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Vladimir da Rocha

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O P R O B L E M A D A D E L I M I T A Ç Ã O D O O B J E T O D A C I Ê N C I A D O D I R E I T O

Vladimir da Rocha França1

R e s u m o

Este trabalho tem por finalidade a análise da proposta normativista para o objeto da Ciência do Direito, especial- mente sob a ótica de Lourival Vilanova. Sob tal perspectiva, deve a Ciência do Direito se dedicar a descrição do Direito Positivo, embora outros métodos possam ser empregados para a compreensão deste sistema de enunciados prescritivos.

P a l a v r a s - c h a v e : Ciência do direito; objeto da ciência do direito; lógica jurídica.

1 COMPREENSÃO DOGMÁTICA DO DIREITO

O p r e s e n t e e s t u d o t e m p o r o b j e t i v o tentar c o m p r e e n d e r urna d a s i n ú m e r a s m a t é r i a s q u e o j u r i s t a e filósofo L o u r i v a l V i l a n o v a se o c u p o u e m s u a v a s t a obra, a o tentar d e l i m i t a r o o b j e t o d a c i ê n c i a d o direito: a r e l a ç ã o e n t r e a l i n g u a g e m d o d i r e i t o p o s i t i v o e a l i n g u a g e m d a c i ê n c i a do direito.

A i m p o r t â n c i a d e s s e c i e n t i s t a d o direito p a r a a c o m p r e e n s ã o d o f e n ô m e n o j u r í d i c o t e m s i d o c o m p r o v a d a p e l o c r e s c e n t e n ú m e r o d e teses, a r t i g o s e o b r a s q u e v e m s e n d o p r o d u z i d a s n o â m b i t o d o direito p ú b l i c o . C a d a vez m a i s se p r e o - c u p a o j u r i s t a e m a p r e e n d e r e s s e n o v o â n g u l o d e v i s ã o , p r o p o s t o p e l o p r o f e s s o r V i l a n o v a , p a r a a c o r r e n t e p o s i t i v i s t a d a J u r i s p r u d ê n c i a .

N ã o b u s c a r e m o s aqui e s g o t a r o t e m a , m a s sim discorrer s o b r e u m d o s a s p e c t o s d a m a t é r i a , e x p o n d o o p e n s a m e n t o d e L o u r i v a l V i l a n o v a , b e m c o m o p o s i ç õ e s d e n t r o d a E s c o l a d o R e c i f e , q u e c h a n c e l a m ou c o n t e s t a m o c o n t e ú d o d e seus e n s i n a m e n t o s . F i x e m o s , d e i m e d i a t o , u m a i n d a g a ç ã o : é possível se f a l a r e m l ó g i c a j u r í d i c a d e n t r o d e u m r a m o d e c o n h e c i m e n t o tão s u b d e s e n v o l v i d o q u a n d o c o m p a r a d o c o m as c i ê n c i a s n a t u r a i s e d e m a i s c i ê n c i a s sociais?

'Mestre em Direito Público pela UFPE; Doutorando em Direito do Estado pela PUC/SP.

R, FARN. Natal, v.l, n.2, p. 173 - 194 JanVjun. 2002. 173

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A l ó g i c a é u m p o n t o d e v i s t a s o b r e o c o n h e c i m e n t o , q u e t o m a a r e a l i d a d e d e s u a l i n g u a g e m c o m o p o n t o d e p a r t i d a p a r a a i n v e s t i g a ç ã o d e s e u s e n u n c i a - d o s ( V I L A N O VA, 1976, p . 15). E s t u d a as leis ideais d o p e n s a m e n t o , q u e d e t e r m i - n a m a v a l i d a d e ou a i n v a l i d a d e d o s e n u n c i a d o s p o r e l e p r o d u z i d o s ( B O R G E S ,

1996, p . 18; V I L A N O V A , 1997, p.45). C a d a r a m o d o c o n h e c i m e n t o é u m u n i v e r s o d e l i n g u a g e m , u m c o n j u n t o d e e n u n c i a d o s , v o l t a d o p a r a u m o b j e t o , a u m f e n ô m e n o , a u m fato q u e se t o r n o u c i e n t i f i c a m e n t e r e l e v a n t e p a r a a h u m a n i d a d e ( V I L A N O V A , 1976, p . 2 5 ; 1997, p. 37-38).

A realidade social é constituída, de urna multiplicidade interrelacionada de fatos, sobre os quais o conhecimento humano se debruça para formular proposições, enunciados, que possam fazer um entendi- mento sobre sua experiência. (VILANOVA, 1993, p. 53)

S e m u m a c o n c e i t u a ç ã o p r e l i m i n a r e p r o v i s ó r i a , n ã o é p o s s í v e l e s t a b e l e - c e r d i s t i n ç õ e s e n t r e os fatos q u e i n t e g r a m o real. E m b o r a n ã o haja r i g o r o s a m e n t e u m fato p u r o , é v i á v e l a l c a n ç á - l o , s e g u n d o V i l a n o v a ( 1 9 9 7 , p . 5 4 ) , p o r u m

(...) corte abstracto feito pelo conceito fundamental que desarticula o contínuo feito pelo conceito fundamental que desarticula o contínuo heterogêneo em segmentações homogêneas, o que reconstrói o dado em porções racionalizadas. O imediatamente dado na experiência é uma concrescência de aspectos que excedem os limites do conceptual, que tem sempre um certo quantum de abstracto, mesmo os conceitos concretos.

D e n t r e as i n ú m e r a s t e n t a t i v a s d e se e s t a b e l e c e r u m a b a s e e m p í r i c a p a r a a c i ê n c i a d o d i r e i t o , t e m o s as p r o p o s t a s d o p o s i t i v i s m o n o r m a t i v i s t a , q u e p r o c u r a c e n t r a r o o b j e t o d a c i ê n c i a d o d i r e i t o n o p r ó p r i o d i r e i t o p o s i t i v o , n o seu a s p e c t o e s t r i t a m e n t e n o r m a t i v o . P r o c u r a - s e " p u r i f i c a r " o objeto d a c i ê n c i a d o d i r e i t o d o s e l e m e n t o s s i m p á t i c o s à s o c i o l o g i a j u r í d i c a e à filosofia d o direito. C o m o l e c i o n a K e l s e n ( 1 9 9 1 ,p. 1), q u a n d o a

(...) Teoria Pura empreende delimitar o conhecimento do Direito em face destas disciplinas, o faz não por ignorar ou muito menos, por negar essa conexão, mas porque intenta evitar um sincretismo metodológico que obscurece a essência da ciência jurídica e dilui os limites que lhe são impostos pela natureza de seu objeto.

S e g u n d o R e a l e ( 1 9 9 2 , p . 9 8 ) , e m p e n h a m - s e os q u e a d v o g a m e s s a v i s ã o técnico-jurídica d o direito, e m restringir o objeto d a ciência d o direito, e m elucidar

174 R. FARN, Natal, v.l, n.2, p. 173 - 1 9 4 ,janYjun. 2002.

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os e n u n c i a d o s n o r m a t i v o s v i g e n t e s d e n t r o d e u m a o r d e m d e c o e r ê n c i a l ó g i c o i n t e r n a , l a s t r e a d a n o s d a d o s c o l h i d o s n o t e x t o e m a n a d o p e l o ó r g ã o c o m p e t e n t e , p e l a fonte d o g m á t i c a d o o r d e n a m e n t o j u r í d i c o ( V I L A N O V A , 1997, p . 6 2 ) . O q u e destaca o n o r m a t i v i s m o d a s d e m a i s formas d e p o s i t i v i s m o s ( A D E O D A T O , 1995a, p.211).

A o r d e m v i g e n t e r e p r e s e n t a o p o n t o d e p a r t i d a e o l i m i t e d a i n v e s t i g a ç ã o d o g m á t i c a , a q u a l o p o s i t i v i s t a c r e d i t a ser a ú n i c a viável e o b j e t i v a p a r a a c o m - p r e e n s ã o d o d i r e i t o ( F E R R A Z J R . , 1994, p . 4 8 ) . A c o m p r e e n s ã o d o g m á t i c a d o d i r e i t o e s t á l a s t r e a d a e m u m p r e c e i t o b á s i c o : a i n e g a b i l i d a d e d o s p o n t o s d e p a r t i d a . M a s a d e t e r m i n a ç ã o d o d o g m a , e s t a b e l e c e a p r ó p r i a l i b e r d a d e d o j u r i s - ta, n a v i s ã o t é c n i c o - j u r í d i c a d o d i r e i t o :

(...) ao se obrigar aos dogmas, parte deles, mas dando-lhes um sentido, o que lhe permite uma certa manipulação. Ou seja, a dogmática jurídica não se exaure na afirmação do dogma estabelecido, mas interpreta sua própria vinculação, ao mostrar que o vinculante sempre exige interpretação, que é a função da dogmática (FERRAZ JR., 1994, p.49; ADEODATO, 1995b, p.43).

O u t r o p o n t o c a r a c t e r í s t i c o d a v i s ã o d o g m á t i c a d o d i r e i t o é a o b r i g a t o r i e d a d e d e decidir, q u e d e t e r m i n a q u e t o d o e q u a l q u e r conflito d e v e ser l e v a d o a q u e m t e m o m o n o p ó l i o , s e g u n d o o p o s i t i v i s m o , d e d e t e r m i n a r e aplicar o d i r e i t o , o E s t a d o , q u e a s s u m e p a r a t a n t o o c o m p r o m i s s o d e o f e r e c e r u m a decisão q u e o torne tolerável ( A D E O D A T O , 1995b, p. 4 3 - 4 4 ; F E R R A Z JR., 1994, p.50),

N a lição d e A d e o d a t o ( 1 9 9 5 b , p 4 5 ) :

Grosseiramente, pode-se caracterizar o direito dogmático como um direito legalmente organizado que toma por base a presunção, por parte do Estado, de monopólio na produção e legitimação das nor- mas jurídicas, dentro de determinada circunscrição territorial.

H á c e r t a h e g e m o n i a e m n o s s a s f a c u l d a d e s e c u r s o s d e d i r e i t o e m se privi- legiar tal c o n c e p ç ã o d o f e n ô m e n o j u r í d i c o . M u i t o s a c r e d i t a m q u e s o m e n t e os m é t o d o s d o g m á t i c o s d e i n v e s t i g a ç ã o p o d e m c o n s t r u i r e d e s c r e v e r o o b j e t o d a J u r i s p r u d ê n c i a . V e r e m o s a q u i , u m a d e s s a s p r o p o s t a s , q u e se c o n v e n c i o n o u c h a m a r d o g m á t i c a analítica ( A D E O D A T O , 1995b, p.45).

