As experiências cotidianas de uma escola de surdos – Instituto Nacional de Educação de Surdos, INES – influenciam a construção e mobilização desse conhecimento. Em 2009, sem grandes expectativas, entrei no concurso para ser professor de biologia no Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES.
Como a educação de surdos se desenvolveu ao longo do tempo?
A educação especial na perspectiva da educação inclusiva, pelo menos teoricamente, aumenta a participação de todos os alunos nas instituições de ensino regular. Lei nº. 9.394 de 1996 – Lei de Diretrizes e Fundamentos da Educação: O Capítulo V da LDB começa classificando a educação especial como uma modalidade de educação escolar para alunos com necessidades educacionais especiais, preferencialmente ministrada na rede regular de ensino.
Caminhos da educação de surdos no Brasil e no INES
Decreto nº. 6.571 de 2008: dispõe de apoio técnico e financeiro da União para ampliar a oferta de serviços educacionais especializados. Resolução nº 04 de 2009 – CNE/CEB: dispõe sobre diretrizes operacionais para o atendimento educacional especializado – AEE – na educação básica.
Métodos de ensino de surdos
Oralismo
Muitas delas diziam respeito à falta de educação dos surdos e ao projeto de integração deles na sociedade ouvinte. O oralismo marca a história da educação de surdos com manchas de violência e poder (LOPES, 2011) porque visava apenas a normalização da minoria surda – considerada anormal – que tinha que se comunicar de acordo com a maioria ouvinte – supostamente normal.
Comunicação total
Bilinguismo
Nossa pesquisa trata do ensino de saberes construídos por professores de biologia e ciências que atuam na educação bilíngue de alunos surdos do Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES. A formação inicial dos nossos três entrevistados não incluiu disciplinas específicas – educação de surdos ou educação especial – que pudessem auxiliá-los em suas carreiras como professores de alunos surdos. Essas trocas contínuas infundem no conhecimento docente a visão de um processo em constante movimento (BART, 1993), com uma evolução que vai muito além dos limites da aprendizagem acadêmica.
Porém, a convite de uma professora de Biologia e Ciências Naturais do Instituto e de uma amiga da família, ela finalmente se inscreveu no curso de especialização: “e eu falei ‘você quer saber uma coisa’. Embora nem todos oferecessem disciplinas específicas que tratassem do tema – educação especial e/ou educação de surdos – a professora Tássia foi apresentada ao tema de forma extremamente superficial. É ver o surdo além da sua marca física, é vê-lo como participante de uma comunidade, de uma cultura.
Que estratégias você costuma utilizar (ou já utilizou) para ensinar biologia para surdos? Você procurou alguma referência? Foi intuição?). Que estratégias você normalmente usa (ou já usou) para ensinar ciências e biologia para alunos surdos? Você estava procurando um recurso? Foi intuição?). O que você acha que fez e o que não fez como professora de alunos surdos no INES?
O que você acha que funciona melhor no seu trabalho com alunos surdos no INES?
A LIBRAS (ou LSB) e o contexto bilíngue de ensino
O multiculturalismo e suas concepções
O multiculturalismo pode ser descrito de forma simplificada como um conceito que se refere à existência de diferentes culturas no mesmo lugar, onde geralmente uma se sobrepõe. O multiculturalismo assimilativo baseia-se no princípio de que, embora vivamos numa sociedade multicultural, nem todos têm as mesmas oportunidades. O multiculturalismo diferencial ou monocultura pluralista enfatiza o reconhecimento da diferença, garantindo espaços onde esta diferença possa ser expressada.
A perspectiva intercultural apresenta-se como “[..] a promoção consciente da inter-relação entre os diferentes grupos culturais presentes numa determinada sociedade”. Desta forma, o interculturalismo apresenta-se como uma concepção de multiculturalismo que entende que diferentes culturas estão em contínuo processo de desenvolvimento. As pessoas exigem cada vez mais que a sua identidade cultural seja respeitada e que a sociedade como um todo aceite que não há forma de uma única cultura ser considerada hegemónica – ou pelo menos não deveria ser.
A cultura surda no contexto intercultural
Concordamos com Goodson (1995) quando afirma que “[..] no mundo do desenvolvimento de professores, o principal ingrediente que falta é a voz do professor”. (p. 69, grifo nosso) e por isso pretendemos ouvir essa voz e analisar os saberes docentes ali presentes. O conhecimento docente aparece como um conjunto de competências práticas relacionadas ao cotidiano dos professores. Nesta intervenção são colocados à prova os conhecimentos experienciais do professor, que podem ou não ser confirmados, mas trazem sempre novos conhecimentos aos professores que se permitem transferir.
Os professores utilizam em sua prática profissional tanto os conhecimentos adquiridos durante sua formação quanto os saberes produzidos em seu cotidiano, e é isso que faz com que o conhecimento docente venha das experiências que todo professor tem - e cruzadas: “O conhecimento da experiência se dá no relação entre conhecimento e vida humana. E o conhecimento da experiência não só faz parte do conjunto de conhecimentos, mas também constitui o lugar onde esse conhecimento é reunido. O conhecimento docente é um processo que se constitui no cotidiano do professor e está em constante movimento, pois é uma construção cultural que sofre influência do contexto em que o professor, como ator social desse conhecimento, está inserido e sua vivência. experiências.
