A qualidade dos remédios também seria verificada, de modo que o Regimento ordenava que as visitas fossem feitas de surpresa para que os boticários não ocultassem medicamentos deteriorados. Os
13 O Regimento de 1744 afirmava que os comissários do Físico Mor poderiam realizar visitas extraordinárias, no entanto, só receberiam emolumentos das visitas oficiais, isto é, aquelas realizadas de três em três anos e quando chegassem medicamentos aos portos.
14 De acordo com o Regimento de 1744, caso um médico recusasse o cargo de Comissário ou os boticários de seus assistentes, o governador tinha poderes para obrigá-los, sob penas da lei, a aceitar os cargos.
15 APM, CMOP, códice 29, fl.139v.
medicamentos que fossem encontrados com “incapacidade ou defeito” deveriam ser queimados ou lançados em local onde não pudessem ser reaproveitados. Se fosse autuado até duas vezes com medicamentos deteriorados o boticário pagava multa, já na terceira autuação era aberto processo que seria enviado ao físico mor do reino16. Os boticários que fossem encontrados vendendo drogas por receita sem carta do físico mor, nem sendo “dos do partido da Universidade de Coimbra”, deveriam ter suas boticas fechadas e responderiam pela falta na justiça.
O comissário e os boticários visitadores podiam examinar os boticários que tivessem “(...) praticado quatro anos com boticário aprovado do qual deve apresentar certidão jurada (...) lhe passarão o dito Comissário e examinadores sua certidão (...) para com ela requerer ao Físico Mor do Reino a sua carta de aprovação sem a qual não poderá usar da dita arte (...)”. O boticário que preparasse ou vendesse medicamentos sem carta de aprovação seria punido e o comissário não poderia dar licença para que pessoas comuns praticassem atividades médicas.
Por último, trataremos do Regimento, de 1742, “dos preços porque os boticários do Estado do Brasil hão de vender os medicamentos”17. De acordo com o Regimento dos preços, os boticários não poderiam vender os medicamentos por valor mais alto do que aquele que a Coroa determinava. Eram obrigados a ter o Regimento e nele mostrar o preço dos remédios que estivessem vendendo a todas as pessoas que desejassem vê-lo. O Regimento era composto por uma lista de produtos usados como medicamentos, divididos em grupos como as raízes, fungos, cascas, ervas, flores, frutas, sementes, licores, minerais, partes de animais, farinhas, pílulas, cozimentos, conservas, bálsamos, óleos, ungüentos, emplastos, tinturas, extratos, vinagres, sais, etc. Seguindo cada produto havia o preço pelo qual deveria ser vendido “em todas as
16 De acordo com o Regimento de 1744, as penas legais não recaíam sobre os medicamentos que chegassem estragados nos navios “(...) porque se podem corromper na viagem e neste caso não terá pessoa que os levou mais pena que serem-lhe os ditos medicamentos e drogas corruptos lançados em parte donde se não possam tornar a recolher (...)”.
17 APM, SC 02, fls.205-224v.
comarcas interiores do Estado do Brasil” e o preço “porque se devem vender nas comarcas e ouvidorias que estiverem nos portos de mar”. Os preços cobrados pelos produtos na costa eram menores do que os cobrados no interior do território, como no caso das Minas.
O aumento de preço era decorrente, como defende Ribeiro, basicamente dos custos com o transporte18.
Segundo Ribeiro, havia grande dificuldade de aplicação da legislação portuguesa no Brasil19. Podemos pensar em algumas hipóteses. Até o Alvará de 1741, pelo que parece, o indivíduo que pretendesse receber a carta de exame, em uma ou em várias das funções nele citadas, teria de ir a Portugal. O habitante da América Portuguesa teria grandes gastos com tal viagem, sendo que o morador do interior teria gastos ainda maiores. Com o Alvará, o indivíduo poderia fazer “(...) os exames das sobreditas artes (...)” na própria Capitania das Minas. Entretanto, isso não parece ter estimulado a inserção no mundo da medicina oficial. Não podemos esquecer que ainda havia a necessidade do pagamento de taxas para a realização dos referidos exames qualificatórios, o que poderia espantar possíveis candidatos. O Alvará já apontava o grande número de indivíduos que curavam “(...) sem serem examinados (...)”.
