O objetivo deste trabalho foi identificar as representações sociais da ciência na versão digital do jornal Folha de S. É a negação da ciência como recurso político, na trincheira das relações interpessoais que moldam o bom senso.
A ciência entre tensões paradigmáticas
Nesse sentido, foi necessário comentar a discordância com essa reflexão da ciência em que se baseavam as teorias identitárias, bem como o abandono do sentido que o pós-modernismo empregava. Também oferece a oportunidade de dar um novo significado à forma como o significado é criado e ao que é entendido como verdade na ciência – um tema que será discutido mais tarde.
Sobre o sentido e a verdade
É, portanto, importante compreender a extensão destes mal-entendidos e esclarecer o que é definido como verdade e interpretação científicas. Esta qualidade de reconhecer até onde se pode ir é algo que pode ser refletido como uma atitude científica.
O contexto da ciência brasileira
A ideia de uma mistura harmoniosa e otimista, o mito da “democracia racial”, da “pátria pacífica”, tudo isso e muito mais por trás de um passado de escravidão e extermínio dos povos originários. Embora não seja linear, como aponta Mazzilli (2011), a ideia de universidade brasileira envolvia disputas entre forças antagônicas para a construção de um projeto educacional. De modo geral, a discussão avançou para propostas concretas de reestruturação da universidade a partir de extensas análises da realidade nacional.
Tratava-se de uma inconformidade geral com um paradigma científico reducionista, técnico e adequado aos interesses da classe dominante (SANTOS, 2008). Segundo Mendonça (2000), a repressão e o obscurantismo minaram a ideia de reforma universitária numa perspectiva humanista e socialmente responsável, caminhando para um projeto de desenvolvimento econômico. Somente na década de 1980, com a redemocratização do país, surgiu a ideia de uma ciência e de uma universidade com preocupações sociais e críticas.
As décadas que se seguiram marcaram um período de grandes críticas e o surgimento de uma série de novos estudos.
As representações sociais
A teoria das representações sociais faz parte do repertório teórico da Psicologia Social e foi desenvolvida por Serge Moscovici como teoria do conhecimento (MOSCOVICI, 2007, p. 8). As “representações coletivas” de Durkheim foram decisivas para que Moscovici desenvolvesse a teoria das representações sociais. As representações sociais são geradas por dois mecanismos que se complementam no processo de tornar conhecido o estranho: a ancoragem e a objetificação.
Neste ponto, é necessário regressar rapidamente à linha de desenvolvimento das representações sociais delineada por Moscovici (2007), mais especificamente à última etapa da apropriação, considerando agora o papel dos meios de comunicação, especialmente no atual avanço dos meios digitais. comunicação proporcionada pelo avanço da Internet (CLARO, 2009). As representações sociais nos meios de comunicação reflectem tanto uma tradução do pensamento de uma sociedade como um interesse fabricado numa narrativa ideológica. A relevância da teoria das representações sociais neste trabalho se deve à representação da ciência no senso comum.
Refletir também sobre a intimidade da teoria das representações sociais com a questão dos meios de comunicação de massa, e qual o papel que eles desempenham neste contexto.
Negacionismo
Isso nos faz pensar em que nível se dá a discussão sobre ciência e o que foi assimilado sobre o conhecimento científico. Trata-se de uma distorção do ceticismo científico baseada em uma visão crítica da realidade mais próxima de um ceticismo radical pré-científico (SAGAN, 1987; FANCELLI, 2021). O que queremos pensar é na possibilidade de contato e compreensão popular desse conhecimento, dada a forma como ele é construído.
E nesse sentido, no Brasil existem particularidades baseadas na forma de cidadania construída no país. Segundo Eco (1998), a intolerância é o caminho natural desde os primeiros anos, no encontro com as diferenças e no desejo de ter o que queremos. A atitude crítica baseada na ciência é talvez a maior virtude para lidar com esta situação.
Reflete também que tipo de público tem acesso mais fácil ao conhecimento científico, uma vez levada em conta a desigualdade da realidade brasileira.
Pré-análise
Relatório dos dados: Análise de Similitude pelo software Iramuteq
Todos esses preparativos possibilitaram a criação do gráfico apresentado na Figura 1, que permite a visualização das palavras mais frequentes e das relações entre elas. Na Tabela 1, com base no gráfico da Figura 1, é possível observar detalhadamente a disposição das palavras na estrutura do texto que mais se aproximam do termo “ciência” em ordem decrescente. Todas as palavras listadas estão no campo que o software define como “comunidade”, sendo central o termo “ciência”.
Por fim, utilizou-se um recurso de software para recuperar todos os trechos do corpus que mencionavam o termo “ciência”.
Categorização temática
A subcategoria “Ideologia e política na ciência” reúne artigos que buscam discutir o apego da ciência a ideologias ou políticas que comprometem a própria produção científica e o potencial da ciência para servir o público, respectivamente. A categoria “Universidade e pesquisa: patrimônio cultural brasileiro e projeto nacional” inclui representações da ciência como patrimônio do país e um empreendimento para a nação, com vistas às discussões sobre o investimento nas universidades e a incerteza da pesquisa brasileira. A subcategoria “Incentivando a ciência para um país melhor” reúne uma série de artigos que abordam questões de incentivos, investimentos e valorização das universidades brasileiras, da ciência e tecnologia e sua relação com o desenvolvimento do país.
