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Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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Academic year: 2023

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O imortal Rabelais: Alfredo Gallis e a literatura pornográfica no Brasil do final do século XIX / Aline Cristina Moreira de Almeida. Essas categorias formais não existiam para a imaginação do leitor brasileiro no final do século XIX.

O riso na Idade Média e o mundo pré-industrial

Não mais o “vulgar” medieval dos fabliaux, mas uma “ironia maliciosa” que nos remete à Antiguidade e que “pressupõe um sistema complexo e multifacetado de possibilidades de valorização” (p. 189). Em seu famoso estudo, Bakhtin observa que as interpretações de François Rabelais como um "grande poeta da 'carne' e da 'barriga' e as críticas à sua 'fisiologia grosseira' são limitações concebidas pela compreensão de que ""matéria', 'corpo' e 'vida material' (comer, beber, necessidades naturais, etc.)” adquirida ao longo dos séculos, especialmente no século XIX (1987, p. 16).

A ascensão da pornografia: o surgimento da literatura libertina

Publicado na França em 1748, era conhecido entre os leitores brasileiros do século XIX como um livro perigoso. Assim como Teresa Filosofa, Fanny Hill foi um dos livros libertinos que entrou na lista das “leituras só para homens” no final do século XIX.

A concepção moderna de pornografia

Em Sade há “um panteão inclassificável de personagens” e uma “pluralidade de gêneros literários”, representando “a nova pornografia que se abriu na virada do século XVIII para o século XIX, a mesma que Aretino para o erótico literário do Renascimento " (p. 127). A pornografia, sempre associada à cultura impressa, não se limitou aos livros no final do século XVIII. Principalmente em prosa, foi produzida a literatura licenciosa que surgiu no Brasil no final do século, estimulando uma nova onda de ataques à popularização da leitura.

No final do século XIX, a pornografia tornou-se um problema que afetava todas as áreas da sociedade brasileira. Segundo El Far, “o leitor carioca do final do século XIX, sedento por alguma novidade literária [..], dificilmente voltaria para casa de mãos vazias” (2004, p. 27). Os profissionais de marketing sabiam que a "proibição" era uma boa estratégia publicitária, como um anúncio da Livraria Cruz Coutinho em 1879, que se gabava: "as mulheres não deveriam ler (se quisessem)".54 As listas de livros eram frequentemente anunciadas com produtos avulsos ao lado. a produtos direcionados ao público feminino.

56  Ilustração Brasileira, Rio de Janeiro, 01 set. 1887.
56 Ilustração Brasileira, Rio de Janeiro, 01 set. 1887.

As categorias de “livros para homens”

Uma das obras mais famosas entre os leitores franceses do século XVIII, citada em Teresa Filósofa, a primeira versão em português chamava-se Saturnino porteiro dos frades bentos. A história não só foi traduzida, mas também adaptada ao cenário do Rio de Janeiro do século XIX: “em vez de Paris, Saturnino teve o Rio de Janeiro como cenário de suas aventuras”; assim como “a ordem dos cartuxos, que aqui ainda não existia, foi trocada pela dos beneditinos, atuante em nosso país desde o século XVI” (EL FAR, 2004, p. 215). Para os leitores brasileiros do final do século XIX, “o romance naturalista era um produto de grande procura numa sociedade recentemente libertada dos laços da escravidão e da monarquia” (MENDES, 2015, p. 9).

As narrativas compartilhavam o foco na sexualidade feminina e “conseguiram explorar com perspicácia e, muitas vezes, bom humor, os limites da decência e da moralidade no século XIX” (p. 240). Os livros publicados por esses dois pseudônimos combinavam as influências da tradição libertina, já expressa nos pseudônimos adotados, com a moda realista-naturalista do século XIX (p. 241). Através da investigação sobre as fontes e do reconhecimento do fenómeno da pornografia, o mercado do livro do final do século XIX e início do século XX pode ser redesenhado.

