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Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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Academic year: 2023

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No Capítulo 2 analiso os discursos sobre a ascensão da Mostra e a relação entre essa atividade e as mudanças na escola. Esse é o espírito do mural criado e publicado em março de 2010 na Escola Municipal Edméa Dulce de Barros Franco, em Quatis, Rio de Janeiro.

Figura  1  -  Cartaz  com  os  produtos  à  venda  em  uma  loja  de  artigos  religiosos  na  Feirinha da Pavuna (RJ)
Figura 1 - Cartaz com os produtos à venda em uma loja de artigos religiosos na Feirinha da Pavuna (RJ)

Páscoa na escola Elisa Lucinda: professoras que dizem não

Ela: “Ah, não, mas Cristo é único.”, aquela afirmação que já voltou à religião e que não levou em conta quem não tem religião e religiões diferentes. Impor uma religião ou ritual religioso, mesmo que partilhado pela maioria, é uma violência contra todos os que não professam esta fé, como destaca a professora Carolina Ferreira.

Figura  4  -  Postagem  no  Facebook  de  Ademir  dos  Santos  em  13  de  outubro  de  2014,  então  aluno  do  3°  ano  do  Ensino  Médio  no Colégio  Estadual  Professor  Murilo  Braga:  foto  com  o  quadro  produzido  pela  professora  de  Ensino  Rel
Figura 4 - Postagem no Facebook de Ademir dos Santos em 13 de outubro de 2014, então aluno do 3° ano do Ensino Médio no Colégio Estadual Professor Murilo Braga: foto com o quadro produzido pela professora de Ensino Rel

Escola e eurocentrismo

Religião na escola: entre o “texto principal” e “boxes isolados”

A mesma escola que celebra a Páscoa, o Natal e outros feriados cristãos como parte das suas celebrações regulares apenas apresenta outras narrativas religiosas como mitos ou folclore. Esta escola, que tem o cristianismo como “texto principal” e outras narrativas religiosas como “caixas isoladas”, é a mesma que muitas vezes é definida como um espaço de igualdade, oportunidade e respeito pelos outros. Há resistência na escola em se reconhecer como instituição discriminatória: “A cultura escolar, porém, tende a não reconhecê-las, pois está imbuída de uma representação padronizadora de igualdade - ‘aqui todos são iguais’, ‘todos são tratados igualmente mesma forma' – e caracterizada por um caráter monocultural.” (MOREIRA; CANDAU, 2003, p. 163).

Essa suposta igualdade: “[..] transmite, em última análise, uma visão homogênea e padronizada dos conteúdos e disciplinas presentes no processo educativo, pressupondo uma visão monocultural da educação e principalmente da cultura escolar”. (MOREIRA; CANDAU, 2003, p. 160). Construir uma escola que não apenas aceite a todos, mas inclua suas práticas, conhecimentos e cosmogonias é uma direção distante, mas para a qual devemos caminhar.

Escola e discriminação religiosa: lei, silêncio e conflito

Um aluno de 12 anos foi banido da Escola Municipal Francisco Campos, no Rio de Janeiro, em 25 de agosto de 2014, por usar contas e boné relacionados ao candomblé (ele não conseguia manter a cabeça descoberta de acordo com seus rituais religiosos). A diretora argumentou que esses itens não constam no uniforme e que proibir o aluno de entrar na escola não é discriminação, pois vale para todos igualmente. Uma regra que, por exemplo, não exclui o uso de crucifixos, mas obriga os candomblecistas a retirarem elementos de sua religião para ingressar na escola.

Em 2011, a mesma Liliane Marques começou a lecionar na Escola Rosa da Fonseca, que faz parte da rede municipal do Rio de Janeiro. Neste caso, a Bíblia entrou na escola como uma disciplina que faz parte da vida do aluno, não foi imposta pela direção ou pelo professor com a finalidade de catequizar.

Figura  6  -  Manifestação  em  frente  a  Escola  Municipal  Francisco  Campos  em  Vila  Isabel,  Rio  de  Janeiro em  9  de  setembro  de  2014
Figura 6 - Manifestação em frente a Escola Municipal Francisco Campos em Vila Isabel, Rio de Janeiro em 9 de setembro de 2014

Discriminação e eurocentrismo nas aulas de História

O movimento negro e o ensino de história em disputa

O modelo de história racista, eurocêntrico e monocultural tem recebido muitas críticas, muitas delas do próprio movimento negro. Desde as primeiras organizações negras no início do século XX, o movimento negro tem visto a educação como uma ferramenta potencial para a emancipação da raça negra. Durante a ditadura militar, o Movimento Negro Unido (MNU) destacou em sua Carta de Princípios a luta pela revalorização do negro na história brasileira.

