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Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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Academic year: 2023

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Faculdade de Direito

Vinícius de Assis Romão

Entre a vida na rua e os encontros com a prisão: um estudo a partir das audiências de custódia

Rio de Janeiro

2019

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Entre a vida na rua e os encontros com a prisão: um estudo a partir das audiências de custódia

Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre ao Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: Cidadania, Estado e Globalização.

Orientadora: Profª. Drª. Vera Malaguti Batista

Rio de Janeiro 2019

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CATALOGAÇÃO NA FONTE

UERJ/REDE SIRIUS/BIBLIOTECA CCS/C

Bibliotecária: Marcela Rodrigues de Souza CRB7/5906

Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta tese, desde que citada a fonte.

_______________________________________ _____________________

Assinatura Data

R767 Romão, Vinícius de Assis.

Entre a vida na rua e os encontros com a prisão: um estudo a partir das audiências de custódia / Vinícius de Assis Romão. - 2019.

195 f.

Orientador: Profª. Dra. Vera Malaguti Batista.

Dissertação (Mestrado). Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Direito.

1. Pessoas desabrigadas- Teses. 2.Audiências públicas –Teses.

3.Racismo – Teses. I.Batista, Vera Malaguti. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Faculdade de Direito. III. Título.

CDU 339

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Entre a vida na rua e os encontros com a prisão: um estudo a partir das audiências de custódia

Dissertação apresentada com requisito parcial para obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Área de concentração: Cidadania, Estado e Globalização.

Data de aprovação: 15 de fevereiro de 2019.

Banca Examinadora:

____________________________________________

Profa. Dra. Vera Malaguti Batista (Orientadora) Faculdade de Direito – UERJ

____________________________________________

Prof. Dr. Nilo Batista

Faculdade de Direito – UERJ

____________________________________________

Profa. Dra. Thula Rafaela de Oliveira Pires

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro 2019

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A minha mãe, Aldaci, por tudo.

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Este resultado final, por escrito, de trabalhos e reflexões que vêm de antes da seleção para entrar no mestrado, é um ponto no oceano de experiências e trocas que fazem ele ter sentido. A melhor conquista que se pode ter no árduo caminho da academia é transformá-lo em uma vivência coletiva, horizontalizar relações e compartilhar afetos que possam vencer a lógica individualista, vaidosa e competitiva que nos espeta de tantos lados.

A mudança ao Rio de Janeiro, e junto com ela uma sucessão de acontecimentos pessoais e conjunturais, marcou uma importante etapa do meu aprendizado de vida. Entre alegrias e dificuldades, tive a sorte de contar, nem sempre com a proximidade desejada, com muitas mãos. Primeiro, meus pais, Aldaci e Edmilton, e minha tia Gisa, que me deram todos os suportes possíveis para todos os começos e também para chegar até aqui, o final deste ciclo. Em seguida, meus amigos e amigas de Salvador, companhias de longa data que me estimularam e me mantiveram de pé nos momentos mais difíceis. A Daniel e Txapuã, o mais carinhoso abraço. A Rebecca e Flávia, pela amizade indispensável. Ao Grupo Clandestino de estudos em Controle, Cidade e Prisões: nossos encontros políticos, afetivos e teóricos fizeram este trabalho ser coletivo muito antes da primeira linha escrita. A minha grande amiga Bruna, que está sempre por perto.

À distância, outras pessoas incríveis me apoiaram e torceram com muito afeto, traçando junto comigo este caminho e marcaram, cada uma a seu tempo, do seu jeito, na conjuntura que foi possível, a minha trajetória. Carol e Camila, muito obrigado. Durante esta caminhada, novos grandes encontros também enriqueceram o meu olhar e deixaram um pouco de si.

Agradeço ao Programa Direito e Relações Raciais (PDRR) da UFBA por ter sido decisivo para que eu amadurecesse muitas das reflexões teórico-metodológicas e epistêmicas que desenvolvi nesta pesquisa. Ao professor Samuel Vida, pelos ensinamentos e por importantes conselhos em conversas informais.

A Ana Luisa e a Lucas Matos, pelo acolhimento desde quando tudo era apenas uma ideia distante, pelos lindos momentos compartilhados e por todo o entrosamento, mundo afora. A Lucas Ramos, grande parceiro, por todo apoio e afinidade. Em nossos apartamentos, onde o Rio foi mais baiano, vocês foram uma verdadeira família. A todas as amizades que migraram, em algum momento, para sermos juntos ―baiúnos‖ entre sambas, almoços caseiros, bares e feiras. A Isadora, também pela força no início do curso, Larissa e Marcelo, um chêro.

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de epifania, no calor do momento, Caetano Veloso, cercado de amores, envolto em angústias, deixou escapar que ali ele e os seus viviam na melhor cidade da América do Sul. Não importa saber se era Rio de Janeiro ou Salvador. Algumas vivências marcam profundamente a percepção de que são as pessoas que fazem o lugar. Aos amigos do Rio de Janeiro, o mais singelo abraço por me fazerem viver ―que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá e é tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense estar‖1. A João, Renata, Breno, Carol Santos, Camilla, Luciana, Diogo, Gabriel Salgado e Júlia.

Aos demais colegas de Linha com quem compartilhei ótimos momentos, trocando experiências ricas de distintos cantos do país: Caio, Guilherme e Gabriel Brezinski.

Gostaria de agradecer à professora ―Verinha‖ por ter sido mais que uma orientadora completa. Faz do percurso um denso e sutil processo de aprendizado. Por tudo, a minha profunda admiração. Ao professor Nilo Batista, inspiração de longa data, pelo grande aprendizado nos pequenos encontros e na sala de aula. O Instituto Carioca de Criminologia deu asas a inesquecíveis imaginações criminológicas.

Agradeço à Thula, professora insubstituível, por ter me recebido tão bem na PUC Rio e contribuído para que eu aprendesse muito, politizando angústias e compreendendo melhor muitas questões sensíveis que reviraram positivamente esta pesquisa, desde a primeira vez que a encontrei, numa palestra em um lugar frio sob muitos aspectos, até a banca estendida de qualificação.

À equipe do Programa Corra pro Abraço no Núcleo de Prisão em Flagrante (NPF), na pessoa de Lucineia Rocha, que tanto me ensinou com suas percepções qualificadas e sua experiência alerta às enrascadas do poder punitivo. Agradeço à equipe por todo o apoio à pesquisa e por terem feito ela possível. Aos servidores do cartório do NPF que atenciosamente me abriram portas necessárias.

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

1 Caminhos do Coração – Gonzaguinha.

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Não tenho saias, não tenho casacos Não tenho perfume, não tenho amor Não tenho fé Não tenho cultura Não tenho mãe, não tenho pai Não tenho irmão, não tenho filhos Não tenho tias, não tenho tios Não tenho amor, não tenho importância [...]

Então o que eu tenho?

Por que mesmo eu estou viva?

Sim, inferno O que eu tenho Ninguém pode tirar de mim Tenho meu cabelo, tenho minha cabeça Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas Tenho meus olhos, tenho meu nariz Tenho minha boca Eu tenho Eu tenho a mim mesma Tenho meus braços, minhas mãos Tenho meus dedos, tenho minhas pernas Tenho meus pés, tenho dedos nos pés Tenho meu fígado Tenho meu sangue Eu tenho uma vida Eu tenho vidas!

Tenho dores de cabeça e de dente E tenho horas ruins, assim como você Tenho meu cabelo, tenho minha cabeça Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas Tenho meus olhos, tenho meu nariz Tenho minha boca Eu tenho o meu sorriso!

(Nina Simone ‒ Tradução livre de Ain’t got no/ I got a life)

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ROMÃO, Vinícius de Assis. Entre a vida na rua e os encontros com a prisão: um estudo a partir das audiências de custódia. 2019. 195f. Dissertação (Mestrado em Direito Penal) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.

