Tese (Doutorado em Políticas Públicas e Formação Humana) – Faculdade de Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2020. AHTJMA - Arquivo Histórico do Tribunal de Justiça do Maranhão APEM - Arquivo Público do Estado do Maranhão. Uma delas foi sobre a perseguição sofrida pelos terreiros do Terecô no Maranhão por parte do estado.
Ancestralidade e encantamento
Uma forma de entender que tipo de encantos obtemos com os toques é prestar atenção nas letras das doutrinas. Tendo essas características, é levado pelos encantados da família Légua-Boji Boá da Trindade. Pessoas fascinadas, mais aceitas no terreiro, passam a fazer parte deste grupo.
O Terecô e a ancestralidade africana na diáspora
Os estudos de práticas terapêuticas de cura sempre enfrentam múltiplos contextos complexos e legados culturais. 39 Ana Paula é mestra curandeira no Terreiro Santo Antônio, onde fiz minha pesquisa de mestrado. A prática terapêutica de cura ou magia de cura é evidente nas religiões de matiz africana no Brasil.
A prática da pajelança no Maranhão
Outra característica que distingue a pajelança nativa da pajelança negra são os instrumentos de percussão utilizados durante as sessões. Mas mesmo que existam diferenças entre os rituais da pajelança indígena e da pajelança do terreiro, eles se complementam ao mesmo tempo, flexibilizando essa classificação. Segundo Ferreti (2001), embora atualmente em muitos terreiros do Maranhão, a pajelança preta ou terreiro do século XIX, o pai de santo atuante nas linhagens de cura/pajelança, parece inspirar-se em técnicas terapêuticas utilizadas pelos xamãs indígenas, os negros ou terreiros. pajelança do século XIX independente do xamanismo indígena.
Pajelança e Terecô: saberes e práticas imersos em um universo cultural
Analisar a perseguição e intolerância ao povo do Terecô Maranhão e suas práticas curativas, no final do século XIX e primeira metade do século XX, objetivo deste trabalho, entendo que é de fundamental importância para a raça questão no Brasil nesse período. A transição do século XIX para o século XX levou a elite brasileira a se preocupar com o desenvolvimento do Brasil e com o processo de modernização rumo à civilização que o país deveria alcançar. Parte da elite intelectual brasileira do final do século XIX e início do século XX buscou seus arcabouços de pensamento na ciência da Europa Ocidental, considerada desenvolvida, não apenas para poder teorizar a situação racial de seu país, mas também e, sobretudo, propor caminhos para a construção da sua nacionalidade, considerada problemática devido à diversidade racial.
Identidade nacional: “a invenção da nação”
Segundo o autor, o homem não nasce com uma identidade nacional pronta, mas é constituída por representações. Assim, segundo os estudos de Stuart Hall, a identidade nacional se constitui nas ações do indivíduo como parte da nação. A identidade nacional não é determinada pelo seu valor de verdade, mas pela sua eficácia na produção de uma comunidade imaginária que é percebida como única.
O branqueamento da nação e o mito das três raças
As políticas públicas de “higienistas” e a desqualificação das tradições
No contexto das teorias raciais, a eugenia ganhou grande alcance, sendo o principal meio de difusão do racismo científico. Além disso, há o Instituto Brasileiro de Eugenia no Rio de Janeiro, criado em 1929, bem como os Concursos de Eugenia entre 1929 e 1932, realizados em São Paulo. Apelaram, portanto, ao aperfeiçoamento racial e condenaram as prostitutas, os deficientes físicos e/ou mentais, os negros e os dependentes químicos, e recomendaram que estes, então classificados como “degenerados”, fossem esterilizados para impedir a reprodução deles (FIUZA, 2016).
Além disso, estabeleceram a necessidade de testes de casamento para evitar que os casais gerassem filhos “degenerados” através de características transmitidas por herança. Além da questão da melhoria racial, a eugenia também discutia os problemas de saúde pública e higiene e educação sexual, que incluíam “males sociais”. Tais políticas aumentam a perseguição ao conhecimento dos desencantados, considerados “desqualificados” pela elite intelectual.
Tais conhecimentos seriam, portanto, relíquias de um passado sem futuro, pois seriam exclusivos da modernidade ocidental. A epistemologia ocidental dominante foi construída sobre as necessidades da dominação colonial e baseia-se na ideia de pensamento abissal. Este pensamento opera através da definição unilateral de linhas que dividem experiências, conhecimentos e atores sociais entre aqueles que são úteis, compreensíveis e visíveis (os que estão deste lado da linha) e aqueles que são inúteis ou perigosos, incompreensíveis, objeto de opressão ou esquecimento (os que estão do outro lado da linha) (SOUSA SANTOS, 2009).
É neste cenário de desqualificação identitária das tradições negras que o conhecimento dos enfeitiçados é ainda mais perseguido pelo Estado, em que mágicos, curandeiros e xamãs são considerados criminosos.
O mito da democracia racial no Brasil
O contexto político e social da sociedade brasileira e do mundo na década de 1930 é fundamental para compreender a relevância que o conceito de democracia racial passou a ter. Em seu livro Preto no Branco52, o pesquisador Thomas Skidmore (1976) faz um estudo das relações raciais brasileiras e argumenta que a elite predominantemente branca na sociedade brasileira promoveu a democracia racial para obscurecer formas de opressão racial. O mito de que não há conflito racial no Brasil é resultado da difusão do conceito de democracia racial.
