Dissertação Gênero e sexualidade no currículo da Educação em Direitos Humanos: para um diálogo produtivo com a diferença / Joice Oliveira Nunes – 2014. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Gênero e Sexualidade no Currículo de Educação em Direitos Humanos: Rumo a um Diálogo Produtivo com a Diferença.
Diferença e articulação
Este reconhecimento também se baseia na constatação de que “eles” são diferentes de “nós”, mas que esta diferença nos define. Um discurso hegemônico é produto de uma prática articulatória, que consiste na articulação entre elementos dentro de um nó, ponto que fixa provisoriamente os significados desse sistema (LACLAU; MOUFFE, 2004).
O currículo entre negociações e fluxos culturais
Culturas em negociação: o multiculturalismo
As estratégias de enunciação da cultura hegemônica são opressivas e têm grande poder (PONTES, 2009), mas entendo que uma cultura comum, um “entrar na gangue” não é possível, pois as culturas são produções discursivas que se hibridizam o tempo todo. . A McLaren chama a atenção para o caráter universal que este projeto propõe, onde a cultura eurocêntrica não é questionada como a universalizada.
Currículo como cultura
A Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas inclui, além da Declaração, os seguintes documentos internacionais: o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966), o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (1966), o Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (1966) e ao Segundo Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (1989). Segundo Tosi (1999), a Declaração Universal dos Direitos Humanos afirmou os direitos de liberdade/direitos políticos e civis das revoluções burguesas; Estas tensões aparecem na multiplicidade de significados que o termo “direitos humanos” recebe e nos debates entre as suas dimensões universais e particulares.
Sendo a Declaração dos Direitos Humanos uma construção ocidental, com a ética moderna produzida por este grupo para um problema ocidental (a reconstrução europeia do pós-guerra), é relevante questionar a sua validade universal e refletir sobre o que Candau (2008) e Santos ( 2008) 2006) apontam para uma necessária ressignificação do termo. Apoiado na perspectiva pós-estruturalista articulada por Laclau e Mouffe (2004), Ramos argumenta que nomear os direitos humanos como universais significa silenciar as diferenças, pois não conseguimos estabelecer um significado único para o significante humano, porque a identidade dos sujeitos é provisória. e contingente. Enfatizar a necessidade de reconhecimento dos direitos humanos universais significa eliminar a pluralidade de significados sobre a vida, a dignidade, a composição e as relações familiares, a morte, a justiça e a liberdade, entre outras coisas, que estão presentes em diferentes locais.
Nessa perspectiva, o discurso da igualdade é questionado, apontando para a ideia de direitos humanos numa abordagem baseada na afirmação da diferença, que se afasta tanto do universalismo quanto do relativismo cultural. Redefinir os direitos humanos exige uma mudança do pensamento binário da disputa entre o mesmo e o outro ou do hegemônico e do contra-hegemônico para o da articulação da diferença, uma articulação que se dá entre equivalentes, em que a diferença é disputada . hegemonia – e não entre iguais, como sugere o discurso da igualdade.
Educação em Direitos Humanos
Segundo o pensamento crítico, a educação em direitos humanos é entendida como mediadora de um projeto social “inclusivo, sustentável e plural”. Ambas as perspectivas – liberal e crítica – constituem um pensamento contemporâneo em que a universalidade, a igualdade e a liberdade se configuram como referência para a educação em direitos humanos, que, pelo que entendo, aborda indevidamente questões relacionadas à diferença. Segundo Ramos, mais do que perspectivas jurídico-políticas, as questões da educação em direitos humanos deveriam ser formuladas como uma questão pedagógica.
Estas perspectivas não se opõem, mas contestam discursivamente certas formas de significar cidadania, igualdade, diferença e cultura num processo de hibridação que constitui o currículo da Educação em Direitos Humanos e, portanto, em si mesmo, um campo sempre aberto e inacabado. Abordando a educação em direitos humanos como eixo articulador da diferença, sua perspectiva pedagógica renuncia ao discurso da igualdade para dar visibilidade, na leitura dos textos vegetais, também àqueles que escapam à norma hegemonizada. Joan Scott (1995), valendo-se de alguns conceitos pós-estruturalistas como os de Jacques Derrida, diz que é preciso desconstruir as oposições binárias relacionadas ao gênero e à sexualidade, que polarizam o gênero e entendem o feminino e o masculino como extremos com os quais se relacionam dentro da heteronormatividade. dentro da dicotomia dominação/submissão.
Desconstruir a rigidez do binarismo significa, então, problematizar a oposição entre os pólos e procurar compreender a base que constitui cada pólo, compreender que cada pólo contém o outro, "com o objectivo de desvendar tudo o que nele existe, incluindo os significados , pois não foram explicitamente oferecidos ao leitor." A percepção do gênero como sendo produzido dentro de uma lógica dicotômica implica um pólo oposto ao outro (daí uma ideia singular de masculinidade e feminilidade), e isso implica ignorar ou negar todos os sujeitos sociais que não “se enquadram” em uma dessas formas.
Gênero e sexualidade: principais apontamentos
Movimento feminista e considerações sobre gênero
Compreender que as palavras criam história; O conceito de gênero que procuro utilizar está ligado à história do movimento feminista, significando discursivamente em suas lutas. Com estas questões trazidas à tona na esfera pública, o feminismo traz também a necessidade de defender os interesses de género das mulheres, “ao questionar os sistemas culturais e políticos construídos com base nos papéis de género historicamente atribuídos às mulheres” (COSTA, 2005, p. 10). . No Brasil, no final do século XIX, as mulheres trabalhavam cada vez mais na indústria, e muitas já participavam das lutas sindicais em defesa de condições de trabalho, melhores salários, "além de combaterem a discriminação e os abusos a que eram submetidas devido à da sua condição de gênero” (COSTA, 2005, p. 11).
