2011) que fornece a base teórica para redefinir e ampliar a noção de gênero discursivo; o analista de discurso francês Dominique Maingueneau que se aprofunda e fornece detalhes específicos sobre a caracterização dos gêneros, bem como o estudioso brasileiro Luiz Antônio Marcuschi, cujas obras e publicações destacam a função dos gêneros como instrumentos de persuasão ideológica e controle social. O primeiro tópico apresenta a fundamentação teórica, com a trajetória histórica, dos campos da linguagem e do discurso, para a tentativa de classificação dos gêneros discursivos.
Estruturas de linguagem e discurso
O filósofo chama a atenção para a importância do cruzamento de índices de valor “que tornam o signo móvel, capaz de se desenvolver” (id. ibid. p. 47). Assim como uma formação ideológica impõe o que se deve pensar, uma formação discursiva determina o que se deve dizer” (id. p. 32).
Gêneros discursivos: percurso histórico e atualidades
Concepções de gênero, segundo Bakhtin
Bakhtin explica que as áreas da atividade humana são áreas de uso da linguagem e que “o caráter e as formas desse uso da linguagem são tão multiformes quanto as áreas da atividade humana” (id. ibid. p. 261). Nesta linha de pensamento, o uso de uma língua ocorre sempre através de um género particular que reflete e se caracteriza pelas “circunstâncias e finalidades específicas de cada área de uso da língua” (id. ibid. 621).
Avanços nas concepções de gênero, segundo Marcuschi
A primeira é “sócio-retórica” (id. p. 159) e envolve a realização linguística de objetivos específicos em determinadas situações de comunicação social. Todos os gêneros são realizados em textos, mas um determinado texto nem sempre é um determinado gênero automaticamente” (id. ibid. p. 24). E explica: “[..] a linguagem é uma atividade sócio-interativa de natureza cognitiva, sistemática e que estabelece diferentes ordens na sociedade” (id. ibid. p. 12).
Ele lembra que as atividades discursivas são organizadas em gêneros e também as considera como formas de vida onde “[..] mundos são moldados, construídos e lançados no mundo” (id. ibid. p. 11). As fronteiras dos géneros são, em qualquer caso, fluidas, uma vez que “os textos geralmente coexistem, em constante interacção” (id. ibid. p. 166). O autor também se refere a “interdomínios discursivos” (id. ibid. p. 168), pois são “dois domínios sobrepostos” (id. p. 168) e entende domínio como uma esfera de.
Avanços nas concepções de gênero, segundo Maingueneau
Maingueneau distingue “dois regimes genéricos” (id. ibid., p. 238): o regime dos géneros conversacionais e o regime dos géneros criados. Maingueneau sublinha o facto de os criados “[..] serem os que melhor correspondem à definição do género do discurso, visto como dispositivo de comunicação e definido numa perspectiva sócio-histórica” (id. ibid., p. 239). Cada gênero tem um propósito claro que o define e “visa provocar mudanças na situação a que pertence” (id. ibid., p. 235).
Segundo Maingueneau, “é fundamental que esta finalidade seja corretamente determinada para que o destinatário possa comportar-se adequadamente” (id. p. 235), dependendo do género de discurso utilizado. Isto pode acontecer em vários eixos, tais como: “periodicidade (a falta dela); duração (que pode ser variável, fixa ou indefinida); continuidade (relativa à duração dos cuidados) e validade (diária, semanal, mensal, anual, etc. ou indefinida)” (id. ibid. p. 236). Segundo Maingueneau, cada gênero possui uma determinada organização textual, ou seja, certas características que são “formas de conectar seus constituintes em diferentes níveis” (id. ibid. p. 237) para a produção do discurso.
A reportagem no jornalismo: narrativa que traduz a realidade suposta
Espera-se que o autor do relatório demonstre imparcialidade, que a sua forma de fazer perguntas e lidar com as respostas não seja influenciada pelo seu envolvimento com o assunto, mas Charaudeau (2013, p. 222) lembra que este é um procedimento impossível porque “[ ..] toda construção de sentido depende de um determinado ponto de vista [..] e todo procedimento de análise envolve tomada de posição”. Dessa forma, a objetividade e a imparcialidade do jornalismo assumem a forma de um mito, porque o discurso é tomado de um ponto de vista. Porém, as melhores intenções vêm de um ponto de vista impregnado de diferentes experiências e influências.