Segundo Santos (2015), um dos defensores da ideologia da democracia racial seria a crença de que o desenvolvimento econômico, a modernização e a industrialização do país, principalmente, colocariam os negros na competição por espaço no mercado e na vida social. , como iguais, assim como os brancos. Segundo o autor, os dois principais pilares da democracia racial (igualdade de oportunidades e ausência de conflitos) são uma realidade para as minorias raciais que vivem no Brasil (como alemães, italianos, etc.), mas isso não lhes convém. na realidade dos afrodescendentes, sendo, portanto, um mito da sociedade brasileira. Esse contexto de estabelecimento de uma democracia racial no Brasil, onde todas as raças viviam em “harmonia” e os brasileiros eram racialmente identificados pela intersecção racial de brancos, negros e índios, serviu para uma pesquisa denominada Projeto UNESCO, patrocinada pelas Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), entre 1951 e 1952.
Apesar do orgulho pela democracia racial defendido pela maior parte da sociedade, tornou-se claro que ainda estava presente um passado escravista, onde os negros e as suas tradições eram efectivamente estereotipados e deixados à margem da sociedade. A democracia racial é algo que ainda está longe de ser alcançado e é um mito em que a sociedade brasileira acredita “teimosamente”. Num país com um cenário de desqualificação identitária das tradições negras, perseguição aos terreiros e remédios curativos de tradições como o Terecô entre outras, como é o caso do Brasil, a democracia racial não pode existir.
As tradições culturais negras brasileiras continuam a ser perseguidas, umas mais que outras, e o Estado e parte da sociedade brasileira continuam a discriminar o conhecimento dos encantados.
Instrumentos de controle e repressão do estado contra as práticas
O papel da medicina na tentativa de controle das práticas terapêuticas
A partir da segunda metade do século XIX e início do século XX, a medicina esteve associada à própria questão nacional e à crítica às estruturas de poder que vigoravam desde a República Velha. A gênese desse projeto de controle começou na segunda metade do século XIX, quando as questões de saúde se tornaram uma área intimamente ligada às discussões políticas no Brasil. No início do século XX, a cidade sofria sem planejamento urbano, pois não havia saneamento básico, as ruas eram mal iluminadas, úmidas e fontes de doenças para a população.
Essa busca pelos curativos ganhou nova forma e se intensificou quando os primeiros médicos do Brasil começaram a se formar nas faculdades, na primeira metade do século XIX. Tais fatores demonstram a recente hegemonia da ciência “oficial” no país, que teria crescido significativamente no final do século XIX e início do século XX, com as reformas urbanas consideradas pelos governantes como um problema de saúde pública (BANDEIRA, 2013). Contudo, devo enfatizar que os remédios curativos não perderam seu lugar entre a população.
Mesmo com o predomínio da medicina “oficial”, fica evidente que os agentes de cura com seus frascos, ervas, raízes e bênçãos os possuíam. Pela pesquisa realizada durante este trabalho, entendo que o estado do Maranhão utilizou a medicina como forma de controle da população pobre na primeira metade do século XX, o que não foi um caso isolado naquele estado. Nesse sentido, posso afirmar que os órgãos públicos que foram instituídos para atuar na área da saúde pública no Maranhão no final do século XIX e início do século seguinte, nada mais são do que formas de controle dos indivíduos por meio de a padronização de instalações.
De qualquer forma, a Polícia Sanitária era um dos principais órgãos de controle das políticas públicas “higiênicas” no Maranhão, e os medicamentos eram os principais alvos de tais políticas públicas.
O discurso construído pelos jornais sobre a prática da pajelança ou
Segundo os recortes citados acima, de matérias publicadas pelo Jornal Monitor Codoense (1895), os curativos eram de tradições negro-brasileiras. O papel do aparelho estatal seria “limpar” a sociedade desse mal e erradicar as práticas culturais dos negros e os seus remédios curativos. Denúncias sobre práticas xamânicas e prisões de curandeiros no Maranhão estiveram presentes em matérias do Jornal Pacotilha de São Luís, de 1912 a 1917 (Tabela 1).
23 de outubro Prisão do curador 31 de outubro Relatório da casa do Xamã 30 de dezembro Relatório da casa do Xamã. Destaco duas partes das reportagens de intolerância às práticas da cultura negra e seus agentes de cura publicadas pelo Jornal Pacotilha (figuras 28 e 29) 69. De acordo com os dados da tabela anterior, as prisões de agentes de cura eram frequentes, foi analisado proporcionalmente em relação a outras matérias sobre a prática da pajelanca no Jornal Pacotilha.
Contudo, isso não significa que a partir de meados do século XX tenha terminado o controle e a supressão dos templos de pajelanches e agentes de cura. Nem mesmo se a mídia impressa tivesse parado de publicar histórias depreciativas sobre as práticas de cura presentes na cultura negra. Isto significa que as práticas culturais de cura presentes no Terecô e outras tradições de origem africana sobreviveram até hoje.
As práticas curativas presentes nas tradições negro-brasileiras tiveram papel fundamental nesse período. Assim, os agentes de cura passaram a atuar não apenas no território médico e religioso, mas também no social e político. ANEXO C - Recortes de jornais com matérias sobre denúncias e contestação de denúncias de curadores e pajelancas.