Enquanto isso, “Desmantelamento da ciência brasileira” é uma subcategoria em que os artigos somam impressões sobre a desvalorização, a incerteza e a falta de financiamento destinado à ciência. Por fim, a categoria “Negação” reúne artigos cujas representações estão ancoradas em ideias relacionadas ao negacionismo da ciência e refletem sobre a popularidade dessa tendência, sua prática como estratégia política e o comportamento negacionista dos gestores públicos. A rejeição da ciência como princípio” assinala as tendências do pensamento negacionista nos tempos atuais, refletidas na rejeição da ciência e da lógica como princípio.
Na subcategoria “A Ciência como Obstáculo Político” você encontrará artigos que abordam a negação da ciência que está categoricamente associada às estratégias políticas, que a percebem e tratam como uma ameaça ou obstáculo.
Análise conceitual
Ciência como princípio: compromisso com a verdade e com o processo civilizatório 72
Esses objetivos devem estar ancorados na ciência para que não sejam apenas intenções vagas (Folha de S. Paulo). Como a velocidade sem precedentes da ciência produziu vacinas eficazes contra a Covid-19 em menos de um ano, surgiu uma geopolítica particular em torno do fornecimento de imunizantes (Folha de S. Paulo. Ignorar a dimensão política pode ser tão prejudicial quanto a distorcida uso da ciência [...] A melhor evidência não é necessariamente aquela que está no topo de uma hierarquia de evidências.
A ideia de defender a ciência ganha uma nova forma, mas continua presente em todos os artigos. Nestes casos, trata-se do próprio jornal e de seus colunistas tomarem partido nos conflitos, sempre em nome da ciência. As mudanças globais vão muito além da ciência, entram em questões éticas e morais (Folha de S. Paulo.
Diga "ao lado da ciência!" e ser totalmente a favor da regulamentação dos cigarros eletrónicos é como sugerir que a ciência tem respostas claras e favoráveis para esta questão.
Universidade e pesquisa: patrimônio brasileiro e projeto de nação
É uma frase que condiz com a descrição utilizada para o editorial “Opinião” na postagem de 2014 da Folha de S. A ciência mostrou-se fundamental para respostas rápidas a questões críticas para o desenvolvimento da sociedade (Folha de S. Paulo Ciência e tecnologia, por exemplo, está entre as áreas que sofrem maiores limitações (Folha de S. Paulo.
Investir em bolsas é também acreditar no primeiro emprego dos jovens que transitam entre a graduação e o mercado de trabalho - e com isso estimular a atividade econômica (Folha de S. Paulo. Mas podemos ir além [..] junto com as tentativas sobre a limitação das instituições públicas de educação, ciência e tecnologia e sua capacidade de promover mudanças em direção a um país menos desigual (Folha de S. Paulo. Em tempos tão difíceis, caracterizados pela negação, pela desvalorização da ciência e da pesquisa (Folha de S. Paulo) .
Infelizmente para nós, o momento em que a ciência era mais popular entre os brasileiros coincidiu com o seu momento de maior descrédito nas esferas do poder, especialmente no executivo federal (Folha de S. Paulo.
Negacionismo
A convergência de ideias tão planas e incoerentes – como o terraplanismo, a rejeição da ciência e das vacinas, a xenofobia e a ridícula paranóia conspiratória contra organizações públicas e corporativas (Folha de S. Paulo). Este é um governo que será lembrado pela negação da ciência, pelo desrespeito pela vida durante a pandemia, pelas suas explosões autoritárias, pela falta de apreço pela democracia e pelas instituições, pela falta de compromisso com a verdade (Folha de S. .Paulo). Uma vez que a ciência mina os alicerces desse projeto, ela passa a ser combatida contra a negação, que revaloriza o papel da religião e do ocultismo na definição da verdade (Folha de S. Paulo.
A divisão entre apoiadores e opositores do governo federal se aprofundou; o vírus foi politizado; especialistas enfrentaram charlatões; a ciência competiu por espaço com a negação; propagação de notícias falsas (Folha de S. Paulo. Quando faltavam vacinas, o distanciamento não era uma reação ideológica, como afirmam os negacionistas de Bolsonaro, mas uma questão de obedecer às melhores recomendações da ciência para salvar vidas (Folha de S. Paulo. Manifestações das autoridades, que promove o uso de medicamentos ineficazes no combate ao vírus, o descrédito espalhado pela ciência, a omissão em relação às vacinas, a multiplicação de notícias falsas (Folha de S. Paulo.
O reflexo desses três anos é o massacre de mais de 600 mil vidas, sem luto, com libertinagem, negacionismo da ciência, sabotagem de vacinas, corrupção e charlatanismo (Folha de S. Paulo.
Reflexões finais
Isto significa negligenciar as recomendações científicas e encorajar comportamentos infundados e perigosos. Representa uma fonte muito importante na luta contra a negação que deve ser reconhecida, pois o artigo é inteiramente a favor da ciência. A questão é que a defesa da ciência não pode ser feita de forma vaga, pois não surtirá efeito.
A defesa da ciência para quem a defende, quando ela ocorre de forma vaga e inconsciente, é, em última análise, tão conveniente quanto a sua negação para quem a rejeita. Muitos artigos deram a impressão de que a defesa da ciência termina com a declaração de um ponto de vista favorável. A inadequação disso ocorre justamente porque a ciência não é um conhecimento definitivo (MORIN, 2005; POPPER, 2008).
Isto significa que não é papel da ciência competir em termos de conhecimento com a tendência negacionista do espaço.