Quanto aos preços dos medicamentos e aos boticários, os Regimentos de 1742 e 1744, ao tentarem regrar tais atividades, apontam para o fato de que uma legislação implica, é claro, na existência de certos comportamentos considerados transgressores de uma certa ordem que se procura estabelecer ( tal consideração também pode ser válida para o caso do Alvará de 1741 ) . Muitas vezes, como parece ter acontecido nas Minas, a tentativa de controle não teve muito sucesso. Os próprios representantes das autoridades médicas lusitanas nas Minas eram, de acordo com o Regimento, fiscalizados pelo Ouvidor Geral para que não ocultassem “(...) os autos dos culpados, ou não os lançando nos livros, ou as
18 RIBEIRO, op. cit., p.19. Num deslocamento de produtos médicos de Vila Rica para o Tejuco, percebemos o aumento dos preços devido aos custos com o transporte. Fôra pedido que se entregasse os produtos “(...) de cirurgia e medicina (...) pelo preço do seu primeiro custo no Rio de Janeiro, contando-se-lhe sobre este mais cinco porcento além das despesas da sua condução até esta vila, direito de entradas e subsídio (...)” [ APM, SC 60, fl.101v ].
19 RIBEIRO, op. cit., p.24-26.
condenações e visitas que fizerem, ou excedendo a sua comissão, ou levando mais do conteúdo neste Regimento (...)”. Como esta passagem parece indicar, tais fiscais não estavam imunes a possíveis subornos e práticas de extorsão, burlando a legislação que deviam fazer cumprir.
Por último, os profissionais médicos, inseridos na medicina oficial, seriam atraídos pelas adversidades da vida nos sertões? As áreas urbanas litorâneas e os poucos centros interioranos mais dinâmicos não ofereceriam mais oportunidades e confortos? As autoridades fiscalizadoras da medicina estariam realmente empenhadas em devassar um território extenso e bravio em busca de transgressores da legislação médica? Assim, na maior parte das Minas, podemos pensar, as práticas curativas teriam seguido um ritmo próprio, teriam se auto-construido a partir das questões colocadas pela realidade vigente.
O cotidiano da medicina nas Minas.
O cotidiano das práticas médicas nas Minas, e na América Portuguesa em geral, insistia em transgredir a ordem médica que Portugal tentava impor. Tal transgressão, como mostraremos, passava pela necessidade de sobrevivência numa realidade geográfica e social que apresentava demandas que não eram aquelas apresentadas pelo universo luso e europeu.
Segundo Márcia Moisés Ribeiro, a “época colonial” foi marcada pela falta de médicos, cirurgiões e boticários, sendo que estes profissionais estavam concentrados, normalmente, nas áreas urbanas mais dinâmicas20. De acordo com Manoel Soares de Sequeira, funcionário régio que esteve nas Minas no segundo quartel do século XVIII, havia três médicos em Vila Rica, um no Ribeirão, dois no Sabará, os cirurgiões eram oitenta e as boticas talvez não chegassem a trinta21. Luís Gomes Ferreira, cirurgião que esteve nas Minas entre 1710-30 e autor do “Erário Mineral”, apresentava informações médicas sob a justificativa de que eram “(... ) para
20 Id. Ibid., p.20-22.
21 MOTT, Luiz. Rosa Egipcíaca: uma santa africana no Brasil. RJ: Bertrand Brasil, 1993, p.23.
remediar alguns enfermos que viverem metidos pelos matos das Minas aonde não é possível chegar médico nem cirurgião (...)”22.
Sobre os medicamentos de origem européia, a situação também era marcada pela adversidade. Os remédios eram embarcados nos navios que rumavam para as terras brasileiras. A longa travessia marítima acabava por provocar a deterioração de muitos deles. Aqueles que eram destinados ao interior do território, como era o caso das Minas, enfrentavam uma nova viagem pelos caminhos do sertão. Quando chegavam às vilas e arraiais mineiros, os medicamentos podiam permanecer um grande período de tempo nas prateleiras das boticas, ficando, mais uma vez, com a qualidade comprometida.23 Sobre a deterioração dos remédios, no que dizia respeito às Minas, Luís Gomes Ferreira24 apontava que os medicamentos chegavam “(...) de Portugal com sua virtude diminuída (...)”, indo para as “(...) boticas dos povoados desta América, e delas às Minas; onde em umas e outras estarão anos e anos (...)”.
Outra questão importante era relativa aos elevados preços dos medicamentos. Ferreira nos apresenta um quadro bastante ilustrativo a esse respeito. Segundo o referido cirurgião, “(...) No princípio que cheguei a estas minas (...) Só os cirurgiões e médicos [ ou físicos ] tinham alguns remédios, pois as boticas as não havia (...) Haverem poucos medicamentos e venderem-se por alto preço (...)”25. Ferreira ainda não se cansava em frisar os gastos que os mineiros tinham com os tratamentos das moléstias. Por exemplo, em 1724, um senhor de escravos lhe pediu que providenciasse algum remédio para a moléstia de um cativo, justificando-se “(...) Porque era bom escravo e desejava curá-lo, ainda que a despesa que tinha feito lhe importaria pouco menos de seu valor (...)”26.
