Eduardo Francisco Corrêa Lancelotti
Reinvenções Convocadas pelo Atendimento às Mulheres em Situação de Violência em uma Favela do Rio de Janeiro
Rio de Janeiro
2019
Reinvenções Convocadas pelo Atendimento às Mulheres em Situação de Violência em uma Favela do Rio de Janeiro
Dissertação apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Orientadora: Profa. Dra. Esther Maria De Magalhães Arantes
Rio de Janeiro 2019
CATALOGAÇÃO NA FONTE
UERJ / REDE SIRIUS / BIBLIOTECA CEH/A
Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação, desde que citada a fonte.
___________________________________ _______________
Assinatura Data
L247 Lancelotti, Eduardo Francisco Corrêa.
Reinvenções Convocadas pelo Atendimento às Mulheres em Situação de Violência em uma Favela do Rio de Janeiro / Eduardo Francisco Corrêa Lancelotti. – 2019.
114 f.
Orientadora: Esther Maria De Magalhães Arantes.
Dissertação (Mestrado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Centro de Educação e Humanidades.
1. Violência contra as mulheres – Teses. 2. Feminismo – Teses. 3.
Mulheres - Estatuto legal, leis, etc. – Teses. 4. Segurança Pública – Teses. 5. Favelas – Teses. I. Arantes, Esther Maria De Magalhães. II.
Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Centro de Educação e Humanidades. III. Título.
es CDU 306(815.3)
Reinvenções Convocadas pelo Atendimento às Mulheres em Situação de Violência em uma Favela do Rio de Janeiro
Dissertação apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Aprovada em 1 de outubro de 2019.
Banca Examinadora:
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Profa. Dra. Esther Maria De Magalhães Arantes (orientadora) Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ
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Profa. Dra. Hebe Signorini Gonçalves
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
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Profa. Dra. Ludmila Fontenele Cavalcanti
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
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Dra. Cecília Teixeira Soares
Hospital Escola São Francisco de Assis – HESFA
Rio de Janeiro 2019
Dedico essa dissertação às moradoras e moradores do Complexo da Maré e a todos que lutam pelos Direitos Humanos mesmo ante a ameaça do fascismo.
Tão importante quanto qualquer outra página dessa dissertação são os agradecimentos a quem fez essa pesquisa se tornar o que ela é hoje. Qualquer transformação que as páginas desse texto possam provocar é pelas mãos também das pessoas que aqui aponto.
Agradeço à Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), da qual fui bolsista na modalidade Nota 10, por ter financiado essa pesquisa e contribuído para que eu pudesse realizar esse projeto em que tanto acredito.
Agradeço à minha mãe e meu pai, Cristina e Jorge, que apostaram em minha caminhada e meus objetivos, mesmo sem muitas vezes entendê-los. Sou muito privilegiado por tê-los. Obrigado.
Agradeço à toda a equipe do Centro de Referência de Mulheres da Maré Carminha Rosa. Não posso pensar em uma ou um de vocês que não tenha me ensinado coisas que levo comigo e que sem dúvida surgem nas linhas desse texto.
Essa experiência transformou meu jeito de olhar para o mundo e de exercer minha profissão.
À Pamella Valadares, que foi minha supervisora na época e uma pessoa que transformou meu jeito de estar dentro de um espaço de atendimento, me mostrou como dialogar e tratar as pessoas de forma humana dentro do espaço profissional.
À Fernanda Moreira, também minha supervisora na época e minha amiga para sempre, pessoa que me ensinou tanto do que sei hoje sobre a Psicologia e das possibilidades de um atendimento que não abandona a dimensão do afeto. Sem suas palavras lá atrás e seu constante apoio nos passos que escolhi dar, essa dissertação não existiria.
Agradeço ao Rodrigo Belcastro, meu amado amigo, que caminhou comigo em tantos desses passos, que foi sempre tão sensível ante os desafios que enfrentamos juntos nesse campo tão denso e complexo, me mostrando muitas vezes por onde seguir.
Agradeço à Brenda Fischer Sarcinelli Pacheco, que foi tão paciente em acolher as nossas questões quando estávamos abrindo um novo caminho dentro desse campo. Grande pesquisadora e psicóloga, com quem também aprendi tanto.
sobre o que estudar e como o fazer. Claudia Ferreira, Tatiana Moreira, Andréa Chiesorin e Roberta Piluso, obrigado pelas trocas e pelos abraços.
À Sara York, grande pensadora e escritora, que sempre foi tão carinhosa e acolhedora comigo, me ensinando muito sobre o afeto no meio acadêmico e sobre como resistir nesse mundo.
Agradeço à Camilla Ignacio Ferreira, que foi importante para - no momento mais difícil desse processo - me reerguer e resgatar uma confiança naquilo que eu poderia trazer com essa dissertação. Sua sensibilidade sempre transpareceu nas nossas conversas e me enche de esperança em saber que existe uma psicóloga em formação tão humana e cuidadosa como você.
Agradeço ao meu grupo de pesquisa, Eliana Rocha Oliveira, Caio Cesar Nascimento e Paulo Armando Viana pelo acolhimento, pelos abraços, pelo carinho e cuidado com que me receberam em um delicado momento. Os diálogos com vocês fizeram crescer minha paixão pelo conhecimento, pela política, pelo comum e pelo coletivo. Vocês são pesquisadores e pensadores que me inspiram muito.
Ao Lindomar Darós, a quem também dedico o agradecimento anterior, mas em especial pela cuidadosa leitura da minha dissertação, pelos comentários e apontamentos tão sensíveis e generosos que me fizeram ter mais orgulho do meu trabalho.
Ao Grupo de Pesquisa e Extensão Prevenção à Violência Sexual, que se reúne na Escola de Serviço Social da UFRJ. Todas as pessoas que passaram por ele me ajudaram a pensar o processo de pesquisar de forma interdisciplinar, ampla e cuidadosa. Obrigado.
Aos meus melhores amigos, Kizzy Amiuna, Matheus Maito, Rômulo Cavalcanti, Ramon Oliveira e Tatiana La Marca, por tornarem muitas vezes minha vida mais leve e compartilharem comigo os pesos. Vocês estão comigo em todos os meus sonhos porque aprendi a sonhar com vocês. Obrigado por todos esses anos de verdadeira amizade. Foram com quem compartilhei muitos momentos desse tanto de vida que cabe em dois anos de Mestrado. Nessas trocas, fazemos a vida mais bonita. Obrigado pela grande parceria.
Agradeço à Bárbara Alves, que me apoiou a fazer a seleção do Mestrado e me fez acreditar que eu tinha algo a dizer em uma dissertação. Me inspira muito como
À Luciana Motta que, em sua evidente paixão pela Psicologia e pelo exercício clínico, foi uma peça importante para a superação de grandes questões e difíceis momentos desse processo de pesquisa. Obrigado pelo acolhimento e carinho.
À turma de Pedagogia 2019.1 da UERJ, que me soprou esperança nesses tempos nublados pelo fascismo. Já mostram ser grandes profissionais, pesquisadoras e pesquisadores em formação. Obrigado pelo carinho e por me mostrar como olhar para o mundo com generosidade e compromisso. Sou muito privilegiado por esse encontro.
Aos demais professores do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da UERJ, que em muitas trocas e conversas, pude pensar com muita paixão sobre as políticas públicas, sobre os processos de subjetivação e o cuidado que se deve ter ao olhar e pensar a sociedade brasileira.
À Secretaria do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da UERJ, Bárbara, Marcos, Samira e Humberto, que foram sempre tão atenciosos com minhas questões.
À Dona Maria, pelos seus abraços e pelo seu carinho. Por estar sempre disposta a deixar nossos dias mais tranquilos nesse denso processo de pensar e escrever. Uma grande amiga que fiz nesses dois anos.
