Os movimentos sociais são de grande importância na construção da cidadania, por isso foi proposta esta pesquisa que teve como objetivo verificar os apontamentos encontrados na literatura acadêmico-científica sobre Saúde Mental e Comunicação, entendendo sua relevância a partir dos objetivos traçados pelo Movimento de Reforma Psiquiátrica. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica qualitativa que analisa a possibilidade de utilização de rádios comunitárias como dispositivos de saúde mental que favorecem a reinserção e a comunicação social de pessoas com sofrimento mental. Os resultados mostraram que as rádios comunitárias são um importante dispositivo de promoção da saúde mental e de salvação da cidadania para essas pessoas com sofrimento mental, que vivem em condições de vulnerabilidade psicossocial e que, apesar dos entraves para o desempenho eficaz do serviço público, este serviço pode ser melhorado através de ações intersetoriais.
A partir do movimento da reforma psiquiátrica, os profissionais de saúde mental defenderam o combate à discriminação das pessoas com doenças mentais e, através da articulação com outras políticas públicas, defenderam a reinserção psicossocial. Nesse sentido, este trabalho de pesquisa bibliográfica qualitativa propôs o seguinte problema norteador: como a literatura acadêmico-científica em Saúde Mental e Comunicação destaca as rádios locais como ferramenta de promoção da saúde mental e da reinserção social de pessoas com doenças mentais.
M OVIMENTOS SOCIAIS E CIDADANIA
Os movimentos sociais populares, identificados como organizados, conscientes e prontos para combater forças, são artesãos de primeira ordem no processo de transformação social, embora uma série de fatores (liberdade, consciência, sindicato) e atores (pessoas, igrejas, representações políticas , organizações) somam-se antes que as mudanças se tornem realidade (PERUZZO, 2009, p.35). Este autor defende ainda que a comunicação está ligada aos processos de mobilização dos movimentos sociais ao longo da história e de acordo com os recursos acessíveis de cada época. No Brasil, tais movimentos sempre utilizaram meios próprios de comunicação, até mesmo pela restrição de sua liberdade de expressão por meio da grande mídia.
O processo que vai do panfleto ao jornal, e dele ao blog e site na internet, do megafone ao alto-falante e dele à rádio comunitária, do slide ao vídeo e dele à TV Livre e o Canal Comunitário à televisão por cabo. o exercício concreto do direito à comunicação como mecanismo para facilitar os esforços para alcançar os direitos de cidadania. A delegação de poder a processos de comunicação independentes é percebida como uma necessidade como canais de expressão nas dinâmicas de mobilização e organização popular. Também pode ser chamada de comunicação participativa, popular, horizontal ou alternativa, entre outras expressões, para se referir ao processo comunicativo realizado por movimentos sociais populares e organizações da sociedade civil sem fins lucrativos.
Comunicação comunitária significa comunicação desenvolvida democraticamente por grupos populares em comunidades, bairros, espaços online, etc., de acordo com os seus interesses, necessidades e capacidades. A experiência concreta da democratização da comunicação é um importante caminho para a reconstrução da cidadania e uma forma eficiente de comunicação comunitária e popular, que segundo Peruzzo (1998) existe. Produto de uma situação concreta, o seu conteúdo tem-se moldado essencialmente nos últimos anos pela denúncia das condições reais de vida, pela oposição às estruturas de poder causadoras de desigualdade, pelo incentivo à participação e à organização, pela exigência de acesso a bens de consumo colectivo, etc.
Nesse sentido, é necessário destacar dois movimentos sociais que trouxeram mudanças significativas nas formas de prestação de cuidados e de comunicação: o movimento antimanicomial e o movimento de democratização da comunicação que.