O próprio Luís Gomes Ferreira já indicava soluções para a questão dos custos médicos, defendendo uma adaptação à realidade
22 FERREIRA, Luís Gomes. Erário Mineral. Lisboa: Oficina de Miguel Rodrigues, 1735, p.54.
23 RIBEIRO, op. cit., p.10-13.
24 FERREIRA, op. cit., p.80.
25 Id. Ibid., p.247.
26 Id. Ibid., p.50.
das Minas, ao apontar um método de cura, criado por ele, e afirmar que “(...) quem usar deste modo curativo (...) escusará de fazer despesas em boticas, que estão fazendo os senhores dos escravos e muitos brancos (...)”27.
Os habitantes das Minas tiveram que encontrar saídas para as questões relativas ao mundo médico. Foram construídas estratégias para o enfrentamento das moléstias. Tais estratégias fariam parte do processo de adaptação à singularidade da vida na América Portuguesa. Ferreira já dizia que “(...) é tal este clima [ das Minas ] que se os cirurgiões e médicos não discorrerem por si em todas as doenças, que nele acontecem, farão muito poucas curas com acerto (...) porque é muita a variedade delas e consequentemente pedem vários modos de cura (...) por respeito de clima, habitação e costumes (...)”28. Seguindo suas próprias considerações, Ferreira aconselhava substituir “maçãs de cipreste verde”, por não serem encontradas no Brasil, por “(...) jenipapos verdes e desta sorte se pode fazer este remédio nas Minas, porque nos currais perto delas há esta fruta (...)”29. O autor do “Erário Mineral” também cultivava muitas “ervas da terra” numa horta, “(...) regando-as sempre para as Ter prontas (...) na ocasião da necessidade (...)”30.
Os produtos medicinais das Minas também despertaram o interesse do Ouvidor da Comarca de Vila Rica, Caetano da Costa Matoso, que ocupou o cargo de 1749 até 1752. Costa Matoso reuniu uma série de documentos31 referentes a vários aspectos da história mineira, aos costumes, à religião, à administração, à geografia, à alimentação, aos produtos medicinais, etc. No que dizia respeito às utilidades médicas dos produtos naturais, o Ouvidor recolheu informações sobre ervas e paus32. Os nomes das ervas e paus estavam seguidos pelas qualidades curativas dos mesmos.
27 Id. Ibid., p.35.
28 Id. Ibid., p.12-13.
29 Id. Ibid., p.365.
30 Id. Ibid., p.16.
31 Os documentos reunidos pelo Ouvidor estão no chamado Códice Costa Matoso, exemplar localizado na Biblioteca Mário de Andrade, Seção de Manuscritos e Obras Raras, São Paulo, SP.
32 Id. Ibid. OBS: O Códice não possui uma numeração seqüencial que sirva de orientação ao pesquisador, desse modo, realizamos a localização dos temas através dos títulos. Sobre
Entre as ervas listadas por Costa Matoso estava a erva de
“Santa Maria”, que serviria para combater lombrigas; a erva chamada “susuhá”, contra “febres malignas”; a erva “crista de galo”, que atuaria contra feridas na garganta; a erva denominada
“língua de vaca”, contra feridas em geral. Para picada de cobra, era apontado o pau chamado “casca de cobra”, “(...) remédio aprovado e o tenho visto experimentar em algumas pessoas de mordeduras de cobras (...)”.33
Não podemos deixar de pensar quais teriam sido as motivações que levaram o Ouvidor a se preocupar com a questão médica. O já abordado Regimento de 1744 ordenava que o Ouvidor Geral devia fiscalizar a conduta do Comissário e de seus oficiais para que não andassem “(...) ocultando os autos dos culpados, ou não lançando nos livros, ou as condenações e visitas que fizerem, ou excedendo a sua comissão, ou levando mais do conteúdo neste Regimento (...)”. Assim, talvez a fiscalização que devia exercer sobre a medicina nas Minas tenha despertado seu interesse pelo tema dos remédios. Entretanto, pela diversidade temática dos documentos reunidos por Costa Matoso, podemos pensar em outras possibilidades: o Ouvidor poderia ser um curioso do mundo
“colonial” ou, ainda, poderia estar recolhendo informações que contribuíssem para o exercício de sua administração.
Nas Minas, como na Europa, a água também podia deter qualidades curativas. Este era o caso de uma lagoa situada perto da vila do Sabará34. Em 1749, espalhou-se a notícia dos poderes
ervas, ver: “Lembrança de ervas mais medicinais que há neste país das Minas”; sobre paus, ver: “Árvores mais usuais e paus de que mais se usa deles”. No Códice ainda encontramos dois outros documentos, datados de 1738, que tratavam respectivamente de caso de um menino, na época com seis anos de idade, que, na Freguesia de Nossa Senhora do Pilar da Vila de Pitangui, causava espanto pelo seu tamanho e desenvolvimento corporal, com força de um menino de doze anos, “que parecia ter casta de gigante”, e do caso de uma menina, na freguesia de São Miguel do Piracicaba, Comarca do Sabará, com idade de treze anos que estava grávida e já havia parido duas crianças, estando amancebada com um tal Godoy desde os oito anos de idade.
