Sob a ótica desse panorama, defendemos a literatura de cordel como elemento relevante da cultura popular brasileira. A classificação da literatura de cordel tem sido motivo de preocupação entre os chamados iniciados, estudiosos e pesquisadores.
A literatura de cordel e a oralidade
A literatura de Cordel permite transitar pela oralidade, da mesma forma que muitas vezes um poeta não utiliza a escrita para se expressar. O desenvolvimento dos meios de comunicação, que acompanha a literatura de Cordélia desde a história oral, passando pela evolução da impressão e pela conquista de novos meios tecnológicos, não diminui as suas características. O cordel, assim como o funk, o samba ou qualquer outra manifestação, se apropriará das novas tecnologias e fará delas, se não um aliado, certamente mais uma fonte para sua manutenção e produção.
Estrutura e conteúdo da literatura de cordel
Sem essas qualidades, a produção não seria considerada ou reconhecida como obra de um poeta coral. O essencial, na opinião do poeta, é que o conteúdo da poesia seja mantido: o principal valor da literatura de corda – estrofe (verso), rima, métrica e oração. Nos primórdios da literatura de cordel no Brasil, em sua versão oral, não havia grandes compromissos com a métrica ou com o número de versos que comporiam as estrofes.
A literatura de cordel, por sua capacidade de ser lida ou cantada, é muito exigente em matéria de métrica. Criado pelo professor Jaime Pedro Martelo, o martelo galopante (dez versos de dez sílabas) é apontado como uma das formas mais antigas da literatura de cordel. Essas estruturas são, segundo entrevistas realizadas com cordelistas, o que caracteriza a literatura de cordel como gênero literário.
A pesquisadora Joana Puntel (1980) explica que a literatura de cordel tornou-se conhecida nacional e internacionalmente no meio científico e a partir da década de 1950 deixou de ter as características de um ‘jornal do povo’9.
Um enquadramento através da fluidez no cordel
Na literatura de Cordel observamos um processo contínuo de transformação, de adaptações a novas situações e modalidades que muitas vezes funcionam de forma quase imperceptível, principalmente no que diz respeito à forma de expressão. O que fica evidente é uma aceitação da modalidade e da estética nordestina ao longo de sua carreira. Por outro lado, recorro à perspectiva da cultura como um sistema simbólico complexo que tem Geertz como seu articulador mais profundo e para quem o conceito aparece.
Até recentemente, o conceito de autoria na literatura de Cordelia era flexível e em grande parte devido ao analfabetismo. Os momentos atuais, em que as tecnologias para ampla comunicação e circulação de imagens e obras estão cada vez mais disponíveis, comprovam que a literatura cordeliana está confortavelmente inserida na modernidade. O Cordel utiliza esses diferentes níveis de comunicação que implicam novas territorializações e nos permitem ir além da produção poética impressa.
O panfleto de cordel é muitas vezes a continuação da criação e performance oral, utilizando o movimento e o som da voz.
O cordel encarado como identidade múltipla
A partir das décadas de 1950 e 1960, a literatura de cordel iniciou um processo de busca de maior confirmação, por meio dos recentes avanços tecnológicos, expansão de emissoras de rádio, canais de televisão e cinemas nos bairros das capitais. Para Luyten (1981:p.26-27), características regionais, geográficas, históricas e até sociais influenciaram a literatura de cordel a assumir as características que conhecemos: colonização inicial de portugueses com características medievais; O admirador/leitor do folheto de cordel tem interesse em ler o que mais o poeta popular tem a dizer sobre um acontecimento, mesmo que não precise mais ser confirmado.
Ter acesso à informação por meio de notícias veiculadas na mídia tradicional não afasta o desejo do admirador/leitor da literatura de cordel de ir a uma feira no domingo comprar um novo panfleto retratando um fato já noticiado. A Academia Brasileira de Literatura de Cordel – ABLC – foi criada em 1988, embora apenas em 1993, com a doação do Sr. A possibilidade de critérios de criação e produções de boa qualidade implica uma melhor aceitação da literatura panfletária e da comunidade de poetas e cantores corais, que passaram a olhar para esta produção com maior interesse.
Hoje, ocupando dois andares do mesmo prédio, o acervo aproxima-se de 13 mil documentos, entre livros e panfletos de cordel.
Métrica, rima e poesia – Pode quase nada
A atuação do corista também inclui coreografias de mãos e corpo, seguindo uma espécie de balé musicado pelos versos.
Cordel como bem imaterial – Uma experiência concebida
Como mencionado anteriormente, a produção de pastas de cordel desafia os tempos modernos ao permanecer ativa. Reconhecer e valorizar a literatura cordella como patrimônio imaterial, valorizar o conhecimento, o processo de criação e sua produção. O registo da literatura de cordel como bem cultural de natureza imaterial assegura a proteção de uma das expressões literárias da cultura popular e confirma a importância da literatura de cordel como forma de expressão de carácter tipicamente nacional.
Percebemos na fala de Dalinha Catunda (entrevista em que a internet permite a circulação da literatura de cordel nas redes online) que ele transformou a cidade de Juazeiro do Norte em um dos maiores centros de literatura de cordel do país, e esse ponto de vista compartilhado com João José dos Santos, que fundou a editora Luzeiro do Norte, no Recife. Na perspectiva da continuidade e do futuro da difusão e da democratização do conhecimento popular, apresentar a literatura de Cordel como um bem cultural de natureza imaterial contribuirá para o debate sobre a literatura e a cultura popular produzidas no Brasil desde o seu surgimento.