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2 INVESTIGAÇÃO LÓGICA

D e n t r o d o n o v o n o r m a t i v i s m o , a l i n g u a g e m n ã o só v i a b i l i z a o i n t e r c â m - b i o d e i n f o r m a ç õ e s , m a s t a m b é m c o n t r o l a tal r e l a ç ã o , p o i s o r i g o r l i n g ü í s t i c o d e t e r m i n a a c i e n t i f i c i d a d e d o c o n h e c i m e n t o . C o m o e x p l i c a Warat ( 1 9 9 5 , p . 3 7 , grifo d o a u t o r ) , p a r a o n o r m a t i v i s m o c o n t e m p o r â n e o : " F a z e r c i ê n c i a é t r a d u z i r n u m a l i n g u a g e m r i g o r o s a os d a d o s d o m u n d o ; é e l a b o r a r u m a l i n g u a g e m m a i s r i g o r o s a q u e a l i n g u a g e m n a t u r a l " .

O s p l a n o s d e i n v e s t i g a ç ã o p o s s í v e i s d o c o n h e c i m e n t o c i e n t í f i c o s ã o : a) o sujeito cognoscente;

b) o ato cognitivo;

c) o dado-de-fato, ou seja, o objeto do conhecimento;

d) a linguagem empregada;

e) as proposições formuladas dentro do ramo de conhecimento em análise (VILANOVA, 1976, p. 15-16; 1997, p.37).

D e n t r o d a c o n c e p ç ã o e s s e n c i a l i s t a d e l í n g u a , e s t a seria c a p a z d e d e s i g - n a r a r e a l i d a d e , d e l i m i t a n d o c o m p r e c i s ã o o o b j e t o q u e se d e s c r e v e ( F E R R A Z JR., 1994, p . 3 4 ) . C o n t r a p o s t a a tal e n t e n d i m e n t o , a c o n c e p ç ã o c o n v e n c i o n a l i s t a vê a l í n g u a c o m o

(...) um sistema de signos, cuja relação com a realidade é estabelecida arbitrariamente pelos homens (...) o que deve ser levado em conta é o uso (social ou técnico) dos conceitos que podem variar de comunida- de para comunidade (...), consoante o critério vigente para designar a palavra na situação social concreta (FERRAZ JR., 1994, p. 35-36).

E s t a ú l t i m a t e m u m a l c a n c e p r á t i c o m a i s satisfatório q u e a p r i m e i r a , haja vista a d i f i c u l d a d e d e se p r o p o r c o n c e i t o s g e n é r i c o s e u n i v e r s a i s q u e p o s s a m a b r a n g e r t o d a s os c a s o s e s p e c í f i c o s ( F E R R A Z JR., 1994, p, 3 4 - 3 6 ) . O s e n t i d o e o a l c a n c e d a p a l a v r a , p o r t a n t o , v a r i a r ã o s e g u n d o a s i t u a ç ã o social na q u a l se i n s e r e e, b e m c o m o , o seu m o d o d e e m p r e g o p a r a d e s c r e v ê - l a ou m o d i f i c á - l a ( M Ü L L E R , 1 9 9 5 , p . 3 6 ) .

176 R. FARN, Natal, v.l, n.2, p. 173 - 194 jan./jun. 2002.

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L e m b r a V I L A N O V A (1976, p. 17-18) que o conhecimento é contextual, mas, a p e s a r d e s s a c o n s t a t a ç ã o , p o d e o c i e n t i s t a s e c c i o n a r u m d e s s e s p l a n o s p a r a o seu e s t u d o , a b s t r a i n d o a s u a r e l a ç ã o c o m os d e m a i s , a fim d e e s t a b e l e c e r u m a visão a p r o f u n d a d a s o b r e u m objeto formal, q u e integra o c o n h e c i m e n t o e n q u a n - to o b j e t o m a t e r i a l . O q u e o j u r i s t a p e r n a m b u c a n o n o m e i a i s o l a m e n t o t e m á t i c o . A o se isolar a b s t r a t a m e n t e a p r o p o s i ç ã o , n ã o há a p e r d a d e s u a r e l a ç ã o c o m os d e m a i s p l a n o s d o o b j e t o m a t e r i a l . H á sim a f o r m a ç ã o d o u n i v e r s o d a s formas l ó g i c a s , q u e é c o m p o s t o p o r r e l a ç õ e s i n v a r i á v e i s e n t r e as p a r t e s , p o s t a s de m o d o sistematizado ( V I L A N O V A , 1976, p.20-21). Explica Vilanova (1976, p.23):

" F a l a r é usar u m a l i n g u a g e m e a l i n g u a g e m e s t á s a t u r a d a d e s i g n i f i c a ç õ e s (sen- tidos, c o n c e i t o s , i d é i a s ) q u e se d i r i g e m a o s o b j e t o s d o m u n d o " .

A l i n g u a g e m , s e g u n d o V i l a n o v a ( 1 9 7 6 , p . 2 3 - 2 4 ) , é inevitável:

Se um sistema de símbolos nenhuma referência faz, mesmo sobre a coisa-em-geral, o ser-objeto em geral (qualquer), esse sistema não é linguagem. A lógica, eliminando as linguagens naturais, os idiomas como formações culturais variáveis, têm de se valer da linguagem.

Agora, a linguagem apta para compreender as formas lógicas. Estas estão envoltas pela concreção da linguagem natural, pelo comprome- timento pragmático ou científico de descrever situações objetivas, lá no mundo de fatos, de propriedades e de relações fácticas.

O isolamento temático d a forma lógica se faz mediante o d e s e m b a r a ç a m e n t o d a s p r o p o s i ç õ e s d o c o n h e c i m e n t o d e seu r e v e s t i m e n t o m a t e r i a l . , p r o c u r a n d o r e d u z i - l a s a e s t r u t u r a s c o n s t i t u í d a s a p e n a s p o r e l e m e n t o s l ó g i c o s ( V I L A N O V A ,

1997, p . 4 0 - 4 2 ) . P a r a a lógica, o sujeito de u m a p r e d i c a ç ã o , de u m a q u a l i d a d e q u e l h e foi a t r i b u í d a , c o n s t i t u i o s e u o b j e t o d e p r e o c u p a ç ã o , p a s s a n d o o e l e m e n t o formal a identificar t o d o e q u a l q u e r sujeito q u e p o s s a m a t e r i a l m e n t e e n q u a d r a r na p r o p o s i ç ã o d o c o n h e c i m e n t o , c o n s t i t u i n d o na l i ç ã o d e V i l a n o v a ( 1 9 7 6 , p . 2 6 ) , a v a r i á v e l de o b j e t o . J á as p r o p r i e d a d e s c o n c r e t a s d o o b j e t o p a s s a m a i n t e g r a r a variável de p r e d i c a d o d a p r o p o s i ç ã o d o c o n h e c i m e n t o ( V I L A N O V A , 1976, p . 2 6 - 2 7 ) . E s s a s a b s t r a ç õ e s p e r m i t e m a l c a n ç a r a f o r m a l ó g i c a , a f a s t a n d o e p i s t e m o l o g i c a m e n t e a l i n g u a g e m d o c o n h e c i m e n t o .

A s f o r m a s l ó g i c a s s ã o c o n s t i t u í d a s p o r s í m b o l o s d e v a r i á v e i s e s í m b o l o s d e c o n s t a n t e s . A s c o n s t a n t e s l ó g i c a s a t u a m d e m o d o o p e r a t ó r i o , v i a b i l i z a n d o a q u a n t i f i c a ç ã o d a s v a r i á v e i s d e objeto e d e p r e d i c a d o , b e m c o m o o r e l a c i o n a m e n - to e n t r e e l a s . R e p r e s e n t a m o o p e r a d o r i m u t á v e l d o e n u n c i a d o ( V I L A N O V A , 1976,p.28-29).

R. FARN, Natal, v.l, n.2, p. 173 - 194 ,jan./jun, 2002. 177

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O i s o l a m e n t o t e m á t i c o d a s f o r m a s l ó g i c a s p e r m i t e q u e e s t a b e l e ç a m o s d o i s p l a n o s d e v i s ã o d o c o n h e c i m e n t o , q u a n t o à l i n g u a g e m q u e e m p r e g a . A e s t r u t u r a l ó g i c a firma a r e l a ç ã o e n t r e as v a r i á v e i s e as c o n s t a n t e s , o u m e s m o e n t r e e n u n c i a d o s l ó g i c o s , o n d e p r e d o m i n a o s e n t i d o s i n t á t i c o p a r a a s u a v i a b i - l i d a d e . E s t e p l a n o d a l i n g u a g e m n ã o se c o n f u n d e c o m o p l a n o d a s r e l a ç õ e s fáticas, e s t r u t u r a d a s d e m o d o e x t r a - l ó g i c o , p r e e n c h e n d o c o m v i d a real as for- m a s l ó g i c a s . L e c i o n a V i l a n o v a ( 1 9 7 6 , p . 3 0 - 3 1 , grifo d o a u t o r ) .

(...) a relação entre premissas e a conclusão de um argumento" se dá no universo das formas lógicas. A relação consequencial (inferencial- dedutiva) entre aquelas e esta é puramente formal, por isso que não se encontra no real. No mundo dos fatos, não topamos com propo- sições-premissas e proposições-conclusão, nem com os nexos dedu- tivos. Um fato se não deduz de outro, nem implica outro. Deduzir (ou, mais genericamente, inferir), implicar, não são nexos do mundo das coisas e dos fenômenos (físicos e sociais). E se falamos de que uma ocorrência implica outra, uma conduta ou fato social implica outro processo social, é que transpomos a linguagem do mundo das formas lógicas para o mundo que, através dessas formas lógicas, depositamos como matéria de conhecimento. O mundo dos fatos entra como matéria das formas lógicas, enche as variáveis lógicas e, translaticiamente, adquire os tipos de relações que se passam ali, no universo das formas lógicas.

