O sítio do saber-fazer dos pescadores artesanais e a institucionalidade da pesca: uma análise da arte da pesca artesanal e do fenômeno técnico na. fenômeno na produção social do espaço na Baía de Sepetiba (RJ) / Rodrigo Correa Euzebio.
Geografando a pesca artesanal
Silva problematizou as geografias da existência - a existência em movimento, como aprende o autor - dos pescadores artesanais no debate sobre a economia política do território que organiza um mundo específico das comunidades piscatórias tradicionais: os seus modos, modos de vida, sociabilidades, relações sociais. os laços e suas referências aos objetos e à natureza criam uma existência que não é meramente subjetiva. Paula (2013) analisou a experiência do Fórum Delta do Jacuí, na Lagoa dos Patos-RS, onde os pescadores artesanais têm lutado contra a sua desterritorialização devido aos efeitos da modernização e da construção de novas formas de territorialidade.
Pesca artesanal e o processo técnico
Terceiro, a materialização da tecnologia no território provoca mudanças no trabalho, que exigem trabalho especializado e agravam as condições precárias dos trabalhadores não qualificados. Técnica é uma expressão da técnica relacionada à arte, ao talento artístico e ao artesanato, pois busca não perder o sentido da ação.
Espacialidade e Saber-fazer
A orla da Pedra de Guaratiba fica em uma área chamada Baía de Sepetiba. Há pescadores filiados à Colônia Z-14 e pescadores filiados à Associação de Pescadores de Pedra de Guaratiba.
Espacialidade dos pescadores artesanais
A pesquisa foi realizada com pescadores artesanais residentes no bairro Pedra de Guaratiba, localizado na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. O pescado extraído geralmente é vendido a atravessadores9 quando os pescadores atracam na Pedra de Guaratiba. No mapa 05 é possível observar a existência de três amarrações em Pedra de Guaratiba: em Ponta Grossa, Praia da Pedra e Praia da Capela.
Em Ponta Grossa está localizada a Associação dos Pescadores Artesanais de Pedro de Guaratiba (APAPG) 11, cuja sede serve de ponto de encontro para os associados discutirem políticas públicas voltadas aos pescadores e as exigências desses trabalhadores quanto a documentação como o Cadastro Geral de Pescadores. A pesca e a licença de pesca (este tema será abordado no próximo capítulo do trabalho). 11 A APAPG foi fundada na década de 1990 devido à dissidência na colônia de pescadores de Pedra de Guaratiba.
Cartografia das práticas espaciais
Através da linguagem, os pescadores criam códigos ilegíveis para quem não conhece o local, mas familiares para quem compartilha diariamente as práticas deste local. As solidariedades são expressas no processo comunicativo, onde os pescadores trocam conhecimentos sobre os equipamentos de pesca, os pontos com maior disponibilidade de pescado e os riscos do vento e da poluição. Objetos que os pescadores artesanais utilizam numa mediação com a natureza, da qual participam não apenas esses trabalhadores, mas também: a demanda pelo consumo de pescado na metrópole, as empresas públicas e privadas que exploram os recursos hídricos da Baía de Sepetiba e as regulamentações sobre a exploração de recursos pesqueiros na costa brasileira.
Essa caracterização geomorfológica da Baía de Sepetiba, dada por Muehe (1996), nos ajuda a compreender o fato de os pescadores chamarem de “fundo” a parte da baía onde está localizada a Pedra de Guaratiba. Estas terminologias serão constantes ao longo do trabalho, pois é com estas referências que os pescadores artesanais explicam a sua circulação e a utilização dos equipamentos de pesca na baía.
Trajetos no mar
Trajetos no fundo da Baía de Sepetiba
Seu Vavá é famoso entre os pescadores de Pedra de Guaratiba pela habilidade que desenvolveu para capturar robalo de grande porte (centropomus unddecimalis) utilizando vara de pescar, linha de algodão, anzol e isca. Nesse movimento contínuo, os pescadores aprendem os locais mais adequados para a utilização de cada arte da pesca: lançamento de redes, arrasto e caça. Para essas pescarias, os pescadores costumam sair da Pedra de Guaratiba no final da tarde e retornar ao nascer do sol do dia seguinte.