A pesquisa tentou compreender o controle da circulação de pessoas em situação de rua, estudando os efeitos da detenção, as possibilidades de encontros com a prisão e os mecanismos punitivos em distintos territórios, considerando a raça como um relevante marcador de espaço. Para tanto, realizou-se observação do dentro e do fora das audiências de custódia no Núcleo de Prisão em Flagrante de Salvador e análise documental de Autos de Prisão em Flagrante referentes às audiências acompanhadas e também daqueles datados até cinco anos antes da prisão que gerou essa audiência. O deslocamento no campo permitiu analisar os ditos e os não ditos e confrontar documentos e discursos de atores institucionais, com um olhar atento para a antinegritude que se manifesta no encontro presencial com o preso e na mobilização de mecanismos jurídicos na prática judiciária. A pesquisa também trabalhou com as funções ocultas da prisão em flagrante, da prisão preventiva e das medidas cautelares diversas da prisão, em dois distintos períodos do ano de 2018 em Salvador. Entre as pretensões retributivas e correcionalistas, em diferenciadas demandas por ordem, estudou-se o circuito fechado ao redor das liberdades precárias da população de rua que apresenta permanências de um poder punitivo forjado na escravidão.

Palavras-chave: Pessoas em situação de rua. Audiências de custódia. Territórios.

Criminalização da pobreza. Racismo

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ROMÃO, Vinícius de Assis. Between life on the street and encounters with prison:a study from custody hearings. 2019. 195f. Dissertação (Mestrado em Direito Penal) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.

The research tried to understand the control of street people‘s circulation, studying the effects of detention, the possibilities of encountering the prison and the punitive mechanisms in different territories, considering the race as a relevant marker of space. In order to do so, it was observed the inside and the outside of custody hearings in the Núcleo de Prisão em Flagrante, the documental analysis of proceedings related to the audiences followed as well as those up to five years before the prison that generated that hearing. The empirical research allowed us to confront documents and speeches of institutional actors, with a careful look at the anti-black speech in the face-to-face meeting once with the prisoner and in the use of legal mechanisms in judicial practice. This research also works with the hidden functions of red- handed arrest, pre-trial detention and various prison protective measures in two different periods of the year 2018 in Salvador. Among the retributive and correctionalist pretensions, in different demands for order, we studied the closed circuit around the precarious freedoms of the street population that presents permanencies of a punitive power forged in slavery.

Keywords: Homeless people. Custody hearings. Territories. Criminalization of poverty.

Racism.

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ADPF Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental BCS Base Comunitária de Segurança

CEAPA Central de Alternativas Penais e Medidas Alternativas CIAP Central de Informações de Alternativas Penais

CNJ Conselho Nacional de Justiça

DPE-BA Defensoria Pública do Estado da Bahia FONAPE Fórum Nacional de Alternativas Penais MPE-BA Ministério Público do Estado da Bahia

NPF Núcleo de Prisão em Flagrante e Audiências de Custódia PCPA Programa Corra pro Abraço

PM Polícia Militar

PPV Programa Pacto pela Vida STF Supremo Tribunal Federal STJ Superior Tribunal de Justiça

SUAS Sistema Único de Assistência Social SUS Sistema Único de Saúde

TJBA Tribunal de Justiça do Estado da Bahia UPP Unidade de Polícia Pacificadora

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1

1.1 1.2 1.2.1

1.2.2 1.3 2

2.1 2.2 2.2.1

2.2.2

2.2.3 3

3.1 3.2 3.3 3.3.1 3.3.2

3.3.3

3.4

INTRODUÇÃO...

MARCADORES DE ESPAÇO NO CONTROLE DA

CIRCULAÇÃO...

Caminhos de partida para as questões de pesquisa...

Circulando onde? Território e lugar de uma vida na rua ....

Situação de rua, circulação e território: tramas em torno do fixar-se em um lugar ...

Situando territórios para pensar a circulação em Salvador ...

Uma lente criminológica crítica sobre um controle antinegro ...

UMA OBSERVAÇÃO QUE SE DESLOCA NO NÚCLEO DE PRISÃO EM FLAGRANTE E AUDIÊNCIAS DE CUSTÓDIA...

Percursos metodológicos rumo ao campo...

O dentro e o fora das audiências de custódia ...

A circulação no espaço do Núcleo de Prisão em Flagrante e Audiências de Custódia ...

O Programa ―Corra Pro Abraço‖: uma proposta de acolhimento que busca fissurar a lógica punitiva ...

Entre audiências frias e atendimentos psicossociais quentes...

LIBERDADES PRECÁRIAS EM UM “CIRCUITO FECHADO”: O CONTROLE DA POPULAÇÃO DE RUA EM UMA CIDADE

NEGRA...

A situação de rua na cidade negra de Salvador ...

Liberdades precárias e a circulação na cidade ...

O controle da circulação entre flagrantes e prisões preventivas ...

As detenções entre os territórios e o lugar de uma vida na rua ...

A prisão preventiva por reiteração delitiva: a suspensão da circulação na cidade em uma prisão-depósito...

As audiências de custódia e o controle no verão: ampliando o olhar sobre as interdições à população de rua ...

A prisão “a médio prazo” em um “circuito fechado” ...

12

21 21 36

41 44 52

59 61 68

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79 90

108 113 117 126 126

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144 151

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3.4.2 Entre as estratégias de contenção e o controle aprimorado no NPF: as ciladas do judiciário à perspectiva de cuidado ...

CONSIDERAÇÕES FINAIS ...

REFERÊNCIAS ...

161 171 178

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INTRODUÇÃO

Corpos negros se acumulam nas ruas de muitas cidades grandes brasileiras. Da negação da presença à animalização destes corpos, as semelhanças entre a vasta diversidade deste grupo marcam sua vivência nas calçadas de distintos bairros do país, em Brotas ou na Tijuca, em Copacabana ou no Pelourinho e, evidentemente, nos Centros, muitas vezes estigmatizados como áreas ―degradadas‖ que parecem se valer da desumanização para serem adjetivadas.

Viver de forma territorializada em Salvador, com pouquíssimos deslocamentos, preenche uma determinada experiência de usos do território, práticas e relações espaciais (CARVALHO; PEREIRA, 2008, MIRANDA, 2016). Experiência distinta de outros corpos negros que se encontram entre as territorialidades transitórias da pobreza (SANTOS, 2004) e as fixações em lugares dos quais não podem se deslocar, sofrendo as consequências políticas, empobrecendo ao passo que sofrem de forma mais violenta o terror racial do estado brasileiro (SANTOS, 2014a; VARGAS, 2012). Nos últimos anos, o crescimento da situação de rua se expõe desde censos ‒ que se inserem entre um novo mecanismo de gestão e as demandas sociais destas pessoas ‒ ao próprio hábito de andar cotidianamente entre as ruas da cidade, do Centro Antigo ao Centro financeiro, da Cidade Baixa à Orla Atlântica.

Entre 2013 e 2017, a assistência jurídica gratuita no Patronato de Presos e Egressos da Bahia mudou completamente o meu destino. A experiência criminalizada dos ―jovens- homens-negros‖ (REIS, 2005) nos cárceres de Salvador conferiu um especial sentido à academia e à atuação jurídica, dentro das perspectivas de redução de danos que, junto a outras resistências, podem contribuir para enfrentar o terror da prisão e as práticas punitivas que atualizam velhas práticas coloniais (FLAUZINA, 2008; MBEMBE, 2017; BATISTA, 2011;

REIS, 2003, 2009).