M a s n e m s e m p r e , alerta V i l a n o v a ( 1 9 7 6 , p . 3 2 - 3 4 ) , h á c o m p a t i b i l i d a d e e n t r e o e x p r e s s o d e m o d o e x t r a - l ó g i c o e a p r o p o s i ç ã o l ó g i c a , p o d e n d o h a v e r o u n ã o c o r r e s p o n d ê n c i a e n t r e os p l a n o s m a t e r i a l e f o r m a l d a l i n g u a g e m e m p r e g a d a p e l o r a m o d o c o n h e c i m e n t o , p o i s o d o m í n i o d a s f o r m a s l ó g i c a s é i r r e d u t í v e l a q u a l q u e r o u t r o . A v a l i d a d e d o e n u n c i a d o l ó g i c o n ã o d e p e n d e , p o r t a n t o , d e s u a c o r r e s p o n d ê n c i a c o m o e n u n c i a d o m a t e r i a l , s a t u r a d o d e c o n t e ú d o s i g n i f i c a t i v o n o d i z e r d o jusfilósofo ( V I L A N O V A , 1976, p . 3 9 ) .

A v e r d a d e p r o p o s i c i o n a l t e m s e n t i d o d e r i v a d o e n ã o o r i g i n á r i o , e x p r e s - s a n d o a v e r d a d e s e m â n t i c a d a p r o p o s i ç ã o d e s c r i t i v a e e x p l i c a t i v a d o s f e n ô m e - n o s , e, p o r t a n t o , n ã o s e n d o v o l t a d a p a r a verificar a a d e q u a ç ã o d o e n u n c i a d o científico c o m a coisa d e q u e fala ( B O R G E S , 1996, p. 19). " A experiência d a lingua- g e m é o p o n t o d e p a r t i d a p a r a a e x p e r i ê n c i a d a s estruturas l ó g i c a s " ( V I L A N O V A , 1997, p.39).

O s e l e m e n t o s q u e c o m p õ e m a e s t r u t u r a i n t e r n a d a s p r o p o s i ç õ e s , b e m c o m o a a r t i c u l a ç ã o e n t r e e s t a s p a r a a c o n s t r u ç ã o d e e s t r u t u r a s m a i s c o m p l e x a s , são r e g i d o s p o r leis formais ( V I L A N O V A , 1997, p . 4 3 ) .

178 R. FARN, Natal, v.l, n.2, p. 173 - 194 ,jan./jun. 2002.

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O e n u n c i a d o g e n e r a l i z a d o n ã o c o n s t i t u i u m a p r o p o s i ç ã o l ó g i c a , m a s s i m u m e n u n c i a d o v á l i d o p a r a u m d a d o c o n j u n t o d e o b j e t o s . É a t r a v é s d o q u e c h a m a V i l a n o v a ( 1 9 7 6 , p . 3 8 - 4 2 ) f o r m a l i z a ç ã o , q u e s a í m o s d o u n i v e r s o d o s e n u n c i a d o s m a t e r i a i s e a d e n t r a m o s n o m u n d o d a s p r o p o s i ç õ e s l ó g i c a s , s u b s t i t u i n d o o c o n - t e ú d o m a t e r i a l p o r s í m b o l o s q u e p a s s a m a i n d i c a r a b s t r a t a m e n t e u m u n i v e r s o d e o b j e t o s e d e p r e d i c a d o s , d e t e r m i n a d o s p e l a e x p e r i ê n c i a . O q u e t o r n a o e n u n c i - a d o l ó g i c o p e r m e á v e l a o s d a d o s c o n s t r u í d o s e i d e n t i f i c a d o s p e l o s e n u n c i a d o s m a t e r i a i s d o c o n h e c i m e n t o , c o n s t i t u i n d o a q u e l a a s u a e s t r u t u r a f o r m a l , e, v i a b i l i z a n d o o seu e m p r e g o p a r a a c o m p r e e n s ã o d a e s t r u t u r a m a t e r i a l d o c o n h e - c i m e n t o .

A s s i m ele l e c i o n a :

Formalizar não é conferir forma aos dados, inserindo os dados da linguagem num certo esquema de ordem. É destacar, considerar à parte, abstrair a forma lógica que está, como dado, revestida na linguagem natural, como linguagem de um sujeito emissor para um sujeito destinatário, com o fim de informar notícias sobre os objetos.

E destaco, por abstração lógica, a forma, desembaraçando-me da matéria que tal forma cobre. A matéria reside nos conceitos especi- ficados, nas significações determinadas que as palavras têm como entidades identificáveis pela sua individualidade significativa.

(VILANOVA, 1997, p.44-45, grifo do autor)

T a n t o n o p l a n o m a t e r i a l c o m o n o p l a n o l ó g i c o h á o e m p r e g o d e l i n g u a - g e m . M a s a l i n g u a g e m e m p r e g a d a n o ú l t i m o a p r e s e n t a - s e f o r m a l i z a d a , d o t a d a d e u m a g r a m á t i c a p r ó p r i a , c o m s i n t a x e d i s t i n t a d a u t i l i z a d a n a l i n g u a g e m d e objeto ( V I L A N O V A , 1976, p.47-50).

O s s í m b o l o s e m p r e g a d o s p a r a d e s i g n a r as v a r i á v e i s d o o b j e t o e d o p r e d i c a d o , b e m c o m o as c o n s t a n t e s l ó g i c a s , a s s u m e m significação q u e d e t e r m i - n a m a s u a p o s i ç ã o d e n t r o d a estrutura formal ( V I L A N O V A , 1976, p.46). N a f o r m a l ó g i c a , os c a t e g o r e m a s , as v a r i á v e i s d e o b j e t o e d o p r e d i c a d o t ê m s i g n i f i c a ç ã o p o r si m e s m o s , e m p r e g a n d o - s e o s s i n c a t e g o r e m a s , as c o n s t a n t e s l ó g i c a s , q u e s o m e n t e g a n h a m s i g n i f i c a ç ã o q u a n d o r e l a c i o n a m as v a r i á v e i s l ó g i c a s e n t r e si, ou, até m e s m o , ligam p r o p o s i ç õ e s ( V I L A N O V A , 1976, p . 4 7 ; 1997, p . 4 7 - 4 8 ) .

A c o n s t a t a ç ã o feita p o r L o u r i v a l V i l a n o v a d o p l u r a l i s m o d a s l i n g u a g e n s r e p r e s e n t a u m d o s p o n t o s s e n s í v e i s d e s e u p e n s a m e n t o , A partir d e s t e p o n t o , identifica na l i n g u a g e m formalizada u m a s o b r e - l i n g u a g e m , u m a m e t a - l i n g u a g e m , q u e trataria d a s l i n g u a g e n s d e o b j e t o s e, d e n t r e e l a s , d a l i n g u a g e m científica, v o l t a d a a o u n i v e r s o d e o b j e t o s d e l i m i t a d o s p e l a p r ó p r i a c i ê n c i a ( V I L A N O V A ,

R. FARN, Natal, v.l, n.2, p. 173 - 194 ,jan./jun. 2002. 179

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1976, p . 5 2 ) . M a s o c a r á t e r d e c a d a l i n g u a g e m ficará v i n c u l a d o às c i r c u n s t â n c i a s , p o d e n d o u m a l i n g u a g e m d e o b j e t o ser e m p r e g a d a p a r a e n u n c i a r , v e r b a l i z a r a m e t a - l i n g u a g e m s o b r e si m e s m a ( V I L A N O V A , 1976, p . 5 3 - 5 4 ) , pois p a r a se falar sobre u m a l i n g u a g e m , é preciso utilizar outra ( V I L A N O V A , 1997, p . 5 5 - 5 6 ) .

E m b o r a f o r m a l i z a d a , a l i n g u a g e m l ó g i c a n ã o p e r d e i n t e i r a m e n t e o seu v í n c u l o c o m o u n i v e r s o d e o b j e t o s , p o i s e s t e c o n s t i t u i o " p o n t o d e p a r t i d a d e t o d o o c o n h e c i m e n t o " ( V I L A N O V A , 1976, p,60).

S e g u n d o V i l a n o v a ( 1 9 7 6 , p . 6 0 - 6 2 ) , e m b o r a no c a m p o d a l ó g i c a n ã o haja e s p a ç o , n o p i a n o d a s i n t a x e , p a r a o s e u e m p r e g o m a t e r i a l , p o d e h a v e r l ó g i c a m a t e r i a l , c o n v e r t e n d o - s e a l ó g i c a formal "(•••)n u m m e i o p a r a a l c a n ç a r u m fim, t e ó r i c o - m a t e r i a l ou p r á t i c o , e c o r r e s p o n d e à n e c e s s i d a d e vital de o h o m e m m a n i - p u l a r as c o i s a s " .

E n q u a n t o a c i ê n c i a e m p í r i c a p a r t e d a e x p e r i ê n c i a d o s fatos q u e s e l e c i o n a d a r e a l i d a d e ,

(...) o ponto de partida gnoseológico da ciência lógica está no factum da linguagem científica, sem desprezar a linguagem não-técnica da vida cotidiana em sua natural projeção para o mundo (VILANOVA,

1976, p.64; Borges, 1988, p. 13 -16).

A o s e r v i r d e b a s e p a r a a i n v e s t i g a ç ã o científica, a e s t r u t u r a l ó g i c a p a s s a p o r u m p r o c e s s o d e d e s f o r m a l i z a ç ã o , o n d e o cientista insere e l e m e n t o s m a t e r i a i s p a r a c o m p o r u m a m e t o d o l o g i a a d e q u a d a a o o b j e t o d e seu e s t u d o ( V I L A N O V A , 1976, p . 6 6 ) . A m e t o d o l o g i a d e c a d a c i ê n c i a e m p r e g a t a n t o e n u n c i a d o s d e s c r i t i - vos ( t e o r é t i c o s ) , p a r a visualizar s u a s e s t r u t u r a s e p i s t e m o l ó g i c a s , c o m o t a m b é m , e n u n c i a d o s p r e s c r i t i v o s , d e t e r m i n a n d o p a d r õ e s p a r a c o n d u t a d o c i e n t i s t a n a i n v e s t i g a ç ã o d a r e a l i d a d e ( V I L A N O V A , 1976, p . 6 7 ) . A lógica aplicada disciplina a c o n d u t a c i e n t í f i c a e a f o r m u l a ç ã o d e s e u s r e s u l t a d o s .