33 Id. Ibid.
34 MIRANDA, João Cardoso de. Prodigiosa Lagoa: descoberta nas Congonhas das Minas do Sabará, que tendo curado a várias pessoas dos achaques, que nesta relação se expõem.
Lisboa: Oficina Miguel Manescal da Costa, 1749. IN: CARVALHO, Augusto da Silva.
Prodigiosa Lagoa. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925. Sobre o tema do valor
curativos da dita água. No mesmo ano, “(...) se achariam [ no sítio da lagoa ] três mil pessoas com todas as qualidades de achaques, a todos vão servindo os banhos de remédio (...)”.
O sítio da citada lagoa parece ter adquirido grande importância porque logo o bispo D. Frei Manoel da Cruz concedeu
“altar portátil para se poder celebrar o Santo Sacrifício da Missa, o que se levantou no lugar onde se há de erigir a igreja, que terá a invocação de Nossa Senhora da Saúde (...)”35. Ao local se dirigiram, no ano de 1749, pessoas de várias partes das Minas. Doentes de Forquim, Rio do Peixe, Paraopeba de Baixo, Paracatu, Tijuco de Serro Frio, Catas Altas, Inficionado, Vila Rica, Pompeo, Pitangui, etc, percorreram os caminhos em busca de alívio para suas moléstias.
O relato do cirurgião Miranda cita 105 casos, somente uma amostra de um total que não foi definido, dos quais haviam 50 brancos, 10 pretos forros, 35 escravos e 10 pardos. Ainda em 1749, o Contratador dos Diamantes Felisberto Caldeira Brant enviou vários escravos para se curarem de “queixas crônicas” na lagoa de “Nossa Senhora da Saúde da Comarca do Sabará”, sendo que os banhos seriam remédio aprovado36.
Mesmo com as tentativas régias de regrar as práticas curativas da América Portuguesa, a realidade médica brasileira fugia à normatização e as autoridades médicas não tiveram muito sucesso em inserir as práticas curativas das terras americanas dentro das redes do saber e da prática metropolitana. Os medicamentos europeus acabavam, em muitos casos, sendo substituídos por produtos naturais da terra, devido aos altos preços, à deterioração e às moléstias específicas de cada região . As dificuldades de inserção no mundo médico oficial, colocadas pelas exigências da Legislação, somadas ao pouco estímulo de praticar a arte médica nos sertões,
curativo da água, na América Portuguesa e em Portugal do Antigo Regime, ver:
MACHLINE, Vera Cecília & BELTRAN, Maria Helena. “Um relato del siglo XVIII sobre aguas minerales en Brasil y sus virtudes medicinales: el manuscrito Cod. 64.2 la Colección Lamego”. IN: Revista de Estudos de Historia Social de las Ciencias Químicas y Biológicas. México: Universidad Autonoma Metropolitana, Unidad Xochimilco, n.2, 1995, p.203-212.
35 Id. Ibid., p.11.
36 APM, SC 33, fls.69v-71.
contribuiriam para a escassez destes profissionais. Nesse quadro, as curas na informalidade, realizadas por curandeiros(as), abundavam.
Aqueles que curavam na informalidade estavam na mira das autoridades, laicas e eclesiásticas, aliadas a cirurgiões e boticários licenciados, talvez temerosos da concorrência. Luís Gomes Ferreira não cansava de criticar os tratamentos médicos realizados por pessoas comuns. Quando havia suspeita de envolvimento com atos mágicos ou supersticiosos, as curas informais caíam nas redes das autoridades eclesiásticas.
O homem da Capitania das Minas, bem como o homem europeu do período enfocado, tinha uma concepção mágica mundo.
Tratados médicos e medicina “popular” podiam lidar com a doença enquanto manifestação sobrenatural.37 No entanto, o tratamento de uma moléstia através de instrumentos mágicos – orações, fórmulas mágicas, etc – só era considerado lícito quando feito por componentes da medicina oficial ou do clero. Quando indivíduos comuns se valiam destes instrumentos mágicos, logo suas atividades eram associadas a ações ditas supersticiosas que atentavam contra a fé, como também podiam ser associadas a feitiçarias. Por exemplo, Albano de Andrade Silva, morador na freguesia de Nossa Senhora da Vila do Ribeirão do Carmo, foi admoestado, numa visita eclesiástica, no sentido de “(...) que todo se abstenha de curar com palavras e bênçãos por que no modo com que cura e benze se pode introduzir perniciosas superstições e pecaminosos abusos sem licença e aprovação do (...)” do bispo38. Enquanto o curador do Ribeirão do Carmo era censurado, Luís Gomes Ferreira apresentava, num tratado médico aprovado pelas autoridades civis e religiosas, métodos “(...) para curar enfeitiçados e ligados por arte mágica ou malefícios”39. Os cirurgiões do partido da câmara.