Por ser um discurso não constitutivo, significa que necessita de outros campos da ação humana para se constituir, “[..] depende fortemente da referencialidade, do espelho das correspondências intrínsecas com a realidade. Neste sentido, abordamos o conceito de formalismo russo; o fluxo da crítica literária que prevaleceu entre 1910 e 1930. É um esforço para ampliar a capacidade de perceber e compreender as realidades sociais, por meio de um discurso jornalístico que se apropria de recursos da narrativa literária, como veremos mais adiante neste estudo.
O romance na literatura: narrativa com arte e voz autoral
Gêneros consagrados como romance, comédia, poesia lírica e tragédia seguiam normas estabelecidas como fixas e imutáveis: “A beleza e o bom senso correspondiam ao mesmo ideal, visando o equilíbrio e a contenção formal” (id. p. 117). Artistas jovens e rebeldes, porém, desafiam o gosto clássico e propõem “[..] libertação da ditadura de regras e convenções rígidas” (id. p. 117). Ainda, segundo o autor, “[..] as condições da sociedade burguesa servem de base para o desenvolvimento do romance” (id. p. 26).
O filósofo russo Mikhail Bakhtin (2010, p. 5) também reconhece que o romance reúne as formas de representações culturais e sociais de uma época e seu desenvolvimento futuro a partir do momento em que insere os valores cotidianos, o momento da pregação, da ação representada. Bakhtin também elenca, entre as características dos romances de Dostoiévski, “[..] os fragmentos brutos da realidade, as sensações dos contos vulgares e as páginas divinamente inspiradas dos livros sagrados” (id. p. 15), que constituem obras únicas e revolucionárias. depois dos padrões europeus. Em outra obra onde Bakhtin analisa a estética do romance, a ação humana no gênero romance está sempre ligada ao discurso e “ideologicamente iluminada” (2002, p. 136), ocupando “uma posição ideológica definida” (id, p. 136). . 136), diferente do herói épico, que não representa uma ideologia particular, mas sim a ideologia geral de uma época.
Jornalismo literário e o caráter híbrido da narrativa
Na mídia tem seu embrião nos folhetins, mas como vimos, os diários de guerra já contavam histórias reais com elementos de literatura, características próximas às técnicas utilizadas para produzir o que hoje se conhece como jornalismo literário. A pesquisadora Francilene de Oliveira e Silva (2010, p. 23), autora de “Os Anônimos no Jornalismo Literário: Protagonistas do Cotidiano na Revista Piauí”, esclarece que “O jornalismo literário é uma forma de jornalismo independente de um contexto histórico definido ”. diferente do Novo Jornalismo, que é “um movimento de um local e período histórico específicos” (id. p. 23). Seu nome é 'Jornalismo Literário', simplesmente porque busca fontes na literatura, como o uso de diálogos, descrições de ambientes e elaborações sobre os personagens, para dar um toque de estilo ao texto, torná-lo agradável e tentando entender o que está acontecendo com o texto. personagem ou assunto discutido (SILVA, 2010, p. 26).
O fundador do jornalismo literário contemporâneo, segundo a classificação de Pena, é Tom Wolfe, que criticou a imprensa objetivista e chamou os textos dos repórteres de “relatórios enfadonhos e beges claros” (WOLFE apud PENA, p. 54). No Brasil, o jornalismo literário encontra vestígios de suas origens nas crônicas seriadas de Machado de Assis, que “[..] promoveu duras críticas à sociedade brasileira, em jornais como Gazeta de Notícias e O Correio Mercantil” (PENA, 2006, p. .31). Moura (2008, id. ibid. p.07) classifica-os como “artistas híbridos” que trabalham sob as influências cruzadas do jornalismo e da literatura e influenciam “mutações estéticas e sociológicas na literatura” (id. p.07).