N o c a m p o d a c i ê n c i a d o direito, a c r e d i t a V i l a n o v a ( 1 9 7 6 , p . 6 9 - 7 0 ; 1997, p . 6 2 - 6 3 ) q u e os m é t o d o s s o c i o l ó g i c o e h i s t ó r i c o s ã o i n a d e q u a d o s p a r a a inter- p r e t a ç ã o e a p l i c a ç ã o d a n o r m a j u r í d i c a , o r i u n d a d o q u e o j u s f i l ó s o f o d e n o m i n a fonte d o g m á t i c a , o o r d e n a m e n t o j u r í d i c o p o s i t i v o . S o m e n t e a t r a v é s d e u m a l ó g i c a m a t e r i a l , a l ó g i c a j u r í d i c a , seria p o s s í v e l a o cientista d o direito d e s e n v o l - ver u m a m e t o d o l o g i a a d e q u a d a p a r a a j u r i s p r u d ê n c i a , g a r a n t i n d o a o b j e t i v i d a d e e s e g u r a n ç a n a s u a c o n d u t a i n v e s t i g a t i v a . M a s alerta:

Não se nega a complementariedade dos outros pontos-de-vista para um saber integral do ser do direito positivo. Apenas, faz-se o corte

180 R. FARN, Natal, v.l, n.2, p. 173 - 194 ,jan./jun. 2002.

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metodológico, pondo-se entre os parênteses fatores que são relevan- tes para outras ciências, mas não para o jurista ocupado em interpre- tar normas, em reconstruir conceitos e princípios do sistema de normas, em função de sua aplicabilidade aos fatos da vida social (Vilanova, 1997: 63; grifo do autor).

N ã o afasta os m é t o d o s s o c i o l ó g i c o e h i s t ó r i c o d a c i ê n c i a d o d i r e i t o , m a s s i m credita ao m é t o d o d o g m á t i c o , à lógica jurídica, o e l e m e n t o diferencial desse r a m o d o c o n h e c i m e n t o científico d o s d e m a i s .

A t r a v é s d a l i n g u a g e m f o r m a l i z a d a d a lógica, é p o s s í v e l c o n s t r u i r estrutu- ras f o r m a i s d o t a d a s d e s e n t i d o s i n t á t i c o , p r o v o c a n d o o e s v a z i a m e n t o d a l i n g u a - g e m d e q u a l q u e r c o m p r o m e t i m e n t o c o m os o b j e t o s i n d i v i d u a i s ( V I L A N O V A , 1 9 9 7 , p . 5 5 - 5 7 ) . C o n s t r ó i u m s i s t e m a m o n o l ó g i c o , o n d e a v a l i d a d e d a s p r o p o s i - ç õ e s r e s i d e e m si m e s m a s ou n o p r ó p r i o s i s t e m a ( V I L A N O V A , 1 9 9 7 , p . 5 6 ) ; é a c u s a d o p o r a l g u n s d e ser o i d i o m a d e u m a p e s s o a s ó ( B O R G E S , 1996, p . 2 0 ) .

M a s e s s e s i s t e m a m o n o l ó g i c o , q u e se i n t e r p õ e e n t r e o p e n s a m e n t o e a c o i s a p e n s a d a ( B O R G E S , 1996, p . 2 0 ) , é b a s e a d o n o s í m b o l o , n o s i g n o , n a s u a d i m e n s ã o sintática.

D e n t r o d o n o r m a t i v i s m o a t u a l , i d e n t i f i c a - s e n o s i g n o u m a e s t r u t u r a trilateral, c o n s t i t u í d a p e l o s u p o r t e físico, p e l a s i g n i f i c a ç ã o (ou significante) e p e l o s i g n i f i c a d o .

E n t e n d e - s e p o r s u p o r t e físico, na e s t r u t u r a l ó g i c a , o a l g o r i t m o e m p r e g a - d o p a r a s i m b o l i z a r a l g o ( V I L A N O V A , 1 9 9 7 , p . 5 7 ) . P o d e m o s , c o m o e x e m p l o , u t i l i z a r S p a r a d e s i g n a r os e l e m e n t o s d o u n i v e r s o d o o b j e t o q u e p o d e m ser i n s e r i d o s n a p r o p o s i ç ã o l ó g i c a , q u a n d o se d e s e j a d e s f o r m a l i z á - l a e, P, p a r a os e l e m e n t o s d o u n i v e r s o d o s p r e d i c a d o s , d a s p r o p r i e d a d e s q u e p o d e m ser i m p u - t a d a s a o s o b j e t o s .

A o d e s i g n a r u m s i g n o e s p e c í f i c o p a r a se referir e m a b s t r a t o a a l g o d o u n i v e r s o d a l i n g u a g e m , n e l e se i d e n t i f i c a m , n e c e s s a r i a m e n t e , d u a s d i m e n s õ e s c o n c e i t u a i s : o significante (ou s i g n i f i c a ç ã o ) e o s i g n i f i c a d o . E n q u a n t o este trata d o p l a n o d a i n t e r a ç ã o d o s i g n o c o m a r e a l i d a d e fática, a q u e l e constitui o indício m a t e r i a l , e s t a n d o n o p l a n o d a e x p r e s s ã o ( W A R A T , 1 9 9 5 , p . 2 5 ) . N o d o m í n i o j u r í d i c o , t e r e m o s : c o m o s u p o r t e físico o c o n j u n t o d e t e x t o s d o direito p o s i t i v o ; c o m o significado, a c o n d u t a h u m a n a a ser prescrita; e, c o m o significação, "(...) o v a s t o r e p e r t ó r i o q u e o j u r i s t a e x t r a i , c o m p o r t a n d o j u í z o s l ó g i c o s , a partir d o

R. FARN, Natal, v.l, n,2, p. 173 - 194 ,jan./jun.2002= 181

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c o n t a t o s e n s o r i a l c o m o s u p o r t e físico, e c o m r e f e r ê n c i a a o q u a d r o d o s fatos e d a s c o n d u t a s j u r i d i c a m e n t e r e l e v a n t e s " ( C A R V A L H O , 1988, p . 137).

S ó é viável alcançar o significado, l e m b r a L u i s A l b e r t o Warat (1995,p.25), a t r a v é s d e a l g u m tipo d e s i g n i f i c a n t e , q u e , p o r s u a vez, s o m e n t e g a n h a s e n t i d o e c o e r ê n c i a e m r a z ã o d o e l e m e n t o anterior. M a s , a l i n g u a g e m c o n s e g u e articular os s i g n o s a t r a v é s d e u m p r o c e s s o d e c o n t r a s t e s e o p o s i ç õ e s e n t r e e l e s , o n d e s ã o v a l o r a d o s e g a n h a m s e n t i d o (Warat, 1 9 9 5 , p . 2 5 - 2 6 ) .

O s s i g n o s e m p r e g a d o s p e l a l i n g u a g e m p o d e m ser vistos a t r a v é s d e três ó t i c a s , s e g u n d o a s e m i ó t i c a , ou seja, n o d i z e r d e W a r a t ( 1 9 9 5 , p . 3 9 ) , a teoria geral d e t o d o s os s i g n o s e s i s t e m a s d e c o m u n i c a ç ã o .

N a s i n t a x e , d e t e r m i n a m - s e as r e g r a s d e f o r m a ç ã o e d e r i v a ç ã o q u e d e v e m ser s e g u i d a s n o e m p r e g o d o s s i g n o s n a c o n s t r u ç ã o d a s p r o p o s i ç õ e s d o c o n h e - c i m e n t o , q u e , u m a v e z s e g u i d a s , c o n f e r e m a e s t a s v a l i d a d e .

N a s e m â n t i c a , h á o e s t a b e l e c i m e n t o d e u m a r e l a ç ã o e n t r e o s i g n o e o c o n j u n t o d e o b j e t o s p a r a os q u a i s foi c o n s t r u í d o , m e d i a n t e critérios d e v e r d a d e o u f a l s i d a d e p a r a a i d e n t i f i c a ç ã o d o s e n t i d o d o s e n u n c i a d o s .

P o r fim, c o m a p r a g m á t i c a , a n a l i s a m - s e o s m o d o s d e significar, u s o s ou f u n ç õ e s d a l i n g u a g e m , t r a b a l h a n d o c o m a r e l a ç ã o e n t r e o s i g n o e os s e u s u s u á - rios.

E n f a t i z a a lógica j u r í d i c a o a s p e c t o s i n t á t i c o d o s i g n o , p r o c u r a n d o afastar d e s e u e s t u d o a d i m e n s ã o s e m â n t i c a e p r a g m á t i c a d o m e s m o . A t r a v é s d o i s o l a m e n t o d a s f o r m a s l ó g i c a s d a s p r o p o s i ç õ e s j u r í d i c a s , b u s c a - s e e n c o n t r a r c r i t é r i o s a t r a v é s d o s q u a i s p o s s a m o s e s t a b e l e c e r a s u a v a l i d a d e n o u n i v e r s o d a l i n g u a g e m jurídica ( V I L A N O V A , 1997, p.57-58).

A i n t e r p r e t a ç ã o faz r e g r e s s a r a l i n g u a g e m f o r m a l à l i n g u a g e m e m p í r i c a , d e s f o r m a l i z a n d o a p r o p o s i ç ã o p e l a i n s e r ç ã o d e c o n c r e ç õ e s c o n c e i t u a i s q u a n t o a o sujeito, à r e l a ç ã o q u e a b s t r a t a e f o r m a l m e n t e q u i s indicar, a o p r e d i c a d o , b e m c o m o , a p r ó p r i a p r o p o s i ç ã o , p o s s i b i l i t a n d o o i n g r e s s o n o m u n d o d o s o b j e t o s ( V I L A N O V A , 1997, p . 5 9 ) . A í , t e m o s a l ó g i c a m a t e r i a l , q u e constitui u m a m e t o d o l o g i a p a r a a c o m p r e e n s ã o d a r e a l i d a d e e m p í r i c a , n o p l a n o d a v a l i d a d e d o s e n u n c i a d o s f o r m u l a d o s s o b r e a m e s m a ( V I L A N O V A , 1997, p. 6 0 - 6 1 ) .

