Este trabalho visa, essencialmente, a partir do estudo do “Bando da Mantiqueira”, discutir a extremamente complexa questão dos pobres livres residentes na capitania de Minas Gerais, essencialmente os ciganos. Por meio de bases documentais e bibliográficas, pretende-se relacionar a pobreza verificada nas Minas coloniais com a crescente criminalidade verificada naquela região. Por meio da análise da ação desses assaltantes e de outros estudos complementares, como a análise comparativa com as formas de ação dos quilombolas mineiros, é possível compreender quais eram os modos de vida dos pobres livres em Minas Gerais no século XVII. .
Assim, pretende-se partir da premissa, já trabalhada por outros autores, como Laura de Mello e Souza, de que a pobreza e a miséria em Minas foram compensadas pelo injusto processo econômico estabelecido entre Portugal e sua colônia, com destaque para a capitania. de Minas Gerais. . Assim, além da quadrilha da Mantiqueira, iremos pesquisar a extremamente complexa questão dos pobres livres que vivem na cacicidade de Minas Gerais, tentando fugir das perspectivas tradicionais. Poucos escritores abordaram o complexo problema da criminalidade em Minas Gerais no século XVIII.
Laura de Mello e Souza, com base nos estudos de Caio Prado Júnior, realizou uma análise da desclassificação social em Minas Gerais no século XVIII. Segundo o autor, a inquietante busca dos indivíduos pelo senso de honra, fato social objetivo a ser conquistado pelos garimpeiros, era vista como um meio de sobrevivência de extrema importância nas minas. Como objeto de estudo em nossa pesquisa, daremos atenção aos bandidos da Mantiqueira, considerados pelos estudiosos do assunto como a maior quadrilha existente na Minas Gerais colonial.
Por outro lado, a marginalidade sugere algo separado de um todo uniforme, composto pela sociedade.
ASPECTOS SOCIAIS DAS MINAS SETECENTISTA
Nesse contexto, o desenvolvimento do processo de estratificação social em Minas Gerais pode ser observado em um momento de acentuada heterogeneidade social. Em outras palavras, o Estado se propôs a fragmentar a sociedade, os sistemas de divisão social do trabalho foram definidos tanto quanto possível, o que poderia facilitar seu controle. No entanto, tal medida foi considerada paradoxal, pois como integrar e consolidar as estruturas socioeconômicas através do processo de divisão social.
Vivendo mal e alimentando-se de forma insegura, esses desqualificados foram excluídos do sistema econômico por violentas superestruturas de poder. Possuíam certas características especiais, que os tornavam elementos não isolados do sistema social mineiro. Em outras palavras, eram preguiçosos que poderiam ser úteis à coroa por meio de atividades como construção de presídios, obras públicas ou formação de milícias e corpos militares.
3. Segundo Antonil em sua obra Cultura e opulência do Brasil, as datas são dadas aos garimpeiros "em medida proporcional ao número de escravos que trazem para recolher, duas braças ao quadrado para cada escravo ou índio que servem nas catas (..)" (Antonil, p. 169). 5. Tal análise corresponde aos estudos de Laura de Mello e Souza em sua obra Desclassificados do Ouro, Editora Graal, 1982, p.
TEMORES NAS MINAS DO OURO
No entanto, o estigma da doença atingiu outros segmentos sociais e diversas etnias por toda Minas, como os índios selvagens dos sertões, como os Botocudos, e os pobres Homens Livres. Prostitutas, adúlteros e bêbados se misturavam a negros fugidos e bandos de assaltantes formados por ciganos, pobres livres e índios selvagens. O sincretismo religioso se misturou à devoção cristã, e assim percebeu-se a possibilidade de concretizar uma mentalidade que mesclava magia e realidade concreta.
Além dos mendigos, a partir do século XV havia um medo real de grupos de ciganos espalhados pelo Ocidente, particularmente em países como Portugal e Espanha. Nos países brasileiros, especialmente nas Minas Coloniais, existem documentos que acusam a presença de ciganos em quadrilhas de assaltantes. Tiradentes”, ordenou à tropa que atacasse mais de uma vez o reduto desses criminosos, prendendo e matando dezenas de ciganos.
Tratar-se-ia de um certo Padre Arruda, chefe de uma quadrilha que atuou em período (1831) que escapa à nossa investigação, e que, portanto, não será abordado aqui. O viajante Richard Burton, que percorreu as Minas em 1867, reconheceu certas tradições obscuras daquela serra.
CAMINHO NOVO: PALCO DOS ASSASSINOS, CONTRABANDISTAS E LADRÕES
Ou seja, o sertão da Mantiqueira passou a ser considerado uma área vedada à ocupação em locais onde não havia registros, passagens e mesmo patrulhamento na mata. Apesar da abertura de alguns caminhos em 1755, Freire de Andrade tentou colocar o sertão da Mantiqueira como área proibida, conforme documento abaixo enviado a Martinho de Melo e Castro;. Vê-se que a Coroa, inclusive Martinho de Melo e Castro, tinha interesse em começar a distribuir as terras minerais e agrícolas da Mantiqueira.
