O crítico explica: “Um e estranho: uma literatura mundial (Weltliteratur, singular, como em Goethe e Marx), ou talvez melhor, um sistema literário mundial (de literaturas inter-relacionadas); mas um sistema diferente daquele que Goethe e Marx esperavam, porque são profundamente desiguais" (Id., p. 175). Análises de ano; análises de outras pessoas, que o lado de Wallerstein sintetiza num sistema” (Id., p. 175). A literatura reflete de alguma forma a realidade do país, que na década de 1960, a maior parte tornou-se urbana” (Id., p. 236).
Segundo o autor, “[em] apenas quatro livros do corpus, ou seja, 1,6% do total, não há personagem masculino significativo, enquanto personagens femininos significativos estão ausentes em 41 romances (15,9%)” (Id., p. 238 ). Assim afirma que “portanto a predominância branca no romance contemporâneo não corresponde à diversidade da população do país” (Id., p. 251). Isto reflecte, explica o autor, “a preferência pelas origens europeias, da maior parte dos 281 caracteres estrangeiros identificados na pesquisa” (Id., p. 255).
Os dados agregados não permitem determinar se predominam situações de mobilidade ascendente ou descendente” (Id., p. 273). No que diz respeito ao caráter, não há alternativa senão seguir o caminho que lhe foi estabelecido” (Id., p. 114). Com a chamada “perspectiva científica”, a partir de Giotto, a pintura tenta reproduzir a visão de um determinado espectador sobre uma cena, que se impõe assim a todo o público” (Id., p. 133).
Nesta fronteira, onde o estar fora e o estar dentro são indissociáveis, onde o olhar interior e exterior são simultâneos, situa-se o narrador” (Id., p. 27).
Imagologia
Primeiro nível – Léxico
A impressão que ficou gravada para sempre em mim – sem que eu tivesse plena consciência disso naquele momento – foi o quão leve era seu corpo (SANT'ANNA, 1997, p. 12, grifo meu). E o que eu vi foi que a mulher se afastava com dificuldade, quase arrastando uma das pernas” (SANT’ANNA, 1997, p. 14, grifo meu). Descendo do ônibus no Largo do Machado, refiz o trajeto que havia feito no dia anterior em mais de um sentido.
Como na primeira vez que a vi, ela estava tomando vinho tinto e notei que ela estava um pouco mudada” (SANT'ANNA, 1997, p. 27). O crítico de teatro pensa então: “Seria abuso psicológico de minha parte sugerir que essas multas poderiam ter caráter corretivo para um ato que ainda não me foi revelado - e talvez imaginado [...]?” (SANT' ANNA, 1997, página 34, grifo meu). Não vi a Inês por perto e não quis ser surpreendido por ela estar ali parada, o que poderia ser interpretado como se eu estivesse à sua espera” (SANT’ANNA, 1997, pp. 39-40).
A situação descrita é mais uma demonstração do comportamento questionável do narrador em Um Crime Delicado: “Eu só podia esperar ela ir. Na verdade, tratava-se de um cartão-convite para uma exposição coletiva chamada “Os Divergentes”, além de um bilhete de próprio punho. Pois bem, lá estava eu, decifrando as possíveis implicações nos espaços, nas entrelinhas e na pontuação de uma nota, o que se reflete no texto cheio de curvas que agora escrevo, também cheio de perguntas.
Depois de desencantado com a modelo, o narrador de Um Crime Delicado fica completamente desarmado ao reencontrá-la. Cheirando a um perfume discreto, talvez o da carta, e sem usar nenhum cosmético no rosto além de um pouco de ruge ou qualquer decoração além de pequenos brincos de ouro, vestiu-se com uma elegância sóbria e caseira, com um lindo vestido. Posso dizer que foram dos mais importantes da minha vida, e diria também os mais felizes [...]” (SANT’ANNA, 1997, p. 109).
