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Walter Francisco Figueiredo Lowande

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Academic year: 2023

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Outro aspecto da casa alude às disputas intelectuais que nela aconteciam sobre a hegemonia de um discurso e a legitimação de uma determinada política. A invenção do patrimônio: continuidade e ruptura na constituição de uma política oficial de conservação no Brasil. O trabalho do arqueólogo Andrés Zarankin é uma rica demonstração de abordagem da história das casas a partir da arqueologia histórica.

A "história íntima do povo brasileiro" por ele proposta escapava às interpretações históricas tradicionais que tratavam de uma história política. Aliás, é a partir da compreensão desse pertencimento que podemos compreender a noção de verdadeira arquitetura no pensamento de Costa. A invenção do patrimônio: continuidade e ruptura na constituição de uma política oficial de conservação no Brasil.

Dessa forma, tentaremos fugir de uma interpretação reducionista, como aquelas que muitas vezes vemos julgando a obra de um autor apenas com base em sua posição social.

GILBERTO FREYRE E A CASA BRASILEIRA

No caso específico de Casa-Grande & Senzala, analisaremos duas passagens do "Prefácio à Primeira Edição" que parecem sintetizar o tipo de casa aristocrática e rural que caracterizou os primórdios da colonização portuguesa nos trópicos e a formação de um tipo social, de uma "raça" sui generis: a brasileira. Basta comparar a planta de uma casa-grande brasileira do século XV para sentir a enorme diferença entre os portugueses do Reino e os portugueses do Brasil. Na primeira frase, vemos que o feudo representa o sistema patriarcal, monocultivo, escravista e fundiário da colonização portuguesa nos trópicos.

É interessante conhecermos esses argumentos para ampliar a compreensão das relações entre dominantes e dominados que se davam no âmbito da casa-grande e da senzala. Resta, porém, analisar o olhar que Freyre dirige ao casarão para tecer sua interpretação daquela formação. A história social da casa-grande é a história íntima de quase todo brasileiro: desde a vida doméstica, casada, sob o patriarcado eslavocrático e polígamo; de sua vida de menino; reduzidos de seu cristianismo a uma religião familiar e influenciados pelas crenças das senzalas.

No entanto, Freyre escreve, no início desta seção, que a história social do casarão é a história íntima de quase todos os brasileiros. Afinal, quase pode se referir a dois tipos de limitações: a primeira é aquela que foi rapidamente captada por Punton, ou seja, a experiência que se deu no ambiente da casa-grande é uma experiência de classe, de escravidão. , monocultura patriarcal e aristocrática. O complexo comandado pelo feudo acomoda uma rede de relações interpessoais que inclui escravos, além de um grande número de famílias dependentes do patriarca.

Essas obras, especialmente a primeira, dedicam-se a analisar o declínio da sociedade rural patriarcal – sociedade cujo surgimento foi tema de Casa-Grande & Senzala – com a crescente invasão de valores que, juntamente com as mercadorias europeias, chegavam ao Brasil "fora do navio". Para entender melhor essa passagem, devemos primeiro saber que Freyre passa a usar um sentido mais amplo de casa-grande. Quando as florestas e seus animais eram os únicos representantes da alteridade98, a complexa casa senhorial e a senzala reinavam soberanas.

Esse livro, relegado pela crítica a um segundo lugar dentro da obra de Gilberto Freyre, parece-nos, de fato, essencial para compreender o fio argumentativo desse intelectual, que não se esgotou em Casa-Grande & Senzala nem em Sobrados e . Mukambos. Nesse ponto, o autor não apenas propõe uma continuidade argumentativa em Casa-Grande & Senzala e Sobrados e Mucambos (que gira em torno do conceito de húbris, ou excesso), como também defende a existência de uma “descoberta” e.g.

LUCIO COSTA, A CASA BRASILEIRA E O SPHAN

Não mudaremos os procedimentos que aplicamos até agora na análise de nossas fontes, pois acreditamos que eles também serão úteis para a investigação dos principais aspectos da "nova arquitetura" proposta por Lucio Costa. Lúcio Costa atribui à arquitetura portuguesa uma perfeita saúde plástica, trazida pelos mestres e pedreiros que, sem conhecimentos "eruditos", conseguiram transferir para os trópicos essa harmonia entre forma e função. É claro que Lúcio Costa acredita que a saúde plástica da arquitetura colonial tem raízes portuguesas.

Agora temos condições de encerrar a discussão iniciada com a cisão entre Lúcio Costa e os neocolonialistas. Segundo Rubino, Freyre gozava de prestígio “nem com todos os arquitetos atuantes no Rio de Janeiro na época, mas com um grupo específico, aquele que, a partir de 1930, quando da reforma da Escola Nacional de Belas Artes, gravitou em torno do dirigente Lúcio. Costa".126 A análise social realizada por Freyre, cuja caracterização semântica seria exigida no léxico da arquitetura (casa-grande e senzala, palácios e mukambos), adquiriu um caráter normativo para os arquitetos e foi traduzida, para eles, " nos desafios da realidade do quotidiano e no planeamento – seja urbano, regional ou Embora reparemos, nesta última parte, que Freyre tem uma visão de futuro muito semelhante à de Lucio Costa (que nos permitirá situar ele, posteriormente, num grupo de intelectuais, do qual Costa também faz parte, ligados ao Estado, que pretendiam empreender uma espécie de modernização conservadora do país), querendo se beneficiar de um “passado útil” - e isso é o ponto que nos interessa -, entendemos que, no fundo, trata-se de uma disputa institucional sobre a implementação de reformas, algo que parece não ter sido percebido, ou pelo menos não explicado por Rubino.

