Tendo em vista a necessidade de conciliar informações em múltiplos níveis ao estudar ocupações e estruturas de trabalho conflitantes (ABBOTT, 1993), os níveis macrocontextuais do sistema produtivo e do mundo do trabalho são abordados na pós-modernidade (FARIA HARVEY, 1998). ; mesocontextual, da indústria e profissão jornalística (FONSECA, 2005; MARCONDES FILHO, 2000; NEVEU, 2006; SCHUDSON, 1978; WAISBORD, 2013), e microcontextual, no que diz respeito aos efeitos do downsizing sobre os indivíduos (GREENHALGH; ROSENBLATT, 2010; NEM, 2009). Além disso, esta tese tenta dar seguimento a uma recomendação de Abbott (1993) que o próprio autor diz ser raramente concretizada: trabalhar com informação multinível quando se estudam ocupações e estruturas de trabalho em situações de conflito.
Reestruturação produtiva e flexibilização das relações de trabalho
Outra forma de economizar dinheiro é migrar empregos de empresas centrais para terceirizadas (FARIA; KREMER, 2004). Segundo Standing (2013, p. 28), os trabalhadores inseguros carecem de: a) garantia no mercado de trabalho (renda-salário-oportunidade suficiente); b) garantia de emprego (proteção contra demissão arbitrária);
Tecnologias de informação e comunicação (TICs) no ambiente laboral
O capitalismo é tecnologicamente dinâmico e a sua inovação contínua destrói investimentos passados e reconstrói as competências da força de trabalho. Objetivamente, a tecnologia de gestão é, de forma concreta, um meio para aumentar o excedente de trabalho, para aperfeiçoar a criação de valor além daquele que corresponde ao da força de trabalho empregada.
Downsizing: a estratégia hegemônica de corte de pessoal
Após apresentar o cenário de reestruturação produtiva e flexibilização das relações de trabalho, bem como das tecnologias de informação e comunicação no ambiente de trabalho, estabelece-se o contexto em que os processos de downsizing começam a despontar como estratégia hegemônica no mundo corporativo, tema discutido a seguir. É uma linguagem que confunde compromisso com interdependência e estabilidade com estagnação” (APPELBAUM et al., 1997, p. 278).
Os antecedentes do jornalismo comercial-industrial moderno
A primeira remonta o surgimento dos primeiros jornais até a segunda década do século XIX, época da pré-história do moderno jornalismo comercial-industrial. Após a independência (1776), a Primeira Emenda da Constituição, que tornou inviolável a liberdade de expressão, fez dos Estados Unidos o mais forte produtor de conteúdos e um país pioneiro nas mais importantes transformações do jornalismo de todos os tempos.
Jornalismo moderno
Jornalismo moderno no Brasil: uma implantação gradual
Terminou a fase heróica do jornalismo brasileiro, varrido pelos ideais geracionais que faziam da imprensa um instrumento eficaz de crítica ao regime, através do jornalismo militante, que combinava “causas políticas, linguagem inflada e engajamentos literários” (MARTINS, 2008, p. 79) . No Estado Novo (1937), a liberdade de imprensa desapareceu, sufocada pela censura nas redações e pelo estatuto constitucional que fazia da imprensa um serviço público e, como tal, sujeita ao controlo estatal e à obrigação de introduzir comunicados governamentais.
Profissionalização e ideologia profissional do jornalismo moderno
20 A primeira escola de jornalismo do mundo foi o Washington College, fundado nos Estados Unidos em 1869 (SOUSA, 2008). No Brasil, somente na década de 1950, com a televisão e a criação de redes de comunicação nacionais e regionais, é que surgiram os fundamentos da concepção de jornalismo profissional.
Jornalismo pós-moderno
Primeira fase: transformações no mundo do trabalho jornalístico
Na França e nos EUA, o emprego de jovens anda de mãos dadas com o “êxodo de jornalistas maduros para outras profissões”, em busca de melhores salários e trabalhos menos difíceis (NEVEEU, 2006, p. 50). No Brasil, Burkhardt (2006) e Grohmann (2013) notam o arranjo contraditório da invenção do “babado fixo”, em que o jornalista passa a ser pessoa jurídica a serviço permanente da mesma empresa, mas sem direitos trabalhistas.
Segunda fase: crise estrutural e dissolução de papéis provocados pela internet
Para Charron e De Bonville (2016, p. 319), o público é mais educado e mais crítico das instituições em geral, considera-se “competente” em tudo relacionado à mídia e capaz. Numa espiral com traços de efeito autodestrutivo, enquanto o sistema midiático se fragmenta na multiplicação e diversificação de conteúdos, estilos e abordagens, mais o público se distancia (CHARRON; DE BONVILLE, 2016). d) A identidade profissional do jornalista é prejudicada quando o alicerce sobre o qual o trabalho é construído, o público, desaparece ou passa a fazer sua própria mídia, acredita Deuze (2008). Sendo o diferencial do jornalismo online o seu imediatismo, a urgência do seu ciclo de atualização mudou fundamentalmente a prática profissional: extrair informação imediatamente após a sua recolha, aceleram-se a investigação, a escrita e a releitura do texto, substituindo os prazos já próximos de " um ciclone de informação”, em que a verificação cuidadosa é um obstáculo à velocidade (NEVEU, 2006, p. 166).
