Ambos os autores, com base no texto da Convenção sobre os Direitos da Criança (1989), e mais especificamente no art. Pensar na questão dos direitos das crianças e dos jovens confirma, na verdade, a visão de que os direitos humanos são frágeis. hegemonia, como defende Santos (2013, p. 15).
Pensando a relação entre o sujeito de direitos e a lei
Estão instaladas engrenagens e obrigações coercitivas do sujeito de direitos, que estruturam o sistema de proteção: como aponta Nascimento (2014a), faz sentido investir na perspectiva liberal na medida em que um determinado número de liberdades o seja. presente. Portanto, a função do conhecimento especializado pode ser pensada como ferramentas que atualizam esse pragmatismo, estabelecendo e garantindo a existência do sujeito de direitos. Nesse sentido, Garapon (2001) postula que o sujeito do direito refere-se a alguém que tem autonomia para responder, como autor, com suas próprias palavras.
Assim, ao estendermos esta análise ao discurso da criança na justiça, podemos pensar que a obrigação de dizer e expor o que supostamente aconteceu implicaria no direito de se defender. O sujeito da lei seria a versão judicial do cidadão não mais associado a uma nacionalidade, mas simplesmente à sua condição de homem. Autorizado pela deputada Maria do Rosário e em tramitação na Câmara dos Deputados, o referido PL visa criar um sistema de garantia dos direitos de crianças e adolescentes vítimas e testemunhas de violência, bem como prever outras medidas que possam, dessa forma, alterar a lei nº 8.069, de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente.
A avaliação realizada por psicólogos: a quem pertence o instrumento?
À medida que o processo de avaliação psicológica cria uma realidade, gera consequentemente a sua cristalização, em forma de conhecimento. Essa trajetória histórica pode ser visualizada desde o primeiro momento da suspeita de abuso sexual, passando pelo encaminhamento aos serviços especializados, até a etapa final da trajetória, o juízo criminal e o depoimento da vítima. Como alude o autor supracitado, este termo binómio corresponde a um processo político-jurídico cujo objectivo é a manutenção do sistema.
Foucault (2013, p. 20) nos mostra que nessa perspectiva, em que a verdade do sujeito é capturada e cooptada pelo judiciário, deixamos de considerar sua constituição histórica como um sujeito que não está dado de forma definitiva, mas sim “em um sujeito que se constitui na própria história e que ela justifica e justifica novamente a cada momento”. Segundo Brit (1993), foi introduzida neste contexto a psicologia do testemunho, em que o objetivo era determinar se os processos internos facilitam ou dificultam a credibilidade de um relato. Observamos que desde então o encontro entre as duas disciplinas quase sempre impõe o imperativo do direito, em que a verdade dos fatos adquire maior importância do que a verdade do sujeito, como diz Conte (2009).
A avaliação solicitada em tempos pós-modernos
É o discurso da criança ou do adolescente que inaugura a sua inscrição no círculo do Sistema de Garantia de Direitos, ao mesmo tempo que garante o status quo da vítima: mais do que se supõe, eles já se tornam crianças-vítimas e o discurso deles adquire a modalidade de presumir autenticidade, elevando-a a especial importância e crédito, legitimando-a como estatuto de prova, como aponta Coimbra (2009). Os autores demonstraram que a avaliação dos relatos das crianças se deve à compreensão que os juízes têm das circunstâncias confidenciais em que geralmente ocorre o abuso sexual, como a ausência de outras testemunhas além da própria vítima. 35 Segundo Bauman (2013), o termo “vigilância” constitui um elemento central da modernidade, uma vez que os requisitos de segurança, para controlar, monitorar, rastrear, classificar e validar, estão cada vez mais presentes e difundidos no cotidiano ocidental.
Este novo sujeito, diferente do sujeito moderno do passado, também passa a funcionar numa lógica diferente, onde as rotas de troca, não mais simbólicas, passam a ser regidas pelo mercado. É assim, na opinião do autor, que os modernos se disponibilizam a servir a opinião pública, publicando o conhecimento que a ciência produz - conhecimento especializado - ao mesmo tempo que burocratiza a administração. É pela pronta necessidade de resolução de conflitos individuais que podemos aludir à abundância de demandas dirigidas ao Judiciário, ao mesmo tempo que se criam novos serviços especializados.
O especialismo a serviço da técnica: a avaliação utilitarista
Para o autor, o que se torna inaceitável nesta suposição de que a ciência é conhecimento absoluto não seria esta qualidade de normatividade implícita no discurso estrutural em que qualquer sociedade se reproduz, mas sim, através da interpretação da objetividade, a intenção de escapar deste estado. Ou seja, atribuímos à ciência um poder que ela não possui e, com base no cientificismo generalizado, confundimos os registros da ciência e da normatividade jurídica, com os quais o autor sugere a perversão da função paterna responsável por testemunhar a institucionalidade. arranjo de legitimidade. Ou seja, a objetividade do direito, que estava em voga na época, também voltou ao esforço categórico de estabelecer um discurso para que esse direito fosse garantido.