Romance-reportagem: o gênero
Lima (1998, id. ibid., p. 16) utiliza o termo “jornalismo holístico” para definir um romance-reportagem que “[..] busca uma abordagem contextual e dinâmica da realidade” (id. p. 16) que quebra com os padrões atuais e a periodicidade do jornalismo convencional, que segue modelos industriais e leva em conta “as tendências mais avançadas do conhecimento humano moderno” (id., p. 16). Pena (ibid. p. 104) também traz uma análise do professor e pesquisador de teoria literária Davi Arrigucci Jr. o conteúdo dos trabalhos publicados no período. eu ia. 2006, pág. 104) é o romance-relatório que domina a partir da década de 1960, “uma espécie de neonaturalismo que se apodera do discurso social”.
Cosson (2001, ibid. ibid. p. 80) também apresenta a narrativa romance-reportagem como um discurso ambíguo: “no seu lado romance é paralelo à literatura, e no seu lado jornalístico é paralelo ao jornalismo. No segundo grupo, correspondente à história paralela, temos “[..] localização espacial; namorando; uso de documentos; entidades e referências históricas” (id. ibid., pp. 47, 48), que, segundo os pressupostos teóricos da linguística textual, correspondem aos elementos da intertextualidade implícita e explícita, como explicam Koch e Elias (2012, p. 86). : “A intertextualidade ocorre quando um texto é inserido em outro texto (intertexto) já produzido anteriormente e que faz parte da memória social da comunidade”. A equipe analisou o relatório da causa da morte e a investigação do Exército, identificou falhas, omissões e produziu um documento intitulado “Em Nome da Verdade” (id. ibid. p. 351), que circulou nas redações de todo o país no forma de petição.
Elementos de reportagem
- Entrevistas
- Fotos
- Citações de outros veículos de comunicação
- Citações de livros
- Documentos oficiais
É um “procedimento semiótico” (id. p. 154) de construção de significados para definir uma realidade. Segundo o autor, constituem a aparência de “prova de que o fato realmente existiu” (id. ibid., p. 153), uma vez que os documentos comprovam a existência de determinado acontecimento. Contudo, alguns não têm atribuição de fonte, sendo citados apenas como “confidenciais” (id. ibid. p. 130) ou como.
Dantas considerou importante apontar as “inconsistências e omissões” (id. ibid. p. 343) da investigação do Exército que. O relatório de bispos e cardeais, escolhido por Dantas para incluir em sua obra, é resultado de uma reunião da arquidiocese de São Paulo, que discutiu a “violência da repressão” (id. . ibid. p. 273). Porém, o que chama a atenção é uma autocitação intertextual, em texto recortado, que ocorre no trecho selecionado por Dantas, que faz referência ao parecer da presidência da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a respeito da “luta sindical”. (id. ibid. p. 282) dos Jornalistas de São Paulo, então chefiados pelo autor do romance-reportagem.
Elementos de romance
Em alguns trechos, o texto é embelezado por um diário em que o narrador, sem nenhum pudor, se apresenta com impressões, sentimentos e participação ativa nos fatos descritos. Considerando os elementos identificadores do romance discutidos, podemos dizer que o relato do romance é também um exemplo do entrelaçamento de gêneros observado por Bakhtin. O relato do romance é considerado um gênero híbrido, apoiado no ponto de vista da realidade assumida, pois tenta ser um relato da verdade, dos fatos verdadeiros, o que de certa forma mantém o autor alerta para uma criação monitorada, mas em por outro lado, por outro lado, revela as deduções do autor e seus posicionamentos, além da óbvia mediação e interseção que se dá entre a fala literal dos personagens e sua tradução na narrativa.
Contudo, o romance e a reportagem unem os dois campos em discursos híbridos, como o romance-reportagem, que se torna um produto cultural parajornalístico e paraliterário. O caráter polifônico, no discurso citado, também manifesta o conflito entre posições e versões, mas privilegia o autor do relato do romance. No entanto, não podemos esquecer que este é um ponto de vista, num determinado contexto histórico e social, onde intervêm também aspectos relacionados com os campos de actividade em que o autor está implantado: o jornalismo com as suas limitações institucionais e o suporte mediático e a literatura que transporta a necessidade de reconhecimento de seus falantes, levando à busca pela literariedade.