Duas linhas de respostas teóricas aos desafios à identidade profissional
O brasileiro Carlos Sandano (2015), porém, rejeita a curadoria ou o avanço em outras profissões, como programação e análise de banco de dados. Depois de concluir este capítulo, o próximo e último capítulo desta revisão é dedicado às principais contribuições teóricas que tratam dos efeitos do downsizing sobre os trabalhadores, principalmente de autoria de pesquisadores da psicologia organizacional, e à pesquisa empírica focada especificamente no efeito das demissões sobre os jornalistas. Contudo, os efeitos do downsizing na perspectiva do trabalhador em relação à sua profissão e as mudanças na prática profissional não são centrais para o estudo da gestão.
Efeitos da demissão sobre trabalhadores: principais construtos
A insegurança no trabalho refere-se à percepção do trabalhador sobre sua impotência para manter a continuidade de uma situação desejada diante da ameaça de perdê-la. Em contraste com o compromisso, a identificação organizacional fortalece o aspecto auto-referencial da identidade, o que ajuda os funcionários a responderem a "quem eles são" em termos de identidade social, ou seja, o autoconceito derivado da sua pertença à organização (VAN DICK; DRZENSKY; HEINZ, 2016, p. 771). 34 “Relacionado ao Trabalho”, em tradução literal, ou seja, “labor” em português formal. . reversibilidade do desemprego; percepção de tratamento justo na rescisão);
Efeitos da demissão sobre jornalistas: estudos empíricos
Jornalistas remanescentes de downsizing
Em pesquisa com sobreviventes de downsizing em jornais dos Estados Unidos, Reinardy (2012) descobriu que as percepções dos sobreviventes sobre o enfrentamento, a qualidade do trabalho, a segurança no trabalho e o comprometimento organizacional são preditores positivos da satisfação no trabalho e da intenção de continuar com a atividade. Porém, quando questionados, os entrevistados admitem que as expectativas em relação ao trabalho não são positivas. Ao examinar como os funcionários respondem à cultura de insegurança no emprego nas suas práticas de trabalho, os autores percebem que as respostas variam dependendo se os sujeitos acreditam que os seus empregos e a qualidade dos produtos estão em risco e que a gestão está a tomar decisões corretas e justas.
Jornalistas demitidos em downsizing
Mesmo os jovens inquiridos consideram que a continuidade e o crescimento das suas carreiras ficarão comprometidos quando colegas mais jovens, mais rápidos e mais baratos chegarem ao mercado. Entre os entrevistados que abandonaram o jornalismo, a maioria o fez intencionalmente, e não por incapacidade de encontrar trabalho nessa área. A ambiguidade é recorrente: ao se referirem à justificativa para optar por ingressar no PDV, fugir do ambiente estressante e receber compensação financeira, os entrevistados lamentam o declínio do setor, preocupam-se em não conseguirem ser reempregados e sentem raiva sobre por causa do mercado. As pressões e a deterioração das condições de trabalho estão a destruir a sua profissão.
Remanescentes e demitidos: a saída da profissão como alternativa
Tabela 3 – Efeitos do downsizing verificados em pesquisas empíricas com jornalistas Efeitos na rotina de trabalho em relação ao mercado de trabalho Fadiga, estresse ou burnout. Desconfiança no terreno no futuro do jornalismo Incerteza das relações laborais Fonte: Elaborado pelo autor adaptado de Davidson e Meyers (2014). Sampieri, Collado e Lucio (2016) acrescentam que as fronteiras entre os tipos de desenho de pesquisa qualitativa são tênues, com a maioria dos trabalhos tomando elementos de mais de um tipo.39.
Construção do corpus e sujeito de pesquisa
Como o pesquisador teria que decidir se estudaria detalhadamente uma ou mais representações, dado um corpus maior, os procedimentos não funcionariam ou exigiriam um longo período de tempo, acrescentam os autores. Uma boa distribuição de algumas entrevistas ou textos num amplo espectro de estratos tem precedência sobre o número absoluto de entrevistas ou textos no corpus. Ambos os critérios, construção do corpus e amostragem representativa, trazem confiabilidade, bem como garantem a importância dos resultados (GASKELL; BAUER, 2003, p. 485).
Técnica de coleta de dados
A seleção dos respondentes foi realizada por meio da técnica de cadeia, ou bola de neve40, que não utiliza um sistema de referências probabilísticas, mas sim a rede de relações entre indivíduos, em que os primeiros contatos indicam os demais (SAMPIERI; COLLADO; LUCIO, 2016; CROMO, 2008). Quando o GF é comparado com o sentido de esfera pública ideal proposto por Habermas (1988), Gaskell (2003) afirma que se trata de um debate aberto e acessível, em que temas são de interesse comum aos membros. Além disso, a percepção mencionada em GF2 e GF3 de que os jornalistas mais experientes são as vítimas.