Alguns exemplos dessa influência são: A valorização do quilombo de Palmare, presente no movimento negro no início do século XX e na década de 1970 (PEREIRA, 2013); a valorização de Zumbi dos Palmares como símbolo da luta contra a escravidão, em detrimento da figura da Princesa Isabel (PEREIRA, 2012); crítica ao mito da democracia racial (PEREIRA, 2012). Além disso, ao longo dos séculos XX e XXI, o movimento negro criticou o currículo tradicional, questionando a visão apresentada sobre o povo negro e sua cultura, e denunciando o papel subalterno desempenhado por esse grupo étnico na narrativa histórica tradicional de formação do Brasil. .

Analisar a Mostra é repensar o currículo

Este é um trecho do ensaio “A menina religiosa” escrito em 2013 por Maíra14, então aluna da turma 1604 da escola municipal Elisa Lucinda como parte das atividades da Mostra da Diversidade Religiosa. A imagem da escola Elisa Lucinda como uma escola de má qualidade e violenta, representada pela frase “Elisão, entra um burro e sai um ladrão” está presente no bairro da escola. E eu, com o Jorginho, coitado, virei numa esquina e a direção da escola avisou que eu ia entrar com uma ação na delegacia, que os pais iam ser chamados por agressão, quando na verdade eu nem esperava ver essa cena dentro de uma escola.

Segundo esse depoimento, a direção da escola da época tratava o conflito entre alunos como um assunto de polícia. Tal como Glória Freitas, os professores responsáveis ​​pela exposição também associam a imagem negativa da escola à gestão das equipas gestoras antes de 2009 e reconhecem uma maior transformação na escola fruto da gestão recente: "agora com a nova gestão da escola escola, a escola é diferente.

A Mostra sem conflitos ou os conflitos da Mostra

O conflito na produção dos estudantes

Fazem parte do final de uma história em quadrinhos, de estudantes desconhecidos, já citada no capítulo anterior. É por isso que quase todo mundo tem preconceitos.” Ou seja, a atividade que surgiu contra a imposição de uma atividade cristã aos estudantes levou estes jovens a tratar a discriminação de duas formas diferentes: como um caso isolado ou como um problema coletivo. O que estamos propondo aqui no projeto, e o que eu acho que é a questão, é que você aprenda a respeitar a religião da outra pessoa, que você não discrimine a outra pessoa, nem deixe a outra pessoa de lado por causa de sua religião. emitir.

Quando entramos no que faria parte da exposição “Portugueses no Mundo” [no Museu Histórico Nacional], que fala mais sobre o período colonial, há um objeto, um prédio que fica bem no meio de uma das salas, que é o Templo de Oxalá. A escola corre um risco ao trabalhar com diferentes religiões: pensa-as como elementos essencializados, puros, estáticos, sem diferenças entre seguidores de uma mesma fé, sem considerar a relação entre as diferentes identidades que fazem parte dos grupos religiosos em questão . .

Figura  9  -  Penúltimo  quadrinho  de  história  sem  título  elaborado por quatro alunos da turma 1604 em 2013
Figura 9 - Penúltimo quadrinho de história sem título elaborado por quatro alunos da turma 1604 em 2013

Tal qual Vandinho: candomblecistas e umbandistas rompendo o silêncio

Silêncio que permeia a escola: “Professora, não vou escrever essa palavra no meu caderno, não vou falar de macumba” (CORDEIRO, 2013). Não por acaso, os professores também identificaram o mesmo que Caputo (2012): Alunos de Umbanda e Candomblé estão escondidos na escola. Carolina Ferreira destaca o silêncio dos estudantes que seguem uma religião baseada em África e se escondem na escola para evitar perseguições.

18 Esta campanha foi criada pelo Coletivo de Entidades Negras (CEN) com o objetivo de incentivar os seguidores das religiões africanas a admitirem a sua religião no censo de 2010. Mas este grupo também pode incluir pessoas que preferem omitir a sua religião no espaço público. .

Figura 12 - Censo feito com os alunos do Programa de Educação de Jovens e  Adultos (PEJA)
Figura 12 - Censo feito com os alunos do Programa de Educação de Jovens e Adultos (PEJA)

Desconstruindo estereótipos

Identificar nos seguidores de uma religião diferente da sua a mesma humanidade que existe em você é reconhecer que essas pessoas não podem ser rotuladas como se fizessem parte de uma massa uniforme, homogênea e igual. Segundo os professores, muitos alunos entendem os três elementos como se fossem partes de uma única engrenagem. E entenda que o mundo, multicolorido, não se limita às cores que vemos à primeira vista.

A pergunta de se fazer, de questionar, de entender que mesmo que ele não se identifique com aquela religião, de entender que existe algo diferente dele. A narrativa de Bruno é fundamental por dois motivos: primeiro, porque podemos perceber que o potencial da exposição para enfrentar a discriminação religiosa presente na escola é limitado.