Você parecia um animalzinho assustado e trêmulo quando caiu em meus braços e eu quis te proteger” (SANT’ANNA, 1997, p. 111, grifo meu). Num outro momento da audiência, Martins revela que os desmaios de Inês foram causados por uma lesão cerebral que, tal como a lesão na perna, foi resultado de uma surra na infância. Em síntese, consideramos que as escolhas lexicais feitas pela narradora de Um Crime Delicado para descrever fisicamente Inês Brancatti, por exemplo, “rosto com traços finos e delicados”; “Seios pequenos requintados”; “corpo magro e bem proporcionado”; “cabelos claros e cacheados”; "Dentes muito brancos e pequenos, como os de uma criança."
Segundo nível – Relações hierarquizadas
- Masculino versus feminino
- Jovem recatada versus modelo lasciva
Na opinião do autor, “[na] ficção de Sérgio Sant'Anna, o maior domínio da linguagem delimita um campo de poder. Em entrevista a Luis Alberto Brandão Santos, Sérgio Sant'Anna explica a sua escolha por um ponto de vista único em Um Crime Delicado: ―[...] a personagem Inês não poderia. E me senti um pouco feliz, em retrospecto, por ela ter se mantido dentro de um limite diante de qualquer vulgaridade (SANT'ANNA, 1997, p. 30, grifo meu).
Mas entre nós estava a figura do outro, que me antecipou no papel de protetor” (SANT'ANNA, 1997, p. 34). Durante esse movimento, partes de seu roupão se abriram o suficiente para que eu pudesse ver o tecido da camisola emergindo na penumbra (SANT'ANNA, 1997, pp. 35-36). Quanto à chamada perna ferida, não houve nada de repugnante: apenas duplicou a minha vontade de favorecer a Inês (SANT'ANNA, 1997, pp. 36-37, grifo nosso e grifo meu).
Antonio Martins aponta então: “a sequência de atos que eu mesmo havia mostrado foi produzida por uma memória danificada, deixando lacunas que provavelmente encobririam algum ato que minha mente não ousou trazer à luz” (SANT'ANNA, 1997, p. 38). Como ele mesmo diz, “numa narrativa autobiográfica em que o narrador exerce a crítica profissionalmente, nada mais natural do que sua obra ser permeada por esse exercício” (SANT'ANNA, 1997, p. 83). Contudo, o que era claramente uma ironia preventiva foi tomado como cinismo (SANT'ANNA, 1997, p. 117, grifo meu).
No entanto, há obras, como as de Sérgio Sant'Anna, que se rebelam contra o carácter inevitável de tal visão e procuram fortalecê-la e ampliá-la. É o que reflete Antônio Martins sobre suas emoções: 'Posso dizer que o sentimento que se esboçava à primeira vista no café tornou-se cada vez mais forte e depois adquiriu corpo cada vez mais nítido, na estação de metrô, na rua, no restaurante em Leblon.” (SANT’ANNA, 1997, p. 31). Agora você vai ver quem só trabalha do pescoço para baixo – disse ela com um sorriso que não demonstrava nenhum ressentimento (SANT‘ANNA, 1997, p. 71).
E se tive esta paixão e desejo violento pela Inês, foi por razões muito específicas, claras e obscuras” (SANT'ANNA, 1997, p. 71). A verdadeira Inês, como não ficar para sempre iludido, apaixonado pela Inês desde aquela noite, o que me torna um homem muito melhor?” (SANT’ANNA, 1997, p. 104). Foram estes os termos que ele utilizou e que acabaram por explicar a minha relação com a Inês” (SANT'ANNA, 1997, p. 119).
Em suma, eu a escravizei, ainda que, ao usar esse verbo, ela tenha negado ao juiz que o tivesse dito, até porque havia perdido a consciência ao ser encurralada por mim (SANT'ANNA, 1997, p. 121). Então o que Vitório queria provar nos bastidores e nas entrelinhas do julgamento?, perguntei e respondi a mim mesmo” (SANT‘ANNA, 1997, p. 121).