Esta “primeira onda” do movimento feminista foi caracterizada como conservadora porque não questionava a divisão dos papéis de género. Independentemente da sua convicção teórica, os estudos feministas concordam que argumentar que homens e mulheres são compostos com base na sua biologia e que as suas relações são baseadas nesta distinção reforça a desigualdade de género. Butler (2012) em sua obra Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade questiona o sexo como uma estrutura dada, como se não houvesse história.
A performatividade de gênero se dá por meio da repetição de ações e gestos corporais e está relacionada à performance de diferentes modos de ser homem, mulher. Devo sublinhar a sua importância para as lutas a favor das mulheres, um activismo que visa mostrar que o patriarcado gera assimetrias de género.
Alguns discursos sobre sexualidades
Homem e mulher
No trabalho com adolescentes, percebe-se que as mulheres são descritas como sensíveis e frágeis. As cores vivas e a presença de objetos de pelúcia complementam a imagem de feminilidade, associada à ideia de ternura e doçura.; Num livro para adolescentes, os homens são descritos como curiosos e objetivos, mas esse homem é todo animado e enérgico. Se formos mais longe, verifica-se que o resumo do livro Começou por você, apesar de estar dentro do tema sexualidade.
É possível observar na capa do livro voltado para meninas que a sexualidade tem seu valor relacionado à intimidade, que na ilustração mostra o posicionamento das pernas de uma menina discreta, o que mostra seu “valor” resguardado. O silêncio do corpo e do desejo da mulher16 são vestígios do sigilo e da discrição em que a sexualidade feminina sempre foi regulada. A capa do livro para meninos mostra, além da importância do pênis – como já mencionado – o órgão genital de diferentes formas, o que não acontece no livro rosa.
No livro azul, os fogos de artifício que saem do short do menino mostram que seu corpo é feito para o prazer. Com base no determinismo biológico, as mulheres são pronunciadas de forma diferente dos homens; principalmente somos apresentados como periféricos.
Feminino e masculino
Em consonância com os objetivos propostos25, o projeto escolar traz à discussão com as crianças da educação pré-escolar que ser menina ou menino vai além das diferenças anatômicas e não deve determinar gostos, roupas e. No decorrer da história, o menino descobre que Ceci não é uma “sem xixi”, mas uma “perereca”, ponto de maior problematização com as crianças da educação infantil. O objectivo da actividade é levar as crianças a um consenso de que as diferenças entre raparigas e rapazes vão além das diferenças físicas e que estas diferenças não devem determinar o que é apropriado para cada género.
Dentro desta mesma questão, a atividade 4, desenvolvida no NEEDH, procurou problematizar com as crianças esta conformidade imposta pela heterossexualidade compulsória. Os personagens do texto não apresentam consistência entre gênero e comportamento; já que a norma do que é apropriado ou normal para homens e mulheres é um processo que ocorre ao longo da existência dos sujeitos, constante e permanentemente, as crianças usavam roupas de homem nas mulheres e vice-versa. A discussão começou quando as crianças perceberam que haviam vestido o homem com roupas de mulher e a mulher com roupas de homem.
Quando foi descoberto que o pai da família vestia roupas “femininas”, os filhos questionaram que se tratava de um comportamento homossexual, mas não contestaram as roupas “masculinas” da mãe. Na atividade, além da adoção, as crianças chamaram a atenção para as famílias que não têm filhos e também para aquelas formadas por duas mães que namoram (casal do mesmo sexo).
Relações homoafetivas
Segundo Silva (1998), “as relações de poder dependem da definição de certas identidades como ‘normais’, como hegemônicas” e os grupos assim considerados têm a oportunidade de significar a si mesmos e também aos outros, e assim indicar o que consideram adequado ao respeito. todos. . Esta disputa hegemónica, que se desenrola em vários âmbitos, incluindo o curricular, é o que molda a abordagem da educação em direitos humanos, que propõe reconhecer as diferenças como inerradicáveis e valorizar a negociação, contrariando o discurso da igualdade e da universalidade. Dado que género e sexualidade são questões que moldam o currículo da educação para os direitos humanos, considerei necessária uma abordagem que reconhecesse o currículo como produção cultural, na qual os significantes já mencionados pudessem ser entendidos como uma arena de discussão sobre significado e hegemonia, um campo de posições ambivalentes.
Ao investigar até que ponto o tema gênero e sexualidade é abordado nos textos curriculares, foi possível observar significativa sensibilidade e atenção quanto às exigências para o reconhecimento de grupos sociais excluídos, especialmente no que diz respeito às questões de diferença de gênero. Esta ausência mostra que, ao calarem-se, mesmo as propostas pedagógicas baseadas nos princípios da educação para os direitos humanos de alguma forma apoiam, por exemplo, A educação em direitos humanos sob o ponto de vista do reconhecimento da diferença reflete que a constituição do social não é necessariamente uma luta entre pólos opostos permanentes, mas sim uma disputa hegemônica permanente entre identidades temporárias e não fixas que se configuram de acordo com as demandas do assuntos.
Por fim, foi possível identificar os diferentes sentidos em disputa a respeito das relações homossexuais e entre pessoas do mesmo sexo. O currículo da Educação em Direitos Humanos busca desconstruir esses pólos rígidos, visando reconhecer o outro como adversário. Se entendo que a diferença é indelével, penso que a mudança proposta pela Educação em Direitos Humanos se dá em transformações provisórias em espaços-tempos contingentes, ao contrário do que sugere o discurso da igualdade baseado no consenso que esconde as diferenças.
Deixar claro para as crianças as normas pré-estabelecidas pela sociedade em relação aos gêneros masculino e feminino.