Neste caso, os pescadores alugam o barco e o motor e em alguns casos também a rede de pesca. Os pescadores entrevistados chamam esse tipo de embarcação de “barco-rede” ou “barco a motor”.
Trajetos para a entrada da Baía de Sepetiba
Obs: na imagem 1 você pode ver a casa de barcos, uma casa de madeira onde os pescadores pilotam o barco e descansam à noite; Algo que obriga os pescadores a permanecerem ainda mais tempo no mar, a circular entre pesqueiros, aumentando o número de repetições de lançamento de redes, consumindo combustível e mantimentos dos barcos e consumindo materiais de pesca e aumentando assim os custos da pesca. A “tarde” a que os pescadores se referem é a hora do nascer do sol e a hora do pôr do sol, momento em que os cardumes começam a circular no mar.
O custo da pesca envolve agora um elevado consumo de combustível para completar a viagem; aumento do desgaste das redes, artes e embarcações utilizadas na pesca; e despesas com alimentação e equipamentos para os pescadores permanecerem no mar durante a jornada de trabalho. Portanto, os pescadores só regressam a casa quando têm peixe suficiente para recuperar o dinheiro que gastaram e garantir o sustento da sua família.
Trajetos para outras baías
Além disso, estas embarcações não oferecem possibilidade de abrigo (dormir e cozinha) para os pescadores permanecerem dias no mar e a sua capacidade de carga é muito baixa. Há casos em que os pescadores adaptam os caiaques para pescarias mais distantes e para passar mais tempo no mar. Em primeiro lugar, são poucos os pescadores que saem da Baía de Sepetiba com seus meios de produção (barco, redes, etc.) por não possuírem embarcação adequada para este tipo de pesca e/ou tipo de embarcação que aguente o mar aberto. (Oceano Atlântico) e em muitos casos também há falta de conhecimento sobre os procedimentos de segurança da navegação.
Nota-se que neste caso os pescadores cooperam não só com quem tem barco em Pedra de Guaratiba, mas também com pescadores de Sepetiba (bairro da zona oeste do Rio de Janeiro) e da Ilha da Madeira (distrito do município de Rio de Janeiro). Itaguaí). Assim, entre os pescadores entrevistados durante a pesquisa que relataram pescar em outras baías, a maioria explicou que trabalhava nos barcos daquele local.
Técnicas/artes de Pesca
Pesca de espera ou emalhe
Esta é a Baía do Camarão!” exclamou o pescador Wagner, contando esse momento de abundância na produção de camarão branco. Junto com o aumento da pesca do camarão, também aumenta a presença de intermediários nas praias da Pedra de Guaratiba. Após esse período de abundância de camarões nos pesqueiros de Pedra de Guaratiba, o movimento nas praias diminui, reduzindo significativamente o número de pescadores que saem para pescar todos os dias.
Portanto, com a diminuição do camarão nos pesqueiros mais próximos da Pedra de Guaratiba, ou seja, no fundo da baía, os pescadores temporários também diminuem, restando os pescadores que trabalham quase exclusivamente na pesca artesanal. Segundo os pescadores entrevistados, o fundo da Baía de Sepetiba é criadouro de camarões.
Cercadas
A equipe de trabalho para a construção do “recinto” é composta por membros permanentes, que participam de todo o processo, e membros que são contratados apenas para tarefas que exigem mais mão de obra, como mergulhadores que precisam descer até o fundo. do local escolhido para fixar corretamente a madeira do mangue. Com a proibição da mineração de manguezais, os pescadores passaram a utilizar troncos de eucalipto que eram vendidos comercialmente. As esteiras, feitas de varas de bambu e redes de náilon, formam as paredes da “cerca” e funcionam para evitar que os peixes escapem da armadilha.