A todos os estudantes do PPFH que compartilharam desse processo comigo, em especial meus amigos Gabriel Simões, Guilherme Vargas, Candela Garcia, Letícia Chahaira, Juliane Souza, Lucas Pacheco, Anália Barbosa, Jéssica Coelho e Rose Márcia Silva. Tenho muito orgulho dos nossos movimentos durante a greve de 2017 e da amizade que perdurou pelos anos seguintes. Obrigado pelos bons momentos.
À Cecília Teixeira Soares, com quem tive o prazer de trocar tantas experiências e aprender tanto sobre o fazer da pesquisa ética e responsável. Obrigado por me permitir participar da sua incrível trajetória nesse campo da violência contra as mulheres.
À Ludmila Fontenele, que está tão presente também na minha formação, porque me ensinou muito sobre como fazer pesquisa com rigor e afeto, respeitando a alteridade dos pesquisadores, de quem compartilha o campo comigo. Me ensinou muito sobre como encarar esse complexo campo das violências.
orientadora por tanto tempo, seus ensinamentos ainda ecoam nessas páginas e nas minhas práticas, espero te fazer orgulhosa do profissional que você formou. Obrigado pela dedicação e esmero nesse duro trabalho de ensinar e orientar.
À Esther Arantes, minha orientadora e grande pensadora, a quem admiro como pessoa e profissional, por ter me acolhido com tanto carinho e tanto cuidado num momento tão delicado e por ter orientado com tanto respeito à autoria, sem perder o rigor e sem deixar de me ensinar muito. Por ter confiado no meu trabalho e no que eu poderia trazer para o nosso grupo de pesquisa. Sua amizade e suas orientações me permitiram chegar ao fim desse trabalho de pesquisa com orgulho e alegria pelo que produzi. Um imenso obrigado pelo abraço que me deu no momento em que precisei e por me ajudar a resgatar minha confiança como pesquisador - por me ajudar a realizar essa dissertação.
Agradeço à Amanda Vilela Tiago, minha companheira e minha pessoa favorita nesse mundo. Talvez mais uma dissertação inteira fosse o suficiente pra agradecê-la.
Uma pessoa que me inspira a ser melhor todos os dias. Seu profissionalismo e as coisas em que acredita nunca se descolam, sempre se enredam e, por isso, tudo o que faz é com grande paixão e incomparável sensibilidade. Cuidadosa e carinhosa como ninguém, me acompanhou durante toda essa jornada e me fez ter pés no chão quando precisei, sem deixar de sonhar e desejar mais, acreditar nas potencialidades da pesquisa e de tudo o que cabe na vida durante dois anos de Mestrado. Minha principal interlocutora, a pessoa que me faz ser mais humano quando olho para o mundo. Não existiria essa dissertação se não fosse pelo seu companheirismo, pelas suas sugestões, pelos seus ensinamentos, pelas nossas conversas e pelos nossos dias juntos. Confio tudo a você e tenho toda a sorte do mundo por tê-la por perto. Te amo e obrigado por acontecer na minha vida.
LANCELOTTI, Eduardo Francisco Corrêa. Reinvenções Convocadas pelo Atendimento às Mulheres em Situação de Violência em uma Favela do Rio de Janeiro. 2019. 114 f. Dissertação (Mestrado em Políticas Públicas e Formação Humana). Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.
A presente Dissertação busca fazer uma reflexão sobre os espaços de discussão e atendimento de mulheres em situação de violência doméstica e familiar e as práticas de acolhimento, das mais antigas às contemporâneas, em especial quando direcionadas às mulheres moradoras de favela, atravessadas por marcadores de diferença e desigualdade como a pobreza e a raça. Utilizei nessa pesquisa uma metodologia referenciada na análise institucional – fazendo principalmente o uso da ferramenta análise de implicações, propondo negar qualquer universalidade ou neutralidade dessa pesquisa – e nos feminismos que pensam as pluralidades e as interseccionalidades. Com essas lentes, fiz a leitura de um diário de campo que produzi durante dois anos de participação ativa no Centro de Referência de Mulheres da Maré Carminha Rosa - um lugar de acolhimento e atendimento de mulheres em situação de violência localizado no Complexo da Maré, favela da cidade do Rio de Janeiro -; assim como um diário de campo continuado, produzido ao longo da pesquisa a partir dos espaços de debate desse tema e do cotidiano da Universidade.
A questão que se desenha a partir dos analisadores que surgem desse processo faz indagar quais são as reinvenções convocadas por essas práticas quando elas se endereçam a uma população que não é contemplada pelo sujeito universal da ciência hegemônica e que não é prioritária das políticas públicas e das soluções jurídicas tão populares nos dias de hoje, como a Lei Maria da Penha. As necessárias reinvenções passam por diversos temas, como masculinidades, racismo, território e segurança pública e formação profissional, buscando pistas para novos fazeres, para a reinvenção não como uma ação pontual, mas um método continuado.
Palavras-chave: Violência Contra as Mulheres. Feminismos. Lei Maria da Penha.
Segurança Pública. Favelas.
LANCELOTTI, Eduardo Francisco Corrêa. Reinventions summoned by the attention to women in situation of violence in a Rio de Janeiro favela (slum). 2019. 114 f.
Dissertação (Mestrado em Políticas Públicas e Formação Humana). Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.
The following dissertation aims to reflect on the places of discussion and attention of women in situation of domestic and family violence and the assistence practices, from the oldest to the more contemporary, specially when directed to the women who live in “favelas”, or slums, trespassed by markers of difference and inequality, like povery and race. I used in this research a methodology referenced on institutional analysis – mainly through the use of the tool known as implication analysis, as a way to deny any universality or neutrality of this research – and the feminisms that think about pluralities and interseccionalities. With these lenses, I did the reading of a field journal that I produced during two years of active participation in the Center of Reference for Women of Maré Carminha Rosa, a place of assistence and attention to women in situation of violence located in Complexo da Maré, favela of the city of Rio de Janeiro, aswell as an ongoing field journal, produced throughout the research about the debates found on this theme and the day-to-day of the university. The question that emerges from these analysers is: what are the reinventions that we are called to produce by these practices when they are adressed to a population that is not contemplated by the universal subject of hegemonic science and that is not prioritary to the public policies and the juridical solutions so popular today, like Maria da Penha Law. The necessary reinventions go through lots of themes, like masculinities, racism, territory and public safety, aswell as professional formation, searching for clues to new makings, to reinvention not as a one-off action, but as a continuous method.
Keywords: Violence against women. Feminisms. Maria da Penha Law. Public Safety.
Slums.