Nessa experiência, as vivências com pessoas em situação de rua encarceradas, o contato com suas histórias de vida e as nuances do seu encarceramento marcaram a minha trajetória e me inseriram tanto na aventura criminológica quanto em uma advocacia compromissada com a intervenção, ainda que bastante limitada, naquela realidade. Os caminhos para conseguir restituir, primordialmente, a liberdade ou lutar judicialmente por direitos da execução penal possibilitaram uma vivência semanal, por quase quatro anos, com presos de diversas unidades do sistema prisional soteropolitano.

As questões desta pesquisa derivam desta sensibilidade político-acadêmica com o tema.

E descartar as ilusões positivistas da neutralidade leva a uma produção de conhecimento a

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partir de um lugar que se lança à mesa. Ao buscar romper com a perspectiva acadêmica autorreferenciada do direito, para estudar as práticas jurídicas sob uma perspectiva transdisciplinar, o pesquisador deve ainda rechaçar abordagens que tornem outros sujeitos como um tema objetificado de pesquisa (RAMOS, 1995).

A frieza de um jurista ―neutro‖ interessado nas práticas dos atores processuais nas audiências de custódia faria o mais surdo pesquisador precisar manter uma cabeça de gelo, assim que passasse pelo portão de acesso do Núcleo de Prisão em Flagrante (NPF). As tramas entre as vestimentas, as entradas, os olhares desconfiados ou singelos, os diferentes corpos que podem demandar direitos naquele espaço, os lugares sociais que limitam até onde se pode ir e o que se poder ouvir, também me colocaram em um lugar demarcado. Nos primeiros dias do campo, enquanto subia a ladeira em direção ao cartório, ainda com cabelos grandes, chegando ao NPF, descobri cobogós que muitos que passam em frente à carceragem, rumo ao cartório ou às salas das instituições jurídicas ou multiprofissionais, não veem. Foi de lá que veio um grito de um jovem preso para mim: ―diga aí, rasta‖2. Um sinal de reconhecimento que expôs a centralidade da escolha epistêmica da raça para lidar com as salas frias das audiências, os atendimentos psicossociais quentes e a análise de documentos processuais que silenciam e brutalizam aqueles corpos entre categorias que tentam se blindar do racismo (ALEXANDER, 2012; DUARTE, 2017).

Enquanto atuei nos presídios masculinos de Salvador, realizei uma pesquisa na qual tentei problematizar o ingresso e a permanência no cárcere de pessoas em situação de rua e as dinâmicas que contribuíam para uma exposição destacada à detenção (ROMÃO, 2016) ‒ que se relacionam com um ―estado de suspeição‖ (BATISTA, 2003a; CHALHOUB, 2011) e a exposição a uma intensa criminalização por fracassos reiterados de obras toscas sob as vestes do estereótipo (ZAFFARONI; BATISTA, 2011). Os atendimentos jurídicos entre celas, parlatórios e apertos de mão, nas salas de atendimento psicossocial dos presídios iam muito além das estratégias de defesa ou da intermediação para conseguir novas vias de documentos que pudessem evitar conduções arbitrárias à delegacia e possibilitar atendimentos em serviços de saúde. Daquele momento em diante aprofundei a minha dimensão sobre o genocídio multifacetado que fazia com que pessoas negras sistematicamente vivenciassem as negações no plano da existência em razão de sua ―presença ausente‖ (JAMES; AMPARO-ALVES, 2017; VARGAS, 2010; 2017).

2 ―Rasta‖, abreviação de rastafári, é um cumprimento cordial muito comum em Salvador dirigido não só a rastafáris, mas também a quem usa cabelos crespos, cacheados, tranças ou penteados dreadlocks. Em determinados territórios, é uma expressão de reconhecimento mútuo entre membros de um mesmo grupo sociorracial.

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Aquela investigação com recorte muito limitado contribuiu para fazer emergir uma outra inquietação. Para aprofundar os estudos sobre o controle penal da pobreza, no contexto urbano, seria preciso enfrentar a provocação trazida por Vera Telles (2015): desvendar os nexos que articulam a gestão dos espaços, a forma de controle e a produção de mercados. As questões da pesquisa a seguir engatam o rumo de uma compreensão da dinâmica entre o espaço urbano e a gestão da circulação dos indesejáveis, entre detenções que se tornam prisões em flagrante e medidas cautelares diversas, e seus efeitos no lugar e no território de uma vida na rua (SANTOS, 2014a).

O estudo dos processos de criminalização desta população se insere em um contexto de baixa produção de estudos críticos criminológicos sobre essa faceta da criminalização da pobreza, bem como sobre os mecanismos específicos por trás das prisões de pessoas em situação de rua no espaço urbano. Em uma cidade negra como Salvador, demanda-se um estudo sobre a situação de rua, a partir do seu contexto local, que trabalhe estruturalmente relações raciais e a questão criminal neste cenário de avanço de denegação de direitos e de exposição ao controle penal em meio urbano (TELLES, 2015; BATISTA, 2012; FLAUZINA, 2008).

Os encontros com forças de ordem, os processos penais em curso e as dinâmicas decorrentes do controle penal surge como algo crucial nos espaços políticos e nos discursos do Movimento Nacional de População de Rua (MNPR), do Programa Corra pro Abraço (PCPA) e do Núcleo Pop-Rua da Defensoria Pública do Estado da Bahia, indicando impactos nos modos de viver, se fixar e circular na cidade. No campo acadêmico, entretanto, pouco foi produzido em torno dessa questão, tendo sido dedicado mais espaço a outros interesses de pesquisa e outras necessidades básicas que se objetivava enfrentar. Nestas abordagens acadêmicas, não se costuma ultrapassar da constatação do conflito e das dificuldades geradas na vida social pelas relações emblemáticas com o sistema de justiça criminal.

As pessoas em situação de rua de hoje estão historicamente situadas entre os indesejáveis do sistema capitalista e o controle racial empreendido no processo pós-abolição de construção de uma sociedade ―civilizada‖ e ―moderna‖, que teve importantes passos nos projetos higienistas de urbanização e nas campanhas sanitaristas na virada para o século passado. A retomada de um estudo criminológico crítico e marginal sobre a cidade, como proposto por Vera Malaguti Batista (2015), deve levar em consideração este marco para o estudo das permanências históricas do negro brasileiro.

O grupo populacional é apenas uma lente para ampliar as percepções sobre as dinâmicas do controle antinegro, cujo foco aqui é a experiência masculina de uma vida na rua, na cidade

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de Salvador. Sem desconsiderar a heterogeneidade que marca a população de rua (RODRIGUES, 2016; SILVA, 2009), a afirmação enquanto grupo tem sido fruto de uma forte mobilização de resistência coletiva diante de um cenário de intensificação de criminalização simultâneo ao crescimento da produção de situações da rua, entre a pobreza e a miséria produzida na conjuntura neoliberal.

Ao notar como o sistema carcerário se converte em gestão populacional, que renova importância estratégica de mecanismos indiretos de um controle à distância pelo judiciário, em uma tecnologia particular de governo, Rafael Godoi (2017) acena para uma reorientação do controle populacional fora das prisões. Neste cenário, a população de rua não será entendida mais como a mera coletividade de múltiplos indivíduos, mas como um sujeito político, um objeto de governo, inserido como alvo específico dentro da gestão da população.

O intuito de pesquisar o controle penal da situação de rua, focando na experiência masculina, a partir da detenção se encontrou com um cenário de mudanças no horizonte da agenda criminológica. Para compreender de forma racializada a dinâmica entre o espaço urbano e a gestão governamental em torno dos indesejáveis, articulam-se temas que precisam ser mais explorados pela criminologia crítica brasileira: as nuances do controle racializado da pobreza urbana, em especial da população em situação de rua; a aproximação entre estudos críticos sobre a cidade e a criminologia crítica, desnaturalizando o território (TELLES, 2013;

2015).