As câmaras da América Portuguesa contratavam cirurgiões que dispunham-se a tratar dos pobres, presidiários e outros
37 SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. SP: Cia. Das Letras, 1986, p.166-168.
38 Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana (AEAM), Devassas Camargos, Livro de Termos, Janeiro 1730/ maio 1730, fl.25.
39 FERREIRA, op. cit., p.195.
necessitados40. Era feito um contrato que ia de um a dez anos e o ordenado era anual, variando, nos três primeiros séculos, de quinze a quarenta mil réis e chegando, no século XVIII, a cento e vinte mil réis41. Através da documentação do Senado da Câmara de Vila Rica, conseguimos reconstituir uma pequena parte da história profissional do cirurgião do partido da câmara42 daquela vila, já citado no início deste trabalho, Antônio Labedrenne. A trajetória deste cirurgião apresenta elementos bastante ilustrativos da problemática da medicina nas Minas.
Em 1734, encontramos o carcereiro de Vila Rica representando ao governador da Capitania sobre a necessidade de um cirurgião para atender aos presos “(...) que se acham na cadeia dela experimentando muita miséria, porque a sua pobreza lhes dificulta os meios da assistência de cirurgião ou médico (...) faz preciso expor a Sua Excelência a justa carência que há de que a câmara nomeie cirurgião que assista aos doentes desta cadeia (...)”43. No mesmo ano, Labedrenne foi nomeado para o cargo, que ocupou de 1734 a 1744, com um ordenado anual de cento e vinte mil réis que deveriam ser cobrados dos bens do conselho.
Não foram poucos os conflitos que surgiram entre o cirurgião e as autoridades da câmara. Em 1737, o dito cirurgião foi acusado pelo preso Manoel Coelho de não o curar, justificando a recusa “(...) por ser doença pesada (...)”44. Perante o Senado da Câmara, Labedrenne explicou que o preso estava com queixas gálicas [ sífilis ] em estágio avançado, de modo que se recusava a fazer qualquer cura do seu próprio mandado. O Senado aprovou a
40 RIBEIRO, op. cit., p.21.
41 SANTOS FILHO, op. cit., p.316.
42 No final da primeira metade do século XVIII, ocorreu entre Manoel Ribeiro Abranches e José de S. Boaventura Vieira uma disputa pelo cargo de cirurgião do partido da câmara da cidade de Mariana. A questão chega às mãos de D. João V, que a decide ordenando ao governador “(...) que os requerimentos destes pretendentes ao dito partido de cirurgião se escusarão porque à sua nomeação deve ficar livre aos oficiais da câmara e se repara em que o cirurgião José de S. Boaventura Vieira se intitula capitão mor no seu requerimento, o que é indecente a esta ocupação que se não deve conferir aos artífices (...)” [ APM, SC 45, fl.26v, 1746 ]. Percebe-se o quanto as atividades manuais eram indicadoras de uma inferior condição social.
43 APM, CMOP, caixa 07, doc.25.
44 APM, CMOP, caixa 10, doc.04.
decisão do cirurgião e afirmou que os bens do conselho não deviam ser aplicados “para semelhantes despesas”. Talvez os custos com um tratamento que não reconstituiria a saúde do doente tenha sido o motivo da postura assumida pelas autoridades da câmara. Entretanto, a questão relativa a custos aparece novamente em 1738, quando o Senado nomeou dois boticários para verificarem as receitas passadas aos enfermos por Labedrenne, sendo que caso as despesas fossem consideradas legítimas o valor seria restituído ao dito cirurgião. De acordo com os boticários, as receitas “(...) bem valiam cento e setenta e quatro oitavas de ouro (...) a terça parte como é estilo fica, sendo cento e dezesseis oitavas de ouro que tanto se lhe devia satisfazer”45.
Em 1743, o cirurgião acusava a câmara de não ter satisfeito seu ordenado durante dois anos, entre 1742-1743. Após inúmeras reclamações46 por escrito e uma declaração do carcereiro, dizendo que ele havia assistido com responsabilidade aos presos, acabou por receber seus atrasados. Foi pago a Labedrenne “(...) a quantia de quinhentos e quatro mil réis que tantos se lhe devem satisfazer de assistência de cirurgião mor do partido desta câmara (...) Vila Rica (...) 1744 (...)”47, pagamento confirmado pelo registro no livro de despesa e receita do Senado da Câmara48. Em 1745, não ocupando mais o cargo de cirurgião do partido da câmara, Labedrenne ainda foi chamado para confirmar antigas despesas com receitas para os presos solicitadas pelo carcereiro, cujos gastos feitos na cadeia estavam sendo examinados pelos oficiais da câmara49. Nas despesas feitas pelo carcereiro constavam gastos com a alimentação dos presos. O carcereiro afirmava que havia gasto dinheiro na “(...) doença de Joseph de Sequeira crioulo preso pobre e desamparado com pão, carne e galinha (...)”, na moléstia de outro preso com “carne por várias vezes e pão” e na doença de outros dois presos com “pão e carne várias vezes”50.
