O fantástico na prosa moderna: o duplo como peça ficcional em Rubens Figueiredo/Alexandra Britto da Silva Velázquez. Debruçamo-nos sobre a questão do duplo na ficção de Rubens Figueiredo e como este contribui para a produção do fantástico na modernidade.
Gênero e ambiguidade
Nota-se que a literatura fantástica, não realista, depende de um mundo crível, para que o efeito do sobrenatural e a “inversão do real”, segundo Furtados, de fato ocorram. É o leitor quem aqui passa pelo processo de adaptação: colocado inicialmente diante de um fato sobrenatural, acaba reconhecendo sua “naturalidade” (TODOROV, 2008, p.180-181).
Em contraste com os “temas do eu”, os “temas do você” dizem respeito ao desejo, à fala e não ao olhar. O que nos surpreendeu, porém, é que em todos os estudos já realizados, seja por evento sobrenatural, aparece uma aparição no “tema do eu”.
A presença do duplo no tema do eu
A princesa então assumiu a forma de cobra e lutou até que o escorpião, em desvantagem, se transformou em águia. Há muitas maneiras de ver o duplo na história literária, pois este é um tema comum e relevante na cultura ocidental, mas quando se trata de uma grande narrativa.
O duplo e seus significados na narrativa
Me olhei no espelho, fui de um lado para o outro, recuei, apontei, sorri, e o vidro disse tudo. Só então, só mais tarde: o início tênue de algo parecido com uma luz que se confunde e lentamente tenta se tornar um pulso fraco, um brilho. No caso da história de Hoffmann, o foco é o personagem do boneco Olímpie, pois o leitor não sabe dizer se está lidando com um autômato ou com uma pessoa.
Na verdade, não se trata de um sentido antagônico, mas de uma intensificação do primeiro sentido. Todorov afirma ainda que fora do universo ficcional, a indistinção entre ideia e percepção pode ser observada no caso de um psicótico, no entorpecimento dos sentidos e na visão de uma criança. Há nesses contos uma espécie de final sem fim em que somos enviados, assim como os personagens, como homens-objetos, por um.
Mas o que importa mesmo é a presença do outro, sempre próximo, insinuante, por vezes gerando uma tensão intratável. Uma imagem que continuaria a passar de um espelho para outro, até que o corpo de Joanna saísse do foco do reflexo. Ao contrário de No Olho do Intruso e de Um Certo Tons de Preto, em Sem Outros caminhamos mais para a fantasia moderna, onde o inusitado parece naturalizado dentro de uma narrativa sem fim.
Afinal, a busca pelo outro acaba sendo a busca por um autorretrato essencial e cada vez mais distante (CARNEIRO, 2005, p.74). Privados da fala que deles se espera e sem possibilidade de retorno – de voltar para onde. E se, por um lado, temos as imagens do olhar e a repetição do sujeito, embora as formas de reprodução sejam múltiplas, por outro lado, temos a ação e a fala do imitador, que apresenta uma espécie da consciência no ato de imitar o outro.
Freud e o desdobramento da personalidade
O duplo e a incerteza no fantástico
O conceito de duplo também pode ser aplicado à narrativa fantástica se tomarmos como referência o ponto de vista todoroviano, onde o leitor modelo é obrigado a hesitar entre o real e o sobrenatural. A condição de incerteza na narrativa fantástica, caracterizada por Todorov, está associada à incerteza do leitor entre o estranho e o familiar, que pode se aplicar ao confronto da criatura com um duplo de si mesma, ou pode ser causada por outros acontecimentos inusitados. A estranheza do conto fantástico pode ser devida à relação entre a realidade e o sobrenatural, uma vez que o leitor acredita na falsa realidade, torna-se familiar e então se depara com o acontecimento sobrenatural que o surpreende, causa estranheza e levanta dúvidas.
Em sua análise do fantástico, Todorov apresenta o estranho como efeito necessário da narrativa fantástica, capaz de induzir medo e contribuir para a hesitação. Isso ficou bastante claro na segunda parte do livro, dedicada à semântica do fantástico e a uma classificação, nesses textos, dos temas “eu” e “você” (CESERANI, 2006, p.50). A questão é que a narrativa fantástica parece fazer com que parte do inconsciente humano venha à tona, a presença de fantasmas por exemplo em um mundo que parece real.
Assim, o terror e o desejo que fazem parte do imaginário aparecem na história fantástica, fazendo o leitor questionar o que é normal e o que é anormal, de acordo com as normas sociais e um mundo que parece lógico. Porém, se por um lado encontramos a dupla condição na história fantástica que Todorov analisou no século XIX, que provoca incerteza no narrador e/ou personagem e depois, através da projeção, no receptor, encontramos por outro entregamos uma releitura do fantástico na contemporaneidade, em que se destacam o jogo metalinguístico e alguns aspectos da fantasia clássica e moderna, mesclados com uma forma atualizada de escrita do gênero, em que o estranho contribui para a naturalização do absurdo.