Antes de procedermos à análise do SPHAN na forma como ele se constituiu e atua no “desenho” de nossas cidades – que, como pretendemos defender, teve como base o campo conceitual cunhado por Lúcio Costa e Gilberto Freyre – trataremos como ele trouxe o arquiteto para o âmbito do poder público, com o objetivo de verificar a verdadeira extensão de sua influência naquele órgão. Outro ponto importante de sua carreira pública foi a intervenção no projeto de construção do monumental prédio do Ministério da Educação e Saúde Pública, que em 1936 ainda estava no comando do Ministro Capanema: edifício que deveria simbolizar as reformas educacionais e a própria nação, que tentaria construir para vários meses depois, com a chegada do Estado Novo, seu projeto foi alterado por Lúcio Costa. No ano seguinte, Lucia Costa foi contratada pelo diretor-geral do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rodrigo Melo Franco de Andrade, como assessora técnica.

A análise da atuação de Lucio Costa no SPHAN mostra que o arquiteto foi fiel aos conceitos que esboçou e que foram previamente analisados ​​por nós. Lúcio Costa encontra na ideia de suficiência os meios para autorizar um diálogo inovador com a tradição, e com ela sustenta a proposta de dar continuidade a um passado que se considera histórico e que se julga ter um conteúdo de verdade indiscutível". . Ali fundindo as perspectivas do arquiteto e do historiador, Lúcio Costa impôs a si mesmo o duplo compromisso de projetar nosso futuro e construir nosso passado.

O SPHAN E A CASA BRASILEIRA

As várias interpretações baseadas nessa ideia podem ser vistas como uma tentativa de dar ao país um rumo seguro, que se desenrolou ao longo da evolução nacional, a partir do qual modernizar o país, atendendo às demandas de uma indústria nascente. Com base nos últimos depoimentos, podemos tentar dar uma interpretação da formação específica de um grupo intelectual no país. No primeiro caso, um grupo de intelectuais nasceria de uma forma específica de um determinado campo de produção econômica, para “organizar a sociedade em geral, em todo o seu complexo organismo de serviços, inclusive o organismo estatal, com vistas a criar as condições mais favoráveis ​​para a expansão da própria classe”,148 daí o nome de intelectual orgânico.

O apoio que recebeu de um representante da intelectualidade tradicional, seu quase tutor Oliveira Viana, foi fundamental para que criasse uma rede de influências intelectuais nacionais e internacionais. Além disso, o uso de um termo racial (embora com uma conotação diferente da até então comumente utilizada no Brasil) certamente foi fundamental para que fosse ouvido e aceito no meio acadêmico e intelectual brasileiro. Dessa forma, "a luta de classes no Brasil adquiriria outra forte dimensão: a dos conflitos inter ou intraburocráticos, ou melhor, a de um conflito de aparelhos".152.

Foi, portanto, através do SPHAN que Freyre e Costa transmitiram suas ideias de uma identidade nacional, expressa através do estudo da casa brasileira (para o primeiro, o espaço para a formação de uma cultura original, para o segundo, a materialidade em que universal e ganharam corpo verdadeiros valores estéticos, ideia emprestada da formação sócio-cultural de Freyre), um estatuto de discurso oficial. Dessa forma, a autonomia do SPHAN foi construída por meio de um uso monolítico dos instrumentos de poder, sendo o campo em que esse corpo atua dominado por um discurso de fundamentação arquitetônica (aquele produzido por Lúcio Costa a partir de uma leitura de Gilberto Freyre) e um vínculo com o campo da burocracia (isto é, o elo entre esses intelectuais e o grupo de Gustavo Capanema). Depois de visitar o local e analisar cuidadosamente vestígios artísticos e arquitectónicos, Costa propõe a construção de um museu, localizado em São Miguel, de onde serão retirados artefactos encontrados noutras localidades.

Nessas condições, o capital cultural parece perder seu caráter como resultado do embate entre agentes altamente qualificados que buscam impor uma visão absoluta, assumir o status de valor universal ou nacional, despojado de toda relatividade inerente. Faz parte do aparato burocrático encarregado de gerir os bens culturais da nação, que representa os interesses do grupo dominante de intelectuais no campo da arquitetura, ou seja, os arquitetos modernos, cujo líder é, sem dúvida, ele mesmo. No entanto, Costa mantém-se solidário com o grupo em que se formou o seu “habitus” no corpo em que agora trabalha, pois seria impensável para ele ter elevado capital cultural e social para caber no aparelho de Estado. .

Gilberto Freyre na Universidade de Brasília; conferências e comentários de um simpósio internacional realizado de 13 a 17 de outubro de 1980. A casa brasileira: uma tentativa de sintetizar as três diferentes abordagens que o autor já fez sobre um tema complexo: antropológico, histórico, sociológico.

Referências

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Uma vez que já fizemos alguns breves comentários sobre o advento e a pertinência das discussões em torno das relações entre Saussure e a AD, na história recente da