O MOVIMENTO DA LUTA ANTIMANICOMIAL
O Sistema Único de Saúde (SUS), fundado em 1988 e ainda em processo de democratização no Brasil, tem como princípios norteadores a saúde como direito fundamental e a obrigação do Estado em garanti-la. Enfatiza também a sua integralidade, a igualdade, a sua totalidade e a participação da população usuária, para que a visão da saúde busque ações além dos fatores biológicos, pois “é entendida em relação ao contexto econômico, social e cultural do país, ou seja, os processos de saúde/doença dizem respeito a situações de moradia, saneamento, renda, alimentação, educação, lazer e acesso a bens”. A lei é composta por uma série de órgãos governamentais federais, estaduais e municipais interligados em um único sistema, que se refere ao Sistema Único de Saúde (SUS). Em 1992, grandes avanços foram alcançados no Brasil na promoção da desinstitucionalização do setor psiquiátrico, da descentralização das atividades de saúde, das diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), da universalidade e da integralidade.
Essas conquistas são materializadas em II. conferência nacional sobre saúde mental (AMARANTE, 1995 e SCHEFFER et al, 2014, p. 370). A lei direciona os cuidados de saúde mental para não-abrigos para pessoas com problemas de saúde mental e estabelece um novo padrão. Também estipula a implantação de residências terapêuticas e centros de atenção psicossocial (CAPS) como direitos dessas pessoas, instalados pelo Estado (VASCONCELOS, 2008 e SCHEFFER et al, 2014).
O movimento social formado por profissionais, usuários e familiares lutou por uma mudança no modelo de atenção psiquiátrica e promoveu a implementação da reforma psiquiátrica e defendeu a mudança no modelo de atenção psiquiátrica, ou seja, a redução de leitos e o fechamento de unidades psiquiátricas. hospitais, também chamados de manicômios, e construindo serviços como Centros de Atenção Psicossocial - CAPS. A reforma psiquiátrica favoreceu a mudança dos modelos de atenção e de gestão na prática em saúde, defendendo a saúde comunitária, a igualdade na prestação de serviços, o protagonismo e a autonomia dos trabalhadores e usuários dos serviços de saúde mental nos processos de gestão e produção de tecnologias em saúde (BRASIL, 2005). As mudanças ocorridas nos Serviços de Saúde Mental romperam com as experiências dos usuários, historicamente brutais e desumanas.
A nova concepção de saúde mental prioriza o indivíduo e não a sua doença e mostra a necessidade de um tratamento humanizado.
O MOVIMENTO DE DEMOCRATIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO
As Rádios Comunitárias
O Ministério das Comunicações define rádios comunitárias como um serviço de radiodifusão comunitária instituído pela Lei 9.612 de 1998 e regulamentado pelo Decreto nº 2.615 do mesmo ano. É um tipo especial de estação de rádio FM, com alcance limitado a no máximo 1 km da antena transmissora. {..} A rádio comunitária deve promover a cultura, a vida social e os eventos locais; reportagens sobre eventos comunitários e de interesse público; promover atividades educativas e outras para melhorar as condições de vida da população. Uma rádio comunitária não pode ter fins lucrativos nem ter qualquer forma de afiliação, tais como: partidos políticos, instituições religiosas, etc.
As rádios comunitárias são de natureza pública e criadas na comunidade para a sua gente, são espaços onde os moradores partilham as mesmas situações, problemas e têm total liberdade para expressar as suas reivindicações. A rádio local está geralmente associada a uma atividade relacionada com os problemas do local onde está inserida, com a expectativa de desenvolver a cultura local, num exercício que promova a cidadania e produza conhecimento de acordo com a realidade da sociedade em questão (DETONI, 2009 apud JÚNIOR, 2012 p.185). A importância da mídia comunitária reside na emergência do estado do cidadão, no processo de instigar a expansão da cidadania ao participar ativamente do segmento social e local de diversas formas, desde a publicidade até o método de fazer rádio (PERUZZO, 2005 , apud FORTUNA, 2013, p.49).