Na academia, boa parte das pesquisas acadêmicas sobre a população de rua dizem respeito a etnografias sobre hábitos, habitação e relações que atravessam o viver dessas pessoas e se concentram no sudeste do país (VARANDA, 2009; KASPER, 2006; ALVES, 2017). A proposta aqui foi de realizar um estudo dentro dos processos de criminalização desta população no contexto de baixa produção de estudos críticos criminológicos. Algumas pesquisas na cidade, apesar de abordarem os diversos problemas que as pessoas em situação de rua enfrentam com as forças de ordem no espaço urbano e o próprio sistema de justiça, não destrincham mecanismos punitivos entre o território e o judiciário (CARDOSO, 2018;

MIRANDA, 2016). Este trabalho teve como um dos objetivos, estudar como os mecanismos de controle se articulam com a produção de ―territorialidades urbanas‖ e os usos do território (TELLES, 2015).

A cidade de Salvador foi uma das primeiras a realizar audiências de custódia, em 2015, e conta com uma estrutura singular no país. O Núcleo de Prisão em Flagrante (NPF) já existia desde 2013 e contava com alguma experiência de apresentação de presos ao judiciário, embora nem sempre isso significasse realizar uma audiência. Com o avanço da prática desse

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instituto processual, que se pretende de direitos humanos e desencarcerador, o contato presencial obrigatório entre juízes, promotores, defensores e pessoas presas em flagrante possibilita novas esferas de investigação.

Pretendo aqui problematizar mais as portas de entrada, antecipar o estudo para o encontro com a prisão e o momento entre eventual prisão cautelar (por tempo indeterminado) e eventual soltura, que se tornou mais rico metodologicamente através das audiências de custódia (PAIVA, 2016). A escolha metodológica das audiências de custódia como local da pesquisa de campo se vale do momento estratégico da prisão em flagrante e de todo corpus documental que ela dá acesso. Entre a possibilidade da restrição de liberdade se estender por uma prisão cautelar ou ser cessada, ainda se tem como temporalmente próximo os acontecimentos que precederam a opção das forças de ordem pela detenção e em seguida pela lavratura de um flagrante. Este flagrante, com suas limitações, oferecerá alguns dados a serem somados com os debates – entre os atores processuais – e documentos produzidos nestas audiências.

Como os mecanismos de captura do excedente para sua contenção, que não prescinde do correcionalismo, gerem a circulação urbana, entre a detenção e as solturas? Orientando-se por essa questão, aprofunda-se uma análise sobre o papel da raça na conformação dos discursos, das práticas punitivas e de seus efeitos, diante do desafio ‒ que se coloca como um objetivo ‒ de perceber os códigos do racismo que estão atravessados por discursos pretensamente neutros que conformam a dogmática jurídica e a prática judiciária.

Neste sentido, os mecanismos punitivos, em uma perspectiva que desnaturaliza o território, se valem de artifícios dialogam com a noção de marcador de espaço de Achille Mbembe (2017). Para ele, a raça é um grande critério de definição de grupos, de modo que ela instrumentaliza a sua segregação, valendo-se, por vezes, de um cálculo geral de riscos, voltados à prevenção dos perigos inerentes à sua circulação. Como as tensões raciais se colocam na gestão da pobreza, entre negociações e interdição física no espaço urbano, na cidade negra de Salvador? Como o racismo, enquanto elemento fundante do sistema penal e catapultador do seu excesso de violência e do terror sistemático infligido à pobreza negra (FLAUZINA, 2008), influi no controle da circulação e na provocação de deslocamentos na situação de rua? Os caminhos teórico-metodológicos enfrentam o papel da raça e do racismo enquanto conformadores do controle.

Ao estudar a detenção para além da manutenção imediata da prisão, fui levado a debater as medidas cautelares diversas da prisão, que se apresentam como um importante elo entre a prisão-depósito e o controle em meio aberto. O intuito foi compreender o controle da

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circulação de pessoas em situação de rua, na cidade de Salvador, a partir do estudo da detenção e das funções positivas, não meramente repressivas, do poder punitivo, considerando o racismo como sustentáculo da violência e da negação as possibilidades de existência e humanidade (FOUCAULT, 2014; FLAUZINA, 2008; FANON, 2008; CARNEIRO, 2006).

Partindo de uma prisão em flagrante – aproveitando-se do acesso a documentos policiais e judiciais sobre este caso ou outros anteriores que ela possibilita – busquei compreender o controle de circulação, revelando algo mais que estivesse oculto nas medidas repressivas tradicionalmente explicadas pela sanção jurídico-formal (BATISTA, 2003ab).

Valendo-se de uma observação em movimento entre as salas e as instituições do NPF, o dentro e o fora das audiências, a pesquisa lidou com a experiência de pessoas presas em situação de rua no momento processual que se decide sobre a sua liberdade. As potencialidades democráticas deste encontro com os juízes, promotores e defensores públicos foram colocadas em xeque junto às perspectivas de direitos humanos que não conseguem acessar a imposição de sofrimento negro nas práticas punitivas (FLAUZINA, 2014).

Ao trabalhar com uma lente criminológica para estudar um controle antinegro da pobreza urbana, tem-se a raça como um agente substantivo produtor das dinâmicas punitivas, das estratégias de detenção na rua à dupla negação negra, ―nem direitos nem humanidade‖, que se antecede, independe dos avanços progressistas gerais, o debate sobre cidadania para o da humanidade, em relação à população de rua. Com isso, foram mobilizadas novas gramáticas no estudo das afinidades necropolíticas ‒ que perpassam da morte social à justificação para o extermínio negro ‒ entre as instituições que tentam se encobrir pela

―democracia racial‖ brasileira, (FLAUZINA, 2008; VARGAS, 2017; JAMES; AMPARO- ALVES, 2017).

Acompanhar um documento judicial sendo produzido na prática por atores jurídicos, confere à análise documental ‒ outra técnica adotada na pesquisa ‒ uma dimensão mais ampla. Após a colheita dos pareces orais em audiências, reduzidos a termo de forma bastante sucinta e genérica, foi possível complexificar a produção de silenciamentos e a mediação judicial na construção da narrativa em um documento histórico que é o processo (OLIVEIRA;

SILVA, 2005), neste caso, o Auto de Prisão em Flagrante (APF). Com isso, confrontei alguns elementos dos documentos que chegavam, inseridos no APF, nas audiências de custódia, bem como daqueles que foram produzidos por ela. Também dei enfoque a outros registros criminais anteriores, entre 2013 e 2018, que eram referenciados nestes processos e se relacionavam às pessoas em situação de rua presas em flagrante. Isso intensificou a análise sobre as trajetórias de criminalização em distintos espaços da cidade e ampliou o olhar sobre

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os mecanismos punitivos, entre a fronteira do legal e ilegal (TELLES, 2015), seja nas ―prisões para averiguações‖ seja na operacionalização do argumento da reiteração criminosa que, sob o viés do paradigma etiológico (BARATTA, 2011), inverte a exposição acentuada ao encarceramento. Nas audiências de custódia, mesmo quando os delitos não apresentam sequer uma gravidade abstrata ‒ com destaque para o protagonismo dos pequenos furtos ‒ a custódia cautelar é uma possibilidade concreta, de modo que a própria seleção já constrói um perfil criminoso, cujo destino deve ser a incapacitação pela prisão (DIETER, 2013).

A observação semiestruturada foi adotada na pesquisa como um instrumento que pudesse permitir o acesso aos ditos e não ditos que circundam as audiências de custódia (MARCONI; LAKATOS, 2003). Com a interação entre as pessoas que, por distintas razões, se fazem presentes em uma cena temporalmente situada entre uma detenção e uma possível soltura ou encarceramento cautelar, foi possível problematizar os ―paredões‖ e os momentos entre audiências. O estudo sobre a gestão da circulação, entre a detenção e a prisão cautelar que se conecta com o controle em liberdade, permitiu compreender padrões nos discursos punitivos que se inserem em concretas demandas por ordem na cidade (BATISTA, 2011).

