O Barão de Lavos: do belo ao grotesco: uma análise comparativa do romance de Abel Botelho/Simone Cristina Manso Escobar. Este texto é o mais completo, o mais completo que existe sobre a vida de Abel Botelho.
A crítica de hoje e de ontem
Ao longo deste período, outros estudiosos e especialistas da literatura portuguesa também fizeram importantes acréscimos à incipiente, e ainda curta, fortuna crítica da obra de Abel Botelho. Na linha filosófica e psicanalítica, Mário Bruno escreve dois textos importantes para a crítica atual à obra de Abel Botelho.
Uma breve contextualização histórica
Pelo que lemos em Weber, é possível discernir em seu texto a ideia de uma aliança entre a queda de uma raça e a queda de uma classe. Portanto, a imagem moral da morte como um atentado à vida dá lugar à imagem entrópica de uma vida patológica.
Naturalismo, Decadentismo e Simbolismo
O fascínio pelo indivíduo que não se adaptava às regras e normas sociais era na verdade um suporte para a literatura doutrinária que quer mostrar o erro e depois mostrar as consequências de viver sem razão, equilíbrio e moralidade. Tem-se a impressão de estar diante de uma obra escrita contemporânea. Nestes animais tentarei monitorar a ação silenciosa da paixão, a violência do instinto, os desequilíbrios cerebrais que aparecem após uma crise nervosa.
O amor dos meus dois heróis é a satisfação de uma necessidade; o crime que cometem é consequência do adultério, consequência que aceitam como os lobos aceitam a matança de cordeiros; Em suma, o que me senti obrigado a chamar de remorso consiste numa simples desordem orgânica. Produto de uma representação do mundo numa perspectiva de decadência, segundo o pensamento de Stella Maria Ferreira, “a estética decadente surgiu da interpretação da decadência como forte inspiração para a arte”. Vale notar também que o processo de decadência presente no decadentismo não é apenas a ideia de uma decadência histórica, de um estado de emergência estabelecido que impulsiona as ideias para uma nova instância, mas também de uma decadência intelectual e moral, um estado da inércia, da paralisia e do tédio, da falta de inspiração, da sensação de estagnação, de um tempo que não avança, que não se renova e depois se deteriora.
O espetáculo da vida cotidiana e os milhares de existências indisciplinadas que habitam o subsolo de uma grande cidade – criminosos e mulheres presas –, La Gazette des Tribunaux e Le Moniteur provam que basta abrir os olhos para reconhecer o nosso heroísmo” Here Comes Apache na imagem do herói. A formulação clara desse tema nas Flores do Mal, o poema Verão do Assassino, tornou-se o ponto de partida para um. É mais que o fim de uma raça (no sentido biológico), proposição sugerida pelo autor, mas também o fim de uma classe (no sentido sócio-político).
A ética e a retórica botelhiana
A sociedade caótica vista no alvorecer de um novo século, as inseguranças que este tão alardeado progresso e modernidade trouxe a estes indivíduos, e também as terríveis inseguranças. A trama gira em torno de um acontecimento que romperá com o sistema burguês e o levará a um estado de harmonia e nivelamento entre as classes. Para isso é necessário fazer uma revolução, mas mesmo que chegue às últimas consequências: uma revolta armada. Com isso vemos claramente que o narrador nos passa a ideia de anarquismo e socialismo resumido em barbárie e caos, muito diferente da ideia de socialismo de Mateus, um socialismo estruturado em Marx, um socialismo idealizado e teórico.
De uma forma muito interessante, Abel Botelho questiona a eficácia de uma monarquia moribunda e decadente, mas também a eficácia de um sistema que prega a igualdade entre classes, mas que regula e controla os atos sociais e que se utiliza da brutalidade para impor a verdade dos seus. Abel Botelho, por fim, usa sua arte e o componente mais poderoso que possui – a palavra – para abordar um tema complexo e polêmico. Abel Botelho buscou inspiração na arte clássica, e também na arte renascentista, pois precisava de um contraponto para contrapor a representação grotesca que fará ao longo do texto, da sociedade e do indivíduo.
Por um lado temos a visão, a arte visual física definida, tangível, e por outro lado a padronização do trabalho livre e criativo do artesão. Abel Botelho faz uma escolha estética consciente ao expressar a sua visão do mundo oitocentista através da arte, que neste caso seguirá o caminho de um belo clássico, que será desconstruído ao longo do caminho até chegar a um feio grotesco. Mas não foi só com os grandes mestres italianos que Abel Botelho compôs o seu texto; o autor encheu-o de referências a grandes obras, incluindo as de um artista nórdico do século XV, igualmente importante para o movimento renascentista, chamado Jan Van Eyck.
Observou e estudou cada detalhe da anatomia de seus corpos, obstinadamente, no desejo de um corpo, uma anatomia perfeita, harmoniosa e divina. Mas, acima de tudo, Abel Botelhos precisava de um ideal belo, que se opusesse à feiúra com que pintaria o contexto das suas obras, ou seja, reconstrói para deformar.
Paideia
Contudo, o santo aqui descrito é analisado com base no conceito de santo do Barão de Lavos <
No que diz respeito à questão da conceptualização da beleza nos textos de Banquete e O Barão de Lavos, temos uma diferenciação muito clara. Após leituras, descobertas e muitas reflexões, chegamos ao fim desta jornada, mas não ao fim das possibilidades que o texto de Abel Botelhos nos oferece. Abel Botelho contrasta ambas: Beleza Clássica e Beleza Sublime, e justamente o sublime romântico, que é seu contemporâneo, ele se deforma e se transforma em grotesco.