Figura 1 - Material educativo veiculado em Florianópolis em 2014 ... 45
Figura 2 - Wilson Witzel e escultura feita de balas de fuzil ... 49
Figura 3 – Bordado feito em oficina no CRMM-CR ... 69
Figura 4 – Obra de Rosana Paulino ... 94
Figura 5 – Mural localizado no corredor do 12º andar, na Faculdade de Educação da UERJ. ... 102
Figura 6 - Um dos papéis presos no mural ... 102
Figura 7 - Mural que fica dentro da sala 12058 da Faculdade de Educação da UERJ ... 103
Figura 8 - Mural em um auditório da Escola de Serviço Social da UFRJ ... 104
Figura 9 - A janela da biblioteca do 12º andar ... 105
INTRODUÇÃO ... 13 1 METODOLOGIA ... 16 1.1 O processo de pesquisar e suas ferramentas: a análise de
implicações ... 16 1.2 O cuidado com velhas e novas práticas de sobreimplicação... 18 1.3 O Diário de campo como ferramenta ... 20 1.4 Feminismos como metodologia – Interseccionalidade e
decolonialidade ... 22 1.5 Genealogia como ferramenta ... 27 2 AS VIOLÊNCIAS CONTRA AS MULHERES E OS FEMINISMOS –
ARTICULAÇÕES ENTRE O MOVIMENTO SOCIAL E O ESTADO ... 29 2.1 Um olhar para a história dos feminismos no Brasil ... 32 2.2 A questão das mulheres negras – Movimento social e a
redemocratização ... 37 2.3 A Lei Maria da Penha e as políticas públicas de atendimento à
mulheres em situação de violência ... 40 3 OLHANDO HOJE PARA O CAMPO DAS VIOLÊNCIAS CONTRA AS
MULHERES ... 43 3.1 O evento de lançamento do Dossiê Mulher 2019: Uma breve análise
da atual conjuntura do enfrentamento à violência contra a mulher no Estado do Rio de Janeiro ... 46 3.2 Desencontros entre as mulheres da Maré e a Lei Maria da Penha ... 52 4 MASCULINIDADES NO CAMPO DO ATENDIMENTO ÀS MULHERES
EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA ... 59 4.1 A participação masculina na história dos feminismos ... 62 4.2 Os estudos das masculinidades e a abertura da questão para os
homens ... 63 4.3 As diferentes masculinidades no CRMM-CR: atravessamentos de
raça, pobreza e território ... 68 5 TERRITÓRIO E VIOLÊNCIA DE ESTADO NO CENTRO DE
REFERÊNCIA DE MULHERES DA MARÉ ... 76 5.1 A Razão do Estado e a garantia do esplendor ... 79
6 A UNIVERSIDADE E O EMBATE DE FORÇAS ... 91 6.1 O novo ENEM, as políticas de ação afirmativa e de permanência e a
transformação do espaço universitário ... 96 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 107 REFERÊNCIAS ... 110
INTRODUÇÃO
O Centro de Referência de Mulheres da Maré – Carminha Rosa (CRMM-CR) é um centro de referência de atendimento a mulheres em situação de violência, hoje instrumento previsto no Plano Nacional de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher (2004) e na Lei Maria da Penha (2006). No entanto, segundo o site oficial do próprio Centro de Referência1, o projeto inicial surgiu em 2000, em decorrência de um convênio entre a Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) e a ONG Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação (CEPIA), com o objetivo de potencializar a promoção de cidadania de mulheres do Complexo da Maré. O CRMM- CR possui hoje vínculo com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e com o Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos Suely Souza de Almeida (NEPP-DH) da UFRJ. Carminha Rosa, homenageada no nome do Centro, foi uma mulher negra, pedagoga, militante dos direitos humanos e das mulheres.
Este Centro de Referência possui uma particularidade que se anuncia no seu nome: ele é localizado no Complexo da Maré, ou Favela da Maré, ou apenas Maré, um complexo de favelas localizado na cidade do Rio de Janeiro. O CRMM-CR fica em um dos seus dezesseis microbairros, a Vila do João, na Rua 17, sem número, dentro de um posto de saúde, atrás de árvores finas, mas suficientes para esconder a pequena casinha chamada carinhosamente de “casa das mulheres” pelas usuárias mais frequentes do serviço.
Durante dois anos, entre o ano de 2014 e 2015, fui estagiário no CRMM, como estudante de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bolsista do projeto de extensão “Atendimento Integral à mulher em situação de violência”.
Durante essa atuação, participei de diversas atividades, como o atendimento interdisciplinar (feito junto a assistentes sociais e advogadas) das mulheres, as oficinas socioculturais, a organização de festas e eventos e de reuniões, gerais e disciplinares. Muito aconteceu nesses diferentes espaços que compunham o projeto do Centro de Referência de Mulheres da Maré, acontecimentos que convocaram reflexões, questionamentos, análises e principalmente reinvenções.
1 Site oficial do CRMM-CR: http://www.nepp-dh.ufrj.br/crmm/index.html
É a partir dessas convocações, feitas por aquilo que emergiu do próprio campo vivo, das existências que se cruzaram e das forças que atravessam esse trabalho, que essa pesquisa se tornou necessária para mim.
Marielle Franco2 descreve, no ano em que entrei para a equipe do CRMM, a favela da Maré como:
[...] um território com mais de 130 mil habitantes, com uma significativa rede de organizações da sociedade civil, composta por 16 associações de moradores, mais de 15 organizações do tipo ONG, cerca de dez coletivos e dezenas de projetos em execução. (FRANCO, 2014, p. 18)
Esses são alguns números que descrevem a Maré, um dos jeitos de apresenta- la. Marielle também diz da favela como um lugar onde
Decididamente, o Estado cumpre um papel de agente para o mercado e não agente de cidadania. Existe negligência e abandono [...], de modo a que grupos criminosos armados – o tráfico ou as milícias – acabam por impor a sua própria ordem, seja com a complacência ou com a indiferença do conjunto da cidade. (FRANCO, 2014, p. 61)
Nessa dissertação, no entanto, contarei da Maré mais pelos meus olhos e pelas histórias que lá vivi, que lá ouvi, e até mesmo por histórias que se passaram em outros lugares, mas que dizem do que aconteceu dentro da favela nesses dois anos em que fui parte da equipe do CRMM-CR. A favela não se resume aos números e nem à negligência estatal, como Marielle bem sabia. É um lugar cheio de potência, poder de criação, possibilidades de existência, com muito a ensinar, especialmente a nós que pensamos políticas públicas, a quem pensa formação profissional ou a quem almeja uma carreira profissional pautada na ética e no respeito, coisas que eu espero ilustrar nesse texto. Isso é algo que essa dissertação, esse processo de pesquisa, me ensinou sobre minha própria história: que a experiência no Centro de Referência, com aquelas mulheres, naquele lugar, me fez, como pessoa e profissional, mais preparado para o mundo.
A construção da questão dessa pesquisa não foi um processo fácil. A questão, essa que move a pesquisa, que dita os processos e faz surgir as perguntas que evocam reflexões e análises, já tomou diferentes formas. Comecei questionando, no atendimento às mulheres em situação de violência, como a interdisciplinaridade se
2 Vereadora eleita no Rio de Janeiro em 2016 com mais de 46 mil votos. Mulher negra, bissexual, oriunda da Favela da Maré e ativista dos Direitos Humanos, foi executada a tiros no dia 14 de março de 2018, após sair de um evento realizado na Casa das Pretas, na Lapa, chamado “Jovens Negras Movendo Estruturas”. Em 2016, foi a única mulher autodeclarada preta a ser eleita vereadora no Rio de Janeiro.
apresentava. Essa relação entre os profissionais de diferentes áreas do conhecimento foi uma das particularidades desse campo, dessa prática, que me colocou em contato com novas formas de fazer Psicologia, fez emergir contradições e convocou análises já em 2014, quando fiz parte da equipe do Centro de Referência. No entanto, no processo de pesquisa, as diferentes reflexões, literaturas e diálogos com que me encontrei foram me direcionando para novos estudos, novos espaços de discussão, e acabei percebendo que a pesquisa convocava outros problemas, análises que diziam sim da interdisciplinaridade, do atendimento e dos temas que pensei inicialmente, mas que construíam uma nova questão.
Ao entrar em contato com meu diário de campo, escrito no período em que estagiei no CRMM-CR, entrei em contato com as histórias que vivi neste lugar, relembrei meu processo de formação, meus encontros e desencontros com técnicas, metodologias, práticas, teorias, livros, artigos, professores, profissionais, moradores e moradoras da Maré. Pude relembrar minhas expectativas naquele primeiro semestre de 2014, ou antes na entrevista para a seleção do estágio, ainda em 2013. Pude lembrar o que aprendi ao fim do estágio, em 2015. Pude lembrar da minha formação na Universidade Federal do Rio de Janeiro. E hoje, quatro anos depois, percebo novos detalhes, reinterpreto as histórias, posso fazer análises alinhadas a discussões ainda mais recentes para mim, com as quais só tive contato quando não mais fazia parte da equipe do CRMM. Quando releio meu diário, quando relembro os atendimentos, as oficinas, os dias no Centro de Referência, uma palavra emerge nos meus pensamentos: reinvenção. A reinvenção que se mostra necessária, antídoto à insuficiência das técnicas, dos prescritos, das verdades acadêmicas, das certezas.