Técnica de análise e interpretação dos dados
Para cumprir o objetivo específico de “Análise de como os trabalhadores percebem as relações de trabalho na sua área”, os resultados foram tratados em dois temas. Percepção das relações de trabalho” (ver quadro 6), que reúne elementos comuns ao mundo do trabalho contemporâneo em geral, de acordo com o referencial teórico consultado. Por outro lado, para cumprir o objetivo específico de “Descrever as mudanças percebidas no trabalho após o downsizing”, foi atribuído o tema “Percepções sobre a rotina de trabalho”.
Percepção sobre as relações de trabalho
Precarização
O processo incerto cuja “principal manifestação é o enfraquecimento dos padrões de compra e venda da força de trabalho” (FARIA; Enfraquecido, quem vende a força de trabalho não pode se opor à vontade do empregador (FARIA; KREMER, 2004; STANDING, 2013) ) , que utilizam o medo como estratégia de gestão e manipulação da ameaça para silenciar opiniões contrárias, aumentar o controle social e a produtividade (DEJOURS, 2005) O pano de fundo da denúncia é a percepção de que os princípios que tomam como éticos, corretos e valiosos diferem dos a empresa.
Percepção sobre a organização empregadora
Desesperança
Então acho que deve haver uma reviravolta que não está acontecendo”, afirma. Bruno: Acho que desde o primeiro pássaro, em 2012, acho que já tive essa sensação. O significado dos espaços vazios aparece na descrição de Reinardy (2016, p. 4) sobre o “apocalipse jornalístico”: “as mesas vazias espalhadas pela redação lembravam lápides”.
Percepção a respeito da rotina laboral
Reconstrução de valores e práticas
Tudo o que atrai a atenção do público aparece na “cultura do clique”, onde as preferências do consumidor demonstradas pelo tráfego da audiência influenciam a tomada de decisão editorial (ANDERSON, 2011, p. 555), mesmo que isso signifique sacrificar critérios tradicionais de noticiabilidade (SANDANO, 2015) . . Isso acontece, diz Tandoc (2014, p. 9), num contexto onde as demissões se tornaram rotina e as tentativas de sobrevivência da empresa criaram a ideia de “mudar ou morrer”. Cátia chama esse tipo de conteúdo de “bundas”, em referência às galerias de fotos de mulheres na praia usadas para ilustrar informações sobre tempo e temperatura.
Exaustão e insatisfação
A redução de ambições mencionada por Fabiano remete ao que disse um entrevistado de Reinardy (2010, p. 13): “Estou trabalhando mal agora e não tenho vergonha de dizer isso. O que vai acontecer?" e eu tinha algumas informações na época e decidi fazer isso sozinho. Depois de sobreviver a dois downsizings, ao encerramento de sua equipe e à dissolução de seu trabalho, ela ficou insatisfeita e pediu para ser demitido: "Eu falei: 'olha, não tenho mais vontade, não estou com vontade, não tenho emoção, não quero mais, estou cansado'".
Projeção em relação à profissão
Resistência
Então, [o jornal] será um produto que em breve será feito por robôs, algo assim, mas ainda precisa de uma peneira intelectual de nível superior. A capacidade de expor notícias falsas para se tornar um “ponto de viragem” para o jornalismo profissional se reafirmar não é uma questão única. A autorresponsabilidade aparece na concepção de Allan e Éric de um novo tipo de jornalista: ele próprio é a fonte e o portador.
Desistência
Diego quer “encontrar outra coisa para ganhar dinheiro” e “não tem absolutamente nada contra o jornalismo”. Já Eduarda não tem um plano muito claro, mas sabe que em hipótese alguma estará “numa redação e num grupo de comunicação depois de cinco anos”. Ela diz que não se arrepende de ter escolhido essa profissão, mas que o custo pessoal é muito alto e sua disposição para doar acabou.
Síntese da interpretação de resultados
A exploração do campo empírico ocorreu por meio de grupos focais compostos por jornalistas que foram demitidos ou presenciaram pelo menos um processo de enxugamento a partir do ano de 2012, época em que os “passaralhos” se tornaram cíclicos nas redações brasileiras (SPAGNUOLO, 2017). O futuro profissional pode, portanto, ser moldado em duas direções: o abandono, através da evasão da profissão, e a resistência, baseada na reafirmação de valores ou na adaptação, onde se aceita ceder desde que seja possível manter alguns não- princípios negociáveis. Numa altura em que as empresas já não são uma fonte segura de empregos e o emprego já não é a principal condição de trabalho, as profissões instrumentalizadas pelas organizações transformam-se para sobreviver fora delas.