A o edificar u m a lógica m a t e r i a l , m o n t a m o s u m a m e t o d o l o g i a para a ciên- cia, q u e p a s s a a d i s p o r d e u m m e i o d e m a n i p u l a ç ã o d o s o b j e t o s p a r a obter u m a

182 R FARN, Natal, v.l, n.2, p. 173 - 1 9 4 ,janVjun.2002.

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c o m p r e e n s ã o m e l h o r s o b r e e s s e u n i v e r s o , d e n t r o d o s l i m i t e s f o r m a i s d a l i n g u a - g e m e m p í r i c a . E n q u a n t o a l ó g i c a formal refere-se a u m a l ó g i c a u n i v e r s a l , ineren- te a o c o n h e c i m e n t o , q u e n ã o t r a t a d e u m o b j e t o e s p e c í f i c o q u a l q u e r , a l ó g i c a material:

(...) importa numa aplicação dessa ciência para além das estruturas de proposições dessa ciência para além das estruturas de proposições, das combinações de proposições e das formas mais abrangentes de reunir homogeneamente proposições que é o sistema-de-proposi- ções (VILANOVA, 1997: 60).

E m s u m a , c o n s t i t u i a l ó g i c a m a t e r i a l a l ó g i c a a p l i c a d a a u m d e t e r m i n a d o r a m o d o c o n h e c i m e n t o , q u e d e s f o r m a l i z a as e s t r u t u r a s l ó g i c a s na m e d i d a d o n e c e s s á r i o p a r a a i d e n t i f i c a ç ã o d e u m p l a n o l ó g i c o - f o r m a l , d e v e r d a d e f o r m a l , p a r a o s e n u n c i a d o s c i e n t í f i c o s q u e f o r m u l a , a o l a d o d o s e l e m e n t o s e x t r a - l ó g i c o s q u e s ã o i n e r e n t e s à l i n g u a g e m ( V I L A N O V A , 1997, p . 6 1 ) .

N o c a m p o d o direito, a l ó g i c a j u r í d i c a é a lógica material, a lógica a p l i c a d a a o f e n ô m e n o j u r í d i c o . N o m é t o d o l ó g i c o - f o r m a l d a c i ê n c i a d o direito, a a t i v i d a d e d o j u r i s t a l i m i t a - s e a verificar a v i g ê n c i a d a s n o r m a s q u e se d e s t i n a m a u m a c a t e g o r i a d e t e r m i n a d a d e fatos, q u e f o r a m c o n s i d e r a d o s , d e m o d o e x t r a - l ó g i c o , r e l e v a n t e s p a r a a r e g u l a ç ã o j u r í d i c a d a c o n d u t a . A s u a p r e o c u p a ç ã o é p a r a c o m a e x i s t ê n c i a d a n o r m a , n o seu p l a n o d e v a l i d a d e , na d i m e n s ã o d a v e r d a d e formal d a r e a l i d a d e j u r í d i c a .

3 ENUNCIADOS DO DIREITO POSITIVO COMO OBJETO DA JURISPRUDÊNCIA

S e g u n d o o n o r m a t i v i s m o a t u a l , o d i r e i t o p o s i t i v o c o n s t i t u i u m s i s t e m a d e p r o p o s i ç õ e s p r e s c r i t i v a s s o b r e a r e a l i d a d e social, u n i d a s p o r u m a h o m o g e n e i d a d e sintática ( C A R V A L H O , 1988, p . 134). N a p r o p o s i ç ã o jurídica, h á e s p a ç o p a r a u m a m e t a - l i n g u a g e m , q u e i d e n t i f i q u e as e s t r u t u r a s l ó g i c a s q u e a c o m p õ e m , d e p u r a n - d o - a d o s s e u s e l e m e n t o s e x t r a - l ó g i c o s ( e m p í r i c o s , a x i o l ó g i c o s , s o c i o l ó g i c o s ) . Tal m e t a - l i n g u a g e m é a l ó g i c a j u r í d i c a , q u e t r a t a d a l i n g u a g e m e m p r e g a d a p e l o d i r e i t o p o s i t i v o .

A p r o p o s i ç ã o j u r í d i c a n ã o d e s c r e v e c o m o f a c t u a l m e n t e o sujeito a g e n t e se c o m p o r t a , m a s , sim, c o m o d e v e c o m p o r t a r - s e ( V I L A N O V A , 1997, p . 6 9 ; C A R - V A L H O , 1988, p. 135-136; K E L S E N , 1991, p . 3-10).

D o p o n t o d e vista i n t e r n o d o s i s t e m a d e d i r e i t o p o s i t i v o , as n o r m a s c o n s t i t u e m ou d e s c o n s t i t u e m h i p ó t e s e s fáticas, e x p r e s s õ e s d o t a d a s d e signifi- c a ç ã o e m p í r i c a e d e r e f e r ê n c i a o b j e t i v a , r e l a t i v a s ao j u r i d i c a m e n t e r e l e v a n t e n o

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fato real total, n o suporte fático ( V I L A N O V A , 1989, p.81). C o m o ensina C a r v a l h o ( 1 9 8 8 , p . 1 3 4 - 1 3 5 ; grifo d o autor):

Quando menciono o direito posto, na condição de sistema, é para encará-lo não como sistema lógico, dotado de consistência, isento de contradições, tal qual o modelo do sistema das ciências, mas como um conjunto de proposições lingüísticas que se dirigem a certa e determinada região material - a região material da conduta. O discur- so de que falo, conquanto abrigue proposições contraditórias e lacu- nas, mesmo assim vem carregado de uma porção de racionalidade, que entendemos suficiente para outorgar-lhe foros de sistema, não lógico, mas empírico, precisamente pelo comprometimento que mantêm com o tecido social, por ele ordenado de maneira prescriti va.

O d e v e r - s e r c o n s t i t u i o o p e r a d o r d i f e r e n c i a l d a l i n g u a g e m d a s p r o p o s i - ç õ e s n o r m a t i v a s ( d e n t r e as q u a i s t e m o s as p r o p o s i ç õ e s j u r í d i c a s ) , a s s u m i n d o a c a t e g o r i a s i n t á t i c a d e s i n c a t e g o r e m a , ou seja, d e t e r m o n e u t r o e i n d i f e r e n c i a d o , u m c o n c e i t o q u e r e l a c i o n a os c a t e g o r e m a s l ó g i c o s ( v a r i á v e i s d o o b j e t o e variá- veis d o p r e d i c a d o ) e n t r e si, ou até m e s m o p r o p o s i ç õ e s ( V I L A N O V A , 1997, p . 7 0 - 7 1 ; 1989,p.92-93).

O s m o d o s l ó g i c o s c l á s s i c o s ( n e c e s s á r i o , c o n t i g e n t e , p o s s í v e l ) , q u a n d o s ã o e m p r e g a d o s p a r a c o n s t r u i r p r o p o s i ç õ e s s o b r e a n o r m a d o d i r e i t o , e n s e j a m t ã o s o m e n t e p r o p o s i ç õ e s d e s c r i t i v a s , a p o f â n t i c a s . O s m o d o s l ó g i c o s d e ô n t i c o s ( o b r i g a t ó r i o , p e r m i t i d o , p r o i b i d o ) s ã o p r i v a t i v o s d a l i n g u a g e m p r e s c r i t i v a ou n o r m a t i v a . M a s n a d a i m p e d e q u e u m m o d o l ó g i c o a p o f â n t i c o p o s s a ser e m p r e - g a d o n u m a f u n ç ã o d e ô n t i c a , o u v i c e - v e r s a , n a c o m p o s i ç ã o d e e n u n c i a d o s ( V I L A N O V A , 1997, p . 7 1 - 7 2 ; 1989, p. 93). Aqui reside j u s t a m e n t e o critério distin- t i v o q u e v e m s e n d o u t i l i z a d o p a r a d i f e r e n c i a r a l i n g u a g e m d o d i r e i t o p o s i t i v o , objeto d a c i ê n c i a d o direito - p a r a o n o r m a t i v i s m o c o n t e m p o r â n e o - e a l i n g u a g e m d a c i ê n c i a d o d i r e i t o .

N a v i s ã o d e V i l a n o v a ( 1 9 9 7 , p . 7 2 ) , as p r o p o s i ç õ e s m o d a i s aléticas s ã o v e r d a d e i r a s ou falsas, e c o m p õ e m a l ó g i c a a p o f â n t i c a ; e n q u a n t o q u e n a lógica d e ô n t i c a , as p r o p o s i ç õ e s d e ô n t i c a s s ã o v á l i d a s ou n ã o - v á l i d a s . N o p l a n o d a l i n g u a g e m , o m u n d o d o ser ( l ó g i c a a p o f â n t i c a ) e o m u n d o d o d e v e r - s e r ( l ó g i c a d e ô n t i c a ) n ã o se c o n f u n d e m ( V I L A N O V A , 1989, p . 8 6 ; S O U T O , 1992, p . 17), e m - bora estejam e m c o n s t a n t e interação. A p r o p o s i ç ã o descritiva p o d e ser c o n s t r u í d a s o b r e u m a p r o p o s i ç ã o n o r m a t i v a , não alterando", c o n t u d o , a v a l ê n c i a d e c a d a u m a d e l a s . N ã o d e v e ser e s q u e c i d o o s e g u i n t e :

Temos (...) o discurso não-apofântico na espécie de discurso prescritivo, o qual carece de valores de verdade e falsidade e repre-

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senta o campo temático da lógica deôntica. Assim, as estruturas dos enunciados que exprimem regras técnicas, regras dos usos-e-costu- mes, regras morais e jurídicas. Teremos de compreender (...) dentro do conceito de proposição, tanto os enunciados da linguagem prescritiva de objetos, como os enunciados da linguagem prescritiva de situações objetivas, ou seja, da linguagem cuja finalidade é 'alterar a circunstância', e cujo destinatário é o homem e sua conduta no universo social. Altera-se o mundo físico mediante o trabalho e a tecnologia, que o potência em resultados. E altera-se o mundo social mediante a linguagem das normas, uma classe da qual é a linguagem das normas do direito (VILANOVA, 1997, p.40).