Apresentando nossas entrevistadas
A professora Erika leciona há cerca de dez anos e lecionava no INES há oito meses no momento da nossa entrevista. Ela se formou no programa de formação de professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – FFP/UERJ – e nunca trabalhou com alunos surdos e ouvintes ao mesmo tempo. Trabalhou em algumas escolas particulares e na UERJ, mas atualmente trabalha apenas no INES.
A professora Tássia tem cerca de sete anos de experiência docente e nesse período atuou em algumas escolas particulares, no Colégio Pedro II – como professora substituta (temporária) – e como professora pública na Prefeitura do Rio de Janeiro. Sua experiência docente no INES é de cinco anos, mesmo tempo em que atua como docente na rede municipal. Atualmente ministra aulas no INES para alunos surdos e na Prefeitura do Rio de Janeiro para alunos ouvintes.
Educação especial, educação inclusiva, surdez: temas pouco ou nada
Este facto mostra-nos que embora as directrizes nacionais para a educação especial no ensino básico tenham sido estabelecidas em 2001, as mudanças práticas ainda demoraram a acontecer - o texto da política nacional para a educação especial na perspectiva da educação inclusiva só foi publicado este ano . 2008. 3. As ponderações deverão constar como currículo obrigatório nos cursos de formação de professores para a docência, nos níveis médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, nas instituições de ensino públicas e privadas, na rede federal de ensino e nos sistemas de ensino do estados, o distrito federal e os municípios. 1. Toda a formação nas diversas áreas do conhecimento, o curso secundário superior geral, o curso normal superior, o curso pedagógico e o curso pedagógico especial são considerados cursos formativos para professores e profissionais da educação exercerem a docência.
2º Libra passará a ser disciplina optativa nos demais ensinos superior e profissionalizante a partir de um ano após a publicação desta decisão. O processo de incorporação da Libras como tema de aprendizagem deve começar nos cursos de Educação Especial, Fonoaudiologia, Pedagogia e Letras, e se expandir gradativamente para outras séries. A construção do conhecimento dos professores permeia as instituições de ensino pelas quais o professor passou – como aluno e como profissional – e se molda a partir do cotidiano de seus atores sociais.
Para além da formação inicial: outras experiências formativas
Assim, após se formar e atuar como professora universitária19 em 2008, iniciou o curso de LIBRAS na Feneis20, aproveitando o fato de ser próximo ao seu local de trabalho – a UERJ. Um dia sobre deficiência intelectual, um dia sobre surdez, um dia sobre cegueira e baixa visão, outro dia sobre altas habilidades [..], cada dia é diferente. Ela refletiu sobre esse tema ao longo de sua experiência como professora na UERJ, a partir de seu olhar sensível sobre os alunos surdos inseridos na rede regular de ensino, com quem teve contato ao acompanhar sua turma de alunos de graduação da UERJ em atividades de prática supervisionada na escola. . .
A professora Tássia concluiu sua pós-graduação na UFRJ, em curso de mestrado profissional voltado para professores de biologia. Então havia discussões em sala de aula sobre como ensinar aquele conteúdo, mas na aula só estava eu, como professora de surdos, e outro aluno que era professor de deficientes visuais. Nenhum dos outros estudantes de pós-graduação teve que lidar com esse tipo de situação, então eles montaram tudo, hein.
Os desafios postos pelo ingresso no corpo docente do INES
Mesmo pensando assim... ah, eu sabia que não tinha preposição, coisas assim, mas português tem. Fiz um curso de LIBRAS de um mês aqui quando cheguei no INES e fui direto para a sala de aula. Então, nada que eu aprendi no curso – nada, né – mas o que aprendi no curso estava longe de ser suficiente para o que eu precisava usar em sala de aula, então foram os alunos que me explicaram como usar. a língua deles e era eu.
A maioria das coisas que uso para meus alunos ouvi em algum lugar, alguém disse, ou disse. Algumas das práticas que estou trabalhando aprendi há algum tempo, desenvolvi em aulas experimentais, mas a maioria delas ouvi falar de mim mesmo e resolvi experimentar. Então acho que diria que as coisas são comuns, a diferença é que o cara tem que olhar para mim 100% do tempo durante a conversa se estou falando em LIBRAS.
A experiência como espaço de (trans)formação de saberes (e pessoas)
Pelas falas dos professores pudemos concluir que durante seus estudos não havia nenhuma disciplina específica que se enquadrasse na temática da educação especial ou da educação de surdos. A formação complementar da professora Regina, apesar de ser uma especialização na área de educação de surdos organizada pelo INES, não garantiu todos os conhecimentos necessários para a prática em sala de aula com alunos surdos. O fato dos demais professores entrevistados não terem recebido formação complementar específica para a educação de surdos e se apresentarem como professores que podem orientar seus alunos na construção de conhecimentos relacionados às disciplinas de Ciências Naturais e Biologia, confirma essa ideia.
Mesmo sem conhecimento de teorias relacionadas aos Estudos Surdos – ou pelo menos, conhecimento formal dessas teorias – nossos entrevistados demonstraram que a intuição e o bom senso levam ao respeito por uma das principais características das pessoas surdas – uma qualidade primordial, que permite o seu reconhecimento como um grupo – a experiência visual. A educação de alunos surdos no Brasil do final da década de 1970 a 2005: análise de documentos de referência. O INES e a educação de surdos no Brasil: aspectos da trajetória do Instituto Nacional de Educação de Surdos em seus 150 anos de história.