Dissertação apresentada como requisito parcial ao curso de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Dissertação apresentada como requisito parcial ao curso de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Os conceitos de gênero, sexualidade e transexualidade
6 “O termo “transgênero” é frequentemente usado para denotar experiências sexuais que se desviam da estrutura binária. Para Moir (2017), identidade de gênero é a forma como as pessoas se entendem independentemente de sua genitália.
Contextualizando historicamente o campo da sexualidade
Sexualidade, desempenho de gênero, subjetividade, identidade de gênero constituem campos caracterizados pela diferença sexual. Portanto, não é possível reduzir a identidade de gênero simplesmente aos aspectos biológicos e quais órgãos genitais se encontram no corpo do indivíduo.
A violência que se perpetua contra quem desafia a cisheteronormatividade 27
Por exemplo, em muitas sociedades o conceito de “crime de honra” é normalizado e legitimado por ser justificado como um ato de preservação de valores (ODÁLIA, 2017). Uma norma é algo que pode ser aplicado tanto ao órgão que você deseja disciplinar quanto à população que deseja regular. Segundo o autor, “a punição disciplinar inclui o descumprimento, tudo o que contraria a norma, tudo o que dela se desvia, os desvios” (p. 160).
É então, a partir desses processos, que se formam o que o autor chama de julgamentos preliminares, onde são confirmados (ou não confirmados), questionados (ou não questionados). Ela ressalta que “os julgamentos preliminares que são refutados pela ciência e pela experiência cuidadosamente analisada, mas que permanecem inabaláveis apesar de todos os argumentos da razão, são preconceitos” (p. 63). Nesse sentido, vale lembrar que discutir a transfobia institucional não é uma tarefa fácil, pois envolve compreensão de culturas, informações (ou falta delas), formação profissional e vários outros elementos, que se desenvolveram ao longo dos anos e se formaram na lógica binária . de gênero.
Breves considerações sobre o campo dos Direitos Sexuais
É importante compreender que foi no final do século XVIII, no contexto da Revolução Francesa, como aponta Irineu (2014), que nasceram os direitos humanos, da luta civil pelo fim do feudalismo e dos privilégios de o clero e a nobreza. E foi nessa altura, com a ascensão dos direitos humanos, que também começámos a pensar nos direitos políticos e civis. Contudo, o autor ressalta o fato de que embora este período tenha sido um marco para a construção dos direitos sociais, é preciso lembrar que se tratou de uma revolução burguesa.
Assim, hoje se entende que a sexualidade é apenas um dos vários domínios que constituem a identidade humana e que ocorre de forma bastante heterogênea, pois a diversidade é inerente à humanidade. Assim como em outros países, as políticas sexuais que se desenvolveram no Brasil a partir do final do século XIX tiveram como ‘outros’ problemas homossexuais, prostitutas, homens e mulheres considerados sexualmente promíscuos, portadores de doenças sexualmente transmissíveis, etc. tema transversal desta tese – HIV – vale a pena destacar brevemente o contexto de mobilização e ativismo que se criou mundialmente em resposta ao processo discriminatório que surgiu em conexão com a epidemia.
Breve histórico do ativismo social e da organização civil no contexto da
Como forma de sistematizar a interpretação histórica, Parker propõe três etapas para observar a luta dos movimentos populares e da sociedade civil, a saber: (i) dos primeiros anos da epidemia até o início da década de 1990, período caracterizado pelo ativismo, especialmente em relação à convulsão social expressa negativamente pelo estigma da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS); (ii) desde o início da década de 1990 até meados da década de 2000, focar no tratamento e na sua distribuição justa, o que exige um compromisso global; e (iii) de meados dos anos 2000 até a atualidade, com traços de fragmentação dos movimentos, foco nas demandas locais e difusão de temas que se cruzam. No que diz respeito à primeira fase, é importante delinear a resposta dos governos e da sociedade expressa pela negação da epidemia. Esta mobilização teve, por sua vez, eco em outros países do mundo, tendo a iniciativa americana como modelo e, como salienta Parker, também adaptada à forma e às circunstâncias locais da epidemia que se instalou noutros contextos.
Esta questão, levantada na primeira fase dos movimentos, será posteriormente alvo de aprofundamento teórico e por sua vez colocará em cena os problemas urgentes do nosso tempo atual. Assim, ao longo da década seguinte foi possível observar uma série de mudanças que deram origem à percepção de uma segunda fase dos movimentos ativistas e da sociedade civil, caracterizada por novos avanços médicos que resultaram numa luta pela igualdade no campo dos medicamentos e tratamentos. . condições. À medida que as agências de cooperação para o desenvolvimento reorganizavam as suas prioridades programáticas, o apoio aos esforços da sociedade civil, especialmente para uma abordagem mais politizada da epidemia, foi a primeira coisa a ser alcançada (2011, p.20).
Conceituando o Vírus da Imunodeficiência Humana
Mas o bom senso continua culpando o HIV e relacionando-o com a população de travestis e mulheres transexuais (além de homens gays, bissexuais e pansexuais, entre outros). A ideia de que as mulheres não transmitiriam o vírus aos homens foi assim construída como pano de fundo deste processo. Segundo Guimarães (2001), o pico de transmissão do HIV entre mulheres e crianças cisgênero e heterossexuais por via perinatal ocorreu no Brasil na década de 1990, sendo a grande maioria proveniente de “classes populares”.
