Se a barbárie não pode dissolver-se completamente na forma específica de civilização que hoje se apresenta, pode pelo menos ser entendida como um momento necessário, a mando da sombra que aguarda o viajante. O objetivo principal do trabalho é discutir o papel central da crítica ao fetichismo da mercadoria, elemento estrutural da forma social e estruturante do que entendemos como barbárie civilizada.
Tudo que é sólido “parece” desmanchar no ar
Há dois aspectos importantes na ordem das questões tratadas até agora nos textos de Weber. A correlação de Weber é precisa25, mas o autor não questiona a própria instituição do sentido, a posição histórica do que é racional.
Reconciliação adiada
Primeiro viria o acúmulo do que há de melhor na terra, para só então haveria a sua realização racional para todos que estão aqui. Há um intrincado movimento de conjugação entre a consciência, que ainda é uma experiência histórica e moderna, e o processo de apreciação do valor, fim último da forma social imposta à moderna sociedade produtora de mercadorias.
O ser humano é... sua totalidade concreta
É portanto, contra a convicção filosófica43 de que na mera adequação do modo de apreensão da realidade, na forma de pensamento, na adaptação dos passos entre a consciência filosófica mais avançada e uma realidade latente distinta, que residem os fundamentos de Marx de movimento complicado entre relações de produção e poder produtivo. O Estado, o direito civil, os meios de produção e seus benefícios seriam objeto de expropriação real – a da classe trabalhadora. Por outras palavras, existe a crença de que as mudanças, os choques constantes que ocorreram nesta formação social particular que é a civilização capitalista, provocaram a ligação com o próximo elo da cadeia; a vitória das relações sociais determinadas como relações de produção seria realizada pela classe que saísse vitoriosa do embate destes tempos.
Tal processo de melhoria dos meios de produção da humanidade teria tornado possível o surgimento da civilização em oposição à vida material, aquela em que as sociedades tradicionais se encontravam na grande raça evolutiva da humanidade. As relações burguesas de produção e troca, o regime de propriedade burguês, a sociedade burguesa moderna, que dão origem a poderosos meios de produção e troca, parecem o feiticeiro que já não consegue controlar as forças infernais que pôs em movimento.
Questão de método? – relações sociais como relações de produção
Esta forma de representação da realidade não era apenas uma falta das ciências tradicionais51, algumas das teorias que se autoproclamavam críticas entraram no campo destes verdadeiros obstáculos52 à compreensão histórica das formas de representação objetivamente determinadas. Lukács já percebia obstáculos à forma como a realidade é representada como verdadeiras formas objetivas, e não apenas um obstáculo epistemológico em sentido estrito. Na verdade, vai mais longe na sua relação com o todo; tal relação torna-se a determinação que condiciona a forma de objetividade de cada objeto; toda mudança necessária e importante para o conhecimento se manifesta como uma mudança na relação com o todo (..) como uma mudança na forma da própria objetividade.
A possibilidade, a mera possibilidade, de calcular a probabilidade de previsibilidade dos fins a atingir pelos meios previstos de forma legal e regulamentada justificaria este estado de coisas; Parece assim que o fundamento mítico, que quis afastar-se do mundo racional, autor referencial e com leis próprias autojustificadas, transforma-se no seu oposto: “o homem é produto de si mesmo, mas produz-se. na forma de objetividade social”. As questões que levanta, bem como aquelas que podem ser colocadas com a sua ajuda, já são passos para a compreensão da forma de objectividade que é eficaz na formação social dos bens.
Eles não sabem, mas o fazem: o valor como forma-social
Os valores-mercadoria são nada mais nada menos que a cristalização desse processo de redução – portanto social – do trabalho na “mesma objetividade fantasmagórica, uma simples massa amorfa de trabalho humano indiferenciado” (MARX, 2017, p. 116) . Este é um tempo de trabalho socialmente necessário na medida em que se relaciona com o trabalho social, mas não com o trabalho individual de um produtor isolado de bens67. 71 “A forma natural da mercadoria torna-se a forma de valor (..) outra propriedade da forma equivalente é o fato de que o trabalho concreto se torna (..) o trabalho humano abstrato (..) torna-se trabalho privado na forma de seu oposto , trabalho em forma social direta.” (MARX, 2017, p.133-5).
