Este trabalho tem como objetivo analisar a presença de elementos intertextuais nas narrativas literárias, precisamente dos escritores portugueses Eça de Queirós e Miguel Torga relacionadas com a Bíblia Sagrada. Como afirma o título deste trabalho, o nosso objectivo é reinterpretar histórias bíblicas de Eça de Queirós e Miguel Torga.
A INFLUÊNCIA DOS TEXTOS RELIGIOSOS EM NARRATIVAS LITERÁRIAS
Neste sentido, o autor conclui que “a Bíblia era claramente mais do que uma obra literária, qualquer que fosse esse 'mais'. Sobre Portugal como cultura, Eduardo Lourenço afirma que “a nossa história, a história da Igreja em Portugal e a da Igreja universal estão intrínseca e complexamente ligadas, muito antes da elevação de Portugal a reino independente, até aos dias de hoje. " (2001, pág. 40).
BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A INTERTEXTUALIDADE
Diz que “todo texto se constrói como um mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de outro texto”. Ele apresenta o texto como um mosaico de citações, um trabalho de absorção e transformação de um texto em outro.
EÇA DE QUEIRÓS E MIGUEL TORGA: A RELIGIÃO DA CRÍTICA
Eça de Queirós, ícone do realismo português, tem como um dos pilares da sua obra a denúncia dos males da sociedade portuguesa daquela época. Dentro da trama você encontra toda uma crítica aos costumes da sociedade que Eça de Queirós conheceu, um conjunto de cenas tratadas com ironia e detalhes. A atitude crítica de Eça de Queirós em relação à religião já não é a mesma dos seus romances anteriores.
Segundo Cid Seixas, na apresentação da edição brasileira de Novos Contos da Montanha,. Apesar de pertencerem a épocas diferentes, os dois escritores, Eça de Queirós e Miguel Torga, cada um no seu tempo, criticaram os males da sociedade. Para iniciar a nossa análise, tomemos o conto de Eça de Queirós Adão e Eva no paraíso, publicado pela primeira vez em 1897, no Almanaque Enciclopédico.
ADÃO E EVA NO PARAÍSO: O PROCESSO DA HUMANIZAÇÃO
Os primeiros passos de Adão rumo ao paraíso foram turbulentos, a floresta estava escura, então a cidade, que era seu abrigo natural, agora parecia um cativeiro, que trazia consigo a imagem de um lugar humilhante. Nesse sentido, podemos perceber que o narrador está subvertendo a versão bíblica, pois o personagem Adão não fala palavras no texto literário, portanto o animal não pode ser nomeado, pois só pode ser anunciado. Esse medo, que será transmitido aos descendentes, fica evidente no texto literário: “A superioridade de seus descendentes se deve ao medo cada vez menor de Adão”.
Todas as dificuldades enfrentadas pelo personagem de Adão no Éden foram necessárias para o seu fortalecimento, pois contribuíram para o desenvolvimento da humanidade. Na trama, presenciamos o medo de Adão em comer sua primeira carne, pois, até o momento da confissão, o personagem comia apenas raízes, frutas e ervas. Nas duas tramas, o personagem de Adão adormece e, ao acordar, se surpreende ao encontrar uma mulher ao seu lado.
SUAVE MILAGRE: UM EÇA CRISTÃO
Surpreendido pela ironia de Etienne, o narrador redesenha a trama bíblica, misturando teorias criacionistas e evolucionistas a serviço de sua criação artística, comportando-se como um dos escribas da Bíblia. É o cenário em que a figura de Jesus realizou alguns de seus milagres, como andar sobre as águas e acalmar a tempestade. Ao longo da narrativa nota-se que há uma influência religiosa, baseada em elementos circunstanciais da Bíblia Sagrada, pois são utilizados elementos bíblicos, como as cidades citadas no texto literário, o aparecimento do novo Profeta, que realizou milagres e anunciou a vinda do Reino de Deus. para Deus
A partir de agora, Eça passará a introduzir elementos ficcionais de sua criação, mas entrelaçados com outras passagens da Bíblia. É claro que o narrador da história está se referindo a um homem chamado Barrabás na ocasião em que os condutores de camelos contavam aos servos de Obede sobre os milagres realizados pelo rabino como “[..] o homem que o ladrão Barrabás decapitou, se quisesse. levantar-se do seu túmulo e ser levado ao seu jardim.” (QUEIROZ, 1997, p. 1619). Outra referência presente na história que apresenta elementos da Bíblia é dada em uma passagem em que um homem anuncia os milagres do novo profeta e enumera alguns feitos gentis e milagrosos que ele realizou.
