Das bênçãos de Iemanjá aos desígnios do mercado: 'violência' e 'paz' na virada do ano no Rio global. Tese (Doutorado em Comunicação) – Faculdade de Comunicação Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2020.
Os megaeventos enquanto motores de requalificação urbana
O momento simbólico, senão fundacional, dessa concepção foi certamente a elaboração do Plano Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro, realizado em 1993 e 1994. É claro que, em relação à mídia institucional, essa área cultural é citada apenas como mais um atrativo da cidade.
Cidade espetáculo, cidade da exceção
Destacamos o caso da Villa Autódromo para ilustrar o que dissemos há alguns parágrafos, a respeito dos movimentos de resistência à reciclagem urbana pró-megaevento. Ou o sugestivo título Moradores pediram para sair da Vila Autódromo”, que tenta sugerir que sim.
Réveillon, Carnaval, Copa, Olímpiadas... Afinal, o que é um megaevento?
Por causa de sua repercussão midiática, um megaevento se espalha por toda a sociedade em que atua. Nesse sentido, o que seriam considerados megaeventos e midiáticos seriam, por exemplo, as Olimpíadas e a Copa do Mundo.
A “pacificação” da Cidade Olímpica
Esse cenário discursivo explica o papel simbólico da instância de informação no processo de (re)urbanização da cidade do Rio de Janeiro, que vem sendo realizado nos últimos anos, espacialmente em sua relação com a forma de lidar com a questão da violência (MENDONÇA, 2018). , pág. 47). No dia 1º de janeiro de 2015, a manchete de primeira página do O Glob era "Rio renasce aos 450 anos" com fotos de fogos de artifício para comemorar o Réveillon e o aniversário da cidade.
O Ano Novo na capital imperial e os primeiros planos urbanísticos
O Plano Beaurepaire
Apresentado à Câmara Municipal em 20 de setembro de 1843 pelo Diretor de Obras Públicas Henrique Beaurepaire-Rohan, é o primeiro plano oficial de planejamento da cidade do Rio de Janeiro. Contudo, abrir-se-iam ruas perpendiculares a estas novas avenidas, juntamente com a Rua do Ouvidor, criando uma nova configuração dos espaços públicos da cidade velha. Andreatta (2006) afirma que o Plano deriva do desejo de monumentalidade, de enfatizar a importância da cidade que costuraria, a abertura desses mercados.
Se recuarmos ao século XIX, onze anos depois de Beaurepaire ter deixado a gestão das obras públicas para o município, uma das principais propostas do seu plano foi concretizada: a instalação de uma rede de esgotos em grande parte da cidade.
Dito isto, sublinhamos a importância do seu relatório que, embora não tenha sido aprovado, muitas das suas propostas foram posteriormente concretizadas, como a transferência do matadouro público para a praia de São Cristóvão; instalação da rede de esgoto; a construção de adutoras para distribuição de água potável à cidade pelos rios Maracanã e Carioca; o enchimento do manguezal de São Diogo juntamente com a criação de um canal de navegação; e, por fim, o desmantelamento do Morro do Castelo para possibilitar a expansão e ventilação da cidade. 185). O então Ministro do Império propôs ao Imperador, em 1874, a nomeação de uma Comissão de Melhoramentos da cidade do Rio de Janeiro, composta pelos engenheiros Francisco Pereira Passos, Jerônimo Rodrigues de Morais Jardim e Marcelino Ramos da Silva. O primeiro relatório foi apresentado apenas dez meses após a nomeação da comissão e teve como foco a região da Cidade Nova.
Os engenheiros argumentavam que esta era a região da cidade que mais necessitava de melhorias, além de ser o local onde a cidade cresceu.
As festas religiosas e o réveillon carioca à beira do século XX
Anos depois, porém, notaremos grandes semelhanças entre o projeto de Fogliani e a Avenida Central de Pereira Passos. Na véspera do Ano Novo de 1903, Rodrigues Alves, o recém-eleito Presidente da República, nomeou o engenheiro Francisco Pereira Passos prefeito do Distrito Federal. Pereira Passos foi membro do Clube de Engenharia, dirigiu importantes empresas ferroviárias e supervisionou as reformas do Campo de Santana.