45 APM, CMOP, caixa 11, doc.16.
46 APM, CMOP, caixa 14, doc.35.
47 Ibid.
48 APM, CMOP, códice 51, fl.23.
49 APM, CMOP, caixa 16, doc.82.
50 Ibid. Segundo Julita Scarano [ SCARANO, Julita. Cotidiano e Solidariedade: vida diária da gente de cor nas Minas Gerais – século XVIII. SP: Brasiliense, 1994, p.61-62 ],
Considerações finais.
Portugal não teve sucesso em transportar para as terras americanas sua estrutura médica. A distinção funcional entre as categorias médicas diluiu-se frente a busca pela cura e a falta de profissionais. Luís Gomes Ferreira registrou o caso de um doente que, para obter o alívio para os males que sofria, “(...) mandou chamar um ignorante barbeiro, que em Portugal mal sabia fazer uma barba, pois destes por pecados não faltam nas Minas a cada canto com títulos de cirurgiões (...)”51. O recurso aos curadores(as), neste quadro, tornava-se bastante comum.
Na falta de medicamentos do Reino e, quando existentes e não deteriorados, dos elevados preços que podiam alcançar, como não recorrer aos produtos medicinais da terra? O autor do “Erário Mineral” defendia a utilização das plantas medicinais nativas das Minas e, pelo que nos parece, o próprio Ouvidor Costa Matoso reconheceu a importância das qualidades curativas das mesmas.
Durante todo o século XVIII, foi marcante a presença dos curadores(as) nas Minas. Além das dificuldades, já apontadas, para a ação da medicina oficial, havia outras. Como o conhecimento sobre as causas das doenças eram extremamente restritos, muitos acusavam sua origem ao sobrenatural, divino ou maligno. Como nos diz Keith Thomas, “na falta de explicações naturais, o homem se voltava para as sobrenaturais”52. Assim, muitas enfermidades eram atribuídas a malefícios e, então, curadores(as), que usavam de recursos
“mágicos”, eram chamados pelos doentes. Não que a medicina oficial e até mesmo a Igreja não tivessem seus recursos “mágicos”, entretanto, estes, que estavam inseridos num corpo mágico-curativo
o alimento era utilizado como possibilidade de cura entre todas as camadas sociais. Nas Minas, como na Europa, o uso da galinha na alimentação dos enfermos era muito difundido e “(...) assim como o frango, era vista como indispensável na alimentação dos doentes (...)”. Esta autora afirma que nos hospitais a presença de galinhas nas listas de despesas era comum. Numa correspondência da Santa Casa de Misericórdia de Vila Rica havia a menção à compra de galinhas que seriam usadas na alimentação dos doentes [ APM, Secretaria de Governo – SG, caixa 02, doc. 03, 1739 ].
51 FERREIRA, Op. Cit., p.231.
52 THOMAS, Keith. Religion and the Decline of Magic. Londres: Widenfeld and Nicolson, 1980, p.536. Apud SOUZA, op. cit., p.167.
permitido e oficializado, poderiam não “funcionar”, exigindo outras saídas.
ARTIGO
Capitães-do-Mato em Mariana (1711-1822)
Liliana Dias de Souza Mestranda/UNESP/Assis Pretendemos nesse artigo apontar a importância dos agentes sociais denominados “capitães-do-mato”, pois muito do que se sabe sobre eles é de caráter impreciso. Propusemo-nos a descobrir como se dava a participação desses agentes no “termo” de Mariana, destacando sua importância no contexto da sociedade escravista.
A região de Mariana foi por nós privilegiada por ser foco de uma intensa exploração mineratória, que resultou em relações sociais e econômicas específicas, o que - por sinal - tem provocado inúmeros debates entre os historiadores que estudam Minas Gerais colonial.
Nosso ponto de partida é o ano de 1711 por ser o que ocorreu a criação da Câmara de Mariana. Fundada em 1711, a Câmara de Mariana fazia leis, ordenava o espaço urbano (dimensão judicial), mantinha a cadeia pública (repressão aos cativos e à população livre) e contratava os “capitães-do-mato”. Aliás, cabe lembrar que no ano de fundação da câmara foi concedida a primeira carta patente de capitão-do-mato em Mariana1.
Em 113 patentes por nós localizadas, concedidas aos capitães- do-mato na região de Mariana, 28 delas envolviam homens provenientes do mundo da senzala. Um número considerável, pois a condição de “livre”, “forro” ou “escravo” não constava na maioria dos documentos.