Reinvenção que era convocada pelos acontecimentos, pelo dia a dia da favela, pelas especificidades de território, pelas relações raciais, pela cultura, pela política, pelas formações profissionais, pelas formas de existir presentes na Maré, no Rio de Janeiro, no Brasil. Por isso, a questão que se construiu, nascida das entranhas do próprio processo de pesquisar, se apresenta aqui: quais são as reinvenções convocadas pelo atendimento às mulheres em situação de violência no contexto de um centro de referência localizado numa favela do Rio de Janeiro?
1 METODOLOGIA
1.1 O processo de pesquisar e suas ferramentas: a análise de implicações
Ainda muitas vezes, a produção de conhecimento caminha na direção de isolar objetos e se ater a destilá-los, conceituá-los e fechá-los, na proposta de atingir uma verdade sobre um fenômeno ou um tema, como se essa fosse a forma final do conhecimento: a verdade, aquilo que carrega a certeza. No processo de delineamento de um tão almejado e assim nomeado objeto de pesquisa, percebi que estava reproduzindo essa cultura. Eu tinha o que considero hoje uma ingênua intenção de estudar o atendimento às mulheres em situação de violência sem considerar e analisar alguns fatores (ou antes acontecimentos) que cruzaram a minha trajetória e que hoje reconheço como fundantes para as reflexões e propostas que faço nessa dissertação. Considerar a prática que tive no Centro de Referência de Mulheres da Maré como um mero objeto a ser descrito, sem pensar a relação que tenho como o campo e em como isso diz do processo de pesquisa e se mostra presente nessas linhas, seria considerá-la universal, como se tivesse a mesma forma e produzisse os mesmos efeitos onde quer que fosse aplicada ou encontrada.
Hoje já é antigo o diagnóstico de que existe uma busca fútil e inalcançável por neutralidade científica - a exemplo, no Brasil, Hilton Japiassu (1975, p. 10)expõe isso com o livro “O Mito da Neutralidade Científica”, onde afirmava que “[...] não há ciência
“pura”, “autônoma” e “neutra”. René Lourau, sociólogo francês, também discorre sobre essa falsa neutralidade:
Sabe-se, hoje, que o cientista confere à ciência os seus próprios valores, independente da posição ideológica que possui [...] Logo, neutralidade axiológica, a decantada "objetividade", não existe. (LOURAU, 2004, p. 16)
No entanto, por mais que isso seja reconhecido por muitos e que proponhamos resistir, identifico na minha experiência que há armadilhas no processo de pensar e escrever que tentam nos levar a sufocar essa subjetividade do pesquisador. Estão colocadas no senso comum do que é o conhecimento, nas práticas institucionais mais clássicas, nas expectativas sobre uma dissertação e quais devem ser seus desdobramentos, suas potencialidades de transformação.
A redação que chamo de institucional é a que realiza a espera da universidade ou da instituição de fomento ou, pelo menos, realiza aquilo que,
enquanto pesquisadores, acreditamos ser a expectativa delas. Penso que, já no momento da elaboração do projeto de pesquisa, podemos encontrar, facilmente, múltiplas implicações libidinais ligadas a tais expectativas e que estas são essenciais na formulação e condução da pesquisa. Aqueles que já redigiram uma tese de mestrado ou doutorado sabem disso. Sabem que a instituição segura a nossa mão e escreve o produto final de nosso trabalho.
(LOURAU, 1993, p. 69-70)
Emergiu, para mim, no processo de pesquisar, a necessidade de questionar e repensar a forma como nos relacionamos com essas forças que disputam a autoria da nossa escrita. Pensar as práticas de um Centro de Referência que atende mulheres em situação de violência localizado numa favela na cidade do Rio de Janeiro é um trabalho que não pode negligenciar de que forma eu me relaciono com esse campo.
Eram questões que antes eu colocaria fora do texto, como meras pessoalidades, como se o objeto fosse distante, isolado e as minhas interpretações fossem baseadas na certeza dos paradigmas teóricos, sem espaço para a dúvida.
[...] o observador inserido em seu campo de observação transforma, por definição, seu objeto de estudo. A necessidade de incluir-se, portanto, no processo investigativo, a subjetividade de quem pesquisa como categoria analítica já se apresenta aí, anunciando as bases do conceito institucionalista de implicação. (PAULON, 2005, p. 19)
A partir do reconhecimento dessa dimensão que não deve ser negligenciada - dos processos de subjetivação que me constituem como pesquisador - encontrei na Análise Institucional a ferramenta que me ajuda a pensar de que forma estou implicado nesse campo, nesse tema que proponho pensar e de que forma isso está presente nos processos da pesquisa e na redação desse texto. Por isso, se torna caro para mim e para esta pesquisa o conceito de implicação e a ferramenta da análise de implicações (LOURAU, 2004; MONCEAU, 2008; PAULON, 2005) que propõe um olhar sobre o próprio pesquisador e o seu lugar, para negar qualquer possibilidade de neutralidade, mostrar como me relaciono com esse tema e sob que lentes, ou na direção de que projetos políticos e de sociedade, está minha pesquisa.
A ideia é que o trabalho do pesquisador está saturado de subjetividade. As instituições científicas vão ter as suas próprias ideologias. Elas não são particularmente objetivas, mesmo se elas tentam nos fazer acreditar nisso.
Esta questão de implicação do pesquisador foi muito trabalhada na pesquisa em sociologia, na pesquisa psicossociológica, mas podemos perguntar quais são as consequências da implicação do pesquisador na sua produção científica. A questão não é que devamos nos livrar de nossas ideologias, mas tentar analisa-las coletivamente. O verdadeiro trabalho científico deve estar aí. (MONCEAU, 2008, p. 22)
Não busco com essa pesquisa produzir mais verdades e paradigmas teóricos para reafirmar e validar as práticas nesse campo, tampouco busco diagnosticar erros ou construir crivos para as práticas que são certas e erradas. Proponho construir problemas, questões, perguntas. Busco aqui pensar a partir de perspectivas localizadas, anunciadas com clareza e sem proposta de neutralidade, iluminar as questões que surgiram desse campo tão particular que é o do atendimento às mulheres em situação de violência na Maré. A todo o momento, proponho reconhecer e colocar em análise as forças que atravessam essas práticas e como elas se produzem e reproduzem e, assim, fazer emergir analisadores que possam ser usados para pensar as potencialidades de transformação nesse campo de estudos e intervenções das violências contra as mulheres.
1.2 O cuidado com velhas e novas práticas de sobreimplicação
Anuncio aqui o uso de outro conceito que acompanha o de implicação e que deve ser pensado nessa pesquisa: a sobreimplicação.
No momento em que fui estagiário no CRMM-CR, que vivi os acontecimentos que me convocaram a fazer essa pesquisa, estava iniciando os estudos sobre as questões de gênero, dos feminismos e das violências e também imerso nas urgências e demandas do trabalho como estagiário no Centro de Referência. Para pensar isso, utilizo do conceito de sobreimplicação, explorado por Lourau (2004, p. 186), que diz dos obstáculos em analisar as implicações quando envolvido com práticas que convocam ativismo, que esvaziam outros espaços de análise com suas urgências. As questões que hoje me parecem evidentes eram, embora já tão concretas e presentes, quase invisíveis para mim naquele momento para o qual hoje lanço meu olhar.