A citação acima resume com muita precisão o modelo de governança implementado por Pereira Passos no Rio a partir de 1903.
A construção física e simbólica do Rio de Pereira Passos
Do Centro à Zona Sul Atlântica: a cidade cresce na direção do mar
O primeiro momento em que o Rio se abriu para mostrar as mudanças que aqui estavam sendo feitas foi logo após a primeira fase das reformas urbanas iniciadas por Pereira Passos: a Exposição Nacional de 1908. A Exposição de 1908 serviu como mais um teste para esse fim, já que o prefeito Pereira Passos já havia tentado provar que a cidade, apesar de estar na América e na sua pobreza, poderia ganhar ares de metrópole europeia. Mas o que queremos sublinhar através das reformas iniciadas por Pereira Passos e pela Exposição Nacional de 1908 é que inauguraram um modelo de gestão municipal, baseado na lógica do capital financeiro, que ainda hoje é praticado.
Nesse sentido, a escolha do local onde foi realizada a exposição de 1908 não foi à toa, pois já mostrava o rumo do novo ciclo de expansão da cidade: a Zona Atlântico Sul.
Assim, ao mesmo tempo que Sampaio reforça a zona sul como local de prazer e lazer, incentiva a migração de uma população mais proletária e negra para as periferias. Segundo Beatriz Jaguariba (2011), o acontecimento de 1922 pode ser considerado a imagem de uma cidade limpa e civilizada que vem sendo buscada desde a campanha “Bota Abaixo” iniciada há 20 anos. O local onde decorreu o megaevento teve como referência a Avenida das Nações, que se estendia do Palácio Monroe até à Ponta do Calabouço.
Isso não significa que as missas deixaram de acontecer no dia 31 de dezembro, que os cultos a Iemanjá se popularizaram, nem que a Igreja passou a aceitar festas populares, mas neste novo Rio que se dizia moderno e cosmopolita, não havia mais espaço para procissões do Santíssimo Sacramento.
O Ano Novo na capital reformulada
O Plano Agache e o Plano Piloto
Agache também propôs a construção de rodovias ligando diferentes pontos da cidade e a erradicação de favelas consideradas feias e insalubres. A partir das reflexões de Abreu (2008) sobre o Plano Agache, percebemos uma mudança de foco no discurso que vincula os problemas da cidade à pobreza. Além disso, fortes ventos modernistas sopraram por todo o país, abalando os edifícios Art Nouveau no centro da cidade.
Ou seja, os megaeventos continuam a ser uma importante plataforma de projeção da cidade (e mesmo do país) para atrair investimento.
As batalhas de confetes e o réveillon praiano
Nesse sentido, na década de 1920, ainda que timidamente, surgiram alguns relatos de comemorações de réveillon nas praias de Santa Luzia e do Flamengo, a partir da década de 1950 surgiram com maior frequência os cultos a Iemanjá. Mas agora gostaríamos de ressaltar que a partir da década de 1960, cada vez mais registros sobre festas de réveillon na praia apareceram em O Globo, principalmente em Copacabana. O foco da festa ainda permanecia nas batalhas de confete na Cinelândia e nos bailes em clubes e hotéis, mas percebemos que a partir de meados da década de 1960 iniciou-se um processo de transição que resultaria em uma mudança relevante na forma como o Réveillon era célebre. no Brasil, rio.
Assim, a partir da década de 1970, o Ano Novo da “princesinha do mar” atrairá mais público do que as brigas de confete na Cinelândia.
O Plano Doxiádis e a conexão com a Zona Sul
Copacabana, em suas virtudes e vícios, em seus truísmos e contradições, ora é vista como uma metonímia do Rio de Janeiro, ora como um lugar sui generis dentro da cidade. Nas primeiras décadas do século XX, o local mais próspero da cidade ainda era o Centro, principalmente após a inauguração da Avenida Central. Em meados da década de 1950, o bairro já contava com um comércio tão grande e variado quanto o centro da cidade.