Tendo em vista tais dados, cabe perguntar: seria o capitão-do- mato a personificação da opressão nascida da rivalidade entre forros
1 A primeira carta patente de capitão-do-mato, por nós localizada, foi concedida a João Batista Ribeiro, para atuação na Vila do Ribeirão do Carmo, em 02/03/1711, no cód.07, SCAPM, p.75. Tem-se em 1783 o registro da última patente de capitão-do-mato concedida para a antiga freguesia da Sé, sede da Vila do Ribeirão do Carmo (futura Mariana) e, em 1795, a última para a região do Sumidouro, “termo” da mesma vila.Localizamos no cód.228, SCAPM, p.17, a última patente de capitão-do-mato concedida para Mariana a Anastácio Gomes da Cunha, pardo forro, datado em Vila Rica a 10/04/1783. E a última para o Sumidouro, Termo de Mariana, a Francisco Antônio de Oliveira, com data de 05/02/1795, que encontra-se no cód.257, SCAPM, p.100 v-101
e escravos ? Ou a procura pelo cargo decorria simplesmente da necessidade de sobrevivência econômica ? Sua função era de caráter regular ou circunstancial ? Sob quais aspectos podemos considerá- los eficientes e até que ponto os capitães-do-mato eram realmente necessários ?
Essas são algumas questões que tentaremos responder. Para tanto, torna-se necessário destacar alguns aspectos que consideramos importantes para complementar a nossa análise.
RESISTÊNCIA E REPRESSÃO
A sociedade escravista marianense viveu em permanente estado de inquietação provocado pelos constantes ataques de quilombolas e pelo medo de que se formasse aqui um novo Palmares.
Por outro lado, a possibilidade de fugas de cativos também preocupava a Metrópole, pois quanto maior o número de escravos fugidos, menos eram os quintos por ela cobrados, o que contribuiu para que diversas medidas repressivas fossem tomadas. Os mecanismos de defesa contra os levantes e fugas iam da publicação de uma legislação repressiva à criação de milícias e contratação de capitães-do-mato, conforme as Posturas Municipais e as inúmeras determinações dos governadores exemplificam.
Como pode ser percebido na tabela 1, foram pesquisados, em Mariana, cerca de quarenta e três processos crimes envolvendo escravos. É bom lembrar que não foram analisados todos os códices existentes no Arquivo, mas somente os do período em pauta, sendo que muitos encontram-se incompletos:
TABELA 1: A REBELDIA ESCRAVA EM MARIANA (1711-1822)
ANO ASSASSINATOS VIOLÊNCIA
FÍSICA
FUGAS ROUBOS QUILOMBOS
1711 – 1730 1 7 1 2
1731 - 1750* 2 9
1751 - 1770* 4
1771 - 1800 2 5 5
1801 - 1822 4 12 1 8 2 TOTAL 7 17 10 9 22 Fonte: GUIMARÃES, Carlos Magno. Uma Negação da Ordem Escravista: Quilombos em Minas Gerais no Século XVIII. São Paulo. Ícone, 1988, p.137-142. ACSM, vários códices.
* Entre 1744 e 1759 não observamos quilombo algum em Mariana.
Analisando os dados da tabela, consideramos tais números irrisórios e nos valemos da explicação de Sílvia Lara para justificar esse fato: “a interferência da Justiça dependia geralmente mais do
interesse da vítima na reparação do delito do que na punição do criminoso”2, ou seja, a prisão do escravo acarretava para o senhor despesas com as custas do processo e carceragem.
Cabe também assinalar que o processos relativos aos quilombos e revoltas podiam envolver vários cativos. Na cadeia de Mariana, por exemplo, entre os anos de 1725 a 1734, foram presos por fuga e/ou formação de quilombos, trezentos e vinte e três escravos3. Na maioria das vezes, os senhores marianenses enfrentavam dificuldades para reaver o cativo fujão, pois quase sempre os proprietários não dispunham de recursos para individualmente contratar capitães-do-mato.
Como pode ser percebido no gráfico 1, as primeiras décadas do século XVIII foram marcadas pela presença de numerosas fugas e formação de quilombos. Ao passo que, entre 1751-1770, época de crise da mineração, o número de fugas e quilombos diminui4.
No início do século XIX, novamente observa-se a queda no número de fugas e de quilombos. O período 1801-1822 é caracterizado por uma verdadeira mutação nas formas de rebeldia escrava. O cativo, a partir de então, ao invés de dirigir seu impulso agressivo para fora da sociedade, dirige-o agora para dentro da sociedade, assassinando, agredindo ou roubando seus senhores e demais homens livres.
A que imputar essa mutação?