Agora é preciso reconhecer que para questionar a ideia de instrumento é necessário que nem todas as ideias sejam da ordem de um instrumento, e que é justamente necessário atribuir algum valor a um instrumento. instrumento, que nem todos os valores são os de um instrumento, cujo valor subordinado consiste em encontrar outro. Na verdade, por um lado, podemos alertar que este tipo de psicologia não ignora a distinção entre teoria e aplicação; por outro lado, que a utilização não seja feita pelo psicólogo, mas pela pessoa ou pessoas solicitantes de laudos ou diagnósticos. Responderemos que, a menos que o teórico da psicologia se confunda com o professor de psicologia, é necessário reconhecer que o psicólogo contemporâneo é, na maioria dos casos, um profissional cuja “ciência” é inspirada em sua totalidade pelas “leis” de adaptação a um contexto social. ambiente técnico – e não um ambiente natural –, que confere sempre às suas ‘operações de medição’ um significado de avaliação e uma importância especializada.
O exercício da reflexão ética frente à gerência dos riscos
O autor postula que a ética se manifesta de forma imperativa, pois se apresenta a todos nós como um dever, a nível individual39, e como normas de uma cultura, a nível social. Não seria, portanto, um profissional de saúde disponível para exercer um dos seus instrumentos, por exemplo a escuta psicológica, mas sim a posição de enviado de um juiz, um intermediário e que, em consequência desta situação, isentaria o psicólogo da responsabilidade pelos seus prática, profissionalmente, a partir de sua ética. Porém, no momento em que começaram a expressar os interesses de um grupo, essas leis – a jurídica e a simbólica – seguiram um rumo divergente e esta foi degradada aos poucos.
Nesse sentido, o objetivo dos relatos é demonstrar que a criança ou adolescente, como suposta vítima, deve apresentar: a vivência de violência traumática, uma família negligente. O autor nos mostra que na mesma base, a proposta moderna que valoriza a liberdade e o desejo também promoveu a utilização do conceito de risco, baseado em uma concepção de autonomia individual, que define os modos de ser e de fazer. Através do crônico dever moral de cuidado, que neste trabalho pode ser traduzido a partir do princípio do ‘melhor interesse da criança’, percebemos que o psicólogo, como especialista e portanto autorizado pelo discurso científico, a responder a partir deste lugar . , contribui para a perpetuação de uma lógica refletida na gestão de riscos: ao munirmo-nos de ferramentas inequivocamente destinadas a revelar a verdade real como um método ilusório de garantir a proteção, oferecemos às crianças em “risco” um campo adequado para intervenções.
A avaliação psicológica como tática de inquisição e exame
O autor entende que a verdade real, também chamada de correspondente, substancial e material, é o critério argumentativo que sustenta a arquitetura processual inquisitorial no interior de um Estado democrático de direito, e que esta noção, combinada em três aspectos - político, jurídico e científico - sobrevive . ao longo da história ocidental, historicamente associada a regimes autoritários e totalitários, qualificados pela propriedade de produzir verdades através da prática de perseguições. Desta forma, o autor defende a tese de que as questões relacionadas com o que chama de “ambição excessiva pela verdade” se contrapõem às propostas de instauração de um Estado democrático de direito. Isto significa que a forma como os sistemas tratam a produção da verdade leva à impossibilidade de um sistema acusatório.
Ao relatório é, portanto, atribuído o estatuto de prova e, segundo Coimbra (2009), isso torna-se essencial num Estado Democrático de Direito44. Na compreensão da verdade do sujeito, ao ouvir um relato de suposta experiência de violência sexual perpetrada contra criança ou adolescente, cabe aos técnicos, além de apurar a veracidade dos fatos, reconhecer que há naquele relato , um. Segundo o autor, a busca pela verdade real “legitima uma série de práticas punitivas autoritárias, algo impensável em um Estado Democrático de Direitos” (p.2).
A avaliação psicológica como tática para a produção de provas
O homem, diretor de uma creche na cidade do Rio de Janeiro, foi condenado há nove anos, incluindo quatro anos em regime fechado. Como resultado dos laudos apresentarem contradições significativas, os dois especialistas foram denunciados ao Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro em 2010, e após o julgamento foram punidos pelo referido Conselho no final de 2014. relatando experiência, como psicóloga, em dois serviços especializados no atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência, localizados na cidade do Rio de Janeiro, pudemos trazer algumas contribuições para refletir sobre o tipo de prática que se constrói nesses espaços, onde o conhecimento técnico psicológico é chamado a responder, por meio de avaliações psicológicas, a solicitações de exposição de supostos abusos sexuais.
Como ouvir com seriedade crianças e adolescentes envolvidos em situações de violência e a rede de proteção: recomendações do Conselho Federal de Psicologia. Institui a regulamentação da escuta psicológica de crianças e adolescentes envolvidos em situação de violência na Rede de Proteção, 2010b. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social) - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2008.
Falsos laudos psicológicos levam homem a prisão e tortura, 2015. Disponível em: http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro lauds-. A Criança na Justiça: Trajetórias e Significados do Processo Judicial de Crianças Vítimas de Abuso Sexual Familiar.