A MORTE DE JESUS: A FIGURA DO DIVINO
O interesse por Jesus cresce à medida que o narrador/protagonista entra em contato com os ensinamentos do Nazareno, ora pelo que as pessoas lhe contavam, ora porque presenciou as atitudes de Jesus. É a preocupação de Jesus com os fracos e oprimidos que irá seduzir o narrador/protagonista ao longo da história, porém, seu maior interesse pela figura de Cristo se deve ao fato de ser um revolucionário propenso que poderia quebrar qualquer jugo romano. invasões dos partidos que dominavam Jerusalém. Fica claro, portanto, que Eliziel acreditou e concordou com o discurso libertário de Jesus, vendo-o como um líder revolucionário.
Se compararmos o personagem de Jesus nos contos O Milagre Suave e A Morte de Jesus, vemos que no primeiro Jesus ainda não havia saído da Galiléia: “Naquela época Jesus ainda não havia saído da Galiléia [. ..]” (QUEIROZ, 1997, p. 1617). De antemão, podemos observar a mesma característica ambiental utilizada em “A Morte de Jesus”, ou seja, a associação da mensagem evangélica de Jesus com o contexto “puro e simples” da Galileia, como se os ensinamentos de Cristo fossem acolhidos em uma forma privilegiada. um simples povo galileu, solidário com o povo pobre e sofredor, é muito difícil praticá-lo por outros povos, como os de Jerusalém. Além do diálogo com a Bíblia, podemos conectar as duas histórias éticas que associamos à figura de Jesus.
A AIA: O SACRIFÍCIO EM DIÁLOGO
Assim, através do tema do sacrifício, podemos lembrar que este tema está presente no episódio bíblico conhecido como sacrifício do filho de Abraão. A relação de confiança e lealdade entre Abraão e Deus é evidente no livro de Gênesis (12:1-2) “Então o Senhor disse a Abrão: “Deixa a tua terra, os teus parentes e a casa de teu pai e vai para a terra que eu vai te mostrar. Farei de você uma grande nação e te abençoarei.” Podemos ver que Deus está pedindo a Abraão que deixe sua terra natal e vá para uma terra desconhecida, sob a promessa de que ele será abençoado.
A personagem da escrava não conta com a presença de um Deus bondoso que intervém no sacrifício do filho. Sem sair do seu lado crítico, retrata as diferenças sociais latentes nas classes representadas nas histórias. Na história, através do duelo entre a lealdade a um Senhor e o amor ao filho, vemos uma mensagem com efeito moral dado o contexto histórico do fim de.
VICENTE: CRIADOR X CRIATURA
Ele estava infeliz, porque achava injusto que os animais pagassem pelas ações dos humanos: “O que os animais têm a ver com as fornicações dos humanos, que o Criador quis punir?” (TORGA, 1997, p. 129). Torga reforma esta passagem dando ao corvo nome, vida e voz, ao contrário do que acontece no texto bíblico, em que a personagem principal era a pomba, e o corvo não tem papel de destaque. O cenário em que animais de diferentes espécies são retirados do seu habitat e reunidos em um local que não é o seu espaço natural cria a ideia de opressão, de que o espaço era péssimo para a convivência.