Em busca da heterogeneidade de fatos a serem observados, assim como fiz com a opção de não restringir o objeto de análise ao centro da cidade, dividi o campo em dois períodos, também com a aposta de que isso representasse um contato com sujeitos mais diversos. Com isso, também pude realizar o campo tanto no período marcado pelo auge das festas de rua que marcam a vivência na cidade, com impactos no comércio e na atuação das forças de ordem, quanto em um momento de maior refração em relação àquele.

Consideradas as duas fases da coleta de dados, observei o total de 19 pessoas situação de rua, que configuraram o universo de análise, uma determinada quantidade apta a esclarecer aspectos gerais das questões de pesquisa (PIRES, 2004). No total, nas duas fases de campo, observei audiências de custódia envolvendo 69 pessoas presas, 04 juízes, 03 defensores públicos, 03 promotores de justiça e advogados diversos, o que também me possibilitou trabalhar qualitativamente com amostras de um universo geral (PIRES, 2004), considerado como as pessoas que receberam medidas cautelares diversas ou foram presas preventivamente. Este universo contribuiu para uma análise de discursos e práticas na aplicação destas medidas e das relações de atores processuais entre pareceres e decisões.

Diante da atuação em revezamento dos atores processuais, em uma baixa rotatividade, onde as etapas de coleta se distanciam em seis meses, foi possível uma interpretação sistemática da condução das audiências e da produção de decisões judiciais. Dentro das limitações de uma pesquisa qualitativa (CRESSWELL, 2014), produzi uma generalização

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teórico-analítica (PIRES, 2014) sobre parte do controle mediado pelo Judiciário através de prisões preventivas e medidas cautelares aplicadas em audiências de custódia, no qual se insere o controle da população em situação de rua.

No NPF, vislumbrei a equipe do PCPA ‒ que contou com 07 profissionais ao todo durante o campo ‒ como uma importante fonte de dados, já que poderia ampliar as possibilidades de observação e facilitar a observação de audiências envolvendo pessoas em situação de rua. O PCPA recebia informações do cartório ou da assessoria dos defensores públicos sobre a existência de APFs referentes ao seu público, muitas vezes antes mesmo da entrevista pessoal entre essas pessoas presas com a DPE-BA ou até depois das audiências.

Os atendimentos psicossociais de pessoas presas pelo PCPA são feitos, em regra, somente àqueles e àquelas que, após colocados em liberdade, voluntariamente se deslocam até a sala do programa, embora possa haver um rápido atendimento em uma espécie de triagem entre aqueles que esperam o atendimento da Defensoria Pública (DPE-BA), a primeira instituição para onde os presos são deslocados depois que chegam à carceragem do NPF. Em boa parte dos casos, o PCPA só realiza o atendimento após a audiência, situação que depende de três circunstâncias: a Magistratura indicar o comparecimento ao Programa, mediante requerimento ou não da DPE-BA e do Ministério Público (MPE-BA); a restituição da liberdade pela Magistratura; a vontade da pessoa de comparecer à sala do Programa.

No contexto de avanço do encarceramento e também de aplicação de medidas alternativas, expandindo o controle em liberdade, a Resolução 213 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ao buscar aproximar o judiciário dos serviços sociais, desenha um paradigma de atenção social vinculado ao cumprimento de cautelares diversas da prisão. Desde 2016, o Programa Corra pro Abraço (PCPA), atua no Núcleo de Prisão em Flagrante (NPF), ampliando seu campo de atuação, na perspectiva de reduzir os danos do encarceramento à população de rua. Em meados de 2018, Salvador se tornou a primeira cidade brasileira a contar com a Central de Integrada de Alternativas Penais, mencionada no art. 9º da Resolução 213 do CNJ, dentro da qual atua a Central de Informações de Alternativas Penais, que atua no NPF.

A CEAPA - BA é a única estrutura do país que realmente funciona como uma Central Integrada segundo o conjunto das Alternativas Penais. Isso porque, a Central baiana atende quase todas as modalidades previstas, sejam: Transação Penal (PSC e PP), Pena Restritiva de Direitos (PSC e PP), Suspensão Condicional da

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Medida, Suspensão Condicional da Pena e Medidas Cautelares Diversas da Prisão que culminem em Comparecimento Periódico3.

A ―trama translocal e multi-institucional da prisão‖ de que fala Rafael Godoi (2017) se capilariza no entorno da prisão em flagrante, o que estimula novas abordagens empíricas que antecipem o olhar sobre os processos de criminalização que precarizam as liberdades da população de rua. Tentando compreender as relações entre a detenção e o controle em meio aberto, indo mais além da constatação da prisão-depósito, pude observar como as audiências de custódia têm se inserido como um novo elemento que dinamiza o ―circuito fechado‖, no ciclo de entradas e saídas da prisão (ALEXANDER, 2012), no qual as medidas alternativas e seus efeitos mantêm pessoas em situação de rua na lógica da ―prisão a médio prazo‖.

3 Disponível em: http://www.seap.ba.gov.br/pt-br/noticia/ciap-desenvolve-projeto-exitoso-no-atendimento-e- acompanhamento-de-pessoas-liberadas-em?fbclid=IwAR1zI7q9cawh-PfpiOb2ESqJM1KwaFC3n-

688_qmWUNM0ZAZ8bG7kE_JGKQ. Acesso em 12.01.2018.

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1 MARCADORES DE ESPAÇO NO CONTROLE DA CIRCULAÇÃO

1.1 Caminhos de partida para as questões de pesquisa

Pessoas em situação de rua são detidas em contextos complexos e bastante heterogêneos, assim como são heterogêneas as próprias formas de sobreviver e lutar diante das dificuldades intraduzíveis à ordem liberal cotidiana. A denegação de direitos conduz a desvios de rotinas das quais escapa o mais razoável planejamento além do dia seguinte. É a urgência pela vida que perpassa as atividades, as relações, os agenciamentos, as estratégias, as disputas e as negociações de quem vive na rua. Contudo, o direito, muito ligado a uma visão homogênea da sociedade, toma como premissa um determinado modo de viver na ordem capitalista. Isto promove um plano ideal de família, dinamiza a exigência de sujeição a um trabalho disciplinado e concebe a habitação como vinculada à ideia de propriedade4.

Em um primeiro olhar, os encontros entre punição e miséria não disputam qualquer papel de novidade. A sua presença nos estudos criminológicos críticos sobre as funções da pena vem de longa data, já que a ponta mais aguda da pauperização oferece muitas possibilidades de percepção das dinâmicas de controle ao longo da história. A repressão penal a pessoas em situação de rua atravessa os debates sobre a disciplina e também os debates sobre a contenção. Isto se verifica, respectivamente, no contexto de análise das rasp-huis e das casas de correção a partir do século XVII, em meio ao nascimento da fábrica, quando postos a trabalhar juntos a outros pobres, vagabundos e pequenos ladrões (RUSCHE;

KIRCHHEIMER,2004; MELOSSI; PAVARINI, 2014), bem como na observação das confluências contemporâneas em torno da prisão-depósito no grande encarceramento5, no pós-fordismo (DI GIORGI, 2006).

4 Foucault (2014), ao trabalhar o papel da justiça criminal no sistema polícia-prisão no âmbito da gestão diferencial das ilegalidades, ilustra o julgamento de um adolescente de 13 anos acusado de vadiagem e condenado a dois anos de correção, em 1840, que se tornou marcante pela postura resistente do jovem diante da ironia do juiz sobre a sua situação de rua. Cena que foi retratada pelo contranoticiário policial do jornal socialista La Phalange.