Coimbra e Nascimento (2007, p. 2) apontam o acúmulo de tarefas e a produção de urgências como dispositivos que “impõem e naturalizam a necessidade de respostas rápidas e competentes tecnicamente”, tornando-se então possíveis produtores de práticas de sobreimplicação.
A sobreimplicação é a crença no sobretrabalho, no ativismo da prática, que pode ter como um de seus efeitos a dificuldade de se processar análises de implicações, visto que todo o campo permanece ocupado por um certo e único objeto. (COIMBRA; NASCIMENTO, 2007, p. 1)
O trabalho de atender mulheres em situação de violência naquele momento e naquelas circunstâncias era um que convocava a todo o tempo um ativismo. Percebo hoje que não era fácil olhar para as nossas práticas e questioná-las, avaliar de que forma estávamos implicados com as diversas instituições que compunham as forças presentes no campo do CRMM-CR. A demanda constante por reinvenção de métodos, de formas de acessar a rede de atendimento dentro da favela, ou de compensar a impossibilidade desse acesso, nos colocava numa posição em que era muito difícil questionar e pensar nossas implicações enquanto equipe.
Hoje, fora da lógica daquelas urgências e do ativismo daquele trabalho, posso lançar um olhar para coisas que antes não enxergava naquele campo, mas de forma alguma isso me torna desimplicado ou neutro. Estou hoje implicado de outra forma, como pesquisador, vinculado a instituições como a UERJ e o Programa de Pós- Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana, instrumentalizado por novas epistemologias que podem iluminar certos pontos e jogar sombras sobre outros.
Novas urgências e novos ativismos são convocados neste espaço.
Essa pesquisa se desenvolve num momento especialmente delicado para a educação superior pública. Durante a produção dessa dissertação, foram anunciados cortes nas verbas para diversas universidades e outras instituições do ensino público, um desinvestimento planejado pela política neoliberal que busca sucatear a educação pública em benefício da privatização. Diante disso, novas urgências são colocadas e começam a surgir nessas linhas a preocupação de que essa pesquisa se mostre útil e contribua para uma resistência. Resistência tanto dos espaços de pesquisa e intervenção quanto dos instrumentos de enfrentamento à violência contra a mulher
Na universidade, onde trabalhamos como docentes e pesquisadoras, da mesma forma, cada vez mais tem se instalado o território da urgência, do acúmulo de tarefas, do especialismo, do individualismo bem de acordo com as propostas do atual mundo neo-liberal globalizado. (COIMBRA;
NASCIMENTO, 2007, p. 2)
Preciso estar consciente disso enquanto escrevo: de que as forças que tentam nos fazer especialistas e garantir lugar no mercado de trabalho está disputando lugar dentro da universidade com os projetos de mudanças reais nas relações de poder, de questionamento das práticas engessadas e dos privilégios. Esse ativismo que é convocado pela atual e grave conjuntura da universidade – que se mostra no rosto cansado dos estudantes e professores, nos cartazes, nos murais e principalmente nos noticiários – é potencializador de práticas de sobreimplicação.
1.3 O Diário de campo como ferramenta
Nestes 2 anos de experiência no Centro de Referência de Mulheres da Maré, após todo atendimento, era regra da equipe que sentássemos frente ao computador e escrevêssemos um breve relato sobre o que ouvimos, que descrevesse a situação daquela mulher. Um registro para que um outro profissional pudesse conhecer a história de uma usuária que voltasse ao Centro num dia em que nós, estagiários e residentes com nossos vínculos temporários, não estivéssemos mais lá para atende- la.
No entanto, senti a necessidade de construir um diário de campo, um material que relatasse de forma mais pessoal e livre aquilo que vivia nos atendimentos, nas oficinas socioculturais, nos corredores do Centro ou nos outros espaços da Maré.
Reconhecia já ali que esses encontros com as mulheres da Maré eram preciosos, ricos em acontecimentos, em contradições e provocações. Não tinha, naquele momento, a intenção de fazer uma pesquisa com este material, mas vi uma importância em registrar os acontecimentos de forma menos resumida, mais sensível aos detalhes. Era um material não supervisionado, em outras palavras, só eu tinha acesso e, por isso, me permitia escrever observações pessoais, afetos, impressões e questões sobre usuárias do serviço, os colegas de equipe e minhas próprias participações.
Esta pesquisa se utiliza desse diário de campo que foi construído não para ser instrumento de pesquisa, mas para me instrumentalizar como estagiário em Psicologia quando ainda era vinculado ao Centro de Referência. Justamente por não ter sido feito visando a pesquisa, preciso fazer uma leitura desse instrumento com certos cuidados e reconhecendo também as potências dessas condições. Aquilo que está no Diário de Campo vai me ajudar a analisar hoje, com novos olhares e baseado em novas referências, os acontecimentos daquele trabalho no atendimento às mulheres em situação de violência, a Lei Maria da Penha, o território da Maré e outras questões que surgiram no processo de pensar e escrever essa dissertação, como as masculinidades, as relações raciais e outros marcadores importantes. Mas aquilo que não está no Diário de Campo também vai iluminar implicações e permitir a análise dos aspectos da prática que não considerei importantes ou relevantes para relatar nesses registros. As minhas memórias, somadas às presenças e ausências no conteúdo do Diário de Campo, farão emergir analisadores.
Os usos que fazemos de diários, inevitavelmente, afastam-se de uma postura contemplativa do pesquisador com “seu objeto de pesquisa” que é descrito e registrado seja em folhas de papel, em telas de computador ou outros instrumentos atuantes. Não se trata, portanto, do registro de “mera informação”, mas da produção de intensidades, materializadas em conceitos (mesmo se sejam registros de imagens, sons, ou “meras observações”) (MEDRADO; SPINK; MELLO, 2014)
Na construção dessa pesquisa, fiz a leitura desse diário, depois de anos sem tocá-lo, quase que como se fosse um material de outra pessoa, sem mais lembrar como uma ou outra história havia terminado (ou até onde pude acompanhá-las), sem mais reconhecer algumas palavras que já foram minhas. Ao ler novamente esses registros, percebi que não eram meros arquivos, informações ou histórias, mas evocavam quase que novas vivências naqueles espaços, como se pudesse viajar no tempo, estar novamente nos atendimentos, nas oficinas, nos corredores, ou no humilde jardim do CRMM-CR. Lembrei detalhes que não redigi, a força, a intensidade desses momentos e me permiti, nas análises desses registros, adicionar, recortar, reorganizar as palavras, a partir desse novo olhar, de novas referências. Essa utilização convoca uma leitura do conceito de cartografia para Deleuze e Guatarri, quando se ocupam de descrever o mapa:
O mapa não reproduz um inconsciente fechado sobre ele mesmo, ele o constrói. [...] O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente.
Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social.
(DELEUZE; GUATTARI, 2000, p. 24)
O conceito de analisador, que surge agora e surgirá em muitos outros momentos dessa dissertação, derivado da Análise Institucional, é por mim lido e utilizado como aquilo que emerge das narrativas e que podemos pinçar como acontecimento que ilumina questões e problemas, contradições entre as forças em disputa, que possibilita reflexão, convoca a análise e, por vezes, demanda diálogos, com outras literaturas ou mesmo com o leitor. Sobre os analisadores e de onde eles emergem, Roberta Romagnoli (2014, p. 47) diz:
[...] os analisadores podem ser entendidos como efeitos ou fenômenos que emergem como resultado de um campo de forças contraditório e incoerente, porta-vozes dos conflitos em assídua oposição ao harmônico e ao estático acalentados pela instituição. Os analisadores irrompem nas organizações de forma a mostrar que elas não apenas reproduzem o que já estava previsto, mas também produzem o impensado, o conflitivo [...]