As pessoas que se comprometem com esse processo têm a oportunidade de mudar a forma como veem o mundo e interagem com ele (PERUZZO, 2002, apud FORTUNA, 2013, p.49). As rádios comunitárias trazem consigo um grande potencial de participação e inclusão social, que difere dos meios de comunicação convencionais na medida em que proporciona uma relação de igualdade/justiça entre as pessoas da comunidade e essa comunidade com a população em geral. Nesse sentido, Deliberador e Lopes (2009, apud FORTUNA, 2013, p.49) enfatizam que a participação efetiva da população nos processos comunicativos tem a função de encontrar respostas aos desafios territoriais de conhecer e enfrentar seus problemas, que sentido de pertencimento à comunidade que cresce à medida que constroem sua cidadania.
A participação das pessoas na produção e transmissão de mensagens, a partir dos mecanismos de planejamento e produção da comunicação comunitária, contribui para que elas se tornem sujeitos, sentindo-se capazes de fazer o que estão acostumadas a receber, e o principal ator para se tornarem os comunicadores e não apenas receptores ( PERUZZO, 2002, apud FORTUNA, 2013, p. 84).
A RELEVÂNCIA DO DIÁLOGO INTERSETORIAL
Devido à escassez de estudos sobre rádios comunitárias e suas implicações na comunicação em saúde mental, a pesquisa desenvolvida teve caráter exploratório, pois teve como objetivo realizar um estudo primário sobre as possibilidades de utilização de rádios comunitárias como ferramenta de promoção de saúde mental e social. . reintegração de pessoas com sofrimento mental. Houve dificuldade em encontrar publicações académico-científicas que fizessem uma ligação direta entre a rádio comunitária, a promoção da saúde mental e a reintegração de pessoas com doença mental. As oficinas radiofônicas realizadas com usuários de saúde mental descritas na literatura foram: Rádio Tam Tam (SP), Programa Maluco Beleza (SP), Papo-cabea (SP), Papo Cabeça (RS), Coletivo Potência Mental (RS), Rádio da pessoas- BA (HAYNE, 2004) e Ondas Parabolinoicas (SP).
Fortuna e Oliveira (2012, p.17) mencionam que a maior parte das experiências encontradas constituem terapias substitutivas ao modelo hospitalocêntrico e estão articuladas com políticas públicas em saúde mental no que diz respeito ao trabalho intersetorial e à possibilidade de oferecer outros meios de promoção da saúde . e reintegração de pessoas com doenças mentais. De acordo com a análise das experiências mapeadas no Brasil, os espaços onde essas experiências ocorrem são: implantados nos próprios serviços de saúde mental (CAPS); instituições externas, em rádios locais; em emissoras comerciais e via Internet. Ações intersetoriais e territoriais em saúde mental podem desenvolver autonomia e estimular a inscrição em outros espaços sociais de pessoas com doenças mentais, sendo fundamental que os profissionais de saúde se aproximem e construam o comprometimento para trabalhar de forma intersetorial.
O objetivo do trabalho foi identificar a viabilidade da utilização da rádio comunitária como ação intersetorial em saúde mental. Os autores ressaltam que as rádios comunitárias podem ser um importante caminho para a reinserção social, pois servem para compartilhar ideias, sentimentos, crenças e conhecimentos entre as pessoas com sofrimento mental participantes do programa e a comunidade, dispositivo esse na opinião deles é muito significativo, superar estigmas relacionados à saúde mental. Essas obras são apenas um exemplo do poder das rádios comunitárias como dispositivos de promoção da saúde mental e de restauração da cidadania para pessoas com sofrimento mental.
O segundo foi o Movimento pela Democratização da Comunicação, que possibilitou o desenvolvimento e a expansão da comunicação comunitária, culminando na implementação de oficinas radiofônicas nos serviços de saúde mental. Artigo apresentado na Conferência Regional sobre Reforma dos Serviços de Saúde Mental: 15 anos depois de Caracas. Mapeando práticas de radiocomunicação como terapia psicossocial em serviços de saúde mental no Brasil.