As Imagens Espelhadas Distorcidas do Grotesco no Dilema Fatal, de Abel Botelho (Mestrado em Estudos Românicos) - Departamento de Literatura Moderna e Contemporânea, Universidade de Lisboa, 2008. O Direito à História ou o Silêncio de uma Geração: Uma Leitura de O Barão de Lavos, de Abel Botelho. Capa do texto, do qual foi relator Abel Botelho, que regulamenta e formaliza a criação da bandeira nacional de Portugal.
Abel Botelho (segundo à direita) foi nomeado relator responsável pela redação e aprovação do texto. Reportagem do jornalista sobre a viagem de Abel Botelho ao Brasil para o Congresso da Sociedade Geográfica do Rio de Janeiro.
Rapto de Ganimedes: representação de um ideal estético
Sagrado e Profano
A Arte Real
A história da Maçonaria, também conhecida como Arte Régia pelos seus seguidores, está ligada à fundação do Iluminismo. Em Portugal, há evidências de que chegou ao país entre 1735 e 1743 e se difundiu no século XIX em terras portuguesas. Quando António Bernardo da Costa Cabral chegou ao poder para levar a cabo o seu regime de governo conhecido como Cabralismo, já tinha concorrido com Rodrigo da Fonseca ao cargo de Grão-Mestre da Loja Grande Oriente Lusitano e vencido nas eleições maçónicas49.
Esta fraternidade baseia-se em princípios filosóficos, científicos e racionais, mas paradoxalmente combina cerimónias ritualísticas com estes princípios e prega a fé no Cristianismo como condição básica para integrar a ordem, mas rejeita o dogmatismo, uma vez que “a Maçonaria é apoiada na Liberdade e rejeita todos injunção dogmática" (COSTA, 1991, p. 127). O fato de a Maçonaria ter princípios filosóficos não religiosos não impede a entrada em suas fileiras de uma multiplicidade de opiniões religiosas, místicas, herméticas ou cabalísticas, sem comprometer sua posição não subjetivista. ou caráter relativo, ético (COSTA, 1991, p. 29).Na Maçonaria existe um símbolo muito utilizado pelos maçons quando escrevem suas siglas ou no final de suas assinaturas - os três pontos dispostos em formato triangular.
Eles acreditam na existência do princípio GADU50, um acrônimo para <
O Signo da Rosa
Essa inspiração do estilo grego é demonstrada quando Abel cria uma estética focada na importância da forma e na perfeição desta forma, e posteriormente, ao buscar subsídios no comportamento moral dos gregos, tenta justificar as “perversidades” sexuais. do barão. , o que neste caso pode ser entendido como a perversão de uma sociedade que, segundo ele, degrada o país; Esta burguesia emergente, formada a partir das transformações surgidas durante e após a Revolução Francesa, pretendia remodelar a vida quotidiana através de uma nova organização do espaço, do tempo e da memória. Constituir família para o Barão era apenas uma forma de manter sua reputação e seu status quo.
Esta conotação de amor e beleza sublime, vivendo num universo supra-sensível, é o que mais distingue o texto platónico do conceito dos mesmos temas, representados na obra O Barão de Lavos. Em geral, o estilo grotesco caracteriza-se pela criação de um universo fantástico, de seres humanos e não humanos, fundidos e distorcidos, resultante de uma necessidade de criação de outras formas de representar a realidade. O que observamos no texto de Abel Botelho é que o grotesco não é um defeito, mas uma escolha, ou melhor, o clássico serve de contraste ao grotesco, ou seja, é um instrumento que o autor utilizou para se posicionar diante dos fatos do período: crise do regime monárquico, decadência da aristocracia e da burguesia.
Se desconsiderarmos muitos textos da tradição platônica, para Lacan a beleza nada tem a ver com o que chamamos de ideal belo. Somente percebendo a beleza na exatidão da transição da vida para a morte podemos restaurar o belo ideal, ou seja, a função que pode adquirir num dado momento o que nos aparece como a forma ideal de beleza e em primeiro plano a forma humana: a compreensão de Antígona como autónoma.[..] Tal é o segredo da beleza ideal: Antígona sacrifica o seu ser para imortalizar, imortalizar o Even conhecido. Esta ideia de ambivalência vista no grotesco é percebida na passagem seguinte de O Barão de Lavos, mas numa perspectiva moderna em que apenas o aspecto negativo é enfatizado. Abel Botelho usa o grotesco para expressar tudo o que é demasiado excessivo, ou seja, os excessos, as incoerências do governo monárquico, a alienação da população rural devido ao elevado nível de analfabetismo " A distribuição pelo país, durante séculos, apresentou uma maior incidência nas áreas mais internas e longe dos grandes centros urbanos” (GOUVEIA, 2010, p. 62), a burguesia com seus exageros e hipocrisia aristocrática.
A política, a ética (neste caso indissociáveis) e a moral são, em última análise, o objectivo principal de todo o processo literário e estético de Abel Botelho, todos os caminhos percorridos e seguidos pelos seus leitores e estudiosos acabam por conduzir ao mesmo. cidades, à crítica à sociedade, aos valores e por fim à crítica ao homem do século XIX, que se vê à frente de um novo tempo, de uma nova era, mas ainda imbuído de velhos conceitos e tradições. É este o panorama que vemos e traçamos neste romance, um retrato da pena de Abel Botelho de um século tão conflituoso, mas ao mesmo tempo tão fascinante.
O Banquete, de Platão em diálogo com O Barão de Lavos