Ora, ela deve ser atribuída às mudanças de condição de vida do escravo: agora vivendo em um sistema de agricultura mercantil de subsistência, que permitia a criação de raízes familiares e de
2 Segundo Sílvia Hunold Lara, a violência do senhor era vista como castigo, como forma de domínio. Já a violência praticada pelo escravo, como a fuga, por exemplo, era vista como falta, transgressão, violação do domínio senhorial, rebeldia. Campos da violência:
escravos e senhores na capitania do Rio de Janeiro (1750-1808). São Paulo: Paz e Terra, 1988, p.21.
3 Entre os 323 escravos presos por fuga na cadeia de Mariana, entre os anos de 1725- 1734, 282 eram de nação, 14 eram crioulos, 7 eram mulatos, 1 cabra, 1 parda, 1 preta forra (presa por engano) e em 17 não foi possível precisar a origem. Esses números incluem homens e mulheres e caracterizam o perfil da população escrava em Mariana colonial.
4 Tais constatações também sugerem que, uma vez instalada a crise na produção do ouro, os recursos destinados à repressão tornaram-se raros, deixando por isso mesmo de ser registrada de forma documental.
vizinhança, os escravos progressivamente deixaram de fugir e formar quilombos. A partir de 1801, em Mariana, o roubo e a violência tornaram-se as novas formas dos “cativos roceiros” lutarem contra o sistema escravista.
G R Á F I C O 1
O C O M P O R T A M E N T O E S C R A V O N O T E R M O M A R IA N E N S E ( 1 7 1 1 - 1 8 2 2 )
0 5 1 0 1 5 2 0 2 5
1 7 1 1 - 1 7 3 0 1 7 3 1 - 1 7 5 0 1 7 5 1 - 1 7 7 0 1 7 7 1 - 1 8 0 0 1 8 0 1 - 1 8 2 2 F o n t e : V e r t a b e la 1
N ú m e r o d e c a s o s
V I O L .& R O U B . Q U I L .& F U G S .
A CÂMARA E A CONTRATAÇÃO DE CAPITÃES-DO-MATO Como mencionamos, a Coroa delegava à Câmara a responsabilidade de fazer cumprir o Regimento dos Capitães-do- Mato, por isso, ao desrespeitarem as normas estabelecidas, muitas vezes, de “agente repressor” os capitães-do-mato passavam a
“reprimidos” pelo próprio sistema escravista. No auto de devassa que a Justiça mandou fazer sobre o achado de dois corpos sem cabeças, retiradas por capitães-do-mato, na Freguesia de São Caetano, sem nenhum motivo aparente, o juiz proferiu a seguinte sentença: O Escrivão os incluirá no rol dos culpados; Expeça as mais apertadas ordens para serem presos, e sequestrados serão os seus bens, e
cumpra com a lei a respeito da remessa das culpas, e dos pronunciados: o que tudo se executará com sagacidade e, devido segredo5. (grifo nosso)
Era importante para a Coroa que tais medidas não se tornassem públicas a fim de se evitar o descrédito da sociedade para com a atividade de capitão-do-mato, como também, para inibir a rebeldia escrava. Em carta da Câmara de Vila Rica, de 25 de Janeiro, de 1765, que ordenava a prisão de três capitães-do-mato e dois pedestres que os auxiliaram na fuga de negros na Freguesia do Inficionado, ficou estabelecido o seguinte: Ordeno a todos os Capm mores, Comandes dos destrictos, e officiaes das Milícias de jurisdição deste Governo, em por ditos cinco criminosos, Capm do mato, e Pedestres forem achados os fação prender, e remeter seguros a cadeya da cidade de Marianna(...)6.
Este documento mostra uma das sucessivas punições dada pela Câmara aos capitães-do-mato, para que estes cumprissem a lei, imposta pelo Regimento de 1722, impedindo assim abusos e prejuízos para o proprietário do escravo que havia fugido. Foi isto que parece ter acontecido ao capitão-do-mato João de Medeiros Teixeira, morador em Guarapiranga, que foi levado à cadeia por ter prendido em uma corrente e obrigado a trabalhar na roça o escravo de nome Joaquim, de nação Benguela, de propriedade de Manoel Gonçalves Veiga7.
Todavia, ao cumprirem o dever, os capitães-do-mato recebiam o prêmio estabelecido: Acóordão mandar pagar ao capitão-do-mato seis patacas de ouro por uma cabeça de negro de quilombo que apresentou neste Senado8.
Como sabemos, o Regimento de 1722, estipulou esses pagamentos mediante a distância percorrida na captura de negros fugidos. Vejamos como ficaram estabelecidas as tomadias no Termo Marianense: Antonio Ferreira, capitão-do-mato em Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo, em 1715, havera o sallario dos escravos q~ prender, de doze outavas athe a Itaubira, e athe o Sumidouro vinte e
5 ACSM, IIº ofício, cód.224/5586.
6 SCAPM, cód.118, p.83-3v.
7 ACSM, IIº ofício, cód.156/3520.
8 AHCMM, cód.660, p.111.