E m r a z ã o d a f u n ç ã o p r e s c r i t i v a d a n o r m a j u r í d i c a , o n o r m a t i v i s m o t e m a t r i b u í d o à c i ê n c i a d o d i r e i t o u m p a p e l d e s c r i t i v o d a r e a l i d a d e n o r m a t i v a p o s t a p e l o d i r e i t o p o s i t i v o ( B o r g e s , 1 9 8 8 , p . l 1). C o n s t i t u i r i a o p r ó p r i o o r d e n a m e n t o j u r í d i c o - p o s i t i v o a b a s e e m p í r i c a d a c i ê n c i a j u r í d i c a ( B O R G E S , 1988, p . 2 7 - 2 8 ; R A D B R U C H , 1997, p.227-229).

E n q u a n t o os v a l o r e s d a s p r o p o s i ç õ e s n o r m a t i v a s d o d i r e i t o p o s i t i v o s ã o i n f o r m a d o s p e l o b i n ô m i o v a l i d a d e - i n v a l i d a d e , as p r o p o s i ç õ e s f o r m u l a d a s p e l a d o u t r i n a , a o d e s c r e v e r o direito p o s i t i v o , s ã o s u s c e t í v e i s d o s v a l o r e s d e v e r d a - de ou falsidade ( B O R G E S , 1988, p . 1 2 - 1 8 ; B O R G E S , 1992, p.56). M a s descrever o direito p o s i t i v o n ã o significa a r e p e t i ç ã o v a z i a d o s e n u n c i a d o s d a n o r m a j u r í d i c a p o s t a , m a s t a m b é m c o n h e c ê - l a m e d i a n t e a i n t e r p r e t a ç ã o e o d e s v e l a m e n t o d e seu s e n t i d o ( B O R G E S , 1988, p. 1 2 - 1 3 ; 1992, p . 6 2 ) . C o m o b e m e s c l a r e c e B o r g e s ( 1 9 8 8 , p . l 3 ) : "(-..) o o b j e t o d a c i ê n c i a j u r í d i c a n ã o é a p e n a s ' d e s c r e v e r ' ( n u m sentido estrito) f e n ô m e n o s , s e n ã o a m p l a m e n t e e x p l i c á - l o s , c o m sua m e t o d o l o g i a p r ó p r i a : f u n ç ã o o b j e t i v a m e n t e c o g n o s c e n t e d a o r d e m j u r í d i c a - p o s i t i v a " .

E n s i n a L o u r i v a l V i l a n o v a ( 1 9 9 7 , p . l 6 3 ) q u e c a d a E s t a d o , no p o n t o d e v i s t a f o r m a l - j u r í d i c o , é u m s i s t e m a , s e n d o i n t r a n s p o n í v e l s u a p r o p o s i ç ã o n o r m a t i v a f u n d a m e n t a l p a r a o u t r o , c o n s t i t u i n d o esta a p r o p o s i ç ã o - l i m i t e . A c r e s c e n t a a i n d a :

O sistema tem sua gênese empírica não-formal, ali onde um determi- nado suporte factual (...), seja elevado a fato jurídico fundamental (Grundfaktum). Sociologicamente, é o suporte fáctico que condiciona a proposição fundamental; formalmente, é a proposição fundamen- tal que juridifica o dado-de-fato; é a distinção kantiana entre os pontos de vista genético ou empírico e o lógico ou sistemático (VILANOVA. 1997, p . l 6 4 ; grifo do autor).

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E c o m o alerta B o b b i o ( 1 9 9 5 , p . 3 0 - 3 1 ) , as n o r m a s j u r í d i c a s s o m e n t e e x i s - t e m p o r q u e h á o r d e n a m e n t o s j u r í d i c o s q u e g u a r d a m d i s t i n ç ã o e m r e l a ç ã o a o s d e m a i s o r d e n a m e n t o s n o r m a t i v o s . U m a n o r m a j u r í d i c a g a n h a s e n t i d o q u a n d o i n s e r i d a d e n t r o d e u m s i s t e m a j u r í d i c o , o n d e e l a p a s s a a se r e l a c i o n a r sintática, s e m â n t i c a e p r a g m a t i c a m e n t e c o m as o u t r a s n o r m a s j u r í d i c a s d o o r d e n a m e n t o jurídico-positivo ( B o b b i o , 1995, p . 2 3 - 2 9 ; V I L A N O V A , 1997, p. 164-166).

O d i r e i t o p o s i t i v o , e n q u a n t o s i s t e m a d e l i n g u a g e m , p o d e e s t a b e l e c e r p r o p o s i ç õ e s s o b r e p r o p o s i ç õ e s , p a r a o r i e n t a r o p r o c e s s o d e f o r m a ç ã o e t r a n s - formação das normas jurídicas ( B O R G E S , 1988,p.25-26; V I L A N O V A , 1997, p. 164- 168). T a m b é m integram o objeto da ciência jurídica, u m a vez que essas m e t a n o r m a s s o m e n t e e n c o n t r a m v a l i d a d e d e n t r o d o p r ó p r i o o r d e n a m e n t o j u r í d i c o ( B O R G E S ,

1988, p.26).

E m b o r a t e n h a m o s u m a h o m o g e n e i d a d e s i n t á t i c a n o s e n u n c i a d o s d o d i - r e i t o p o s i t i v o , n a s d i m e n s õ e s s e m â n t i c a e p r a g m á t i c a d o f e n ô m e n o j u r í d i c o , o j u r i s t a e n f r e n t a a h e t e r o g e n e i d a d e d o c o n t e x t o s o c i a l , transferida p a r a a c o m p r e - e n s ã o d a p r ó p r i a n o r m a ( C A R V A L H O , 1988, p . 138). A q u i , e n t e n d e m o s , o m é t o - d o m o n o l ó g i c o sofre p r o f u n d a s r e s t r i ç õ e s e m face d a p o t ê n c i a e i n f l u ê n c i a q u e o s e l e m e n t o s e x t r a - l ó g i c o s e x e r c e m s o b r e o p r o c e s s o d e c o n c r e t i z a ç ã o d o o r d e n a m e n t o j u r í d i c o .

C o n f u n d i r a n o r m a j u r í d i c a c o m a p r o p o s i ç ã o j u r í d i c a f o r m a l i z a d a p r o v o - ca, c e r t a m e n t e , o a f a s t a m e n t o d o o r d e n a m e n t o j u r í d i c o d a r e a l i d a d e social q u e v i s a at r e g u l a r ( F E R R A Z JR., 1994, p . 5 0 - 5 1 ) . A n o r m a j u r í d i c a n ã o p o d e ser e n t e n d i d a c o m o u m a s i m p l e s p r o p o s i ç ã o ou f ó r m u l a l ó g i c a e s v a z i a d a d e seu c o n t e ú d o , n a s p a l a v r a s d e R e a l e ( 1 9 9 2 , p . 9 9 ) . E c e r t o q u e a n ã o o b s e r v â n c i a d a n o r m a j u r í d i c a n ã o retira a s u a v a l i d a d e s i n t á t i c a , m a s a s u a v a l i d a d e s e m â n t i c a s o m e n t e é a l c a n ç a d a q u a n d o i n t e r p r e t a d a e m c o n j u n t o c o m t o d o o o r d e n a m e n t o j u r í d i c o ( p e n s a m e n t o s i s t e m á t i c o ) ou a p a r t i r d a s c i r c u n s t â n c i a s e d e m a n d a s d e f r o n t a d a s p e l o E s t a d o n a d e c i s ã o d o s c o n f l i t o s l e v a d o s à s u a a p r e c i a ç ã o ( p e n s a m e n t o p r o b l e m á t i c o ) ( B O R G E S , 1996, p . 2 8 - 3 6 ) . N a d i m e n s ã o pragmática, é p o s s í v e l até identificar os c o n d i c i o n a m e n t o s a x i o l ó g i c o s e i d e o l ó g i c o s d o s o p e r a d o r e s j u r í d i c o s ( W A R A T , 1995, p . 4 5 - 4 8 ) . S e m os e l e m e n t o s d e n o m i n a d o s m a t e r i a i s , a n o r m a j u r í d i c a p e r d e o seu l a ç o c o m a r e a l i d a d e social.

A c i ê n c i a d o g m á t i c a d o d i r e i t o n ã o b u s c a a r e g u l a ç ã o c o n c r e t a d o c o m - p o r t a m e n t o h u m a n o , m a s sim r e v e l a r as r e l a ç õ e s s i n t á t i c a s , s e m â n t i c a s e p r a g - máticas, internas ao o r d e n a m e n t o jurídico-positivo ( B O R G E S , 1988, p. 13; Borges, 1988, p . 2 4 - 2 5 ) . O q u e a p a r e n t e m e n t e limita o objeto d a ciência d o direito à descri- ç ã o e e x p l i c a ç ã o d o s m e c a n i s m o s d e m a n i f e s t a ç ã o é f u n c i o n a m e n t o d o direito

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p o s i t i v o , e n q u a n t o s i s t e m a d e l i n g u a g e m p r e s c r i t i v a , g a r a n t i n d o a " p u r e z a "

r e i v i n d i c a d a p a r a a J u r i s p r u d ê n c i a p o r K e l s e n , filtrando d a a n á l i s e d o t e x t o n o r m a t i v o as c o n t a m i n a ç õ e s ideológicas ( B O R G E S , 1988, p . 2 2 - 2 3 ; V I L A N O V A ,

1 9 9 7 , p . 6 2 - 6 3 ) . E n s i n a B o r g e s ( 1 9 8 8 , p . 2 1 ; grifo d o a u t o r ) q u e :

A caracterização da ciência do Direito no sentido epistemologicamente estrito (dogmática jurídica) como um complexo de enunciados exclu- sivamente voltados para o Direito positivo demarca rigorosamente o seu objeto e por uma via como que reflexa: se as normas jurídicas têm âmbitos de validade delimitados, as proposições descritivas dessas normas terão por igual âmbitos de referibilidade limitados pelas pró- prias normas, ou seja, o objeto normativo que descrevem,

N ã o q u e o n o r m a t i v i s m o i g n o r e a e x i s t ê n c i a d e v a l o r e s na n o r m a j u r í d i c a . O q u e h á é u m a forte r e p u l s a a q u a l q u e r t e n t a t i v a d e se c o n s t r u i r u m a a x i o l o g i a j u r í d i c a t r a n s c e n d e n t a l , haja vista a i m p o s s i b i l i d a d e d e u m a m o r a l u n i v e r s a l , a s s i m c o m o as c o n s t a n t e s t e n t a t i v a s d e afastar d o d i r e i t o o seu c a r á t e r é t i c o , q u e c h e g a , n ã o r a r a s v e z e s , a p r o v o c a r a d e f e s a d e u m a v i s ã o u n i d i m e n s i o n a l d o direito, restrita à n o r m a ( B O R G E S , 1988, p.33).