Os analisadores que se apresentam nessa dissertação, no entanto, não emergem apenas do diário de campo que fiz naqueles dois anos como estagiário do Centro de Referência, das revisitações daqueles acontecimentos que estão no passado. Estar em processo de pesquisa é colocar uma lente que destaca no correr dos dias tudo aquilo que possibilita pensar o tema. Nestes dois anos da elaboração dessa pesquisa, estive em eventos, em diálogos com diferentes instituições e pessoas, ou nas mais aparentemente triviais ocasiões, e nesses diferentes espaços ouvi e vi coisas que me permitiram pensar e elaborar as questões que trago para essas linhas, sejam elas esperadas ou não. Alguns relatos que surgirão nas páginas dessa dissertação indicam que há algo da força de um diário de campo, nesse novo momento, já como pesquisador, que se fez existir. Muitas vezes nestes dois últimos anos cheguei em casa às pressas e abri uma página em branco para digitar aquilo que não poderia deixar arrefecer, um acontecimento que, inesperado, provocou uma grande reflexão, que estava anotado em um guardanapo ou coisa parecida, e que deveria ser formatado dentro desse texto maior, compartilhado com os leitores da dissertação.
Essa pesquisa utiliza de diferentes modelos de registro e de memória que propõem fazer emergir analisadores para que se pense nas práticas do atendimento às mulheres em situação de violência, nos específicos contextos que proponho analisar, suas possibilidades de transformação e necessidades de reinvenção.
1.4 Feminismos como metodologia – Interseccionalidade e decolonialidade
Nesta dissertação falarei constantemente dos feminismos no plural, pois considero que, para colocar em perspectiva o meu campo e minha experiência, é fundamental a referência dos feminismos que surgem para além do movimento feminista tradicional ou clássico. Acredito que ao falar de um feminismo no singular poderia invisibilizar esses que surgem para além de um feminismo que foi estabelecido como canônico, que surge no imaginário popular quando falamos a palavra, de matriz europeia ou estadunidense, branca, que não toma como prioridade os marcadores sociais de desigualdade que são tão presentes nesse campo que investigo. Me interessam para esta pesquisa os feminismos negros, que pensam a partir da perspectiva de que somos colonizados e que temos a raça como um marcador fundante para pensar conexões e deslocamentos, para pensar as relações
de gênero no Brasil, no Rio de Janeiro e na Maré. Como diz Sonia Alvarez, sobre os feminismos plurais:
[...] o campo feminista está permanentemente em fluxo. Isto é, os campos erguem-se, se estabilizam, reconfiguram-se, reconstroem-se, e periodicamente, se desconstroem e/ou desembocam em ou geram novos e distintos campos [...] o campo feminista contemporâneo no Brasil e em muito da América Latina de fato já nasceu plural e heterogêneo. (ALVAREZ, 2014, p. 20)
Falar dos feminismos nessa dissertação se torna indispensável e isso se mostrará em diferentes momentos dessa pesquisa. Para este capítulo, é importante colocar como os feminismos apresentam metodologias: formas de interpretar o mundo, de olhar para as questões e provocar as reflexões, expor as contradições e duvidar das relações supostamente estáveis e sólidas. É importante que, assim como os feminismos, essas metodologias sejam tratadas no plural e que eu localize meu olhar, na análise do meu campo, da minha questão, explicitando e explicando que feminismos eu utilizo como referencial analítico.
Gosto bastante de falar sobre o feminismo não como algo que adere aos corpos, não como algo enraizado em corpos marcados pelo gênero, mas como uma abordagem – como uma forma de interpretação conceitual, como uma metodologia, como um guia para estratégias de luta. (DAVIS, 2018, p.
40)
Quando cheguei ao campo do Centro de Referência em 2014, estava instrumentalizado por seis semestres de aulas de Psicologia e referenciado nas literaturas da capacitação do estágio, que incluíam importantes feministas que pensavam as relações de poder entre os gêneros, a estrutura patriarcal da nossa sociedade e mais propriamente o atendimento às mulheres em situação de violência, como Heleieth Saffioti, Maria Filomena Gregori e Suely Souza de Almeida, que me acompanham até hoje nos meus estudos. Dessa forma, já compreendia que o conhecimento que fundamentava esse campo e as práticas convocadas pelas demandas que lá encontraria, viria de mulheres feministas, dos mais diversos campos do saber, mais do que dos psicólogos e psicanalistas que constituíam o cânone epistemológico da Psicologia. Estava claro que não encontraria apenas na Psicologia, no acervo das técnicas clínicas ou mesmo na vasta e ampla Psicologia Social, toda a referência que precisava para exercer aquele trabalho. Precisaria ler também as feministas autônomas, as sociólogas, antropólogas, assistentes sociais, pedagogas, advogadas e partilhar dos diferentes campos do saber que se debruçavam sobre o
tema. No entanto, a dimensão das possibilidades epistemológicas, da quantidade de instrumentos e ferramentas que estão dadas pelos tão diferentes e múltiplos feminismos, era ainda desconhecida para mim.
Diante desses tantos feminismos, com suas diferentes propostas e projetos de sociedade, precisei encontrar aquele que melhor dialogasse com as demandas que encontrei no campo do atendimento às mulheres em situação de violência, um que se localiza no Brasil, no Rio de Janeiro, na favela da Maré, com tudo o que isso convoca.
O atendimento às mulheres em situação de violência naquele contexto, naquele território, com marcadores de diferença e desigualdade tão presentes, me convocou a ler e pensar junto às feministas que pensam as interseccionalidades, ou seja, articulam os marcadores de raça, etnia, pobreza, sexualidade, e qualquer outro atravessamento que configure a existência, a experiência social, uma forma de ser no mundo. A principal referência para esta leitura, esta forma de interpretar os fenômenos, está, para mim, nos feminismos negros.
O feminismo negro dialoga concomitantemente entre/com as encruzilhadas, digo, avenidas identitárias do racismo, cisheteropatriarcado e capitalismo. O letramento produzido neste campo discursivo precisa ser aprendido por lésbicas, gays, bissexuais e transexuais (LGBT), pessoas deficientes, indígenas, religiosos do candomblé e trabalhadoras. (AKOTIRENE, 2019, p.
23)
Dessa forma, esses feminismos nos ajudam a dimensionar o tamanho das questões, tirá-las das margens, da categoria de “detalhe”, ou “menor”. Colocam esses atravessamentos como inegligenciáveis, tão engendrados ao problema da violência contra a mulher, por exemplo, quanto o marcador de gênero, principalmente porque nos ensinam que não há uma universalidade desta mulher, uma única forma de existir enquanto mulher no mundo, mas que as experiências são plurais. Por isso, considero que se me proponho pensar esse tema, devo estar instrumentalizado para pensar dentro da pluralidade que se apresenta em nosso país, nossa sociedade.
Seria perda de tempo essa epistemologia acompanhada de expedientes ideológicos da cosmovisão ocidental, essa patologia histórica. O maior recurso colonial da eurocivilização consiste em priorizar o corpo, ignorar ferimentos que tendem a complexificar rapidamente enquanto diagnosticam, às pressas, o problema “negro”, das “lésbicas”, de “gênero”, dos “latino- americanos” (AKOTIRENE, 2019, p. 25)
Também utilizo esses feminismos - como ferramenta de interpretação do mundo - para pensar a colonialidade, nossa condição de colonizados, como um fator
fundante da nossa sociedade latino-americana, me apoiando na proposta desses feminismos de uma decolonização do pensamento, de questionamento e ruptura com naturalidades que originam da colonização, para que possamos lançar olhares que neguem um sujeito universal, sujeito esse que tem como matriz o perfil do colonizador:
homem, branco e europeu. O sociólogo Aníbal Quijano denunciou como a colonização se enreda na história da produção de conhecimento da América Latina.