Com foco no Réveillon, tema desta tese, a partir da década de 1970 a festa na praia de Copacabana passou a atrair um público maior do que as comemorações no centro da cidade.
De bonde ao reino das sereias
A motivação para tal projeto, que dependia de concessão da Prefeitura, seria facilitar o acesso da Rua Real Grandeza ao Mar de Copacabana. Ou seja, a própria prefeitura aproveitou a situação para incentivar o início da construção de uma infraestrutura que permitisse a ocupação do local. A primeira fase de sua demolição ocorreu na década de 1920 para possibilitar a ligação de dois trechos de uma grande avenida, chamada Nossa Senhora de Copacabana.
Foi após a ocupação de Copacabana, pela elite local, que ali se implementou um novo projeto civilizatório no sentido de construir uma identidade que permeasse a Francofilia da Belle Époque.
A elite cilense: um projeto civilizatório
O Grande Hotel Balneário Botafogo, em 1883, já demonstrava banhos de mar organizados com luxo e ciência. Paralelamente, na região central, os adeptos do banho de mar se reuniam em banheiros de praias como Boqueirão e Santa Luiza. Ou seja, a prática do banho de mar já existe há algum tempo, não apareceu em Copacabana.
Mudar a perspectiva sobre o banho de mar e o uso da praia é essencial para a conquista de Copacabana.
De areal paradisíaco a floresta de concreto
Ao mesmo tempo, no final da década de 1920, o significado do carnaval também começou a ser contestado pela elite Cílense. No capítulo anterior, vimos que nas festas de fim de ano da elite carioca, desde o início da década de 1920, o samba nunca foi aceito. A partir da década de 1940, chegou a Copacabana algo que já acontecia na cidade desde a década anterior: os arranha-céus.
Isso valeria para todos os bairros atlânticos, mas como Copacabana era a joia da coroa, a migração para o bairro se intensificou a partir da década de 1940 junto com o aumento da oferta de unidades.
A ascensão do réveillon praiano e o fim do ideário cilense
Em 01/02/1978, a coluna social de Carlos Swann noticiou o excesso de lixo na praia e nas ruas de Copacabana após a festa de réveillon. O Réveillon de 1988 foi a grande festa de Réveillon de Copacabana com a cascata de fogos de artifício do hotel Le Méridien medindo 118m de comprimento e 42m de largura. A cobertura do Réveillon de Copacabana feita pela O Globo a partir da década de 1970 não nos deixa mentir sobre essa mudança na escala das representações sobre o bairro.
À meia-noite, a queima de fogos de Copacabana e todos os detalhes da festa foram transmitidos ao vivo.
A transformação do réveillon de Copacabana em megaevento
O discurso do jornal baseia-se na criação de representações positivas que mostram: Ano Novo em Copacabana (festa), cerveja a 1 Real (entretenimento acessível), novo plano econômico e novo presidente (esperança de dias melhores). O caos na volta para casa depois da festa em Copacabana só apareceu em O Globo no dia 2. Ou seja, o jornal usa dados de “cobertura”, muito mais para divulgar um projeto da cidade do que para reportar as comemorações do Ano Novo em Copacabana apropriado.
A democracia típica da grande festa de réveillon ao ar livre em Copacabana chegou ao edifício Chopin, o prédio mais charmoso da cidade.
Bombas em Terra, Balsas no Mar: o aprimoramento do réveillon
Por conta disso, os incêndios que ali estavam, ao invés de explodirem em sequência a uma altura de 50 m, dentro dos cilindros, no chão e de uma só vez. A reportagem, intitulada: “Incêndios na véspera de Ano Novo matam um, ferem 49”, foi seguida pela foto de uma mulher sendo carregada em uma maca pelos bombeiros com as pernas e o rosto queimados. O último réveillon do milênio, que comemorou a chegada do século 21, fez do Rio palco de uma grande festa, apesar das fortes chuvas da virada do ano.
Abaixo está uma foto panorâmica da Praia de Copacabana enquanto os fogos de artifício explodiam no céu.
Década Dourada: o réveillon „pacificado‟ da Cidade Olímpica