N a s t e n t a t i v a s q u e H a n s K e l s e n e m p r e e n d e u p a r a a c o n s t r u ç ã o d e u m a t e o r i a " p u r a " d o d i r e i t o , o j u r i s t a a u s t r í a c o p r o p ô s o a f a s t a m e n t o d o d i r e i t o d a é t i c a . C u i d a r i a a c i ê n c i a j u r í d i c a d o d i r e i t o , e n q u a n t o q u e a ética, d a m o r a l ( K E L S E N , 1991, p.63-64).

A l e r t a v a a i n d a q u e s o m e n t e se h o u v e s s e u m a m o r a l a b s o l u t a , p o d e r i a h a v e r u m a i d e n t i f i c a ç ã o e n t r e d i r e i t o e j u s t i ç a . D o p o n t o d e vista d o c o n h e c i - m e n t o c i e n t í f i c o , d a d a a i n v i a b i l i d a d e d e v a l o r e s a b s o l u t o s e m geral, n ã o seria p o s s í v e l a a c e i t a ç ã o d e u m a m o r a l a b s o l u t a q u e e x c l u í s s e a v a l i d a d e d e q u a l q u e r o u t r a , e, p o r t a n t o , n ã o h a v e r i a r a z ã o p a r a n ã o se c o n s i d e r a r d i r e i t o u m a o r d e m d e c o a ç ã o q u e d e s c o n s i d e r a s s e a n o ç ã o d o j u s t o , p r e s c r e v e n d o a c o n d u t a s e m u m v a l o r m o r a l a b s o l u t o ou i g n o r a n d o a b u s c a d e u m e l e m e n t o c o m u m e n t r e as d i v e r s a s o r d e n s m o r a i s ( K E L S E N , 1991, p . 6 9 - 7 1 ) . O q u e d i s p e n s a r i a a necessida- d e d e s e j u s t i f i c a r o d i r e i t o p e l a m o r a l , m e s m o q u e p a r c i a l m e n t e j u r i d i c i z a d a ( K E L S E N , 1991, p.73-74).

A d i s s o c i a ç ã o e n t r e d i r e i t o e ética n ã o p o d e , a o n o s s o ver, ser a d m i t i d a . A s t e n t a t i v a s d e f a z ê - l o , i m p u l s i o n a d a s p e l a a s c e n s ã o d o E s t a d o n a i n s t r u m e n t a l i z a ç ã o e n a p r o d u ç ã o d o d i r e i t o p o s t o , n ã o c o n s e g u i r a m satisfato- r i a m e n t e t r a z e r a tão s o n h a d a s e g u r a n ç a j u r í d i c a q u e os p o s i t i v i s m o s t e n t a r a m o f e r e c e r às a l t e r n a t i v a s d o j u s n a t u r a l i s m o de edificar u m a o n t o l o g i a d o j u r í d i c o .

R. FARN, Natal, v.l, n.2, p. 173 - 194 JanVjun. 2002. 187

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L e m b r a A d e o d a t o ( 1 9 9 5 , p . 2 0 0 - 2 0 1 ) q u e e s s a s e p a r a ç ã o s o m e n t e é a d m i s s í v e l c o m o "artifício m e t o d o l ó g i c o e p r a g m á t i c o " , n ã o e x p r e s s a n d o " q u a l q u e r 'reali- d a d e e m s i ' , o n t o l ó g i c a , q u e p u d e s s e vir a ser e r i g i d a e m p a r a d i g m a c i e n t í f i c o " .

E m b o r a seja i m p o s s í v e l u m a m o r a l u n i v e r s a l , a n o r m a j u r í d i c a n e c e s s a r i - a m e n t e c o n s t i t u i o v e í c u l o d e i n s t r u m e n t a l i z a ç ã o d e u m v a l o r m o r a l r e l a t i v o . O s i s t e m a j u r í d i c o s e l e c i o n a , e n t r e os d i v e r s o s s i s t e m a s m o r a i s , u m e m e s p e c i a l (ou p a r c e l a s d e d i v e r s o s ) , j u r i d i c i z a n d o os v a l o r e s d e s t e .

U m a v e z j u r i d i f i c a d o s p r e c e i t o s m o r a i s , e s t e s p a s s a m a c o m p o r a d i m e n - s ã o d e v a l i d a d e d a s n o r m a s j u r í d i c a s , v i n c u l a n d o a c o n d u t a d o o p e r a d o r j u r í d i - c o . Tais p r e c e i t o s n ã o p e r d e m o l i a m e c o m o s i s t e m a m o r a l d e o r i g e m ( K E L S E N , 1 9 9 1 , p . 7 3 ) , m a s s o m e n t e p o d e m ser e m p r e g a d o s c o m o c r i t é r i o d e l e g i t i m i d a d e p a r a o d i r e i t o , se a b s o r v i d o s p e l o m e s m o , p o r s e u s c a n a i s d e c o m u n i c a ç ã o e s e l e ç ã o j u n t o a o s d e m a i s s i s t e m a s s o c i a i s ( K e l s e n , 1 9 9 1 , p . 7 3 ) . C a b e r á j u s t a - m e n t e a o p r e c e i t o m o r a l j u r i d i c i z a d o c o n c e d e r c o e r ê n c i a e u n i d a d e a o d i r e i t o c o m o s i s t e m a é t i c o , p r e s e r v a n d o - o d a s i n j u n ç õ e s e t e n t a t i v a s d e c o l o n i z a ç ã o p o r p a r t e d o e c o n ô m i c o e d o p o l í t i c o no j u r í d i c o ( S O U T O , 1992, p . 2 3 - 2 5 ) .

E forte a t e n d ê n c i a e m se afastar a c o n d u t a d o o b j e t o d o d i r e i t o : (...) Os preceitos jurídicos (proposições prescritivas) são regras de conduta, mas o Direito não é sem embargo a conduta mesma que é normada. As normas jurídicas são o objeto exclusivo de conhecimen- to pela ciência jurídica no sentido estrito (jurisprudência dogmática).

Porque a conduta (concreta) é o objeto de regulação pelas normas jurídicas não se deverá deduzir que essas normas não sejam o objeto do conhecimento jurídico e, muito menos, que esse objeto seja exclusivamente a conduta (concreta) nas suas relações intersubjetivas, como pretende equivocadamente a egologia (BORGES, 1988, p.25).

M a s a c o n d u t a h u m a n a , e m a b s t r a t o , p o d e i n t e g r a r o o b j e t o da c i ê n c i a j u r í d i c a , i n t e g r a n d o o c o n t e ú d o d o e n u n c i a d o d o d i r e i t o p o s i t i v o , d e s d e q u e o seu i n g r e s s o seja r e g u l a d o pela p r ó p r i a n o r m a ( B O R G E S , 1988, p . 2 9 - 3 0 ) . A con- d u t a c o n c r e t a s o m e n t e se t o r n a r e l e v a n t e p a r a o o b j e t o d a J u r i s p r u d ê n c i a q u a n - d o d o a t o d e a p l i c a ç ã o d o t e x t o n o r m a t i v o à r e a l i d a d e social ( B O R G E S , 1988, p.31 - 3 3 ) . E ressalta B o r g e s ( 1 9 8 8 , p . 3 3 ) :

(...) A empiricidade da ciência do Direito não pode decorrer da depen- dência que a norma venha a ter relativamente a uma 'confirmação' na ordem dos fatos, inclusive o fato da conduta humana. Se assim o fora, a classe não-vazia dos falseadores potenciais das asserções

188 R. FARN, Natal, v.l, n.2, p. 173 - 194 ,jan/jun.2002.

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sobre normas poderia ser integrada pela conduta humana. Contrário disso é o que sucede; se à ocorrência concreta da conduta normada não se segue um ato-de-aplicação, a validade da norma desaplicada persiste todavia intacta (BORGES, 1992, p.62).

A i n t e r a ç ã o e n t r e as p r o p o s i ç õ e s n o r m a t i v a s enseja a i d e n t i f i c a ç ã o d o f u n d a m e n t o d e v a l i d a d e d e c a d a u m a , e n q u a n t o parte i n t e g r a n t e d o s i s t e m a d o direito p o s i t i v o :

As proposições normativas integrantes do sistema jurídico têm o mais variado conteúdo. São formas que se saturam com referências a fatos-do-mundo. A unidade do sistema jurídico é formal. Não pro- vém da homogeneidade de uma região de objectos (.,.) tudo em prin- cípio, pode ser suporte fáctico de um pressuposto normativo. Tudo pode ser, ainda que não tenha sido ou não deve-ser. E o que foi subpositurn de regra de Direito, o foi mediante um ato de valoração, que preside à seleção dos fatos-do-mundo que passam a ser suportes objetivos de pressupostos" ( V I L A N O V A , 1997, p . l 6 6 ; grifo do autor).

A d v e r t e B o r g e s ( 1 9 8 8 , p . 3 0 ) : é p r e c i s o q u e o c o m p o r t a m e n t o h u m a n o r e g u l a d o p o s s a ser s e m a n t i c a m e n t e f o c a l i z a d o c o m o p r o i b i d o , p e r m i t i d o ou o b r i g a t ó r i o , s e n d o v e d a d o a o o r d e n a m e n t o j u r í d i c o - p o s i t i v o d e t e r m i n a r j u r i d i - c a m e n t e c o n d u t a s n e c e s s á r i a s ou i m p o s s í v e i s p a r a o h o m e m ,

M e s m o o s i s t e m a j u r í d i c o - p o s i t i v o é u m s i s t e m a e m p í r i c o ( V I L A N O V A , 1997, p . 1 6 7 - 1 6 8 ) . As. p r o p o s i ç õ e s n o r m a t i v a s p r e c i s a m se referir a u m a d a d a r e g i ã o m a t e r i a l d a c o n d u t a h u m a n a . A p e s a r d a s p r o p o s i ç õ e s n o r m a t i v a s d o d i r e i t o p o s i t i v o c o n s t i t u í r e m , e n q u a n t o u m s i s t e m a o r d e n a d o , a b a s e e m p í r i c a d a c i ê n c i a d o d i r e i t o , elas têm o seu p r ó p r i o o b j e t o de i n c i d ê n c i a , d e s c r i t o e m s u a e s t r u t u r a formal, q u e viabiliza u m i m p a c t o d o p r e s c r i t o na r e a l i d a d e social q u e se deseja j u r i d i c a m e n t e regular, e m b o r a a n ã o c o r r e s p o n d ê n c i a entre o ato d e c o n c r e t i z a ç ã o e o d i s p o s t o n o t e x t o n o r m a t i v o n ã o i n v a l i d e o e n u n c i a d o p r e s c r i t i v o q u e c o m u n i c a d e n t r o d o o r d e n a m e n t o j u r í d i c o - p o s i t i v o , n e s s a p e r s - pectiva lógico-formal.