Biografia e fortuna crítica

No artigo “A pornografia no final do século: os romances de Alfredo Gallis” (2007) da professora portuguesa Maria Helena Santana da Universidade de Coimbra, encontramos o primeiro estudo crítico de Alfredo Gallis e dos seus livros. Segundo Santana, os livros de Alfred Gallis podem ser divididos “segundo uma escala descendente, que vai desde obras de caráter mais ou menos respeitável até as mais desqualificantes” (p. 240). 66 Expressões como “quente”, “lusty”, entre outras, são repetidas em praticamente todos os livros de Alfred Gallis para justificar o desejo sexual dos personagens e o potencial pornográfico da narrativa.

Contudo, embora reconheça a importância de Alfredo Gallis e dos seus livros para esta mudança de paradigma, classifica-os como subliteratura. Santos diz que por volta da virada do século XX surgiram muitos textos que “tinham um pouco de pimenta anônima, mas sem arder como algumas obras, por exemplo, de Alfredo Gallis” (p. 127). Tal como acontece com muitos outros críticos, a leitura de Santos também classifica os livros de Alfredo Gallis como moralistas e pedagógicos, nos quais as passagens pornográficas são apenas instrumentos para ilustrar a decadência da sociedade portuguesa.

Fama e infâmia: Alfredo Gallis e a imprensa

Ser correspondente de jornal indicava uma posição de prestígio, e podemos supor que Alfredo Gallis era um literato relevante no campo intelectual ainda naquela época. Paralelamente ao seu intenso e prestigioso trabalho jornalístico, Alfredo Gallis também explorou as habilidades do polígrafo na literatura. Embora se concorde que Alfredo Gallis era o personagem utilizado para assinar livros “sérios”, isso não pode ser considerado uma regra.

Assim Alfredo Gallis, independentemente do nome com que se assinasse, ficou marcado pela imoralidade dos seus livros. No Brasil, a notícia da morte de Alfredo Gallis parece ter decidido como o escritor será lembrado. Enquanto a pornografia manteve o carinho dos leitores, Alfredo Gallis também continuou sendo uma referência no gênero.

Bibliografia

É possível que alguns livros apócrifos tenham sido atribuídos ao pseudônimo de Alfredo Gallis, sem terem sido realmente escritos por ele. No Brasil do final do século 19 e início do século 20, François Rabelais era conhecido como um escritor "tímido". É o caso do livro A História de cada uma: serões do convento, cujas referências editoriais são desconhecidas.

Ao lado de Amante de Jesus e Os Crimes do Amor, Volupias: 14 contos galantes foi um dos livros mais vendidos de Alfredo Gallis no Brasil. A partir desse anúncio publicado em abril de 1886 na revista Pontos nos ii, editada por Rafael Bordalo Pinheiro, percebe-se que os livros pornográficos não faziam sucesso apenas entre os leitores do Brasil. O importante Padre Sena Freitas, um dos nomes mais importantes do catolicismo do final do século XIX, tanto no Brasil como em Portugal, diz que a publicação de tal desgraça é um insulto à memória de Johannes Gutenberg e pede ao Ministro da Justiça para impedir a circulação deste e de outros livros que são "contrários à natureza e só tendem a provocar no homem instintos inferiores aos dos animais".99 Volúpias também era famoso entre os escritores.

Uma leitura alegre por excelência

No prefácio da segunda edição, o autor refere-se ao livro como um retrato da “condição engraçada” de sua juventude “descuidada” que floresceu “em sorrisos felizes e na tentativa de animar os outros” (RABELAIS, 1906, p.11). ) ). Esta ausência de culpa - que também pode ser observada nos livros "sérios" de Gallis - é uma das características que o autor empresta do imaginário rabelaisiano medieval, em que a pressão social está suspensa, pois só importam a liberdade, a alegria e a felicidade. . O repertório naturalista de Gallis, somado ao seu conhecimento da tradição pornográfica, forneceu os argumentos histéricos para justificar o "espírito ardente" de Teresa.