Para poder derivar valor do consumo de uma mercadoria, o nosso dono do dinheiro teve que ter a sorte de descobrir no mercado, na esfera da circulação, uma mercadoria cujo consumo era, portanto, a objectivação do trabalho. e, portanto, criação de valor. (MARX, 2017, p. 242). Nada mais são do que duas formas diferentes de gastar força de trabalho humana.” (MARX, 2017, p. 121).
Caminhos para a compreensão do fetichismo jurídico
A integração burocrática é, portanto, a melhor forma de adaptação às formas de mediação impostas pela civilização especificamente analisada - a moderna sociedade produtora de mercadorias - segundo a análise de Weber, uma vez que permite "a integração do trabalhador nas condições objectivamente funcionais permanentemente dadas pelo trabalhador". o mecanismo baseado na disciplina” (WEBER, 1974, p. 243). O sociólogo também não ignora que a burocratização é função de “uma maior posse de bens de consumo e de uma técnica mais complexa de modelização da vida externa”, bem como de “uma exigência crescente de uma sociedade habituada à pacificação absoluta, recorrendo à ordem e à proteção” (WEBER, 1974, p. 247). Todas as formas não burocráticas de governo mostram uma espécie de coexistência: por um lado há uma esfera de tradicionalismo estrito e, por outro lado, uma esfera de livre arbitrariedade e graça dominadora” (WEBER, 1974, p. 252).
107 “Como uma estrutura permanente com um sistema de regras racionais, a burocracia é formada para atender às necessidades esperadas e repetidas através de uma rotina normal.” (WEBER, 1974, p. 283). 109 “Para fazer justiça à sua missão, os portadores do carisma, tanto o mestre como os seus discípulos e seguidores, devem permanecer longe dos laços deste mundo”. (WEBER, 1974, p. 286).
Fetichismo da mercadoria e fetichismo jurídico
Precisamente este tipo de separação é constitutivo e necessário dentro deste modo específico de operacionalização em que se desenvolve a formação social produtora de mercadorias. 114 “[..] ilusão socialmente necessária – e que adere às relações sociais sob os auspícios da sociedade produtora de mercadorias – segundo a qual o valor é constituinte do objeto e não resultado das relações sociais.” (NASCIMENTO, 2009, p. 57). A coerção como ordenação de uma pessoa sobre outra, mantida pela força, é contrária à premissa básica da relação entre proprietários.
Portanto, numa sociedade de proprietários de mercadorias e dentro dos limites do ato de troca, a função de coerção não pode aparecer como uma função social. pessoa abstrata e geral. Da religião à produção sistemática de bens como um fim em si mesmo, a história ainda é caracterizada como uma história sem sujeito, na qual a segunda natureza ainda é uma condição inevitável.” (NASCIMENTO, 2014, p. 186).
Esses parezeres violentos têm fins vilentos – e morrem em seu triunfo
O afastamento da vida substancial leva ao aparecimento de uma segunda natureza, uma ruptura sócio-natural do sujeito consigo mesmo e com os demais sujeitos que o confrontam. 129 O sentido psicanalítico deveria ressoar aqui, mas com o sentido definido de “pulsão” de uma verdadeira obrigação social-natural. Estas formas de existência da vida social separadas, introduzidas e mantidas pelo que aqui foi apresentado como uma verdadeira ordem policial, são postuladas historicamente, tendo o cuidado de bloquear possíveis reconfigurações da existência partilhada - o que pode ser considerado na ordem do " terra dos acontecimentos”134 (MENEGAT, 2003, p. 120), que se torna um fundamento possível para uma existência diversa, para a partilha do que se pode chamar de ser-no-mundo.