A incorporação de tão diversas e heterogêneas histórias culturais a um único mundo dominado pela Europa, significou para esse mundo uma configuração cultural, intelectual, em uma intersubjetiva, equivalente à articulação de todas as formas de controle do trabalho em torno do capital, para estabelecer o capitalismo mundial. Com efeito, todas as experiências, histórias, recursos e produtos culturais terminaram também articulados numa só ordem cultural global em torno da hegemonia europeia ou ocidental. Em outras palavras, como parte do novo padrão de poder mundial, a Europa também concentrou sob sua hegemonia o controle de todas as formas de controle da subjetividade, da cultura, e em especial do conhecimento, da produção do conhecimento. (QUIJANO, 2005, p. 121)
Um dos principais marcadores que surgirão nessa pesquisa é o de raça, que dialoga diretamente com a produção de subjetividade colonial, denunciada pelas autoras e autores em quem me escoro. A interseccionalidade entre raça, gênero e colonialidade estão na espinha dorsal deste trabalho.
Na América, a idéia de raça foi uma maneira de outorgar legitimidade às relações de dominação impostas pela conquista. [...] Desde então demonstrou ser o mais eficaz e durável instrumento de dominação social universal, pois dele passou a depender outro igualmente universal, no entanto mais antigo, o intersexual ou de gênero: os povos conquistados e dominados foram postos numa situação natural de inferioridade, e conseqüentemente também seus traços fenotípicos, bem como suas descobertas mentais e culturais. Desse modo, raça converteu-se no primeiro critério fundamental para a distribuição da população mundial nos níveis, lugares e papéis na estrutura de poder da nova sociedade. Em outras palavras, no modo básico de classificação social universal da população mundial” (QUIJANO, 2005, p.
118)
Para pensar o atendimento a mulheres em situação de violência na Maré - mulheres essas negras e nordestinas em sua maioria, marcadas pela situação de pobreza e por outras especificidades que se encontram nesse território -, o uso desse sujeito universal3 como referência impossibilita análises e intervenções, quando não
3 Esse universal que surge aqui criticado é o sujeito universal visto na ciência ocidental clássica, aquele que se estabelece em paradigmas e matrizes colonizadoras e eurocêntricas para elaboração de teorias e práticas que pensam a sociedade e as pessoas. Essa ressalva se mostra necessária para não confundirmos com a universalidade como princípio presente na Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas de forma a entendermos que para garantir uma verdadeira aplicação desse princípio, esse universo deve ser considerado em suas pluralidades e especificidades. Acredito que
reproduz mais violências, na forma de silenciamentos e invisibilidades. É fundamental analisar que estou implicado nessa pesquisa como psicólogo e que entrei no campo do CRMM-CR inicialmente como estagiário em Psicologia, logo, devo estar atento e fazer uma análise de que forma minha formação dialogou com os temas que já apontei como fundantes dessa pesquisa: as intersecções de raça, de condição de colonializado, de pobreza, território, entre outras.
Por esta perspectiva, a articulação entre feminismo e psicologia nos remete a considerações do tipo epistemológicas e metodológicas. Tradicionalmente, por exemplo, a investigação no campo da psicologia tendia a omitir a atenção às diferenças de gênero derivadas de variáveis demográficas e socioculturais, entre outras, contribuindo para a manutenção de processos de desigualdade e discriminação, que operam tanto nos imaginários sociais como na construção do conhecimento no interior da disciplina. (REYES;
MAYORGA; ARAÚJO MENEZES, 2017, p. 2)4
Foi diante dessa preocupação - de não seguir com essa “tradição” de omissões e manipulações na produção de conhecimento para a manutenção da desigualdade e do sistema de privilégios -, que busquei epistemologias e metodologias que me ajudassem a problematizar tanto a produção de conhecimento em si - enquanto produzia essa pesquisa e seu texto -, quanto que me ajudassem a analisar o campo do Centro de Referência de Mulheres da Maré Carminha Rosa em todas as suas especificidades.
Como eleger metodologias que não repitam a desqualificação e objetivação de tantas experiências vivenciadas por sujeitos devido a questões de gênero, raça, etnia, sexualidade, geração, território, religião? Como fazer uma ciência que não acabe por legitimar as desigualdades que queremos problematizar?
(REYES; MAYORGA; ARAÚJO MENEZES, 2017, p. 2)5
Angela Davis, uma referência importante para essa pesquisa, por ser uma pensadora e grande referência do feminismo negro, fazendo uma leitura sempre atenta às condições do capitalismo e da colonialidade na vivência das mulheres e das pessoas negras, mostra como os feminismos podem se apresentar como
isso se tornará mais e mais evidente ao longo da dissertação, sendo um assunto que retomarei muitas vezes.
4 Tradução livre do autor do trecho original em espanhol: “En esta perspectiva, la articulación entre feminismo y psicología nos remite a consideraciones de tipo epistemológicas y metodológicas.
Tradicionalmente, por ejemplo, la investigación en el campo de la psicología ha tendido a omitir la atención a las diferencias genéricas derivadas de variables demográficas y socioculturales, entre otras, contribuyendo a la mantención de procesos de desigualdad y discriminación que operan tanto en los imaginarios sociales como en la construcción del conocimiento al interior de la disciplina.”
5 Tradução livre do autor do trecho original em Espanhol: “¿Cómo elegir metodologías que no repitan la descalificación y objetivación de tantas experiencias vivenciadas por sujetos debido a cuestiones de género, raza, etnia, sexualidad, generación, territorio, religión? ¿Cómo hacer una ciencia que no acabe por legitimar las desigualdades que queremos problematizar?”
metodologias, como métodos de exploração de conexões, métodos de produção de questão nas coisas até então estáticas e fechadas e também nas coisas que pareciam impossíveis de se conectar, e não só quanto as questões das mulheres, mas em tudo que constitui nossas relações com o mundo.
O feminismo não nos ajudou apenas a reconhecer uma série de conexões entre discursos, instituições, identidades e ideologias que tendemos a examinar separadamente. Ele também nos ajudou a desenvolver estratégias epistemológicas e de organização que nos levam além das categorias
“mulher” e “gênero”. As metodologias feministas nos impelem a explorar conexões que nem sempre são aparentes. E nos impulsionam a explorar contradições e descobrir o que há de produtivo nelas. O feminismo insiste em métodos de pensamento e de ação que nos encorajam a uma reflexão que une coisas que parecem ser separadas e desagrega coisas que parecem estar naturalmente unidas. (DAVIS, 2018, p. 99)
Dessa forma, anuncio que essa dissertação é instrumentalizada por uma metodologia feminista que considera aquilo que o campo do CRMM-CR me convocou a pensar como fundamental. Para exercer uma pesquisa, como psicólogo preocupado com as lógicas de opressão e desigualdade, com a complexidade do sujeito e a negação de qualquer tipo de universalidade,
[...] torna-se necessária uma investigação sobre as experiências invisibilizadas, compreender as dinâmicas de poder através do processo de colonialidade do saber e a importância de uma análise interseccional das diversas vivências subjetivas. (TIAGO, 2019, p. 46)
1.5 Genealogia como ferramenta
Como anunciado nas páginas anteriores, a ideia de verdade universal, de certezas e soluções absolutas, não é útil a essa pesquisa. Precisei, antes de qualquer etapa desse processo, estabelecer uma postura perante o conhecimento, a produção de conhecimento, e a análise de acontecimentos.