Assim, como se vê, a ocupação das matas gerais da Mantiqueira por concessões de sesmarias foi uma solução para os persistentes problemas de violência na região, além de estimular novas descobertas. Segundo André Figueiredo Rodrigues, em seu artigo intitulado O sertão proibido da Mantiqueira: evacuação, ocupação do terreno e observações do governador D. cume da serra.
Os assaltantes da Mantiqueira já atuavam há muito tempo, matando e saqueando contrabandistas, inclusive os pós-negros do achado de Macacu. Porém, nada ainda havia sido descoberto e o mistério sobre o paradeiro dos assaltantes da Mantiqueira continuava. Várias providências foram tomadas, como mostra esta correspondência do tenente Joaquim José dirigida ao governador de Minas, na qual pede e sugere: "medidas a serem tomadas e para impedir esses roubos e mortes, acho que só colocando um destacamento no Alto da Mantiqueira com três soldados e um cabo e quatro lacaios para ir do Alto da Mantiqueira ao campo" 30.
Ressalte-se que pelo fato dos integrantes da referida quadrilha serem em sua maioria brancos, a pena não pôde ser executada de imediato, mas apenas o anúncio da prisão dos assaltantes trouxe tranquilidade aos comerciantes que estavam no interior de Minas Gerais. -comércio interessado. que finalmente poderia trabalhar com mais calma e sem medo dos bandidos da Mantiqueira. A violência dos bandidos da Mantiqueira pode, portanto, ser explicada por um processo de exclusão dos meios econômicos. O que se verá a seguir será uma continuação deste estudo, que agora envolve a ação dos quilombolas em Minas Gerais, tentando traçar uma relação com os assaltantes da Mantiqueira.
Para aproveitar a ocupação descontrolada de áreas proibidas, José Aires estabeleceu fazendas e serviços minerais na região da Mantiqueira. O que se segue é um estudo comparativo da Quadrilha da Mantiqueira com os mocambos mineiros, buscando compreender a extremamente complexa questão dos pobres livres. Também encontramos na quadrilha da Mantiqueira a presença de um líder, que comandava todos os assaltos.
As ameaças que inquietaram os viajantes mineiros ao longo do século XVIII foram, sem dúvida, as atividades criminosas dos quilombolas, além da formação de quadrilhas de ladrões, como a quadrilha da Mantiqueira no início da década de 1980 do mesmo século. Porém, não será feita essa análise, pois seria uma extrapolação dos objetivos desta pesquisa, pois como se sabe, pretendeu-se apenas realizar um olhar comparativo entre o quilombo e a quadrilha da Mantiqueira.
RELA
Gerais, a Martinho de Mello e Castro, ministro das Relações Exteriores da Marinha e do Ultramar, que informou ter enviado membros de uma quadrilha, presa por seu antecessor, ao gabinete do Rio de Janeiro, por dúvidas sobre as punições que serão impostas se aplicam a eles porque são brancos. Rodrigo José de Meneses sobre o estado de decadência da chefia mineira e as formas de corrigi-la”.
ANEXOS
H.U CAIXA 119, DOCUMENTO 36
Carta de D. Rodrigo José de Meneses, Governador de Minas Gerais, a Martinho de Mello e Castro, informando-o das providências que tomara para acabar com a companhia de assaltantes que infestava o caminho de Minas à capitania do Rio de Janeiro. No início do mês de abril do presente ano, descobriu-se que a estrada desta capitania à do Rio de Janeiro estava infestada de numerosa companhia de assaltantes, que haviam roubado e matado algumas pessoas que por ela passavam. . Para melhor alcançarem seus hediondos desígnios sem serem presunçosos, trajando um uniforme de soldado fingindo ser o da patrulha que gira ao longo da referida estrada, detiveram os transeuntes e conduziram as miseráveis vítimas que serão objeto de sua cobiça, para o interior da mata, e ali os assassinaram, e até mataram os cães que alguns haviam acompanhado, para que os sinais que pudessem detectá-los fossem totalmente extintos.
Mas como a prudência humana ajuda nos casos em que a vantagem humana não pode alcançá-la, e aconteceu que o homem de Sabaray, que deveria chegar infalivelmente na hora marcada, não apareceu no Rio de Janeiro, sua ausência foi notificada ao irmão, que também enviou parte desta notícia à ouvidoria daquela Comarco. Eu imediatamente enviei ordens para. se você olhar; E quando José Aires Gomes, tenente-coronel do primeiro regimento auxiliar do Rio das Mortes, andou nessas perseguições, encontrou várias sepulturas com cadáveres de pessoas, algumas delas famosas, cujos vestígios ainda são visíveis, como logo me informou. Extraordinária em 10 de abril e 3 de junho de 1781, na qual pediu foral régio, o mesmo que o concedido ao Conde Valadares e a D. Antônio de Noronha.
Excepcionalmente, esta notícia acalma os ânimos com a certeza da apresentação dos réus; pois é provável que ele venha a esta corte por muitas rotas, e vai incomodar o resto, especialmente os mercadores, que estão interessados no comércio com Minas, e que estariam expostos a grandes coisas, se aquela companhia não tivesse sido dispersada. .