Mas embora fossem muito poucos os casos de mulheres identificadas como “infectadas pela prostituição”, cedo se criou esta segunda perspectiva, que, ao contrário da primeira – a vitimização, transformou a mulher em promíscua, indigna, o que na verdade é muito semelhante à imagem criada em relação a travestis e mulheres trans que vivem com HIV. Porém, não é possível saber neste boletim quantas travestis e mulheres transexuais estão entre essas pessoas (nem é possível identificar homens transexuais), pois a divisão dos grupos para análise do documento é dividida em: heterossexuais, HSH18, hemofílicos, transmissão vertical19, transfusão de sangue e usuários de drogas injetáveis (UDI)20. O que podemos constatar de antemão ao discutir transexualidade, travestis e infecção pelo HIV é a profunda e absurda falta de informação sobre os casos de travestis e mulheres transexuais que vivem com HIV, uma vez que esta categoria não existe para controle epidemiológico não só no Brasil, mas, vale notar, em vários países.
O impacto do estigma e da discriminação
Estes dados realçam a necessidade de expandir e melhorar os serviços e políticas de cuidados de saúde mental para as pessoas que vivem com o VIH/SIDA, especialmente para as populações-chave e mais vulneráveis. Portanto, ambos criam um cenário desfavorável para a vivência de travestis e mulheres transexuais vivendo com HIV, o que afeta diretamente o seu estado de saúde a partir do conceito difundido e de seus determinantes sociais. Segundo o UNAIDS (2019), em pesquisa realizada com 1.784 pessoas (sendo 101 travestis e mulheres transexuais), a maioria das pessoas que vivem com HIV no Brasil já sofreram alguma forma de discriminação em suas vidas.
Um relatório (ONUSIDA, 2019) mostra que o medo da discriminação e a culpa por viver com o vírus são sentimentos comuns da maioria das pessoas que vivem com o VIH. Com isso, o estudo também enfatiza que “viver com HIV produz percepções e sentimentos que afetam não apenas o relacionamento com os outros, mas também consigo mesmo” (UNAIDS, 2019), pesquisa em que um em cada três indivíduos afirmou ter vergonha de seu condição e sentindo-se culpado pela infecção. É fundamental começar pelo reconhecimento de que os preconceitos produzidos na sociedade excluem e atacam uma parte da população - por serem um potencial factor de doenças e ameaçarem directamente a qualidade de vida dos chamados grupos "minoritários" - para compreender então até que ponto a transfobia institucional, que se baseia na norma binária de género e na heteronormatividade, cria dificuldades adicionais no acesso à proteção social para grupos considerados dissidentes (como travestis e mulheres transexuais), com uma deterioração ainda maior e particular quando se trata acesso aos cuidados de saúde para aqueles que vivem com VIH.
Breve excurso sobre a relação entre teoria e metodologia
Segundo Parker, esta perspectiva, embora avançada, produziu um “extremo empirismo” no comportamento sexual. Em campos como a Antropologia Cultural, a Sociologia, a Psicologia Social e a História, a atenção tem-se voltado cada vez mais para as forças sociais, culturais e económicas que moldam o comportamento sexual em diferentes contextos, bem como para os significados complexos que tanto os indivíduos como os grupos têm. experiência sexual” (1995, p.88). Parker toca num ponto central crítico relativo às mudanças nas metodologias de análise, que, devido à falta de uma sistematização comum, refletem nas decisões dos agentes políticos que perdem a visão de longo prazo e os estudos dedicados ao comportamento sexual tornam-se ilhas imprevisíveis. comunicar navios e pontes entre diferentes abordagens teóricas acaba sendo um empreendimento paralelo e, em muitos casos, inviável.
Ou seja, para além das limitações específicas, perde-se o esforço de uma agenda global, essencial para compor uma perspectiva comparada. Pelo contrário, só focando nas dimensões políticas, económicas, culturais e sociais mais amplas da experiência sexual poderemos começar a construir uma compreensão que possa informar os tipos de políticas e práticas que, em última análise, nos permitirão responder à propagação da SIDA. (1995, pág. 96). Levando em conta a crítica de Parker, à nossa maneira, após este capítulo buscamos realizar uma análise que considere os dados do diário de campo numa perspectiva que não bane os dados etnográficos, mas sobretudo considera a complexidade dos relatos.
Apontamentos e análises do diário de campo
36 Ele diz que já sofreu violência verbal e que isso é comum quando vai para a rua. 5 Deixaram de frequentar as unidades de saúde por medo da transfobia e do preconceito devido ao vírus HIV. Ele diz que gostaria de ter acesso a serviços de saúde mental em uma unidade perto de casa, mas nunca conseguiu.
27 Ela indica que nunca teve medo de procurar uma secretaria de saúde, por medo da transfobia. 31 Ele acha que está com sífilis e relata que essa é sua principal preocupação e por isso procurou a secretaria de saúde. 14 Sobre a diferença entre ser mulher trans e travesti, ela diz que a travesti “nem sempre se sente mulher” (sic).
Quando questionada sobre identidade de gênero, ela afirma que travestis são aquelas que se prostituem e mulheres trans não. Ele prefere a identidade travesti porque diz que “trans” é uma forma de higienizar a identidade travesti e ele discorda.