Os rostos melancólicos de Martim em A Maçã no obscura, de Clarice Lispector/Deisivane Alves Medei-. O presente trabalho tem como objetivo analisar o romance Uma maçã no escuro (1961) de Clarice Lispector, mais especificamente os rostos melancólicos de Martim, protagonista da história em questão. Este estudo tem como objetivo analisar o romance Uma maçã no escuro (1961) de Clarice Lispector, mais especificamente os rostos melancólicos de Martinho, personagem principal da história em análise.
Este estudo analisa o romance Uma maçã no escuro (1961), de Clarice Lispector, mais especificamente, os rostos melancólicos de Martim, protagonista da narrativa. Numa perspectiva oposta, supomos que a melancolia, presente não apenas no protagonista de Uma maçã no escuro, mas na literatura de Clarice como um todo, indica contradições históricas em seu contexto de produção, o que ocorreria, por exemplo, na construção. caráter fragmentado, incompleto e incerto de Martim.
Panorama do Romance: da Europa ao Brasil
Nesse aspecto, os filósofos Descartes e Locke tiveram papel importante ao considerarem a não passividade do sujeito frente ao mundo, tendo consciência de que o romance é produto de uma cultura que não mais se baseia nas tendências absolutizantes da Idade Média. mundo. Essas características são fixadas de uma vez por todas, e cada vez que o personagem aparece em ação, basta invocar uma delas. Outro fator predominante em relação ao romance diz respeito ao seu público original e à tendência que o gênero tinha para o entretenimento de um segmento feminino.
Na concepção de Lukács, o romance oitocentista teve pouca atividade descritiva, ocupando uma posição secundária, exercendo apenas maior participação do lado romântico. Novos estilos, novas formas de representar a realidade, nunca surgem de uma dialética imanente das formas de arte, embora estejam sempre ligadas às formas e significados do passado. Para o autor, a falta de correspondência entre alma e mundo revela uma contradição estrutural, pois não há desejo de que os seres se realizem nas ações externas, somos confrontados com uma realidade interior, dotada de conteúdo e ao mesmo tempo perfeita em si mesma . mesmo.
Escrever um romance significa, ao descrever a vida humana, levar o imensurável aos seus últimos limites (BENJAMIN, 1996, p. . 201).
A Estreia de Clarice Lispector e sua recepção inicial
Além da epiderme, acima do coração, o que realmente domina o romance de Clarice Lispector é a consciência como se estivesse sobre uma mesa de laboratório (ADONIAS FILHO, 1943, p. 172-173). E a premonição dessa expansão, dessa carreira que sempre gera loucuras, não faltou a Clarice Lispector” (ADONIAS FILHO, 1943, p.173). Em seu Diário Crítico, de 15 de janeiro de 1944, Sérgio Milliet expressa surpresa diante de um nome estranho no cenário literário da época, a estreante Clarice Lispector: "um pseudônimo sem dúvida, pensei: mais uma daquelas jovens que só começam.
Dirão que falta a Clarice Lispector o senso de objetividade e de reportagem, o que para muitos é uma das qualidades essenciais do romance. Clarice Lispector está focada num drama coletivo ou numa tragédia que surge de uma ferida da natureza. Este segundo texto, depois de sofrer modificações, seria republicado em livro de 1970, com o famoso título “No raiar de Clarice Lispector”.
Mendes (1944), em seu texto “Um romance diferente”, escrito para o jornal O Diário, em 6 de agosto de 1944, confessa que não precisou escrever sobre o livro da estreante Clarice Lispector, pois apenas o leu. É quando não consegue captar esse “raio de luz” que a obra de Lispector aproxima o leitor das imagens e do campo da poesia: “Este romance de Clarice Lispector é mais que uma história de amor do que uma análise psicológica, é uma reflexão poética”. um. expressão de um mistério da alma”. Lauro Escorel, em 13 de outubro de 1944, publicou artigo no jornal A Manhã, sobre a narrativa inusitada baseada em recursos técnicos ligados à sensibilidade poética presente no primeiro romance de Clarice Lispector.
Parece mentira, mas foi à luz do livro recentemente publicado por Clarice Lispector que escrevemos este prólogo. Após a análise das fortunas críticas, seria necessário compreender certas mentalidades e valores prementes em grande parte da recepção inicial de Clarice Lispector. Essa importante passagem na história da crítica brasileira é estudada em “A crítica jornalística sobre Clarice Lispector”, de Neli Edite, que observa que no final de 1943, com a publicação de Perto do Coração Selva, houve maior difusão de parte das críticas do livro de Lispector.
A fortuna crítica de A maçã no escuro: estado da questão
Notamos que Olinto (1964), assim como outros críticos vistos anteriormente, apesar de reconhecer a qualidade literária de Clarice Lispector, utiliza referências tradicionais em sua avaliação, como ilustrado na frase “tonalidade parnasiana”, indicando uma precisão e frieza na construção do texto. 4 O título do livro aparece em negrito no texto original. veja o ritmo poético no final da narrativa: “E esse jeito instável de pegar uma maçã no escuro─ sem que ela caia”), Clarice Lispector chega muito perto de uma ousadia de forma e de uma preocupação de sentido, mas não é o suficiente para dominar o novo campo (OLINTO, 1964, p. 215). Outro crítico que se concentrou em Molla no Escuro foi Luiz Costa Lima, em obra de 1965.
Nesse sentido, a obra de Clarice estaria mais próxima de uma 'abstração intelectualizante', uma vez que a maioria dos personagens, na visão de Lima (1965), concentra-se mais em pensamentos e reflexões do que no contato com a realidade: 'No entanto, à medida que os personagens crescem, eles têm a tendência de se tornarem intelectuais e falsos pela incapacidade de mostrar mais do que pensamentos, reflexões e pequenas crueldades” (LIMA, 1965, p. 529). Embora a experiência interior seja o eixo que aproxima Uma maçã no escuro (1961) das obras originais de Lispector, o crítico chama a atenção para a presença de um elemento. Assim, o crítico percebe que o caráter conflituoso do livro reside na sua forma narrativa que configura as mazelas sociais através de uma linguagem alheia ao seu uso tradicional: 'A contingência da narração, transformada em necessidade cautelosa que permeia o romance, é a contingência desta o conflito é dramático, desse drama linguístico que se incorpora à forma da história e a mina internamente” (Ibid., p. 53).
A principal trave de sustentação na emaranhada construção de Apple in the Dark é a contrariedade, uma espécie de organização pela dessemelhança e fulcro para os diferentes planos do romance: composição, tema, organização da linguagem e elementos de diferentes categorias narrativas que nele coexistem ... Na concepção de Waldman (ibid.), Clarice parece sofrer de uma falta de originalidade total, pois incorpora expressões da prosa passada e, ao mesmo tempo, preenche a narrativa com "situações novas", criando personagens que não caber na vida cotidiana. vida. Martimi “desce” ao alto de uma montanha, onde faz seu sermão, e depois desce o morro e chega à fazenda, onde encontra trabalho e vivencia, primeiro, o “terreno terciário”, no qual desfruta do vazio. está entre folhas mortas em decomposição e 'ratinhos pretos', plantas e animais se confundindo.
A pesquisadora observa que Clarice Lispector em uma de suas entrevistas comenta a possível aproximação da obra A Maçã no Escuro e o Existencialismo, já que seu livro teve grande recepção na França, descompasso com sua própria circulação no Brasil. Nesse sentido, a partir do estudo desta fortuna crítica sobre A Maçã no Escuro identificamos esquetes ainda tímidos de Olinto (1964), Lima (1965), Nunes (1973), Waldman (1990) e Gotlib (1995) em relação a contexto de produção examinado. Partindo dessa lacuna deixada pela crítica, tentaremos analisar A Maçã no Escuro com uma perspectiva de sinalização comutada, ou seja, onde o romance dialoga com o contexto histórico.
Martim e Melancolia
Ao instalar a ambiguidade entre a plenitude em que o personagem começou a caminhar em contraste com a miséria de quem está prestes a cair, percebemos que Martim reflete sobre a sensação de liberdade diante de um objeto perdido, em descompasso com a constante peso de sua memória focado na sobrevivência de um ente querido. Segundo o autor, o luto é uma reação à perda de um objeto que pode, no entanto, ser substituído após determinado período de tempo. Assim, quando nos referimos a expressões como: “o mundo era liso como a casca de uma fruta lisa”, e mais tarde a metáfora do crescimento das árvores como uma indicação de pseudoprogresso, “a vida ainda não era curta naquela época.
Nessa perspectiva, o romance de Clarice Lispector sugere a crueldade de um mundo cujas leis necessárias à igualdade não existem; o homem, como o mundo, está preso à imagem abjeta do rato. Ao contrário da decadência natural – que seria vagamente aceitável para um ser orgânico corruptível – sua alma tornou-se abstrata e seu pensamento era abstrato: ele poderia pensar o que quisesse e nada aconteceria. O mendigo diariamente ignorado destaca a falta de sensibilidade das criaturas diante de um mundo caracterizado pela segregação capitalista.
Nessa perspectiva, vemos através da trama aparentemente mundana como a trajetória de um homem esvaziou o universo exterior de significado, o que leva Martin a recorrer à reconstrução de seu eu interior, primeiro por meio do isolamento, tendo apenas a natureza como refúgio para meditação e transformação. . O que sugere é que a personagem é fruto de um processo destrutivo, de modernização, cujos fundamentos se baseiam no inconsciente e consequência da afirmação de um trabalho enfadonho e repetitivo. Temos diante de um rapaz cuja dificuldade no amor, bem como no relacionamento com os outros, é expressa pelo suposto crime cometido contra sua esposa.
É nesse clímax que se começa a pensar e a direcionar seu olhar contemplativo, porém, já avisado pelo narrador, que se trata de um olhar enfraquecido. Na nona tese, Benjamin (2006) apresenta reflexões sobre uma pintura de Klee cuja figura é representada por um anjo. Mas a sua reconstrução teve de começar pelas próprias palavras, pois as palavras eram a voz de um homem.
Ele simplesmente não sabia como chegar mais perto do que queria. Ele havia perdido o estágio em que era do tamanho de um animal e onde a compreensão era silenciosa, como uma mão pegando algo. Nesse aspecto, os diálogos narrativos clariceanos, na análise aqui apresentada, vão ao encontro dos problemas narrativos levantados por Benjamin (1994), como pode ser visto no protagonista Martim, que indiretamente reclama da presença de um sujeito responsável pela continuidade da tradição . através do monólogo que não termina em sua existência.