5 Para definir a expansão da instituição prisional no sistema forma de controle social a partir da virada para a década de 1980, opta-se pela categoria ―grande encarceramento‖ em vez de ―encarceramento em massa‖.

Wacquant (2009, p.43) elucida que não se trata de um processo que atinge grandes setores da vida social, com os meios de comunicação e a cultura de massa, uma vez que a intensificação das atividades punitivas centradas no cárcere ―têm sido finamente direcionadas‖ de acordo com a classe, a raça e o espaço físico. Sobre a análise de algumas dinâmicas do contexto brasileiro, ver FERNANDES, Daniel Fonseca. O grande encarceramento brasileiro: política criminal e prisão no Século XXI. Revista do CEPEJ, n. 18, p. 101-153, 2018.

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Dario Melossi e Alessandro Di Giorgi debatem entre o prefácio e o corpo do livro ―A miséria governada através do sistema penal‖ a função contemporânea da pena no pós- fordismo. Melossi (2014), ao refutar uma resposta fechada indicativa do fim do viés do disciplinamento em torno da lógica da fábrica, aponta para o convívio de tendências de tipo

―detentivo-neutralizante‖ e tendências de tipo ―autoritário-ressocializante‖ no boom carcerário estadunidense.

Evidente que a discussão sobre a função do cárcere no Brasil tem matizações, não só pela sua trajetória punitiva de matriz ibérica e da construção de um sistema penal sob bases escravistas (BATISTA, 2000; 2007), mas também pelas suas próprias características temporais e materiais de industrialização e desindustrialização. O diálogo referido, com uma perspectiva macrossociológica sobre efeitos e função da punição, é resgatado aqui para levar em conta a seguinte reflexão:

O cárcere parece perdurar obstinadamente como uma espécie de grande portão de ingresso ao contrato social, ou mesmo como introdução à forma de trabalho subordinado. É um pouco como se a descoberta dos comerciantes holandeses (e de outros similares), no início do século XVII - isto é, a descoberta de que eles podiam

―utilmente‖ ―pôr para trabalhar‖, juntamente com os seus capitais, os pobres, os mendigos, os vagabundos, os ladrõezinhos, os rebeldes que o processo de racionalização da agricultura estava expulsando dos campos - continuasse a se reproduzir junto com a ―colonização‖ capitalista de novos territórios (MELOSSI, 2014, p. 21).

Neste debate, o que interessa, neste momento, é considerar a centralidade do cárcere para a estrutura socioeconômica, diante do que já se debateu em torno de estratégias de controle funcionais ao capitalismo. O desenvolvimento das questões desta pesquisa se guiou, inicialmente, pelo interesse de perceber a utilização da função real de contenção afeta a gestão populacional em meio aberto. Rafael Godoi ‒ a partir de um contexto espacial e temporalmente concreto ‒ nos provoca a pensar a prisão-depósito para além da sua constatação, que contextualiza o armazenamento de sujeitos que não são mais úteis e podem ser administrados pela incapacitation ou pela neutralizazzione (MELOSSI, 2014).

Partir da função prisão-depósito para um estudo do funcionamento da prisão massificada. Não se trata de elucidar mais uma vez qual a função geral da prisão contemporânea, mas de questionar como ela vem funcionando num contexto específico e estratégico como São Paulo (GODOI, 2017, p. X).

A percepção da contenção de uma população excedente e de um surplus6 de força de trabalho desqualificada feita por Di Giorgi (2006) demonstra como esta função punitiva

6Definido pelo autor como ―uma força de trabalho em excesso no que tange à capacidade de absorção do mercado de trabalho‖ (DI GIORGI, 2006, p. 48).

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prescinde da consumação de delito e de qualquer finalidade reeducativa e correcional.

Articula-se potencialmente a estocagem de grupos inteiros considerados de risco, o que na verdade está ligado à gestão populacional que direciona a eles ferramentas de controle específicas. O autor destaca o avanço do controle em meio aberto – situando a realidade estadunidense de expansão das paroles, da liberdade condicional, entre outras –dialogando com as críticas feitas ainda nos anos 1970 por Stanley Cohen (1979).

Na perspectiva metodológica de estudar os sistemas punitivos concretos (RUSCHE;

KIRCHHEIMER, 2004), é indispensável localizar e fraturar esta reflexão, que pela observação das dinâmicas de controle, centradas na detenção, que são mobilizadas contra pessoas em situação de rua na cidade de Salvador. Diante disso, a articulação de três caminhos teóricos preliminares – expostos a seguir – contribui para afinar as questões que guiam esta pesquisa.

Foucault, muito além de apresentar um estudo sobre o funcionamento das prisões e sua consolidação enquanto pena, trabalha em ―Vigiar e Punir‖ as bases de um novo modelo de controle, no qual o cárcere era uma das facetas punitivas, que não se resumia apenas ao campo repressivo. Ao tomar a punição como uma ―função social complexa‖ (FOUCAULT, 2014, p.27), que apresenta efeitos punitivos em princípio não tão perceptíveis, expande sua análise para além das meras regras jurídicas.

Ao situar os sistemas punitivos em uma economia política do corpo, a partir da virada metodológica de Georg Rusche (2004), que indicou a complexidade dos mecanismos punitivos e seus efeitos úteis a determinadas sociedades e seu sistema econômico, Foucault (2014) refletiu sobre o sistema polícia-prisão, problematizando o cenário de vigilância que se expande para além dos muros do cárcere e que sujeita ao poder judiciário um papel intermediário complexo em relação ao manejo da delinquência, em um controle diferencial das ilegalidades.

Com esta retaguarda que se encontra em Zaffaroni (1991, p. 22-23) a importante noção de poder configurador, que revela a perversa faceta do discurso jurídico-penal que se justifica e se limita a sua parcela mais ínfima, encoberta pelo sistema penal formal, e não resiste ao mais singelo encontro com a realidade.

[...] o verdadeiro e real poder do sistema penal não é o poder que tem a mediação do órgão judicial. Este âmbito, no qual a própria lei renuncia aos limites da legalidade, em que desaparece qualquer função garantidora dos tipos penais e do qual se exclui a intervenção normal dos órgãos judiciais, é a base indispensável para que possa operar o verdadeiro exercício de poder do sistema penal [...] Mediante esta expressa e legal renúncia à legalidade penal, os órgãos do sistema penal são encarregados de um controle social militarizado e verticalizado, de uso cotidiano, exercido sobre a

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grande maioria da população, que se estende além do alcance meramente repressivo, por ser configurador da vida social.

Com isso, o intuito de estudar a detenção, nesta pesquisa, assume desde já, a importância de inseri-la em um contexto mais amplo e complexo de poder punitivo, seja pela busca da compreensão de suas funções positivas (FOUCAULT, 1999), seja pela compreensão do exercício do poder configurador, que se articula a uma concepção negativa da pena (ZAFFARONI; BATISTA, 2011).

A inquietação sobre as especificidades do controle exercido sobre a população em situação de rua, traduzidas na busca da complexificação de como ocorrem os encontros com uma situação de detenção e os circuitos que ela dinamiza, também se alimenta de algumas provocações metodológicas que partem da pesquisa de Rafael Godoi (2017) sobre a função contemporânea do cárcere paulista.

Considerar pessoas em situação de rua como uma população significa, primeiro, interpretar um grau de generalização possível entre suas necessidades humanas básicas historicamente determinadas (GUSTIN, 2016), e também sobre suas mobilizações de resistência à condição de violações em que estão inseridos. O ativista Samuel Rodrigues (2016), que viveu na rua em mais de um estado brasileiro, destaca:

o grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza logradouros públicos e as degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia provisória.