Diferentemente do que acontece na Bíblia, em que o personagem Noé se apresenta como um homem justo e temente a Deus, na ficção ele se aproxima da covardia. O corvo alcança a tão desejada liberdade: “para salvar a própria obra, fechou melancolicamente as comportas do céu”. (TORGA, 1996, p. 135). Este espaço é fundamental na construção dos personagens porque é onde se passa grande parte da trama.
JESUS: A INOCÊNCIA DAS CRIANÇAS
Com a pureza de uma criança e o coração cheio de felicidade, ele coloca o filhote de volta em seu ninho e, depois de pensar muito na imagem do pintassilgo, "(..) ele colocou no ventre virgem da mãe e adormeceu Esta história passa-se na época do Natal, quando uma família pobre, no primeiro “grande momento” do filho, promete ao pai trazer um presente, alimentando assim as esperanças do filho: “(..) Júlio, faz o primeiro exame com grande , que prometeu salvá-lo que lhe daria um presente no Natal.” (TORGA, 1996, p. 59). A princípio o filho duvidou da promessa do pai porque sabia dos problemas que viviam.
Quando pensamos na época do Natal, pensamos que é um período em que as pessoas se tornam mais humanas, mais solidárias. Outra trama que tematiza a criança é O Sésamo, presente no livro Novos Contos da Montanha (1944), em que também é discutida a inocência da criança. Quanto à inocência da criança, na Bíblia, em Mateus 18, há uma passagem em que os discípulos se aproximam de Jesus e perguntam-lhe quem seria o maior no reino dos céus.
O REGRESSO: O FILHO PRÓDIGO
Memórias de infância perdidas: “Imagens de uma linda história com infância e juventude, ninhos e amores, dias de Natal e Noite Santa. Conta a história de um pai que teve dois filhos, o mais novo busca sua parte na herança e decide ir para terras distantes. Tanto na história como no livro de Lucas, os dois jovens vigiam a sua casa de longe, mas o primeiro não foi visto por nenhum membro da sua família.
Em Torga, escritor moderno, atravessado por um olhar crítico, o retorno do menino não se completaria como no texto bíblico. Para a personagem o retorno não é completo, a saudade do tempo em que fazia parte da comunidade não faz mais parte de sua identidade. A culpa de deixar a sua terra natal impede-o de regressar, pelo que o regresso não é completo.
O LEPROSO: A (IN)JUSTIÇA DOS HOMENS
Um mendigo chamado Lázaro foi deixado à sua porta, coberto de feridas; Ele desejava comer o que caía da mesa do rico.” Durante a parábola vemos que ambos os personagens morreram: o rico foi para o inferno e o leproso foi para o céu. em conta, ninguém simpatiza com a dor, a falta de sensibilidade humana é retratada por ações animalescas. Na Bíblia, em 2 Reis 5, o profeta Eliseu pediu a Naamã que se banhasse sete vezes no rio Jordão, assim como na história o leproso deveria tomar banho para ser purificado.
Mas na Bíblia, o personagem não se banhou em azeite, mas nas águas do rio Jordão. Na história, o narrador traz à tona a presença desse elemento, aproximando-o de uma importante passagem bíblica que trata da purificação da lepra. Vale ressaltar que na Bíblia o azeite era usado para curar doenças, principalmente a lepra.
NATAL: UM PRESÉPIO HUMANO
O nascimento de Jesus significa redenção, amor, salvação, esperança, num momento em que as pessoas se consagram umas às outras. Garrinchas tenta voltar para sua terra natal porque queria passar o Natal na cidade onde nasceu. É assim evidente que Miguel Torga imbui os contos Vicente, Jesus, O Regresso, O Leproso e Natal da intertextualidade entre textos ficcionais e elementos bíblicos.
A intertextualidade surge através do diálogo entre os textos bíblicos e os textos literários de Eça de Queiró e Miguel Torga. Ao falarmos da presença de elementos religiosos na escrita de Eça e Torga, pudemos verificar que tanto o primeiro como o segundo tiveram contacto com ensinamentos religiosos. Assim, Eça de Queirós e Miguel Torga escreveram os seus Evangelhos desviados pelas linhas rectas da tradição ocidental.