T a n t o o s i s t e m a d o direito p o s i t i v o c o m o o s i s t e m a d a c i ê n c i a d o d i r e i t o s ã o c o n s t i t u í d o s de l i n g u a g e m . S ã o d u a s d i m e n s õ e s lingüísticas d o d i r e i t o q u e e s t ã o e m c o n s t a n t e c o n t a t o , u m a r e p r e s e n t a n d o o objeto de e s t u d o d a o u t r a e, por e s s a r a z ã o , p o d e m p a s s a r p o r u m p r o c e s s o d e f o r m a l i z a ç ã o , no qual p o d e - m o s e n c o n t r a r as e s t r u t u r a s lógicas d e s e u s e n u n c i a d o s p a r a sua m e l h o r c o m -

R. FARN. Natal. v.l. n.2, p. 173 - 194 ,janVjun. 2002 189

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p r e e n s ã o ( V I L A N O V A , 1 9 9 7 , p . 1 6 8 - 1 6 9 ) . E n q u a n t o n o s fatos naturais a s p r o p o - s i ç õ e s n ã o c o n s t i t u e m o s e u ser, n o d i r e i t o , o l o g o s p r o p o s i c i o n a l i n t e g r a o s e u o b j e t o , s e u ser, c o m o b e m e n s i n a V i l a n o v a ( 1 9 9 7 , p . 1 7 4 - 1 7 5 , grifo d o a u t o r ) :

O sistema de proposições da ciência jurídica não se dirige aos fatos, acrescentemos, sem a mediação das proposições jurídicas que quali- ficam os fatos. Sem as proposições normativas do Direito Positivo, nenhum fato do mundo pertence ao universo jurídico. Normas e fatos são Form und Staff no ser integral do Direito.

A c i ê n c i a d o d i r e i t o n ã o p o d e ser e l e n c a d a c o m o fonte n o r m a t i v a d o s i s t e m a d e d i r e i t o p o s i t i v o ( B O R G E S , 1 9 8 8 , p . 3 3 - 3 7 ; V I L A N O V A , 1997 p . 178), p o i s a o r g a n i z a ç ã o d o o r d e n a m e n t o j u r í d i c o - p o s i t i v o n ã o d e c o r r e d e u m a t o d e c o n h e c i m e n t o , m a s , s i m , d o a t o d e v o n t a d e e x p r e s s o p e l o p o d e r s o b e r a n o d e n - tro d o s d i t a m e s d a p r o p o s i ç ã o j u r í d i c a f u n d a m e n t a l , f u n d a m e n t o d e v a l i d a d e formal d e t o d a e q u a l q u e r n o r m a q u e i n t e g r a direito p o s i t i v o ( V I L A N O V A , 1 9 9 7 , p. 179-180).

4 CRÍTICA À CONCEPÇÃO DOGMÁTICO-ANALÍTICA DO OBJETO DA CIÊNCIA DO DIREITO

A s t e n t a t i v a s d e r e s t r i n g i r a c i ê n c i a d o d i r e i t o à s u a d i m e n s ã o n o r m a t i v a t ê m falhado. A l ó g i c a j u r í d i c a , m é t o d o e m p r e g a d o p e l a d o g m á t i c a j u r í d i c a p a r a a r e v e l a ç ã o d a s e s t r u t u r a s f o r m a i s d o s e n u n c i a d o s d o d i r e i t o p o s i t i v o n ã o b a s t a , p o r si s ó , p a r a e x p l i c a r o f e n ô m e n o j u r í d i c o .

D e v e - s e b u s c a r p r i v i l e g i a r a c o e s ã o e a i n t e r d e p e n d ê n c i a social c o m o f i n a l i d a d e s b á s i c a s d o c o n t r o l e s o c i a l e x e r c i d o p e l o d i r e i t o p a r a a c o n s e r v a ç ã o d a e s p é c i e ( F R A N Ç A , 1 9 9 7 b , p . 6 - 7 ) . E m b o r a o d i r e i t o t e n h a a f u n ç ã o d e distri- b u i r a v i o l ê n c i a l e g í t i m a e n e u t r a l i z a r o s c o n f l i t o s ( M ü l l e r , 1 9 9 5 , p . 7 ) , n ã o p o d e h a v e r o c o m p l e t o a f a s t a m e n t o d a s d e m a i s d i m e n s õ e s d o o b j e t o d a c i ê n c i a d o direito.

A c i ê n c i a d o d i r e i t o n ã o s e r e s t r i n g e à d o g m á t i c a j u r í d i c a o u c i ê n c i a for- m a l d o d i r e i t o ( S O U T O , 1 9 9 2 , p . 9 - 1 2 ) . O d i r e i t o n ã o é s o m e n t e u m f e n ô m e n o l i n g ü í s t i c o , m a s , p r i n c i p a l m e n t e , u m f e n ô m e n o social. N ã o p o d e a i n v e s t i g a ç ã o científica d o direito ficar l i m i t a d a à s o m e n t e u m a d i m e n s ã o d o f e n ô m e n o j u r í d i c o , s o b p e n a d e se e s c a m o t e a r t o d o s os c o n d i c i o n a m e n t o s a x i o l ó g i c o s e fáticos q u e i n t e r f e r e m c o n t i n u a m e n t e n o p r o c e s s o d e c o n c r e t i z a ç ã o d o t e x t o d o d i r e i t o p o s i - t i v o ( W A R A T , 1 9 9 5 , p . 4 8 - 5 2 ) . E e s c o n d e r a influência d e s s e s e l e m e n t o s é favo- r e c e r o a u m e n t o d a c o l o n i z a ç ã o d o s i s t e m a j u r í d i c o p e l o s s i s t e m a s p o l í t i c o e e c o n ô m i c o .

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A d o g m á t i c a j u r í d i c a c o n f e r e à c i ê n c i a d o d i r e i t o u m a i d e n t i d a d e p r ó p r i a , s e n d o u m ó t i m o i n s t r u m e n t o p a r a a c o m p r e e n s ã o l ó g i c o - f o r m a l d o d i r e i t o . A l ó g i c a j u r í d i c a e a c o n c e p ç ã o d e o b j e t o d e l a d e c o r r e n t e s ã o r e c u r s o s m e t o d o l ó g i c o s i m p r e s c i n d í v e i s , m a s n ã o o s ú n i c o s e o s s a t i s f a t ó r i o s p a r a o e s t u d o d e t o d a s as d i m e n s õ e s d o f e n ô m e n o j u r í d i c o .

C o m o b e m l e c i o n a M ü l l e r ( 1 9 9 5 , p . 3 6 ) , u m e n u n c i a d o é c o m p r e e n d i d o q u a n d o se r e v e l a a s i t u a ç ã o e f e t i v a n a q u a l é e m p r e g a d o . A r e c u s a e m se e m p r e - g a r a m e t o d o l o g i a d a s c i ê n c i a s filosófica e s o c i o l ó g i c a n o d i r e i t o p o d e i n d u z i r o j u r i s t a a o e q u í v o c o , a p r o d u z i r e n u n c i a d o s d e s c r i t i v o s d e u m a r e a l i d a d e q u e s o m e n t e e x i s t e n a letra fria d o s t e x t o s e s t a t a i s , d i s t a n t e d a s o c i e d a d e e d e s e u s p r o b l e m a s .

M e s m o n o i n t e r i o r d a d o g m á t i c a j u r í d i c a , a c o n c e p ç ã o d o g m á t i c o - a n a l í - tica d o o b j e t o d a J u r i s p r u d ê n c i a , se l e v a d a às ú l t i m a s c o n s e q ü ê n c i a s , p o d e a c a r r e t a r o d e s p r e z o p e l a s d i m e n s õ e s s e m â n t i c a e p r a g m á t i c a d a n o r m a j u r í d i c a , a o l i m i t a r o e s t u d o d o d i r e i t o à s i n t a x e d o o r d e n a m e n t o j u r í d i c o . T a n t o q u e o s d o g m á t i c o s a n a l í t i c o s s e m p r e p r o c u r a m a l e r t a r s o b r e a r e l e v â n c i a d a q u e l e s ní- veis d a n o r m a j u r í d i c a .

O o r d e n a m e n t o j u r í d i c o - p o s i t i v o , s e m s o m b r a d e d ú v i d a , i n t e g r a a b a s e e m p í r i c a d a c i ê n c i a d o d i r e i t o , m a s e s t a n ã o se l i m i t a à s n o r m a s j u r í d i c a s . A s o c i o l o g i a j u r í d i c a t e m p r o v a d o , n ã o r a r a s v e z e s , os erro., q u e p o d e m ser c a u s a - d o s p o r u m a v i s ã o u n i d i m e n s i o n a l d o d i r e i t o ( F R A N Ç A , 1 9 9 7 c ) .

A l ó g i c a j u r í d i c a é u m m é t o d o t í p i c o d a J u r i s p r u d ê n c i a , m a s n ã o p o d e ser o ú n i c o m é t o d o .

REFERÊNCIAS

A D E O D A T O , J o ã o M a u r í c i o . É t i c a , J u s n a t u r a l i s m o e P o s i t i v i s m o n o D i r e i t o. A n u á r i o d o M e s t r a d o e m D i r e i t o . Recife: U F P E - C C J - F D R , n . 7 , 1995.

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B O R G E S , José S o u t o Maior. O Direito c o m o F e n ô m e n o Lingüístico, O P r o b l e m a d e D e m a r c a ç ã o d a C i ê n c i a J u r í d i c a , s u a B a s e E m p í r i c a e o M é t o d o H i p o t é t i c o -

R. FARN, Natal, v.l, n.2, p. 173 - 194 JanVjun.2002. 191

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