Considerada a heterogeneidade do grupo, a variedade das experiências pessoais, sobre a origem, a trajetória pretérita, os usos do espaço e as múltiplas subjetividades, é preciso pontuar as bases da noção de gestão populacional. Em uma genealogia do Estado moderno, a partir de uma história da razão governamental, Foucault (2008) percebe uma virada entre os séculos XVIII e XIX. Na constituição do será concebido como sociedade civil, cuja gestão deve ser assegurada pelo Estado, surge uma nova forma de governamentabilidade – cujas técnicas se forjam no seio da economia política – vinculada a uma razão de Estado que o situará até a contemporaneidade como regulador de interesses (FOUCAULT, 2008).

Neste cenário, a população não será entendida mais como a mera coletividade de múltiplos indivíduos, mas como um sujeito político, um objeto de governo. A coleção de súditos era objeto de um sistema mais disciplinar, e, portanto, gerido de forma mais regulamentar e essencialmente prescritiva das condutas. Sai de cena a razão de Estado vinculada a um antigo modelo de polícia, que se ocupava das coisas miúdas e concentrava as

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tecnologias para o crescimento das forças estatais, surgindo a gestão da população e a instituição da polícia com funções repressivas.

De um lado, vamos ter toda uma série de mecanismos que são do domínio da economia, que são do domínio da gestão da população e que terão por função fazer crescer as forças do Estado, e, de outro lado, certo aparelho ou certo número de instrumentos que vão garantir que a desordem, as irregularidades, os ilegalismos, as delinquências sejam impedidas ou reprimidas. [...] A nova governamentabilidade que, no século XVII, tinha acreditado poder aplicar-se inteira num projeto exaustivo e unitário de polícia, vê-se agora numa situação tal que, de um lado, terá de se referir a um domínio de naturalidade que é a economia. Terá de administrar populações. Terá também de se dotar de um ordenamento jurídico de respeito às liberdades. Terá, enfim, de se dotar de um instrumento de intervenção mais direto, mas negativo, que vai ser a polícia (FOUCAULT, 2008, p. 475-476) (grifos no original).

Apesar do olhar voltado para estados europeus entre os séculos XVI e XIX, a noção de governamentabilidade em Foucault (2008) fornece algumas pistas para se trabalhar, com as devidas matizações, algumas questões urbanas relativas a controle e circulação. O grupo que envolve pessoas em situação de rua vai estar inserido como um objeto específico dentro da gestão da população.

A partir daí, acredito que pensar o controle de circulação nas complexidades de uma vida na rua adquire novos contornos, desde que ampliado o enfoque da malha carcerária, como no caso dos ―vasos comunicantes‖, trabalhados por Rafael Godoi (2017). Com esta pesquisa não me dirijo tanto para o dentro, mas para o fora da instituição prisional. Pretendo aqui problematizar mais as portas de entrada, antecipar o estudo para o encontro com a prisão e o momento entre eventual prisão cautelar (por tempo indeterminado) e eventual soltura, que só há pouco tempo tornou-se mais viável, através da institucionalização7 das audiências de custódia (PAIVA, 2016). As observações direta e indireta objetivam investigar as funções complexas das medidas cautelares diversas da prisão e das próprias audiências de custódia, percebendo os elos que perpassam a gestão à distância, em meio aberto, pelo judiciário. As possibilidades de acionamento da detenção se situam nos fluxos gerados por um dispositivo translocal e multi-institucional.

7 É preciso destacar uma possível insegurança jurídico-política desta institucionalização. Apesar de reconhecida a sua constitucionalidade pelo STF na ADI 5240 e determinada a sua implementação pela ADPF 347, além de já ser constitucionalmente reconhecida a aplicação imediata dos tratados de direitos humanos ratificados pelo Brasil, existe uma tradição brasileira densamente legislativa que não raro contrapõe a aplicação direta até mesmo da Constituição. Ainda existe certa insurgência – que desconsidera as convenções internacionais ratificadas sobre o tema – contra a regulamentação feita pelo Conselho Nacional de Justiça, através da Resolução nº213/2015, em razão de não lei específica. Projetos de lei sobre o tema não têm avançado no Congresso e o Projeto de Novo Código de Processo Penal (PL 8045/2010) não prevê as audiências de custódia.

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Translocal porque o dispositivo não se confunde com um perímetro, porque funciona dentro e fora da prisão, produzindo e operando continuamente essa diferenciação territorial [...]. Multi-institucional porque o dispositivo não está limitado aos expedientes da administração penitenciária, porque implicam as variadas agências que conformam o sistema de justiça, também outras esferas governamentais [...].

Multi-institucional também porque envolve instituições de natureza variada, com distintos graus de formalização, desde sólidas organizações da sociedade civil – como a Pastoral Carcerária – até agenciamentos mais ou menos estáveis – como os que viabilizam toda a logística da visitação em penitenciárias do interior (GODOI, 2017, p. 238).

Eis o primeiro caminho teórico preliminar. Esta opção metodológica pode contribuir para tentar investigar as relações entre a possibilidade de detenção iminente e a provocação de deslocamentos de pessoas em situação de rua no espaço público. Além disso, pode contribuir para refletir sobre os momentos – entre interdições físicas e negociações – em que o dispositivo da detenção é acionado, bem como para estudar os efeitos na circulação de uma detenção que não se converte em prisão preventiva ou que sequer se converte em prisão em flagrante.

A escolha metodológica das audiências de custódia como local da pesquisa de campo se vale do momento estratégico da prisão em flagrante e de todo corpus documental que ela dá acesso. Entre a possibilidade da restrição de liberdade se estender por uma prisão cautelar ou ser cessada, ainda se tem como temporalmente próximo os acontecimentos que precederam a opção das forças de ordem pela detenção e em seguida pela lavratura de um flagrante. Este flagrante, com suas limitações, oferecerá alguns dados a serem somados com os debates – entre os atores processuais – e documentos produzidos nestas audiências.

Além disso, a observação entre o dentro e o fora da audiência de custódia - em especial dos atendimentos psicossociais a visitas e a pessoas em situação de rua, no âmbito de um programa multidisciplinar, desvinculado do poder judiciário, mas presente no Núcleo de Prisão em Flagrante de Salvador – pretende complexificar o olhar sobre o antes e o depois da detenção. Rafael Godoi (2017) situa ―uma forma de punição que acaba por afetar a vida de um sem-número de pessoas, dentro e fora das prisões‖. Antecipar o olhar da execução da pena para o momento pós-detenção e lavratura de auto de prisão em flagrante também contribui para ampliar os limites da análise documental, das questões jurídicas e dos efeitos positivos – ou configuradores – da detenção.

Foucault (2008) situa a origem da polícia, no sentido moderno, mais voltada à repressão, entrelaçada e pensada junto à urbanização do território. Polícia, comércio e urbanidade constituiriam uma unidade essencial na virada para o Século XVIII. Com isso, mais uma pista sobre controle em meio urbano que o autor oferece é a dinâmica do controle

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da circulação de pessoas, que se intensifica com uma nova cidade sem muros, que se urbaniza e expande sua população – que se desenvolve e se diversifica de uma forma mais espontânea.

Neste contexto, aprofunda-se a relação entre a polícia e a manutenção de uma determinada ordem, em meio urbano, orientada por razões econômicas – para a melhor circulação de mercadorias e gestão da população, através da regulação de interesses. A polícia, no emergir do dispositivo de segurança, passa a se dedicar aos problemas da coexistência densa, no qual a presença de ―mendigos‖ e a circulação de ―vagabundos‖ se tornarão objetos próprios no fim do Século XVIII (FOUCAULT, 2008).

