Portanto, certas representações do corpo negro que dialogam com o Grotesco basearam-se na percepção dos corpos como “nós” e “outros”, forjados na época colonial e perpetuados a partir da época colonial. Com este capítulo pretendemos demonstrar, a partir do filme Praça Paris, como permanecem no presente certas representações do corpo negro, que dialogam com o conceito de corpo grotesco, forjado a partir da colonialidade.
Um filme de Lúcia Murat
Praça Paris estreou no Festival de Cinema do Rio 2017, o que rendeu a Lúcia Murat o prêmio de melhor direção e a Grace Passô, intérprete de Glória, o prêmio de melhor atriz. O cinema de Lúcia Murat é forjado em grande parte por suas escolhas artísticas e técnicas, enquanto a cineasta aparece não apenas como diretora em seus filmes, mas também como roteirista.
Cinema Brasileiro e colonialidade
Esta praça nasceu da intenção de reproduzir aqui no Rio de Janeiro um espaço que servisse de referência. O ascensorista que se torna paciente de Camila tem uma história de vida bem diferente da psicóloga: uma mulher negra moradora de uma comunidade no Rio de Janeiro.
Como nascem os monstros? O horror da violência em Praça Paris (2018)
Fazemos duas perguntas sobre os filmes de terror e o subgênero ao qual a Praça Paris pertence: 1) quem são os monstros nos filmes de terror? Ressaltamos que este elemento entra em conversação com o Grotesco no sentido de que há medo pelo outro e pelo seu espaço, e até aversão, por quem não faz parte do mundo da mulher portuguesa.
O Grotesco desde o Sul
Esta separação parece definir a experiência da modernidade em países não europeus – que discutiremos mais tarde como a face oculta da modernidade. Com base na citação anterior, acreditemos que foi a partir desta concepção da modernidade como “verdade absoluta” que o fenómeno começou a espalhar-se para o contexto fora da Europa. A resposta é não, o processo teve significados heterogêneos por onde passou, mas há uma parte indissociável da modernidade que não é levada em conta em sua leitura eurocêntrica, a colonialidade, ou como Mignolo classifica “o lado mais sombrio da modernidade” (MIGNOLO, 2017 , página dois) ).
Entendemos então que a exploração colonial, e o processo de invenção da modernidade, acontecem ao mesmo tempo, desta forma “A colonialidade, em outras palavras, é constitutiva da modernidade – não há modernidade sem colonialidade” (MIGNOLO, 2017, p. 2). . Formado por intelectuais latino-americanos, o grupo foi pioneiro, e certamente revolucionário para as ciências sociais, ao propor outras interpretações do fenômeno da modernidade. Embora noções questionadoras da narrativa eurocêntrica da modernidade tenham surgido diante do grupo, foi a partir daí que o processo foi visto como indissociável da colonialidade, ou seja, "a modernidade anda de mãos dadas com a colonialidade e portanto [...] a modernidade precisa ser aceita tanto para sua glória quanto para seus crimes." (MIGNOLO, 2017, p. 4) algo que está predominantemente “escondido”.
Um grupo de estudiosos latino-americanos que propõe uma forma diferente de encarar o fenómeno da modernidade - e as suas consequências - cortando os laços da Europa, estudando o seu local de origem a partir das suas próprias referências, é revolucionário em si. Como já apresentamos, Hugo acredita que o Grotesco se desenvolve a partir da modernidade como efeito do que classifica como a melancolia do homem moderno (HUGO, 2017), que se vê como um ser terreno ao mesmo tempo em que se torna dono de seu destino, ou seja, assume para si o papel principal de sua existência, algo que antes estava reservado ao divino.
Branquitude: o gérmen do racismo
Em outras palavras, a raça e a identidade racial se estabeleceram como instrumentos de classificação social básica da população. O mesmo processo ocorre com a retórica celebratória da modernidade, de uma forma que esconde a sua face oculta da colonialidade – mais uma vez, não por acaso, mas antes como uma acção ponderada. Bem, como o autor afirma na citação acima, foi feita uma tentativa, no âmbito da criação da modernidade europeia, de universalizar as suas tradições, cultura e raça.
Então o que se propõe é a racialização dos brancos, o que expõe que o racismo tem origem na branquitude, e não nos negros. A identidade racial branca é um local de privilégios materiais simbólicos, subjetivos e tangíveis que contribuem para a reprodução do preconceito racial, da discriminação racial “injusta” e do racismo. Isto não só levou à perpetuação da branquitude e do racismo, mas também à justificação da escravatura, ao mesmo tempo que colocava os brancos no lugar do poder e os negros no lugar dos dominados, estas construções são de tal forma 'feitas para que eles parecia "natural" ou espontâneo, e não forjado pelos colonizadores brancos e pela sua modernidade.
Esta negação da branquitude faz parte do “pacto narcisista” que mencionamos anteriormente, portanto, se não houver reconhecimento da sua existência, não poderá haver crítica a ela. O imaginário que se criou para a sexualidade das mulheres negras, durante o regime colonial, também está relacionado ao Grotesco, pois há uma animalização dessas mulheres.
Colonialidade e imaginários sobre os negros no Brasil contemporâneo
Como nesta pesquisa se trata de uma sessão de cinema no Rio de Janeiro, consideramos importante fazer um acréscimo à história higiênica da cidade. 37 Veja mais em: https://oglobo.globo.com/rio/em-campanha-paes-tenta-vincular-sua-imagem-as-transformacoes-feitos-por-pereira-passos-5433676. A seguir apresentamos algumas cenas do filme, que mostram a paisagem do Rio de Janeiro modificada por tais obras.