No espelho de Rubens Figueiredo
Na escrita de Rubens Figueiredo é possível observar além da ambiguidade, narrativas que parecem não ter fim, e as lacunas deixadas pelo próprio texto parecem contribuir para as dúvidas do leitor, ao mesmo tempo que alimentam sua imaginação. A técnica de construção de uma metanarrativa obriga o autor a uma preocupação especial com os mecanismos de linguagem e gramática do texto, que podemos constatar em todas as obras de ficção que se questionam (E-DICIONÁRIO DE TERMOS LITERÁRIOS). Segundo Gustavo Bernardo (2010, p. 42): “A metaficção é uma ficção que não esconde o que é e mantém o leitor atento à leitura de um relato ficcional, e não de um relato da verdade em si”.
A metalinguagem utilizada por Rubens Figueiredo, como na obra de Borg, traz o jogo entre o narrador/autor e o leitor implícito/leitor real no qual pode ser inserida uma narrativa em construção, num percurso interminável de uma obra dentro de uma obra. o que leva o leitor ao labirinto, de certa forma. O escritor destacado em nosso estudo parece provocar deliberadamente a reflexão e a multiplicidade de imagens e significados num ato que não termina após a escrita, mas se consome a cada leitura, progredindo cada vez mais. Junto com a ideia de uma narrativa sem fim, podemos olhar para a arte do próprio escritor que não chega ao fim da construção, que continua trabalhando além da exaustão.
Abra esse boneco menor e encontre um terceiro, ainda menor, e assim sucessivamente até o último, bem pequeno, de madeira maciça – que não abre. Longe de escrever ele mesmo, Figueiredo utiliza uma estética do fantástico que o leva a preparar a sua paleta para a próxima tela.
O autor nos olhos do intruso - entre a hesitação e a sucessão
Após naturalizar a existência do duplo, o narrador não apenas assume a vida do outro, mas também passa a cumprimentar estranhos e tem a sensação de poder abraçar o mundo, de desfrutar de uma nova memória. Tudo nada mais é do que uma ilusão dos sentidos do narrador no teatro, no funeral e na barbearia rodeado de espelhos. A visão parcial complica e obscurece a verdade sobre o acontecimento e promove a ambiguidade. Afinal, não sabemos se tudo foi apenas uma ilusão ou se realmente aconteceu.
O que percebemos é que neste caso Rubens segue sim o fantástico clássico, mas assim como acontece na reescrita do fantástico moderno realizada pelo autor, há também aqui um diálogo com a tradição, uma retomada consciente do fantástico clássico. .. Na história, uma dupla de irmãos perde os pais, não fica claro se por abandono ou morte, pois os irmãos inventam diversas versões do caso, e vão com os pais dela morar na casa de uma menina. Mais tarde, a narradora percebe que se trata de uma fotografia se olhando no espelho e ao questionar a avó, que está evoluindo para a senilidade, descobre que a fotografia era de um homem que foi preso por se casar com a própria irmã.
Vi-o crescer até assumir a forma de um portão redondo monumental, a brancura de dois triângulos leitosos nas laterais, a fileira de barras pontiagudas curvando-se para trás, acima e abaixo, na linha de uma elipse. Sem maiores problemas, Joana resumiu esses dois anos na imagem de uma única foto e depois raspou para sempre os traços do rosto no filme (FIGUEIREDO, 1998, p.72).
O escritor- pintor – além do que se pode olhar
Embora esquemática e carregando um simbolismo mais ou menos óbvio, logo percebi que essa divisão me favorecia. Depois do sacrifício, do sangue derramado, um homem foi apagado às custas de outro, e Emiliano – a sombra de Morzek – morreu com o desaparecimento do outro para criar um novo pintor. Barcos esperando sabe-se lá o quê, implorando respeito de um céu indiferente, de um mar que já os havia abandonado, barcos inúteis, jogados na seca (FIGUEIREDO, 2001, p.17-18).
Cabrera, à sombra do pintor, na posição de falsificador, que interfere diretamente na lenda do pintor, e que pertence a outra época, a outro país. Expulso do seu país, forçado a falar uma língua que não lhe cabia, forçado a fingir ser um homem dez anos mais velho num ambiente onde, para o bem ou para o mal, sempre se sentia ameaçado, Vega descobriu que era sem ser molestado. com todos os direitos de um pária, munido dos mais diversos motivos para trilhar o caminho tortuoso, para pegar na mão a moer toda geometria (FIGUEIREDO, 2001, p.135). Camadas de poeira endurecida, pedaços soltos de argamassa, manchas de mofo que muitas vezes estão mortas e renascem.
A verdade sobre o pintor é posta em causa não só pela criação de um Vega fictício, com o narrador a levantar hipóteses, a tentar rasgar detalhes e a vestir a pele do outro, mas pelo facto de existirem duas testemunhas da existência de Vega. Homens como Gaspar e Cabrera, que só podem existir, só querem existir através de Vega, através de um fantasma do passado. A ideia do italiano teve o efeito de espelhar o sentimento espontâneo de Vega numa imagem inversa, de uma forma que ele nunca teria visto antes.
O que constatamos é que embora Rubens Figueiredo siga alguns elementos encontrados na ficção estudada por Todorov, como a narrativa de memória em primeira pessoa, com exceção de “Sem os André”, a relação de identificação é entre o narrador e o leitor. (como ouvinte direto), a utilização de um cenário verossímil, a dúvida que permeia cada narrativa, o autor faz a diferença ao criar uma ficção inusitada que parece se aproximar muito da realidade.