Ao buscar complexificar a análise dos elementos que antecedem a detenção, bem como a compreensão de demais questões sobre a provocação de deslocamentos, a interdição física, os espaços de tolerância e a gestão de conflitos que não levam ao acionamento do dispositivo da detenção, chega-se no problema da circulação8. Daí emerge uma primeira questão: como os mecanismos de captura do excedente para sua contenção gerem a circulação urbana, entre a detenção e as solturas?

Orientando-se por essa questão, percebe-se que não é possível trabalhar a função social complexa da punição, em seu âmbito repressivo e positivo, sem aprofundar uma análise sobre o papel da raça na conformação dos discursos, das práticas punitivas e de seus efeitos. Estudar o problema da circulação no Brasil, em uma cidade negra como Salvador, implica lidar com uma dimensão do controle cujo desenho se destaca desde o período final da escravidão formal.

Historicamente, a raça sempre foi uma forma mais ou menos codificada de divisão e de organização da diversidade, fixando-a e distribuindo-a segundo hierarquias e divisões de espaços mais ou menos estanques – a lógica do recinto fechado (MBEMBE, 2017, p.71).

Com esta afirmação, Achille Mbembe (2017) inicia uma explanação que toma a raça como um dispositivo de segurança, concebendo-a simultaneamente como ideologia e tecnologia de governo, logo após situar o papel político da racialização no mundo contemporâneo. Este exercício teórico do autor pode ser interpretado como um aporte teórico que toma a raça como uma categoria de análise (PIRES, 2017). Mbembe a compreende em sua dinâmica histórica e sócio-política (MUNANGA, 2003), uma vez mitigada a noção biologicista antes encampada com um discurso que se pretendia cientificista – especialmente

8 Janice Caiafa (2007) situa a circulação como um ―aspecto crucial das cidades, que se articula com a mistura urbana, com a heterogeneidade que tem alguma potência de dessegregação, através dos estrangeirismos, da alteridade. Contudo, a autora trabalha como a ―cidade privatizada‖ tem colocado em cheque as possibilidades anticapitalistas da cidade.

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até meados do século XX. Aqui, o segundo caminho teórico que constitui o problema de pesquisa.

O filósofo também critica um pretenso ―racismo sem raça‖, no qual violências contemporâneas tentam se blindar do seu conteúdo discriminatório e hierarquizante, mas que na verdade representa um aprimoramento da discriminação (MBEMBE, 2017). Seja pelas tecnologias de controle ou seja pelo regresso do colonialismo em práticas contemporâneas que animalizam o outro, o racismo – ainda que não declarado ou expressamente negado – está presente no contexto de uma interpretação sobre as permanências do escravismo e da conformação da raça e do racismo de forma simultânea na estrutura econômica de classes.

Atualmente, as tensões raciais no cenário político-social brasileiro se colocam de modo complexo. Ao longo do século XX, as relações raciais assumem uma nova feição, ao custo de uma pretensa ―desracialização‖ via exaltação da miscigenação, sustentáculo de eufemismos que enclausuram o debate racial. Abdias do Nascimento (2016), um dos teóricos mais importantes do antirracismo, desmantelou o ―mito da democracia racial‖, que se sobrepôs às dinâmicas de discursos e práticas que eram a tônica do pós-abolição no Brasil9. O autor denunciou, inclusive, o papel da ditadura civil-militar na interdição das discussões sobre racismo no país e no reforço da tese de convivência harmônica entre as raças e do ideal mestiço como algo benéfico na pretendida identidade única do povo brasileiro.

Vive-se hoje uma conjuntura que impede o debate racial em diversas camadas, de modo que o campo criminal – mesmo sendo um lócus onde a blindagem institucional não consegue camuflar o racismo (FLAUZINA, 2008; MUNANGA, 2003) – é afetado pelo fetiche que cristaliza debates sociais na abstração do crime e do criminoso (BATISTA, 2011). Encontra-se o desafio de perceber os códigos do racismo que estão atravessados por discursos pretensamente neutros que conformam a dogmática jurídica e a prática judiciária.

O Ministério de Desenvolvimento Social, em parceria com a UNESCO, realizou a primeira, e até agora única, Pesquisa Nacional sobre População de Rua, em 71 municípios (23 capitais e 48 municípios com mais de 300 mil habitantes), entre 2007 e 2008, entrevistando 31.922 adultos. 72% das entrevistas ocorreram nas ruas, fora de instituições de acolhimento.

O censo revelou que 82% dessa população era masculina, 67% era negra, 53% tinha entre 25 e 44 anos, 38,9% não mantinha nenhum contato com parentes (e 14% mantinha em períodos

9 Autores como Florestan Fernandes e Lília Schwarcz também destacam como Gilberto Freyre deu vazão a este mito que pressupunha uma relação harmoniosa das raças entre si no país e terminava por subtrair a afirmação plena de uma identidade negra, a partir da romantização da miscigenação.

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espaçados), 17,3% não sabia escrever, 8,3% só assinava o próprio nome e 24,8% não possuía documento algum.

Em Salvador, pesquisa realizada pelo Projeto Axé em parceria com a Defensoria Pública, divulgada em 2017, conta entre 14 e 17 mil pessoas10 vivendo nas ruas, sendo 77,8%

das pessoas em situação de rua do gênero masculino, 14,2% do gênero feminino, 0,9% queer.

Nesta população, 59,3% são pretos, 29,6% são pardos 4,3% são brancos - 6,8% não foram racialmente classificados na pesquisa. Ou seja, 88, 9% das pessoas em situação de rua na cidade são negras11.

Pensar a situação de rua significa se inserir em um problema de raça e não só por conta dos dados. Consideradas as limitações destes e a complexidade da situação de rua que engloba muitas variáveis – entre a produção neoliberal da miséria e o direito à cidade ‒ toma-se a estatística para além de um retrato. Este estudo na cidade negra de Salvador implica navegar sobre o tema das relações raciais, sobretudo em um país marcadamente escravocrata.

Neste sentido, situar o controle da circulação em um estudo crítico ao funcionamento das agências do sistema penal envolve considerar a construção da negação enquanto sujeito de negros e negras, a fim de compreender as dinâmicas de um controle penal tão diferenciado.

Pessoas negras em situação de rua representam uma permanência marcante desta inferiorização político-epistêmica e ontológica12.

Frantz Fanon (2008) trabalhou como o racismo e racialização do mundo produziram a interdição do sujeito de forma que o negro é aquilo que ―não é‖, ou seja, habita uma zona do não-ser, ―uma região estéril e árida, uma rampa essencialmente despojada‖. Para o autor, a própria condição de humanidade é afetada pela racialização e desigualmente considerada, de modo que os brancos assumem a condição de ser humano, enquanto os negros são pressionados para um embranquecimento da sua raça.

Esta cisão trabalhada por Fanon destaca a contraposição entre o portador de um mal – tal qual explorado pelos médicos proibicionistas no início do século XX – e o portador de atributos humanos. O discurso que brutaliza o usuário de crack, por exemplo, segue o

10 Diversos aspectos em torno da situação de rua ainda não contam com uma padronização e sistematização dos dados. Projetos e entidades acabam sendo responsáveis pela maior parte das contagens e das estimativas.

Interessante é perceber algumas permanências, como a predominância masculina e negra, em diversas pesquisas.

11 Tanto em Salvador quanto no Brasil, os índices representam uma sobrerrepresentação negra, já que a cidade soteropolitana conta com 80% e o país com 51% de negros, segundo dados do censo de 2010 do IBGE.

12 Muitas experiências sinalizam algumas sabotagens à população de rua. Recentemente, Salvador fornece exemplos: arquitetura opressora em locais de estadia; jatos d‘água para limpeza social antes dos grandes eventos esportivos; remoção de pertences; a utilização de guardas municipais na função positiva e repressiva do controle que prescinde de delito; a estigmatização do grupo mediante vinculação mecanicista com o tráfico e crimes patrimoniais, especialmente no Centro.

Referências

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