Até o momento, alguns passos foram dados no que pode ser entendido como uma interpretação do mestre, que define as categorias da lógica de produção e reprodução da moderna sociedade produtora de mercadorias, tomando como ponto de partida a interpretação categórica oriunda de Marx; isto é, uma interpretação dos contornos de uma forma social baseada nas suas categorias mediadoras socialmente impostas. Com estes termos seria possível expressar algo da ordem da verdadeira barbárie civilizada, dentro do funcionamento da própria civilização capitalista, na medida em que, corporificado no seu Sujeito-Objeto, o capital, pode ser entendido como “uma força totalizadora que se constitui de modo a abranger e a submeter-se a outras relações e condições sociais externas para incluí-las em si como momento próprio e com medida própria, nomeadamente a obra abstrata” (CANETTIERI, 2020, p. 13). ). ).
Caminhos que não levam mais a lugar nenhum
Desta condição surge um processo objetivo de irrealidade, sustentado pelo ato de tornar fictícia a própria realidade, uma vez que o processo de reprodução indica essencialmente a sua dessubstancialização150. Ao que parece, em quase todo o lado, a riqueza, o poder e os recursos estão a tornar-se cada vez mais concentrados nas mãos dos ricos e dos super-ricos, que se isolam cada vez mais em casulos urbanos murados e implantam os seus próprios sistemas de segurança. [..] (GRAHAM, 2016, p. 54). Outra virada do relógio, pois o relógio não se destaca, a não ser como um peso opaco do tempo morto, insistindo em não passar, mas trazendo algo novo a esse processo de fusão, como "em certo ponto do curso de No mundo contemporâneo, a distância entre expectativa e experiência começou a encurtar cada vez mais e em uma direção surpreendente [...] inaugurando uma nova era que pode ser chamada de expectativas decrescentes” (ARANTES, 2014, p. 67).
A letargia de uma civilização que já não acredita no seu próprio seio, tendo sido construída sobre uma obra abstracta, demonstra uma profunda vontade de permanecer no caminho certo, e neste processo desesperadamente contraditório de manutenção do equilíbrio, revela que vale a pena ressoar o imagem criada por Kafka em sua novela V galerija152 algo sobre a verdade objetiva dessa forma social, na medida em que estamos diante de um apego violento153 a diversas formas de trabalho sujo154, que só sobrevive no cenário de terra arrasada. que nos resta155 - digna de uma “bildung parodicamente perversa (..), cuja chave sabemos: sim, aqui também se cria trabalho, mas para o Mal”. (ARANTES, 2014, p. 125). 154 “A rigor, o mal com que somos mais uma vez confrontados, e que se distingue pela sua capacidade de mobilizar, em princípio, desejos insensíveis, nada mais é do que aquilo que, coloquialmente, chamaríamos banalmente de trabalho sujo.
A persistência da barbárie
Contudo, são necessárias mais pesquisas para verificar a determinação específica daquilo que se apresenta como a face contemporânea da barbárie. A partir da dinâmica de funcionamento sistêmico da formação social centrada no trabalho abstrato, do valor, do dinheiro, da mercadoria, da forma jurídica, torna-se possível compreender o que aqui se expressa como barbárie civilizada, ou seja, a movimento de opositores de uma formação social presumivelmente voltada para o progresso, com seu amplo movimento nas costas dos sujeitos envolvidos, e que pressupõe doses agravadas de violência. Numa outra reviravolta, a expressão da forma social nos termos aqui utilizados permitiu apontar algo próximo de indicar o que aparece no horizonte da teoria social.
Se foi possível apresentar a gestão burocrática da vida no interior da civilização capitalista, nos seus termos médio-ideais, com a ajuda da forma jurídica, outro significado que tal forma de gestão assume nesta nova quadratura da história é , cujo determinismo aborda uma “gestão securitária do colapso administrado”160 (CANETTIERI, 2020, p. 121), pois fracassam as bases produtivas desta sociedade que se alimentam do trabalho e do consumo abstraídos, formas complementares dentro da totalidade objetivada. Da mesma forma, contribuiu para expor as novas características da barbárie na sua faceta contemporânea.