Depois de prontas as esteiras, os pescadores constroem a cerca no mar, fixando varas de bambu em postes estrategicamente colocados no fundo, dando-lhe o formato de armadilha. Seu Ivo nos explicou que os moirões sempre foram feitos com paus de mangue dos manguezais que havia na Baía de Sepetiba, mas que, com a proibição da extração dessa hortaliça, os pescadores têm usado paus de eucalipto comprados de madeireiras.
Arranjo Institucional do Ordenamento Pesqueiro no Brasil
Histórico da institucionalidade da gestão pesqueira no Brasil (1962-2018)
Dias Neto (2003) também destaca nesse período a elaboração de quatro Planos Nacionais de Desenvolvimento Pesqueiro - PNDP entre 1963 e 1985. Dias Neto (2003) explica que as atividades antes realizadas pela SUDEPE na gestão pesqueira passaram a ser realizadas pelo IBAMA, que priorizou a implementação de políticas voltadas à recuperação de estoques pesqueiros em situação de sobrepesca ou ameaçados de esgotamento. O contexto de enfraquecimento das operações do IBAMA no final da década de 1990 e a pressão acumulada sobre o setor pesqueiro, especialmente sobre os empresários da pesca industrial (DIAS NETO, 2003) levaram à retomada da gestão pesqueira pelo MAPA.
Assim, em 1998, com o decreto nº, foi criado o Departamento de Pesca e Aquicultura – DPA, vinculado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA. Essa mudança, baseada nas manifestações da Associação Brasileira das Indústrias Pesqueiras - ABIPESCA, satisfez os empresários da pesca industrial18.
Estrutura institucional do ordenamento pesqueiro no Brasil
Cooperação com a União e os municípios na gestão dos recursos pesqueiros e no desenvolvimento das atividades pesqueiras no estado; exercer o controle ambiental da pesca em nível estadual. O Ministério do Meio Ambiente - MMA divide sua responsabilidade quanto à gestão dos recursos pesqueiros entre duas instituições: o Instituto do Meio Ambiente - IBAMA; e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio. No estado do Rio de Janeiro, a instituição responsável pela gestão pesqueira e cooperação no planejamento pesqueiro é a Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro - FIPERJ.
No Golfo de Sepetiba também verificamos o trabalho da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Itaguaí e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Mangaratiba, que têm realizado ações junto às colônias e associações de pescadores referentes às práticas pesqueiras no litoral desses municípios. No caso do município de Itaguaí, durante a pesquisa também observamos a participação do Ministério do Meio Ambiente na realização de fóruns de pesca promovidos por pescadores artesanais com o objetivo de estabelecer acordos de pesca na baía e organizar a divulgação de informações sobre os direitos dos pescadores e padrões ambientais.
Regulação dos Usos das Técnicas de Pesca Artesanal
Nesse sentido, o principal documento é o Cadastro Geral da Pesca – RGP, com o qual o pescador passa a ter identificação como pescador. Além do RGP, o pescador também deverá regularizar sua embarcação junto ao SEAP, por meio da Autorização Prévia de Pesca – PPP e do Certificado de Registro e Autorização de Embarcação Pesqueira. Utilização de rede de arrasto, com recolha manual ou mecânica; operação requer navio de pesca.
Na modalidade de pesca “diversidade costeira” é proibida a prática de arrasto e a captura de espécies sob controlo de esforço de pesca. As licenças de pesca também são emitidas pelo SEAP e definem o tipo de pesca (técnica de captura, tipo de embarcação e espécie alvo) que o pescador pode praticar. Por outro lado, quando se analisam as práticas espaciais dos pescadores artesanais, percebe-se que o uso das redes de pesca é orientado pelas necessidades concretas do cotidiano.
Além da organização do MPP e de sua “articulação no Sudeste e no Sul”, os pescadores artesanais se organizam em nível local, por meio de colônias e associações de pescadores e da construção de fóruns de pesca.