Por estudar os feminismos e utilizar de uma metodologia que também se ancora nos feminismos, precisava entendê-los não como história, linear, a história contada, com sua cronologia, dividida em ondas, em eventos específicos ou em datas conhecidas. Precisei entender o que estava atravessado nessa história, o que não foi contado, sufocado pelos interesses dos que querem se fazer protagonistas, o que foi colocado como mero detalhe, como outro, nos rodapés do cânone histórico. O feminismo negro, por tanto tempo relegado como simples vertente a um feminismo mais amplo, na verdade questionava e disputava a todo o tempo com o feminismo
hegemônico. Por isso, não basta considerar uma história linear dos feminismos, é importante pensar numa genealogia dos mesmos.
Daí, para a genealogia, um indispensável demorar-se: marcar a singularidade dos acontecimentos, longe de toda finalidade monótona; espreitá-los lá onde menos se os esperava e naquilo que é tido como não possuindo história - os sentimentos, o amor, a consciência, os instintos; apreender seu retorno não para traçar a curva lenta de uma evolução, mas para reencontrar as diferentes cenas onde eles desempenharam papéis distintos; e até definir o ponto de sua lacuna, o momento em que eles não aconteceram (FOUCAULT, 2014, p. 12)
Segundo o autor, “a verdade não tem mais que ser produzida. Ela terá que se representar e se apresentar cada vez que for procurada” (FOUCAULT, 2014, p. 12).
Me parece importante essa postura perante a produção de conhecimento, para que possamos enxergar e fugir das armadilhas que nos convocam a tecer verdades absolutas e fechadas. É um cuidado que devo ter tanto para falar dos acontecimentos que atravessam os feminismos, os estudos da violência, quanto para analisar aqueles acontecimentos do próprio Centro de Referência de Mulheres da Maré, ou aqueles que mais tarde constituíram o processo dessa pesquisa.
A história ensina também a rir das solenidades da origem. A alta origem é o
"exagero metafísico que reaparece na concepção de que no começo de todas as coisas se encontra o que há de mais precioso e de mais essencial": gosta- se de acreditar que as coisas em seu início se encontravam em estado de perfeição; que elas saíram brilhantes das mãos do criador, ou na luz sem sombra da primeira manhã. (FOUCAULT, 2014, p. 13)
Não pretendo, nessa pesquisa, buscar a origem dos fenômenos, entendê-los dentro de cronologias históricas na intenção de elucidar de que forma foram constituídos. Encontrarão nessas páginas datas, décadas e descrições de acontecimentos temporais e até origens de coisas, mas nunca na intenção de fechá- las, explicá-las em sua totalidade. Estarei sempre buscando fazer análises genealógicas que nos ajudem a levantar questões – e não necessariamente respostas.
O que se encontra no começo histórico das coisas não é a identidade ainda preservada da origem - é a discórdia entre as coisas, é o disparate.
(FOUCAULT, 2014, p. 13)
Compartilho da postura de Didi-Huberman (2016, p. 62) que diz que
“[...] mesmo que eu não possa pregá-la em um pedaço de cortiça para dizer que a borboleta “é” – decididamente – azul [...] prefiro não ver completamente a borboleta, prefiro que ela continue viva: essa é a minha atitude quanto ao saber.
Assim como ele, prefiro os campos vivos aos objetos mortos.
2 AS VIOLÊNCIAS CONTRA AS MULHERES E OS FEMINISMOS – ARTICULAÇÕES ENTRE O MOVIMENTO SOCIAL E O ESTADO
Falar dos feminismos no Brasil não é uma tarefa fácil. Existem muitas formas de se contar essa história. Já anunciei em minha metodologia que não me interessa reafirmar cronologias e expor uma narrativa canônica sobre os feminismos. Também não é minha intenção falar do feminismo como um objeto observável, do qual me distancio e faço a medição das voltagens, temperaturas e dimensões. Minha implicação com os feminismos precisa estar em análise, visto que o processo de pesquisa está carregado de subjetividade, dos efeitos da minha inserção nesse campo de estudos e práticas, pelos meus atravessamentos como um homem, performando uma masculinidade, ocupando determinado lugar nessa relação de poder entre homens e mulheres. Essa relação de poder está no centro dos estudos feministas e, como um homem, entrar nesse campo de estudos instiga reflexões que busco expor com mais atenção ao longo de outros capítulos dessa dissertação.
Na minha entrada no Centro de Referência, passei por um processo de capacitação, que envolvia a leitura de textos de referência sobre feminismos, violência contra a mulher e políticas públicas. Estava claro que aquelas autoras que lia eram feministas e não apenas instrumentalizavam práticas profissionais - havia um ativismo, uma leitura crítica das relações sociais entre homens e mulheres que se apresentava naquelas literaturas e não apenas técnicas, manuais de ação. Essa bibliografia feminista com a qual comecei os estudos falava dos conceitos mais básicos produzidos no campo teórico, das relações sociais, das subjetividades e até da produção das leis (sendo uma dessas leituras inicias o próprio texto da Lei Maria da Penha). As mais diversas dimensões do campo do enfrentamento à violência contra as mulheres começavam a se anunciar ali. Mostrava-se um fenômeno complexo, de grande densidade e, principalmente, com muito a se pensar, discutir e construir.
Como psicólogo em formação, eu esperava exercer uma certa prática, alinhada às expectativas mais comuns do trabalho do psicólogo: o amparo emocional, o acolhimento e atendimento das demandas que se relacionassem à saúde mental da mulher em situação de violência. Esperava sim fazer um trabalho com muita sensibilidade e cuidado com a alteridade e as diferenças, mas ainda não compreendia
de que forma essas ações profissionalizadas estiveram e estão profundamente ligadas aos feminismos, e sobre isso falarei nesse capítulo.
Nesse processo de engajamento com o trabalho que realizaria ali, se tornava cada vez mais claro que a história do que hoje nomeamos de Centro de Referência de atendimento à mulheres em situação de violência é também uma história do movimento social. Encontrei militantes feministas durante toda a minha prática profissional, seja na equipe do próprio Centro de Referência ou nos eventos, congressos, seminários e textos que cruzaram minha trajetória como estagiário e pesquisador. Me vi, muitas vezes, como único ou um dos poucos homens nesses espaços e isso não muda hoje. Percebi com isso que a transformação desses instrumentos em políticas públicas não sugere uma dissociação dos feminismos: esse tema ainda é apropriado por mulheres ligadas à luta da emancipação feminina.
Hoje aponto como equivocada minha primeira impressão, de que os feminismos como movimento social se distanciavam das ações que iria encontrar dentro da academia e das práticas dessa política pública. Essa impressão, no entanto, surge do que acredito ser um senso comum sobre os movimentos sociais, que mesmo quando não toma a forma mais radical do preconceito – posso dizer que sempre compreendi o feminismo como um movimento legítimo e importante -, se entende como algo que não se confunde com as práticas profissionais. É como se a academia e as instituições públicas tivessem outra abordagem, referências próprias. Percebi esse discurso muito presente entre os estudantes e professores nos espaços da universidade durante minha formação. Um que supõe clara dicotomia entre a academia e movimentos sociais.
Dick Flacks (2005, p. 48) diz que movimentos sociais são compreendidos consensualmente como “esforços colectivos com alguma duração e um certo grau de organização, que utilizam métodos não institucionalizados para provocar a mudança social”. Uma visão simples e objetiva do movimento social como ele era compreendido no meio do século XX. Pretendo mostrar nesse capítulo que essa definição não é estática, já que os movimentos sociais também se manifestam por meio de institucionalizações, sem perder sua força ou objetivo. No entanto, Flacks também diz que, a partir principalmente de concepções da psicologia, há historicamente uma forma estereotipada e negativa de enxergar os movimentos sociais.
O estudo clássico dos movimentos sociais tinha as suas raízes nas noções de “psicologia das multidões”. As interpretações clássicas viam as acções de