Terceiro nível – Cenário ou imaginário
Trabalharemos então com o imaginário social sobre a mulher que permeia o romance de Sérgio Sant'Anna. Mas é claro - disse eu, observando suas pernas, que ficavam expostas a um ponto verdadeiramente obsceno enquanto ela acionava os pedais do carro (SANT'ANNA, 1997, p. 68, grifo meu). No fundo, poderia perturbar-me os melhores sentimentos exibir Maria Luísa diante de Inês, ou, quem sabe?, temia mais do que qualquer outra coisa que Inês lesse as intenções, o subtexto da minha apresentação, e os achasse tão ridículos quanto eu. fez.” (SANT'ANNA, 1997, p. 68, grifo nosso).
E quando Maria Luísa, reivindicando uma gravação na manhã seguinte, quis ir embora, e se ofereceu para me deixar em casa, [...], eu prontamente aceitei (SANT'ANNA, 1997, p. 69). Antônio Martins diz então: “Eu não pretendia prolongar aquela noite, que já havia sido alcançada - ou talvez fracassada - quanto aos seus principais objetivos, e se eu perguntar à Maria Luísa em frente ao meu prédio se ela não queria ir um pouco para cima, era uma mera formalidade. , como quem cumpre uma obrigação viril” (SANT'ANNA, 1997, p. 69). Terminado tudo, Maria Luísa II ainda teve a discrição de retirar-se secretamente, enquanto eu dormia no sono mais tranquilo dos últimos dias ( SANT'ANNA, 1997, p. 83-84, grifo meu).
Além disso, era uma mulher inteligente, uma ex-jornalista que sabia falar de forma perspicaz e sarcástica sobre uma representação teatral (SANT'ANNA, 1997, pp. 62-63). Segundo Angela Marie Dias, “o papel da ninfa no imaginário de Sérgio Sant'Anna é bastante proeminente, o seu fascínio pelo corpo de uma jovem, ao mesmo tempo tímida e lasciva, é uma constante em muitas ficções”. ” ( DIAS, 2016, p 144). No referido manifesto foi divulgado um conceito que considero um dos mais interessantes: o crítico como estuprador de arte (SANT'ANNA, 1997, p. 130).
Em entrevista à Gazeta do Pova em 2019, Sérgio Sant'Anna, ao ser questionado em que tipo de mundo seus personagens viveriam, afirmou: “Felizmente, meus personagens não são um espelho da realidade. Este movimento na ficção, intensamente explorado na obra de Sérgio Sant'Anna, tenta explicar que a história, na sua vertente de registo dos acontecimentos do lugar e do tempo, se constitui também como uma história, um discurso sempre ausente. em relação à realidade. Contudo, sabemos que as especificidades da obra de Sérgio Sant'Anna não foram investigadas pelo referido estudo (e de fato não puderam, pois não era esse o objetivo da pesquisa), principalmente pelo fato de o narrador - o protagonista é um tanto escorregadio e pouco confiável, como o autor aponta claramente no capítulo 4 de Literatura Brasileira Moderna: Um Território Contestado.
Pelo fato da obra de Sérgio Sant'Anna ser narrada sob o ponto de vista masculino, é possível observar a existência de outra relação hierárquica: entre a "verdadeira" Inês Brancatti e a mulher seminua retratada na pintura do artista italiano, que . No caso da obra de Sérgio Sant'Anna, concluímos que há uma atualização do estereótipo feminino na perspectiva do narrador masculino em relação a Inês Brancatti - atualização no sentido de se tornar atual, de acordo com a atualidade. Portanto, pensamos com Sérgio Sant'Anna: “[Eu] gostaria que um crime sutil não se esgotasse na mente dos leitores ou críticos” (SANT'ANNA, 2000, p. 111).