Os companheiros monásticos poderiam explorar o “potencial de seus corpos” num ambiente seguro; desde que a virgindade seja preservada, proporcionaram oportunidades para alcançar um bom casamento, conscientes de que esses encontros entre pessoas do mesmo sexo são apenas uma preparação para o “verdadeiro idílio” que só seria alcançado através da penetração masculina (EL FAR, 2004, p. 236). ). Ele, um “homem vivo” com “olhos sensuais e ousados, de quem despe uma mulher quando a olha, sem medo ou timidez”; Ela, "uma mulher perfeita em toda a flor da juventude, em todos os sucos da vida, a mulher de Balzac por excelência, que sabe manter um homem perto de si, na ternura sensual de um beijo, na pressão provocadora de um abraçar. " (RABELAIS, 1906, p. 38). À cabeceira da mesa está Horácio nos braços de Ligurin, cuja túnica aberta o faz parecer "o mais insolente dos cortesãos" (RABELAIS, 1906, p. 85).

Iniciação sexual e voyeurismo em “A primeira noite feliz”, “A primeira

A moral da história é que uma vida de excessos termina em cansaço extremo, acompanhado de um tédio terrível. Enquanto a afilhada suspirava de amor e angústia pelo encontro, o padrinho sonhava com o casamento de Carmen com um amigo próximo, o Conde de..., um homem de meia-idade tão rico quanto ele. Ao contrário do Abade Maurício, o protagonista de “Em flagrante” não se limita apenas a observar de longe.

A sua chegada foi celebrada com um jantar em família, que contou também com a presença de “uma morena elegante de dezoito anos” chamada Adélia, amiga íntima da prima (p. 94). Alberto observou atentamente ambos: o primeiro “indicava fogo, vivacidade, entusiasmo, delírio”, seria capaz de esmagar os “delicados filtros do amor” em “loucura de carícias ardentes” (p. 95); A prima, Rosita, era loira, “muito branca e rosada”, dotada de uma volúpia sutil, como licores doces “que intoxicam lentamente” (p. 95). O médico procura a melhor posição e, em cima de um móvel, encontra "a imagem mais sedutora e instigante que se possa imaginar" (p. 101).

Histórias de prostitutas: a personagem feminina como protagonista em

Olhando para a sua produção literária, percebemos que o livro de 1886 já começava a dar pequenos exemplos do que um escritor com tantos recursos como Alfredo Gallis poderia fazer. Pela leitura das críticas apresentadas, percebemos que ainda não há consenso sobre quais processos podem ter contribuído para o quase total esquecimento de Alfredo Galli. Na verdade, os seus cargos públicos, os muitos jornais e revistas para os quais contribuiu, além das vendas massivas dos seus livros, sugerem que Alfredo Gallis pode ter feito fortuna.

Se atribuirmos “valor literário” a Alfredo Gallis e às suas obras, será na direcção oposta à tomada pelos críticos a favor do naturalismo, a estética a que Gallis se referia. O mérito de Alfredo Gallis não reside na sua intenção pedagógica de criticar a sociedade em que viveu. Alfredo Gallis merece destaque porque foi um escritor plenamente profissional, pelo impressionante número de livros que escreveu, pela colaboração com diversas revistas e pela capacidade de escrever sobre diversos assuntos, adotando diferentes vozes literárias.

Alfredo Gallis parecia ter consciência disso, parecia ter consciência da imagem que cultivava entre os críticos do seu tempo. Cartas de um Japonês (de Lisboa a Tóquio): críticas de um Oriental sobre o nosso país Alfredo Gallis 1907.

Imagem

56  Ilustração Brasileira, Rio de Janeiro, 01 set. 1887.

Referências

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Professor Adjunto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro UNIRIO Professor Adjunto da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro UFRRJ Doutor em Direito pela Universidade