Aliança com os pares

Resistência de pais e alunos

A questão é se cabe aos professores incentivar o debate e o pensamento crítico entre os alunos sobre o que lhes é dito dentro e fora da escola. Aí eu falei para ele: “ei, ele não fez o trabalho de diversidade, é isso, é isso, é isso, a turma está mandando ele e ele, fora as faltas, não teve interesse em entrar em grupo para enviar. em mim." Aí ela disse: “Somos Testemunhas de Jeová e não nos envolvemos em manifestações, movimentos, nada disso.” Eu falei: “mas é um projeto da escola para ampliar o conhecimento deles, não estamos pregando religião. Existe a possibilidade de que a resistência dos responsáveis ​​seja considerada um obstáculo maior pelos professores entrevistados, uma vez que o contato, o diálogo e o debate com os pais estão menos presentes no cotidiano da escola do que com os alunos.

Além disso, os pais muitas vezes aprendem com os filhos o que está acontecendo na escola. O que é isso?" Eu falei: "é o show de dança, é disso que estamos falando, os alunos já estão ensaiando", ela só fez uma cara dessas.

Resistência sutil de professores e da equipe diretiva

Quando trabalhamos por algo que não está na lei ou que a sociedade não aprova, parece que estamos criando uma espécie de utopia e somos muito criticados. E mostram que não só no início desta atividade, diferentes concepções sobre educação se chocaram. Porém, para este coordenador, parece que não é desejável que os alunos ateus se identifiquem na escola.

Portanto, se as escolas têm como um dos seus objetivos a formação de cidadãos, nada mais coerente com esta lei do que evitar dar espaço e visibilidade a pessoas que não têm religião. Para entender por que os professores entrevistados identificam resistência e oposição à Exposição apenas entre os alunos e os pais dos alunos, enquanto outros professores e equipes gestoras são apresentados como parceiros do projeto, é necessária uma análise complexa e aprofundada que não se limite ao corpo deste trabalho.

A Mostra no currículo de História

Para a professora Carolina Ferreira, hoje existem muito mais recursos para lidar com a África e a cultura negra em geral na sala de aula do que quando ela estudava história. Vale a pena considerar até que ponto esta atividade está ligada a outras aulas de história ou é apenas um projeto independente, sem relação com o restante do conteúdo abordado em sala de aula. Patrícia Santos, pensando nos problemas que o ensino religioso causaria na escola, destaca que o conteúdo regular de história é repleto de temas e assuntos relacionados à religião.

Um exemplo significativo de como a Mostra Diversidade Religiosa provoca debate sobre o que deve e pode ser ensinado em uma aula de história é o conflito entre a mãe de um aluno e a professora Renata Cordeiro. Por um lado, a responsabilidade afastou o aluno do ensino regular por não participar da atividade; por outro lado, discutiu com os professores o que deveria e o que não deveria ser ensinado nas aulas de História.

Aperta e afrouxa: caminhos e obstáculos da Mostra

A professora Renata Cordeiro foi a pessoa por meio de quem tive contato com a exposição Diversidade Religiosa. Patrícia Santos atribuiu o adiamento da exposição sobre diversidade religiosa à prioridade que os professores de história deram a este outro projeto: “uma das coisas que nos fez parar a Diversidade22 foi o projeto Museu na Escola. A Exposição sobre Diversidade Religiosa ora esfria a questão que permeia a nossa prática docente, ora esquenta: qual a finalidade do ensino de História.

A formação e reformulação da Mostra sobre Diversidade Religiosa faz parte das reflexões sobre as escolas públicas que temos. A partir da Exposição sobre Diversidade Religiosa e dos conflitos por ela expostos, poderão surgir novas fissuras no currículo, novos debates sobre o papel da escola e, em particular, do ensino de História.

Imagem

Figura  1  -  Cartaz  com  os  produtos  à  venda  em  uma  loja  de  artigos  religiosos  na  Feirinha da Pavuna (RJ)
Figura  2  -  Foto  da  Paróquia  Nossa  Senhora  do  Carmo  feita  por  aluno  da  escola  Elisa  Lucinda,  destacando  a  imagem  da  Virgem  Maria carregando o menino Jesus
Figura  3  -  Mural  produzido  na  escola  municipal  Edméa  Dulce  de  Barros  Franco  no município de Quatis – RJ
Figura  4  -  Postagem  no  Facebook  de  Ademir  dos  Santos  em  13  de  outubro  de  2014,  então  aluno  do  3°  ano  do  Ensino  Médio  no Colégio  Estadual  Professor  Murilo  Braga:  foto  com  o  quadro  produzido  pela  professora  de  Ensino  Rel
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Referências

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