O seu registo como bem intangível facilitará a transferência democrática de conhecimentos tradicionais fundamentais para a manutenção, continuidade, promoção e valorização da literatura de cordel.
Registro audiovisual das memórias
Nossos mestres do cordel – O desejo por um Road Movie
Um aspecto de particular valor na literatura coral é a sua forma, ou seja, o ritmo da estrofe, a sua rima, a sua métrica e a sua expressão oral no canto da parte coral. O documentário terá como protagonista o Mestre Gonçalo Ferreira da Silva, presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. A produção de pastas de cordel desafia a noção de uma contemporaneidade homogênea composta apenas por criações cada vez mais recentes.
Com presença consolidada em todo o território nacional, a literatura de Cordélia desenvolveu-se excepcionalmente nos últimos cem anos. A grande vantagem da literatura de cordel sobre outras expressões da literatura popular é que o próprio autor imprime suas produções à medida que as lê e compreende. Em reportagem do Correio Brasiliense de 4 de agosto de 1983, o cordelista Franklin Maxado define a literatura de cordel como um fenômeno surgido após a imprensa de Gutemberg.
Durante muito tempo, a literatura de cordel desempenhou o papel de dispositivo que legitima acontecimentos, recodifica o cotidiano e remarca fatos.
A estética do cordel – Pode quase tudo
Em "A Notícia na Literatura de Cordel", o autor Ernesto Kawall relaciona o cordel ao jornalismo e utiliza o termo "recodificação", indicando que o cordel capta a mensagem da mídia de massa e a recodifica para um público popular. A literatura de cordel é um veículo que tira dos acontecimentos mundiais o combustível para o exercício de sua poética e, em última instância, incorpora formas que a caracterizam. Relatos de que a população só acreditava em certos fatos quando interpretados através da literatura de cordas não eram incomuns.
Essa característica, apesar dos avanços da indústria do entretenimento, ainda confirma que a literatura de Cordel é elemento integrante e ativo da cultura contemporânea. Se a literatura de cordel legitimou acontecimentos do passado, hoje ela se renova e mantém sua vitalidade através da poetização da realidade. Se antes a literatura de cordel era vista como única legitimadora, hoje ela representa a opção, a escolha pela arte, a versão estetizada, poética.
A iniciativa surgiu após a apresentação das duas no evento “Encontro com Poetas Populares e Rodas de Cantoria”, onde discutiram a produção feminina na literatura de Cordélia.
Ciclo do cangaço
Para muitos estudiosos, o sertão, região cuja economia se baseava na pecuária e na agricultura de subsistência, de 1910 a 1930, coincidiu com o empobrecimento geral da população da região. A modernização da produção de açúcar, a concentração da produção em engenhos e engenhos centrais, contribuíram para que muitas famílias se voltassem para a produção de subsistência, reduzindo o mercado competitivo para os seus produtos. Para Pereira de Queiroz (1982), o desaparecimento dos partidos conservadores e liberais no início do século XX, com o advento da República, transferiu as disputas pelo poder local no Nordeste para o seio dos grandes grupos de parentesco. caracterizada pelo retrato da atuação da quadrilha liderada por Virgulino Ferreira da Silva.
O nacionalismo urbano resgata a figura do cangaceiro e o transforma simbolicamente, na perspectiva do sertão, numa figura de resistência heróica às condições sociais, políticas e econômicas daquela região. O reconhecimento da participação dessa quadrilha ainda é contraditório: para muitos pesquisadores eles não passavam de bandidos, outros os defendem como vigilantes. Assim, o tema do banditismo, das corridas de ladrões, das façanhas e vidas dos cangaceiros em que a figura do “bode” é valorizada, eleva a figura de Lampião e sua turma.
Lampião, como observamos, foi divinizado no Nordeste entre pessoas desprovidas de riquezas e desgastadas pelas injustiças sociais.
A arte visual da literatura de cordel
O aspecto de maior contribuição das artes visuais para a literatura de cordel são, sem dúvida, as xilogravuras em suas capas. Os artistas associados à produção de capas de folhetos de literatura de Cordel procuram soluções plásticas mais simples e sintéticas, com linhas muitas vezes fortes, cortantes, ásperas e expressividade no design, inspirando-se no mundo fantástico dos seres míticos e mágicos. concepções ingênuas. A literatura de Kordel flui como uma via de mão dupla, pois na medida em que é influenciada pela estética e por outras linguagens, podemos ver seus traços em muitas outras mostras de arte.
Notamos a contaminação da literatura de cordel no teatro de Ariano Suassuna como Uma Mulher Vestida de Sol (1947) e Auto da Compadecida (1957), no cinema de Glauber Rocha com Deus de o Diabo na terra do Sol (1964) e O Dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969), incluindo música de Zé Ramalho, Ednardo e Antônio Nóbrega, literatura de Jorge Amado, poesia de João Cabral de Melo Neto e teledramaturgia de Dias Gomes. Entendemos que a literatura de cordel reflete, com espontaneidade, as diversas questões da sociedade contemporânea; o poeta como produtor desta arte se expressa de forma dedicada, conforme o protocolo do gênero literário que o legitima (rima, métrica e ritmo). Se no passado a literatura de cordel contribuiu para um processo identitário na região Nordeste, nos anos 2000 ela aparece integrada à contemporaneidade e circula entre diferentes tipos de manifestações artístico-culturais.
O comércio informal na produção do panfleto de Cordel e a renúncia aos direitos autorais também alteraram radicalmente as relações comerciais e a atribuição de valor aos bens culturais.