42 Veja mais em: https://sitedosgeeks.com/praca-paris-e-lancado-em-meio-a-violencia-constante-no-rj-entrevista-com-elenco-e-a-direta-lucia-murat/. Tendo em vista as exposições, abordaremos em nossa análise cinematográfica como Lúcia Murat apresenta tais argumentos e mobiliza essas representações de forma crítica em sua obra cinematográfica selecionada para o estudo Praça Paris, questionando o espectador sobre tais meandros do questionamento da sociedade brasileira . , bem como tais representações, racismo e branquitude. Um gênero thriller, um gênero suspense, mas para mim trabalha uma realidade que a gente vive muito fortemente hoje, tanto no Brasil quanto no Rio de Janeiro.
Dito isto, através da análise fílmica tentaremos desvendar como Lúcia Murat utiliza o seu trabalho para provocar no espectador a reflexão sobre a branquitude e o racismo. Um segundo aspecto comum é o reconhecimento de que todo filme é objeto de análise do historiador.
Paranoia e medo branco
Nas fotos a seguir vemos Camila e seu amante na praça em questão, de forma que a mulher reproduz a foto de sua avó. A sequência, mostrada acima nas figuras 21 e 22, é interessante por discutir a paranóia racista de Camila e como a personagem se beneficia com sua branquitude. Na cena mostrada acima na Figura 25, Camila encontra o celular de Glória, esquecido pelo ascensorista durante uma sessão.
Em seguida, como mostra a figura 26 acima, vemos mais um dos pesadelos de Camila com o espaço das favelas e sua fantasia dos juizados de drogas. A psicóloga acorda novamente perturbada por seus sonhos, como mostra a Figura 27 acima, e entre lágrimas conta ao companheiro que sua avó cometeu suicídio. Após correr, Camila olha novamente para trás e desta vez vê Glória avançando em sua direção, conforme mostra a figura 33 abaixo.
Após o devaneio com Glória, a psicóloga chega à universidade e encontra Samuel, conforme mostra a Figura 34 acima. Camila não observa o que aconteceu com Samuel, mas ouve o tiro, como vemos na cena mostrada acima na Figura 38.
Qual é o limite da sua empatia?
Neste ponto, vale ressaltar que Glória, para a portuguesa, parece ser um estudo de caso, que não é revelado ao ascensorista durante a trama do filme. A partir disso questionamos até que ponto Camila considera a humanidade de Glória. Glória por sua vez tenta fazer contato visual com Camila, mesmo sorrindo para a psicóloga, o progresso é zero e a portuguesa sai do elevador sem sequer notar a presença de Glória. Assim, nesta cena vemos não apenas a desumanização do ascensorista, por parte de Camila, mas também a invisibilidade de Glória dentro dos prédios da universidade – tema que aprofundaremos no terceiro subcapítulo desta análise fílmica.
A partir do diálogo transcrito acima, podemos perceber a resposta de Glória à falta de empatia e falta de reconhecimento do racismo estrutural de Camila. Também é interessante ver a fala de Glória sobre a animalidade que Camila comete no trato com sua esposa, o ascensorista incentiva a psicóloga a compreender suas ações ao se ver com um animal pelos olhos da portuguesa compara, o que se confirma pela trama no momento em que Glória aparece como estudo de caso, porém, apesar dos esforços do ascensorista, a psicóloga não exerce a autorreflexão sobre seu privilégio e evita os questionamentos de Glória. Quanto às provocações de Glória e à comparação na fala entre ela e Camila, como animais, finalizamos com Cardoso.
Notamos novamente a incapacidade, ou desinteresse, da mulher portuguesa em compreender os abismos da branquitude e do racismo que separam a sua realidade da da Glória. Vemos pela cena que Camila se recusa a humanizar a figura de Glória a partir de seus traumas e da figura do próprio Jonas, que foi preso por um crime que não cometeu, bem como a negação de Camila de seu medo branco, quando conta a Glória diz que não tem medo da situação.
Glória
Ressaltamos também a relação entre o uniforme usado por Glória e as roupas que ela usa em seu imaginário, sendo que somente nesta cena a mulher aparece maquiada e vestida para um encontro, ou seja, isso parece uma possibilidade. para a Glória apenas na sua imaginação. Consideramos esta cena interessante não só por tratar de outras dimensões da relação entre os irmãos, mas também para compreender a profunda ligação que Glória tem com o marido, quando se vê sozinha e sem apoio após a violência pela qual passou, Jonas . revela-se seu único aliado, mesmo que discorde de seus métodos de resposta, perpetuando a visão de Glória do irmão como seu protetor, desde os abusos do pai até os da polícia. Assim, a trama sugere que a ascensorista mate seu irmão para que ele não interfira mais em sua vida e machuque as pessoas que ama.
A mulher aparece arrumando malas e pertences, então entendemos que ela está fugindo da comunidade. Além disso, vale destacar uma nova provocação que Glória faz a Camila quando pergunta se a vida da portuguesa está tranquila já que ela e o irmão não estão mais presentes, pois admite que o desconforto de Camila com a situação se baseia em sua incapacidade de simpatizar com essas pessoas de uma realidade tão diferente da sua, como diz o ascensorista no áudio transcrito acima “mas você também não vai entender”. Não nos contentamos em utilizar a concepção da categoria estética do Grotesco, em si, sem criticá-la, tendo em vista que ela é forjada a partir de referências eurocêntricas, ou seja, explicam-se as consequências da categorização para quem a vivencia. modernidade, ou “nós”, mas nos questionamos, quais os seus resultados para quem faz parte do “outro”.
Portanto, acreditamos que Praça Paris é uma obra poderosa sobre a branquitude e os efeitos que ela causa sobre os negros ao abordar como a paranóia branca, baseada em um perigo inexistente, pode levar a mais uma morte para os negros. Disponível em: