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universidade estadual do norte fluminense

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Academic year: 2023

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Prof. dr. Analice de Oliveira Martins (estudos literários – PUC-RJ) Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro – UENF. Considerando o caráter interdisciplinar da pesquisa, a dissertação busca compreender a literatura contemporânea por meio do diálogo com a sociologia, estabelece um debate teórico entre a obra de arte e o meio social e percebe o nascimento de uma nova demanda literária no habitus da sociedade.

Possíveis delimitações autobiográficas de Philippe Lejeune

Seu problema é traçar fronteiras em vez de identificar um centro: portanto, ele deve ter em mente que se escolhesse outro centro, as fronteiras mudariam (LEJEUNE, 2014, p. 59). Retomando o que foi estabelecido sobre biografias, romances pessoais, poemas autobiográficos, diários, autorretratos ou ensaios, o teórico defende que estes seriam gêneros que são “autobiografia vizinha” (LEJEUNE, 2014, p. 19), formas de metalinguagem.

A memória enquanto vestígios de si: a escrita do “eu”

A autobiografia seria um gênero que emergiria em certa medida da repetição da memória, e seriam três, segundo Sperb e Arendt (2014, p. 134), os “[..] elementos constitutivos da memória: acontecimentos, pessoas /personagens e lugares”, o que Pollak (1992) confirma em seu artigo. Todos se referem à reconstrução da história de vida de uma pessoa, à permanência da memória: “Agora que ele se arrependeu, deveria pelo menos ter feito um diário dos seus contatos, das suas buscas” (KUCINSKI, 2014, p. 133).

Diário enquanto escrita do eu: os vestígios datados

A morte seria, sob certa perspectiva, uma descontinuidade num processo de escrita que visa registrar memórias, que por sua vez são contínuas: “[..] porque mesmo que o caderno seja contínuo, a escrita não é, ela é fragmentária” ( LEJEUNE, 2014, p. 341). Lejeune afirma que “esse trabalho de classificação, que dissocia e digere o real, rejeita a maior parte dele para dar sentido ao resto, é o trabalho da própria vida” (LEJEUNE, 2014, p. 342).

A decodificação autobiográfica: Lejeune e Doubrovsky

Se há algo que poderia ser destacado como fundamental nesta discussão, seria o que Philippe Lejeune chama de pacto autobiográfico: “[..] a identidade entre o autor, o narrador e a personagem” (LEJEUNE, 2014, p. 17). ). A autobiografia, porém, segundo Lejeun (2014, p. 29), não pode sair dessa atmosfera instigante e duvidosa, “é tudo ou nada”, proporcionada pelo pacto autobiográfico que legitima a identidade do autor. - personagem - o narrador, como estaria seu nome na capa: homenagem à assinatura de quem escreve. Da mesma forma, um personagem com nome diferente do autor não pertenceria ao pacto autobiográfico.

Um pacto exige uma via de mão dupla, “[..] reciprocidade em que ambas as partes se comprometem mutuamente a fazer algo” (LEJEUNE, 2014, p. 85). Reexaminando sua imagem no “Pacto Autobiográfico (bis)”, Lejeune constata que descartou a possibilidade de pensar romance/autobiográfico ao mesmo tempo: “Aceitei a indeterminação, mas rejeitei a ambiguidade” (LEJEUNE, 2014, p. 68). Para Lejeune, a possibilidade de um romance que esconde a ambiguidade entre ficção e realidade foi surpreendente: “[..] o romance literário autobiográfico aproximou-se da autobiografia a tal ponto que a fronteira entre esses dois campos tornou-se mais indecisa do que nunca antes” (LEJEUNE, 2014, p. 69).

Claro que é o leitor” (LEJEUNE, 2014, p. 62) – também às possíveis diferenças entre um texto ficcional e um texto autobiográfico, uma vez que não é explícito e asseverável onde a ficção começaria ou terminaria. Compreender a leitura e o que o texto sugere também é um contrato entre autor e leitor: “[..] que determina a forma de ler o texto” (LEJEUNE, 2014, p. 54), onde o leitor é dono de sua leitura. Compreender a literatura desta forma é compreender a forma como o leitor focaliza a obra, é reconhecer o espaço de interação tácita no qual o leitor derivará e produzirá sentido a partir daquilo que o autor criou em seu texto: “[ . . .. ] os diferentes tipos de leitura a que esses textos estão efetivamente expostos [...] o tipo de leitura que engendra, a crença que produz” (LEJEUNE, 2014, p. 55).

Figura 1 – Decifração do gênero autobiográfico
Figura 1 – Decifração do gênero autobiográfico

A percepção biográfica no século XXI

Delgado (2015, p. 23) chama a atenção para obras com “[..] vestígios biográficos, que, no entanto, não se enquadram nos pactos de leitura propostos por Lejeune”. Segundo Lejeune (2014, p. 7) “[..] a autoficção tornou-se um meio de concretizar o desejo de narrar a experiência vivida, sem o peso de rótulos incômodos. Embora as autoficções sejam muitas vezes lidas como autobiografias, porque se encontram num terreno ainda instável, principalmente para o leitor que se comporta como um “cão de caça” (LEJEUNE, 2008, p. 26).

A autoficção estabelece algum valor artístico que é legado da ficção, mas que geralmente é vedado à autobiografia, como pode ser visto no que postula Moacyr Scliar no posfácio de "O Menor Grapiúna": "[..] há passagens em sua obra que elas, justamente sendo poesia, têm o ritmo da poesia” (AMADO, 2010, p. 63). Assim nasceu o mito do romance “mais verdadeiro” que a autobiografia: o que se descobriu através do texto sobre o autor sempre foi considerado mais verdadeiro e profundo (LEJEUNE, 2014, p. 51).Os pesquisadores Micael Herschmann e Carlos Alberto Messeder Pereira refletem em seu artigo “O boom da biografia e da biografia na cultura contemporânea” (2002) sobre os produtos biográficos e a importância de sua demanda como um consumo sociocultural de narrativas contemporâneas: “[ ..] as narrativas de.

A preservação contínua da memória, por meio de registros fotográficos, status do Facebook, numa representação contínua do passado, indicaria, segundo os autores, uma busca contínua por uma identidade individual, ainda que essa identidade nasça enraizada naquilo que deveria romper com ele. comunidade, uma exposição imediata do que foi vivido. Se a autobiografia, a partir desse pacto autobiográfico, se compromete a contar a vida de alguém, conectando a narrativa com fatos reais, entre outros detalhes, o mesmo não acontece no que atualmente se chama de autoficção, uma vez que as relações de escrita, vistas por um. nova perspectiva, são móveis e renovados num diálogo constante com os novos arranjos da vida em sociedade. A noção de espaço biográfico, cunhada por Lejeune (2014), é o mote para delimitar essas novas possibilidades de escrita e esses possíveis horizontes de expectativas de leitura no século XXI.

Sigmund Freud e “O mal-estar na civilização”

Vivenciar a dor e o desprazer revela o que Freud chama de “princípio do prazer”, que busca eliminar e evitar esse desconforto. O desconforto causado pelo sofrimento poderia ser superado desta forma, ou melhor, eliminado segundo Freud (2010, p. 34), com algumas medidas paliativas, uma. Esses variados fatores na busca pela felicidade em detrimento da sensação de desconforto e infelicidade constante inerente à vida é o que Freud (2010, p. 40) chama de “programa de ser feliz”.

FREUD, 2010, pág. 63), que tem início no homem primitivo e no momento em que ele é despertado pela necessidade de constituir família. Há uma longa reflexão de Freud sobre a predisposição à agressividade no ser humano, pois essa característica está diretamente relacionada à inquietação. A cultura é responsável por conter e domar a agressividade da humanidade: “A civilização controla então o prazer perigoso no ataque que o indivíduo tem, enfraquecendo, desarmando e garantindo que ele seja supervisionado por uma autoridade dentro de si” (FREUD, 2010, p 92) .

Deste ponto de vista, a comunidade também possuiria um Superego que, desta forma, seria o legado de sua própria época: “O Superego de uma era cultural tem uma origem semelhante à de um indivíduo, que se baseia na impressão deixada por grandes personalidades líderes” (FREUD, 2010, p. 116). Freud (2010, p. 117) é claro quando afirma que “[..] dois processos, a evolução cultural da massa e a do indivíduo, estão, por assim dizer, colados”. A análise de Freud permite compreender o mal-estar na perspectiva de um homem que viveu na Europa na primeira metade do século XX.

Zygmunt Bauman e o mal-estar na pós-modernidade

Gostam de buscar experiências novas e não apreciadas, são seduzidos de bom grado por sugestões aventureiras e geralmente preferem opções abertas quando se trata de qualquer tipo de compromisso. O indivíduo na era pós-moderna passa a vida em busca de sua identidade em meio a esse vórtice de estímulos e necessidades ilusórias, algo inventado, que gera no homem a necessidade de consumir de acordo com a vida em sociedade em cada momento histórico. No entanto, a identidade é também uma questão de identificação de um determinado grupo com necessidades e desejos comuns, “pertencimento social”.

A identidade deixa de estar apenas vinculada a uma identidade nacional, herdada, atribuída e passa a fazer parte de um processo de construção, de uma performance, “[..] tornando-a uma tarefa individual e responsabilidade do indivíduo” (BAUMAN, 1998, p. . 30). Neste contexto, nota-se também que Bauman (1998) propôs a ideia de alguém que permanece à margem, que resiste, que não está incluído nas tendências da era líquida moderna. É preciso, portanto, dizer que os indivíduos que não se enquadrassem neste padrão de felicidade e prazer excessivo no século XXI seriam este grupo de estranhos.

Ele também se opõe à ideia de construção de uma identidade fixa, estável nesta possibilidade de volatilidade, afirmando ainda que “os indivíduos […] tendem a ser mediados eletronicamente, frágeis. Dessa forma, podemos dizer que as identidades estão em constante fluxo e os indivíduos nesta estrutura mundial recente teriam, segundo Bauman (2005, p. 33), uma luta comum para manter essa mutabilidade, “[..] de forma corajosa novo mundo de oportunidades fugazes e frágeis as seguranças da velha identidade, rígida e inegociável, simplesmente não funcionam." O cotidiano dos indivíduos apoia cada vez mais a ideia de um ser identitário hermético, "inflexível e sem alternativas" ( BAUMAN, 2005, p. 33), visto que esta identidade é sustentada por elementos extremamente frágeis.

A realidade e a simulação

A palavra realismo, por assim dizer, apresenta, por assim dizer, além de uma ideia de ligação entre a representação artística e a realidade, uma fluidez nas suas possibilidades representacionais. A história conta a vida de uma bem-sucedida autora de meia-idade que, após publicar um livro de grande sucesso no qual se fazia passar por parentes, recebeu colunas de jornais e grande atenção da mídia. Refletindo apropriadamente sobre as práticas artísticas contemporâneas, parte de uma análise da obra do artista brasileiro Nuno Ramos, intitulada “Fruto Estranho”, cuja exposição ocorreu no final de 2010 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

De um lado, um monitor mostra uma cena de A Fonte da Donzela, filme de Ingmar Bergman de 1960. Essa é uma tendência contemporânea de escrita de si, praticada por vários escritores brasileiros da época. A autoficção se apropria da possibilidade de uma forma de história que integre a dose ficcional, por vezes comprovada, de realidade.

A história em primeira pessoa parte de uma banalidade: um desentendimento entre vizinhos que causou grande desconforto ao autor-personagem. O que podemos atribuir também a uma ideia de “choque do real”, termo cunhado por Beatriz Jaguaribe, impacto produzido por uma foto, novela ou filme, que chama a atenção do espectador para o que está acontecendo na sociedade. Antoine Compagnon, em sua obra ‘Literatura para quê?’, sugere a ideia de uma ‘tríplice hélice’ como método de trabalho em que história, teoria e crítica trabalhariam juntas para criar a possibilidade de análise literária.

Esta relação incluiria a identidade individual e coletiva do século XXI, explicada ainda por Mario Vargas Llosa, que percebe este momento como consequência de um mundo globalizado e conectado, com inúmeras facilidades, mas com considerável fragilidade. As representações da realidade aproximariam o leitor de uma experiência real muito especial, vivida por mim, por você, por todos nós.

Figura 2 – Fruto Estranho
Figura 2 – Fruto Estranho

GUIA DE REMOÇÃO DE CADÁVER E REGISTRO DE OCORRÊNCIA

LANÇAMENTO DE TRADUÇÃO ITALIANA DO LIVRO “UMA

RESIDENCIAL SOUL DA LAPA

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Figura 1 – Decifração do gênero autobiográfico
Figura 2 – Fruto Estranho

Referências

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